Uma brasileira em Frankfurt - Maria Cobogó
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Uma brasileira em Frankfurt

Por Clara Arreguy

Precisaria de mais tempo e espaço pra falar sobre a experiência de ter participado, pela primeira vez, da Feira do Livro de Frankfurt, da qual voltei no último dia 22. Vamos tentar, de qualquer maneira, fazer ao menos um resumo.

Fui parar na maior feira de livros do mundo por uma combinação de encontros de sorte: ao participar, em 2018, do Brasilianisches Kultur Festival, promovido por Vanessa Noronha, em Viena, conheci Britta Mönch-Pingel, criadora da Girabrasil, uma editora que trabalha com livros em português e alemão na Alemanha. Britta se tornou distribuidora de dois livros meus naquele país e propôs a tradução de um deles (“A vovó fala tudo errado”) para o alemão. O lançamento seria no evento de Frankfurt, do qual eu poderia participar, em seu estande, mediante o pagamento de um valor para ajudar a custear as despesas.

Topei na hora. Me organizei desde janeiro, estudando o idioma, comprando as passagens e reservando hotel com antecedência. Cheguei lá, portanto, o mais preparada possível (a língua é difícil, não avancei muito, embora tenha deixado o zero total com que me defrontara na Áustria um ano atrás).

A Frankfurter Buchemesse ocupa uma estrutura gigantesca na cidade que lhe dá nome. São centenas de expositores de dezenas de países, milhares de títulos, mas uma diferença fundamental para os nossos eventos similares aqui no Brasil. Os três primeiros dias são fechados para negócios entre editoras, tradutores, distribuidores. Apenas no sábado e no domingo as portas se abrem ao público, com vendas diretas de livros.

Por causa disso, nesses três dias iniciais, o que visamos é o contato, o encontro, a troca de informações. Sabia que dificilmente conseguiria, por exemplo, encontrar um tradutor interessado em verter meus livros, ou os da Outubro Edições, para outros idiomas. E foi exatamente como se deu. No entanto, foram diversas, e invariavelmente profícuas, as novas relações estabelecidas. Com escritores brasileiros que moram no Brasil, na Alemanha, em Portugal, na Suécia, com ilustradores, com pequenas editoras que, como eu e como a Britta, dão murro em ponta de faca para manter viva a produção de livros, com agentes como Fernanda N. Krueger, brasileira moradora em Frankfurt, sócia da Britta no estande, e que trabalha, com sua Br+, em projetos de valorização da língua de herança no estrangeiro.

Esses laços não apenas viabilizaram conhecimentos e afetos (o que, por si só, já valeria a viagem longa e cara), mas propiciaram ideias, projetos, planos de encontros e trabalhos que, tenho certeza, em breve se tornarão realidade.

Não deixei de ver algumas propostas promissoras para nós, daqui de Brasília: uma editora francesa foi ao nosso estande à procura de romances policiais escritos por mulheres, pois querem editar esse gênero (os dois, no caso) na França. Não tenho produção na área, mas indaguei no grupo do Mulherio das Letras DF se alguém tinha e fiz a ponte entre quem se manifestou e os franceses, para possível contato na sequência.

Nos dois últimos dias, pudemos enfim ver o público, fazer apresentações, ler e contar histórias. Mais uma vez a energia fluiu em alto nível, com pessoas, em sua maioria, nascidas no Brasil e casadas com alemães, crianças filhas de pais binacionais, famílias ansiosas por manter vivos a cultura e o idioma de origem. Assim fizemos amizades e vendas, abraços e selfies, encomendas e trocas.

Eventualmente chegaram ao estande também visitantes de outros países e línguas, e a receptividade ao nosso trabalho foi sempre boa. Conversei e até vendi um livro para um curdo que mal falava inglês. Não sei como, nos entendemos. Aliás, sei sim: falamos a linguagem do amor aos livros, do interesse pelo diferente, da curiosidade com as lindas cores de todo esse vasto planeta. Naquele momento, trocando ideias com Shamal, compreendi por que estava ali, a tantos quilômetros de casa, me esforçando para entender e ser entendida. E descobri que quero voltar à Feira do Livro de Frankfurt e ir a todas mais que puder. O mundo nos espera.

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Clara Arreguy é jornalista, escritora e criadora da Outubro Edições