TORTO ARADO - Maria Cobogó
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TORTO ARADO

por Anna Cristina de Araújo Rodrigues*

 

Temos que reconhecer que o tempo sobrevive, enquanto nós estamos de passagem. Mas, nessa passagem, construímos uma história, várias histórias, e assim acabamos por sobreviver naqueles que nos sucedem, da mesma forma que mantivemos vivos os que nos antecederam. E essas histórias atravessam gerações, muitas vezes contadas em linguagem literária, fruto do trabalho de autores que, como Itamar Vieira Junior, pesquisam durante 16 anos – ou mais – os espaços, os tempos e os personagens que pedem passagem para que o passado não seja esquecido.

Em Torto arado, vamos conhecer histórias de mulheres e homens que sobreviveram à sua morte. Eles são parte de uma história maior, indissociável da própria ideia de Brasil, este país que, em mais de 500 anos, não só não buscou corrigir as desigualdades entre brancos e pretos, mas insiste em aprofundar esse fosso, fazendo do racismo a chaga mais virulenta da sociedade brasileira.

Não é um romance panfletário. A palavra “racismo” nem sequer aparece nas mais de 250 páginas. É uma obra de arte literária que se assenta sobre um espaço e um tempo em que mulheres muito fortes, mas igualmente sofridas, vivem. O autor não se interessa pela descrição dessas mulheres, assim o leitor só fica sabendo que se trata de mulheres negras quando uma delas, numa das poucas idas à cidade, diz: “Foi o primeiro lugar em que vi mais gente branca que preta”. O leitor vai conhecer a avó Donana e as netas Bibiana e Belonísia, ligadas pelo sangue que corre em suas veias e pelo rio de sangue que corre fora delas. Há muito mais que essas três personagens, mas o romance se desdobra em tantas nuances da existência, que aqui preciso escolher alguns pontos para tentar refletir sobre o impacto que esse livro causa.

Escolho o espaço onde acontece a história. É o Brasil, é a Bahia, é a Chapada Diamantina. Mas é sobretudo a Fazenda Água Negra. O autor também não perde tempo em descrever a geografia. Ele faz uma fotografia poética triste dessa fazenda: árvores derrubadas e retalhadas, outras secas, jacas moles que atraem moscas e abelhas, restos de barro, todo tipo de objetos jogados em volta das moradas – pentes, frascos vazios de perfume, canecas e pratos, bacia amassada. Ali, homens e mulheres chegam para pedir morada e obtêm autorização para ficar e trabalhar sem salário, com a condição de construir sua “casa”, com o barro das várzeas, forquilhas e taboa, coberta com junco. É, na verdade, uma tapera que deveria se desfazer com o tempo, com a chuva e com o sol forte, que pudesse ser desfeita facilmente, se necessário. “Nada de alvenaria, nada que demarcasse o tempo de presença das famílias na terra”. E a tapera sempre se desfaz: “O barro havia cedido, deixando à mostra o trançado de madeira que sustentava a parede da frente. Era como um corpo corroído que nos permitia ver os ossos. Que nos permitia ver a intimidade de uma casa, porque os buracos e frestas já não cobriam o seu interior”. Ali, em minúsculos cômodos, a família dorme amontoada.

O ambiente restrito da morada é onde quase tudo de mais relevante acontece. Também aqui o autor se detém em objetos que constroem a narrativa social, antropológica e cultural que fundamenta os fatos. Brinquedos feitos de pedras e galhos, cavalos de bastões de madeira, móveis de sobras de lenha, bonecas feitas de espigas de milho, vestidas com as palhas. Uma mala velha de couro, roupas surradas e sujas de terra, pedaços de tecido antigo e encardido, frasco de perfume vazio, escova de cabelo velha, caco de espelho, candeeiros e velas, potes de barro quebrados, garrafas de cachaça jogadas pelo chão, pratos com restos de comida, teias de aranha em todos os cantos, fogão de barro quase desmoronando, panelas negras das cinzas da lenha queimada, cadeira com assento de palha desfeito, tudo rescendendo a gordura rançosa, cheiro nauseante de suor, urina e flores mortas, fumaça de velas e incensos, sob nuvens de moscas que produzem um zumbido inquietante. O único animal de estimação ali é Fusco, um cachorro perneta que “andava em pequenos pulos sobre três pernas, sendo que uma das pernas dianteiras tinha algum osso quebrado, o que fazia com que a balançasse no ar enquanto se esforçava de forma comovente para caminhar”.

Nesse espaço amplo da fazenda e restrito da morada, são pretos os trabalhadores cativos, e brancos os senhores da terra. As desigualdades vão se manifestando sem que seja necessário apontá-las ou explicá-las. É uma fotografia: eis uma imagem, é assim.

O que mais chega à porta da morada de Bibiana e Belonísia é gente doente: “moléstias do espírito dividido, gente esquecida de suas histórias e memórias, apartada do próprio eu”. Como ser diferente? Gerações que se sucedem desde o tempo da escravidão nas minas, nas lavouras de cana-de-açúcar; da abolição e da chegada dos pretos livres e miseráveis, abandonados à própria sorte, em busca de encontrar a sorte no garimpo; e, findo o feitiço do diamante, o tempo dos chamados “trabalhadores e moradores” que, de fato, são os mesmos escravizados. Séculos de uma existência que não encontra melhor sorte hoje neste Brasil periférico onde circulam o índio e o preto, ou o quase índio e o quase preto, sempre destituídos dos privilégios da branquitude.

