Maria Cobogó | Ritmo Acelerado e os Prejuízos para a Educação
18226
post-template-default,single,single-post,postid-18226,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,side_area_uncovered_from_content,qode-theme-ver-16.5,qode-theme-bridge,disabled_footer_bottom,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.7,vc_responsive

Ritmo Acelerado e os Prejuízos para a Educação

Por Solange Cianni

“Coitados dos adultos! Arrancaram os olhos vagabundos e brincalhões de crianças e os substituíram por olhos ferramentas de trabalho, olhos limpa- trilhos”.

                                                                                                                 Rubens Alves

A pressa é fator de preocupação na qualidade de vida e na educação que se pretende para este século, que chegou com tantas novidades tecnológicas, influenciando fortemente o uso do tempo e a maneira de conviver e construir relacionamentos .

O fazer rápido proporciona possibilidade de superficialidade, o não aprofundamento de conteúdos e das relações entre as pessoas. Perdeu-se a capacidade de se desfrutar do tempo livre, pausa necessária para o nascimento da fonte criativa que faz brotar as boas ideias e proporcionar o autoconhecimento.

Há que se cuidar, nas escolas, do tempo para aprofundamento de conteúdos significativos, trocar opiniões, levantar hipóteses, comprová-las, reavaliá-las, e isso requer tempo!

Uma escola essencialmente conteudista, aquela que privilegia a quantidade em detrimento da qualidade do ensino, tem formado jovens com currículos deveras impressionantes, entretanto, sem nenhuma criatividade para traçar metas, criar novas soluções para antigos problemas. Problemas estes que vêm se perpetuando de geração em geração e se agravando cada vez mais. Estes jovens têm mostrado uma incapacidade de tolerar frustrações, superar obstáculos, demonstrar iniciativa para enfrentar desafios e insensibilidade para os problemas sociais. Resultado de uma educação onde o professor é o detentor do saber e o aluno tem pouca ou nenhuma participação na construção do conhecimento, ou seja, uma educação que promove uma atitude passiva diante dos fatos e acontecimentos. 

Somos vítimas desse ritmo acelerado que tem feito mais mal do que bem à humanidade e a escola  deve atentar para um melhor aproveitamento e organização do tempo dos alunos, principalmente no que diz respeito às infinitas informações online, de acontecimentos oriundos do mundo inteiro, que chegam por minuto.

O selo da aceleração está impresso em nossas vidas, impulsionando-nos a acelerar, também, o ritmo de desenvolvimento das nossas crianças. Já podemos constatar resultados insatisfatórios, tais quais: imaturidade emocional, encurtamento e empobrecimento da vida infantil e letargia no agir, por conta da carência de experiências adequadas ao nível etário e do desenvolvimento da criança.

Domenico de Masi defende, a importância do tempo livre para potencializar os nossos talentos criativos e aprofundar nossos estudos em áreas de interesse pessoal e profissional. Diz que “o futuro é de quem exercitará o ócio criativo”, pois a sociedade agora enfrenta problemas bastante complexos e potentes e é necessário encontrar soluções igualmente complexas e ao mesmo tempo simples, através de instrumentos também complexos. Uma cadeia coerente e rica e naturalmente humana, pois o ser humano é também bastante complexo.

Sêneca nos mostra que o ócio é o momento da contemplação, da reflexão, do encontro do sujeito consigo mesmo, conduzindo-o a pensar no sentido da sua existência.

Platão nos traz reflexões sobre o ócio quando tenta recuperar o saber da verdadeira “paidéia”, a arte de formar homens não pelo conhecimento, mas pela ética e pela verdade, um resgate das virtudes essenciais esquecidas e, entretanto, tão necessárias neste século.

“Não há ócio se ele não for criador. O ócio criador é feito para celebrar a relação e a vida. O latim tem uma tradução perfeita: comemoração” .

Os egípcios tinham um trabalho árduo, mas também não abriam mão do ócio que celebra a vida. Os povos originários do Brasil cultuavam o ócio, pois trabalhavam apenas para saciar sua fome, o resto era pura contemplação e celebração da vida.

A função do ócio é renascer de si próprio e recriar-se constantemente no caminho da evolução.

A educação de hoje visa formar indivíduos competitivos, com sucesso profissional, desconsiderando os valores essenciais da boa convivência entre as pessoas.  É preciso, pois, valorizar o talento natural do indivíduo para resgatar o prazer no aprender , no fazer e no compartilhar saberes, priorizando o espaço do ócio, para que os alunos sejam estimulados a pensar criativamente e atuar de forma complexa, com iniciativas e atitudes que façam a diferença na sociedade.

Lya Luft sugere : “Abrir um espaço de ternura no cotidiano apressado e difícil, eventualmente cruel..” e, como contribuição acrescentamos :  quem sabe sentar numa almofada macia, com um saco de pipoca quentinha e ler um bom livro com/para seus filhos. Um necessário tempo de pausa, de ficar junto para estreitar os laços afetivos, ampliar a confiança, regar de alegria, emoção e  magia a relação e a vida em família. Simples e complexo. Fica a dica….