Zefineta B. e a água que nos habita - Maria Cobogó
18543
post-template-default,single,single-post,postid-18543,single-format-standard,translatepress-pt_BR,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,side_area_uncovered_from_content,qode-theme-ver-16.5,qode-theme-bridge,disabled_footer_bottom,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.7,vc_responsive

Zefineta B. e a água que nos habita

por Claudine Duarte

“Nas perdas / Descobriu ser forte / Mas o que mais queria / Era saber chorar”

Poema DESEJO, de Lucília Neves

 

Somos água. Não, somos gente. Mas gente é água… A discussão – interminável – durou o recreio na escola primária. Naquela época, existia o primário… o ginásio. Hoje, chamamos de ensino fundamental, ainda somos água e imagino se outras pessoas também guardam na memória o momento exato em que descobriram isso.

A revelação ainda me causa espanto: a maior parte de nosso peso corporal é água. Essa descoberta me trouxe pensamentos – todos líquidos, com certeza – sobre o choro. Com tanta água, seria fácil chorar. Algo assim como um transbordamento. A vida, como sempre, provou que eu estava errada… Nem sempre é fácil chorar.

No livro As Confissões de Frei Abóbora, de José Mauro de Vasconcelos, há uma cena muito emblemática em questões de choro e envolve a solidão de Zefineta B.:

 

“Não, não era feliz. Precisava chorar e não sabia. Relaxou o corpo e ficou deitada cheia de dor sobre o frio do espelho. Olhou os olhos, olhou os olhos, olhou os olhos… Foi então que veio aquela grande dor. Compreendeu que os homens viviam tanto porque chorando evitavam aquela dor. Mas ela não, era uma simples lagartixinha sem defesa, sem nada, de olhinhos redondos, sem lágrima alguma. E a dor veio crescendo, doendo toda, desde a espinha até a ponta dos dedos. Quando chegou ao máximo, ela não resistiu.”

 

A visão da lagartixa sobre o espelho me acompanha: explodida por não conseguir chorar… Olho para as lagartixas em minha casa e, sem que as nomeie, sinto uma empatia e uma profunda tristeza por aquela ancestral que não soube transbordar.

Sou água, me assumo água e choro. Choro muito. Às vezes, no comercial dos Médicos Sem Fronteiras, sempre em trechos de livros e, repetidamente, em determinadas cenas de filmes… Já tentei assistir aos filmes novamente, prometendo que ‘dessa vez será diferente, já chorei antes, não preciso chorar agora, não vou chorar de novo’… fracasso! Choro copiosamente e o pior de tudo é que analiso as cenas, os sentimentos, os personagens, os desfechos e tento entender o porquê… frustração. Haja terapia!

Partilho aqui uma das cenas em que o choro é garantido – ou o seu dinheiro de volta! – do filme Antowne Fisher (no Brasil, Voltando a viver) baseado no livro homônimo e autobiográfico de um jovem marinheiro que descarrega sua ira nos companheiros e por suas ações violentas é obrigado a fazer um tratamento psiquiátrico. No filme, o psiquiatra é interpretado por Denzel Washington – que também assina a direção, e durante um dos encontros, o jovem Antowne, escritor talentoso, lê um de seus poemas:

 

Who will cry for the little boy, lost and all alone?

Who will cry for the little boy, abandoned without his own?

Who will cry for the little boy? He cried himself to sleep.

Who will cry for the little boy? He never had for keeps.

Who will cry for the little boy? He walked the burning sand.

Who will cry for the little boy? The boy inside the man.

Who will cry for the little boy? Who knows well hurt and pain.

Who will cry for the little boy? He died again and again.

Who will cry for the little boy? A good boy he tried to be.

Who will cry for the little boy, who cries inside of me?

 

Talvez a questão seja descobrir ‘quem’ chora e não o ‘porquê’ das lágrimas. Enquanto isso, choremos. Choremos nosso nascimento, nossas muitas vidas e nossas inexoráveis mortes. Choremos, acolhendo nossa porção água, porção dor, porção mágoa, porção alegria, porção deslumbramento, porção mistério… transbordemos.

 

Ilustração: Lágrimas (2020), de Tâmara Habka, bruxa, ilustradora, produtora cultural, acupunturista, mãe de adolescente e roedora de pequi. 

 

***