Maria Cobogó | Noites Brancas
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Noites Brancas

Ana Maria Lopes

Na próxima sexta-feira, mais precisamente às 15:54, começa o solstício de inverno. O solstício – do latim sol + sistere (o que não se mexe) ocorre duas vezes ao ano, em junho e em dezembro. Marca o início do inverno e é quando a noite é a mais longa do ano.

Somente quem ama a noite, quem dela se alimenta e quem a vive na angústia da escuridão, sabe das dores e delícias de uma noite insone.  Sempre me considerei um ser diferente por preferir a noite como companheira de escrita. Mas descobri não estar só.

Graciliano Ramos, o mestre do realismo social, possui um livro de contos onde a noite longa e insone se torna tema central: “Não consigo estirar-me na cama, embrutecer-me novamente: impossível a adaptação aos lençóis e às coisas moles que enchem o colchão e os travesseiros”.

E a lista dos que mantém seu relógio biológico invertido é grande. Escrever à noite, na nuit blanche, como os franceses chamam a noite passada em claro, trouxe alguns escritores e livros à cena intelectual de primeira grandeza. Scott Fitzgerald é um deles. O Grande Gatsby não teria saído da cabeça do autor com tanta força para se tornar um clássico da literatura americana se não fosse outra força maior e mais cúmplice: a noite.

James Joyce não acordava cedo e sua escrita vinha em jorros pela tarde e varando a noite – não sem antes, como bom irlandês, beber com os amigos. O autor de Os Dublinenses e Finnegans Wake afirmou, certa vez, que passou mais de vinte mil horas escrevendo Ulisses.

Haruki Murakami não percorria a noite insone para escrever. Mas acordava no meio dela, às quatro a manhã, para iniciar sua rotina literária que durava de cinco a seis horas.

Contabilizar os escritores que fazem da noite seu momento de processo criativo é fácil e a lista se torna imensa. Os motivos? Vão desde a simples insônia até as questões de ordem familiar. A noite nos traz o silêncio, não há quem chame seu nome, a função doméstica dos objetos se recolhe, a correria do dia se dissipa. Assim, na paz do sono dos outros, escreveram Kafka, Marcel Proust, George Sand, Thomas Wolfe, Anne Rice, Flaubert e tantos outros. E falando em Flaubert, me pergunto: Madame Bovary teria tantos mistérios e segredos, tanta sensualidade e despudor se o autor a criasse durante o dia e sob o sol?