Nossa senhora do cerrado - Maria Cobogó
18546
post-template-default,single,single-post,postid-18546,single-format-standard,translatepress-pt_BR,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,side_area_uncovered_from_content,qode-theme-ver-16.5,qode-theme-bridge,disabled_footer_bottom,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.7,vc_responsive

Nossa senhora do cerrado

por Ana Maria Lopes

A foto na postagem do facebook era simples: um grupo de árvores floridas e a legenda “A beleza dos cambuís em flor”.

Alguns comentários, inclusive o meu, diziam que aquelas árvores de abundante floração amarela eram “Sibipirunas”. Outros falavam que Sibipiruna e Cambuí eram semelhantes ou que eram a mesma planta com nomes diferentes. A polêmica rendeu mais de vinte comentários. Depois de muitas conversas e controvérsias, a consulta à publicação do Departamento de Parques e Jardins do DF. A verdade apareceu.

O grupo de árvores era mesmo de Cambuí – nome que elas recebem apenas em Brasília. Pois bem, o Peltophorum dubium, da espécie Eugenia Crenata leva essa dubiedade no nome e faz com que os menos entendidos e até alguns pretendentes a botânicos a chamem de “prima” da Sibipiruna. Ambas têm floração amarela e enfeitam a cidade nesses meses chuvosos de setembro a janeiro.

Esse episódio serve apenas para constatar que em Brasília as árvores não são anônimas. Elas são parte e referência de nossa rotina, de nossas conversas, de nossas fotos e postagens nas redes sociais.

Aqui não dizemos “embaixo daquela árvore”. Mas sim, ao pé da Espatódia. Falamos sobre a floração dos Ipês: primeiro os roxos, depois os amarelos que iluminam a cidade inteira, sobre a fugacidade do Ipê branco que faz “nevar” em plena seca cobrindo o chão de miúdas flores.

A relação do brasiliense com as árvores é de total intimidade. É raro, em outra cidade brasileira, alguém chamar uma árvore pelo nome. São apenas árvores. Mas Brasília faz com que citemos a loja perto do Flamboyant, o mercado sob o enorme Ficus de raízes aéreas ou avisarmos para não parar o carro embaixo de uma “barriguda”, paineira que atrai maritacas, floresce em abundância e solta painas que voam pelos ares.

As árvores em Brasília são mais do que meras plantas ou elementos urbanos. São elos que temos com a cidade, são parte do cotidiano candango, são amigas que dão sombra, descanso, alívio para os olhos, remanso, alimento para o corpo – quantos abacateiros, jaqueiras, tamareiras, mangueiras e pitangueiras se espalham pelas quadras – e principalmente para a alma.

O ciclo dessas florações, além de nos encantar, avisa o tempo da seca, a chegada das chuvas, a primavera e nosso rápido inverno. E ao fechar este texto, a sensação que dá é de pertencimento a essa natureza tão generosa, é a de fazer parte dessa tão rica e bela flora. Se não há, que inventemos urgentemente uma Nossa Senhora do Cerrado para proteger e continuar enchendo de bênçãos floridas o nosso quadradinho.

*

Crédito da imagem: Correio Braziliense