VIVA SÃO JOÃO! - Maria Cobogó
18689
post-template-default,single,single-post,postid-18689,single-format-standard,translatepress-pt_BR,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,side_area_uncovered_from_content,qode-theme-ver-16.5,qode-theme-bridge,disabled_footer_bottom,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.7,vc_responsive

VIVA SÃO JOÃO!

por Christiane Nóbrega*

 

“Olha pro céu meu amor, vê como ele está lindo, olha pra aquele balão multicor que lá no céu vai sumindo…”

Junho chegando, friozinho, seca, provas de fim de bimestre e o colorido das bandeirinhas.
Era assim. Mês de São João, aquele que antecedeu Jesus, antecedia as férias de julho.

 

São João, feito Natal, se celebra na véspera.

 

Nós, as crianças da rua, fazíamos bandeirinhas com revistas velhas e jornais e colávamos com grude no barbante. Algumas vezes até guardávamos de um ano pro outro. As mais velhas preparavam a mistura e amarravam os fios prontos nos postes. Uma caótica e maravilhosa organização.

Tinha sempre um vizinho que implicava com a farra. Aí a porta dele ficava sem enfeites, como uma marca da chatice.

Na calçada, alguém puxava a extensão e colocava o vinil de Gonzaga no três em um. E a festa acontecia já na preparação.

Os adultos repartiam entre si as comidas e bebidas. Mamãe fazia sempre canjica. De coco. Ela não gosta de amendoim. O cheiro do quentão era delicioso! Os adultos, muito agasalhados, em rodas de bate-papo e a gente correndo aos berros de “cuidado, menina! Desce daí, menino!”

A fogueira era missão dos jovens adultos e dos pais. Juntavam restos de paus de construção, buscavam outro tanto no cerrado onde hoje é Águas Claras. Dessa parte eu tinha medo. Além da fogueira, detesto fogos até hoje. Tenho vontade de me juntar ao Zeca embaixo da cama quando começa o foguetório. Se eu acreditasse em reencarnação diria que morri queimada em outra vida.

Não faltava a quadrilha! Sempre tinha um professor por lá que coordenava a dança! Sem ensaio. Dançamos, brincávamos… ali, na rua mesmo. Sem alvará, papéis, assim, como deve ser, na rua. Na nossa rua!

E viva São João!

“Foi numa noite igual a esta, que tu me deste o coração, havia balões no ar, xote e baião no salão, e no terreiro o teu olhar que incendiou meu coração…” (Luiz Gonzaga)

 

Imagem:  Pintura em óleo – Djanira, 1968

 

* Christiane Nóbrega é advogada, escritora, mãe de três filhos e considerada a mais festeira fundadora do Coletivo Editorial Maria Cobogó.