Agora, escolho duas das personagens femininas do romance. Na fazenda Água Negra, nasceram Bibiana e Belonísia, irmãs de idades próximas que protagonizam a cena que abre o romance – responsável por colocar o leitor em alerta até o último ponto final do livro – e o desfecho da história. Então crianças, as duas meninas têm o destino selado pelo único objeto do romance que destoa dos demais: a faca com cabo de marfim. Tanto poderia ser dito sobre elas e sobre a avó Donana, a mãe Salu, as gêmeas Crispina e Crispiniana, Maria Cabocla e Dona Miúda! Mas me permito focar num aspecto que torna Bibiana e Belonísia diferentes de todas as outras mulheres do romance.

Numa noite de brincadeira de jarê em casa de Zeca Chapéu Grande, pai das meninas, Bibiana recebe uma mensagem que vai mudar sua vida: “de seu movimento virá sua força e sua derrota”. A partir desse momento, ela toma consciência da sua realidade como nunca antes. Mas ainda foi preciso assistir à pilhagem da pouca comida que restava para a família: a maior parte das batatas-doces e duas garrafas de azeite de dendê usado para cozinhar os peixes miúdos pescados no rio. A humilhação de ver a comida sendo levada sem que o pai pudesse impedir foi a gota d’água: Bibiana entende que aquela vida tem de ser honrada e que isso exige um esforço que ela deve abraçar. Então assume sua responsabilidade naquela existência miserável, com todos os riscos que isso implicaria.

Belonísia foi a próxima a viver um momento de revelação – não apenas de sua condição de mulher vítima das violências do marido, mas principalmente de sua força silenciosa que a blindou contra esse estado de coisas. Sempre silenciosa, mas cada vez mais forte. Desse silêncio nasceu sua resistência aos sofrimentos, estes que se transformaram na consciência da violência contra a mulher no ambiente privado. Sua transformação a leva a perceber a destruição física e emocional das mulheres da fazenda – todas pretas – e de seu papel social de procriação para servir aos interesses dos senhores da terra e de escravas e sacos de pancada dos próprios maridos. Ela entende então que aquela realidade serviria para mostrar “o inferno que pode ser a vida de uma mulher”, contra o qual ela se insurge irreversivelmente.

As duas – Bibiana e Belonísia – são as herdeiras do legado de suas antepassadas, especialmente da avó Donana, que com elas compartilha mais do que a força e a coragem da ancestralidade: compartilham segredos jamais revelados.

Tudo isso o leitor vai encontrar nas duas primeiras partes do romance, além de um universo místico de riqueza, beleza e possibilidades contrastantes com a realidade da família de Zeca Chapéu Grande e Salustiana Nicolau, espaço em que se reconhecem como grupo social cuja identidade é respeitada. De novo, o autor busca nas imagens o traçado dessa dimensão que transcende a vida ordinária. Um dos cômodos da morada da família tem uma importância destacada: o quarto dos santos. Ali “rezavam a ladainha, tinha velas acesas e uma profusão de cores das imagens e bonecas. Havia imagens de gesso e madeira de diferentes tamanhos e estados de conservação. São Sebastião, Cristo Crucificado, o Bom Jesus, são Lázaro, são Roque, são Francisco, padre Cícero. Havia pequenos quadros, uns de cores vivas, outros desbotados, de são Cosme e são Damião, Nossa Senhora Aparecida, santo Antônio. Havia fotografias de meus pais, da velha Donana, outras tantas, pequenas, de devotos. Havia flores de papel, algumas mais novas, outras pálidas. Sempre-vivas, que colhíamos na estrada ou nas cercanias, entre as rochas”.

Na terceira parte, a voz que narra pertence a essa dimensão mística, marcadamente do jarê, religião de matriz africana existente somente na Chapada Diamantina, aparentada dos candomblés litorâneos, em que as senhoras africanas, chamadas nagôs, têm papel de destaque por terem ali chegado escravizadas. Essa voz assim se apresenta: “Sou uma velha encantada muito antiga, que acompanhou esse povo desde sua chegada das Minas, do Recôncavo, da África”. Mais uma vez, o autor retoma a história do Brasil. Santa Rita Pescadeira vai contar a história da ocupação da Chapada e se revelar como a força da natureza que desafia os limites da sanidade e da ética no enfrentamento de tão dura existência. Mais que isso, não posso dizer aqui. O leitor vai ter que percorrer as 262 páginas do romance para assimilar a história à sua maneira. Mas não será em vão. O retrato do Brasil que ele encontrará vai explicar muito do nosso infeliz tempo presente.

Tem razão, enfim, a Belonísia: “o passado nunca nos abandona”.

***

* Anna Cristina de Araújo Rodrigues é jornalista e seu currículo mostra o quanto ela é apaixonada por literatura. É doutoranda em Teoria e História da Arte na UnB, Mestre em Comunicação e graduada em letras.

Imagem: foto brasildefatope.com.br com destaque do livro TORTO ARADO, de Itamar Vieira Júnior, Editora Todavia, 2019 – Livro vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos – 2020.