A MUDANÇA - Maria Cobogó
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A MUDANÇA

Elza Zarur *|

A cada crônica que escrevo sobre a minha Visconde do Rio Branco percebo que saí dela, faz muito tempo, mas que ela não saiu de mim, jamais! Eu penso que ainda moro lá, na chácara da Mello Barreto, que vou acordar cedinho, amanhã, com o barulho dos bichos e abrirei as janelas para ver o terreiro coalhado de mangas Ubá, fresquinhas.

Era lindo e eu não consigo deixar de me ver menina, bem sapeca e feliz, correndo a disputar velocidade com o vento como que, se assim, fosse impossível deixá-lo passar por mim e virar tudo lembranças.

Na verdade, eu preciso agora é de recordar o dia em que a mamãe me contou que mudaríamos. 

Nós voltávamos da missa, programa nosso de todo domingo, quando ela tocou no assunto com uma peculiar cerimônia de mãe mineira que não sabia muito bem como aquela notícia ia ser aceita por mim: “…Elzinha, sabia que vamos nos mudar para a Capital do Brasil? Para Brasília?”

Na hora, preocupada com a surpresa do meu silêncio e com o espanto do meu olhar, ela continuou ilustrando a notícia … “a cidade é linda, acabou de ser construída, fica no meio do Brasil, você terá uma escola novinha, muitos amigos para fazer e, eu prometo: “passaremos nossas férias aqui, no velho sobrado.”

Com meus pensamentos ainda de criança, eu não tive dúvida de que a mudança seria uma imensa caixa com todo o meu Rio Branco embrulhado dentro.
Poderia abri-la, a qualquer momento. Em qualquer lugar.
Nada me faria falta! Nada ficaria para trás!
Levaria tudo e todos que faziam parte do meu universo e, até mesmo, aquele clima quentinho e de brisa fresca, típico da serra da Piedade, que percorria a minha casa inteira, no final do dia.

Afinal, eu jamais imaginaria abandonar o que quer que fosse e que me fazia tão absolutamente feliz!
Eu jamais imaginaria que a gente pudesse vir a mudar, e o quê dizer de “mudar de casa?”

Não!
Impossível!

Casa, para mim, era sinônimo de um teto eterno.
Era nossa identidade maior!
Nascíamos com ela, para todo o sempre.
Mesmo acreditando assim, no dia a dia, a programação da família foi, aos poucos, embalando o meu destino.

Tudo pronto, quatro horas da manhã, mamãe, Elvira, Edila e eu embarcamos, com a maior expectativa e alegria de vida, na Companhia Real, rumo aos 1500 quilômetros que nos esperavam de estrada.

Mas, de surpresa, logo na esquina da Praça 28 de Setembro houve uma parada inesperada na viagem: Tia Pequita, contrariando a sacramentada promessa de não haver despedidas, apareceu, entregou um lindo quadro pintado por uma prima e um lencinho, todo barrado em richelieu e, no centro, bordado por ela, a palavra saudade. 

Triste, nos deu seu discreto beijo.

Todos nós nos emocionamos, baixinho … e, neste momento, eu conheci a primeira e mais significativa decepção da minha vida: a infância, logo ela, quem diria, o meu maior patrimônio, havia ficado para trás, para sempre!

Era fevereiro de 1963.
Rio Branco permaneceu quietinha, naquela madrugada de verão.

***

*Elza Zarur é jornalista formada pela UnB e, atualmente, aposentada do Itamaraty, tendo servido nas Embaixadas de Washington e Buenos Aires, onde exerceu a função de vice-cônsul. Foi também a primeira servidora a ocupar, em 1995, o, então, inédito cargo de ombudsman dentro do Serviço Público Federal Brasileiro. É casada com o jornalista Carlos Zarur, tem três filhos e três netas.