Maria Cobogó | Pedais da Liberdade
18306
post-template-default,single,single-post,postid-18306,single-format-standard,translatepress-pt_BR,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,side_area_uncovered_from_content,qode-theme-ver-16.5,qode-theme-bridge,disabled_footer_bottom,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.7,vc_responsive

Pedais da Liberdade

Por Elisa Maria Mattos

Quando vi a bicicleta rosa recostada no muro tomado de limo, num beco encantado da velha Paraty, respirei profundamente feliz e pensei: Como eu gosto de bicicleta!

Montar numa bicicleta e tomar o rumo do vento é um ato de liberdade, a primeira transgressão de uma criança. A aventura de partir em alta velocidade, sobre duas rodas e levando a certeza de que vai voltar pra casa, provoca uma euforia na alma infantil que jamais se esquece. É a fuga de mentirinha, o sumiço de poucas horas ou até poucos minutos, dos olhares vigilantes.

Menina de 8 ou 9 anos, eu morava na Vila Planalto, no acampamento da Rabelo. Uma espécie de condomínio com chão de terra batida, onde viviam operários, funcionários públicos, migrantes e aventureiros, todos em harmonia dentro da mesma cerca. 

A minha maior aventura era pegar a bicicleta e ultrapassar os limites da casa, invadir outras ruas e descobrir seus encantos. Fazia isso com o coração na boca, assustada, com medo do imprevisível. Procurava atalhos, admirava casas, catava frutinhas do cerrado e retornava esbaforida, antes de ser descoberta. 

Um dia levei um tombo feio porque a borracha do guidom saiu na minha mão. A ponta do ferro bateu no canto da minha boca e fez um pequeno corte. Sangrou, mas eu não podia confessar minhas fugas e aguentei firme! Adoro a cicatriz que trago até hoje no rosto: sinal de uma bela lembrança.

Pouco depois, mudamos para a Asa Sul e a bicicleta continuou sendo minha companheira de passeios e exploração da redondeza. E também um instrumento perigoso nas mãos de uma Elisinha invocada. Uma vez briguei com a Patricia, minha melhor amiga, e resolvi castigá-la. Ela, emburrada, teimava em ficar encostada num carro com as pernas esticadas, provocadora, sem falar comigo. Eu, sem a menor dó, guiando em círculos, passei diversas vezes com os pneus da bicicleta em cima de seus pezinhos magros. E ela firme, não chorava e nem pedia para eu parar. Foi um duelo de titãs!

Quando comecei a trabalhar, aos 20 anos, meu primeiro salário foi destinado a comprar – pasmem – uma bicicleta! Cor de rosa, com cestinha para carregar flores, como essa que me encontrou em Paraty. Era um bibelô da época. Eu achava a coisa mais linda! Comprei à vista e fui pedalando entre as calçadas das quadras até a 112 Sul, onde eu morava. Exibi minha “Ferrari” com o maior orgulho: a bonitona era só minha, comprei com o meu dinheiro!

Um dia, talvez pela lei do retorno ou praga da Patrícia, fui perseguida por uma matilha de cães enfurecidos, que pareciam querer me comer viva. Na intenção de chegar até a beira do Lago Paranoá, me embrenhei inocentemente numa mata entre a L2 sul e a Avenida das Nações. No meio do caminho havia algumas casas improvisadas, de madeira e zinco, e ao me aproximar, a cachorrada veio voando em minha direção. Gritei por socorro e não apareceu ninguém. Continuei pedalando forte e espantando com chutes os cães que, com dentes afiados, miravam minhas pernas. Nada me aconteceu. Talvez porque o cenário era perfeito demais para eu ser destroçada!

Em compensação, num outro dia qualquer, guardado com todo carinho na minha caixinha de lembranças, um príncipe encantado me levou para casa, de madrugada, na garupa da sua bike. Vimos a manhã chegar navegando no deserto verde do Eixão, ao som do vento e gritos do sol. Foi um belo amanhecer!

Também já naveguei na areia úmida à beira mar. A bicicleta desliza como as gaivotas, vai longe, rumo ao infinito. E a tal sensação de liberdade te encontra no caminho. Voltar pra quê? A praia é longa, vazia, linda. Têm piscinas naturais lotadas de peixinhos coloridos, pescadores que surgem do nada e te cumprimentam com sorriso largo. A bicicleta já me levou várias vezes ao paraíso !

Hoje ainda dou minhas pedaladas, porém namoro pouco com a minha bicicleta. A coitada passa os dias lá, trancafiada num quartinho escuro da garagem. Só o porteiro do prédio tem a chave e ele não pode deixar o posto. O processo para libertá-la é difícil, irritante, fora da ordem mundial. 

O que me faz confessar também como luto pouco pelo meu direito de explorar o mundo, de deixar o vento cortar meu rosto e seguir rumo ao desconhecido. A felicidade deve estar nos caminhos que somente a bicicleta me leva. Minha mais fiel companheira.

***

foto @elisamattos, Paraty.