MEUS DIAS SÃO ASSIM - Maria Cobogó
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MEUS DIAS SÃO ASSIM

Elisa Mattos*

 

Camisola ou pijama ou saída de praia o dia inteiro. De vez em quando um vestidinho, para fingir um dia normal.

Acordo tarde, faço café, leio as notícias, respondo mensagens, faço pedidos para entrega em domicílio, olho as horas: já é boa tarde.

 

Sigo de novo para a cozinha, preparar o almoço. Tem dia que sai ótimo, no seguinte, um fiasco. Tenho algumas marmitas para me livrar do fogão, não são ruins, nem boas, comida diferente. Tenho manias, gostos específicos, estômago sensível. Se tem pimentão no tempero, óleo de soja e massa de tomate, já me causa arrepios. Amanhã, vou eu mesma cozinhar de novo, penso na hora. Tem dia que sai ótimo, tem dia que é um fiasco. Como tudo na vida.

 

Mais louças na pia, dão agonia, sofrência mesmo. Enrolo um pouco antes de encarar a tarefa. Lembro da época do racionamento e não quero desperdiçar água. O planeta agradece. Abro e fecho torneira, abro e fecho torneira, abro e fecho torneira. Uso sabão de coco, é melhor pra pele e não agride a natureza.

 

Durante as minhas tarefas solitárias, penso muito na vida. Ou melhor, nas perdas de vidas. São centenas de histórias que se apagam todos os dias. Por causa de um vírus. Um bichinho invisível mais poderoso que a bomba atômica, arma-troféu dos homens quando pensam em destruir o país inimigo. O corona varreu o mundo e ninguém sabe como detê-lo.

 

Olho pela janela e vejo muita gente desafiando a praga. E pior: espalhando a praga. Penso em encher um saco plástico de água e acertar na cabeça dos incautos. Ou um ovo gosmento. Quem sabe assim os endemoniados despertam para a vida? Inútil pensar.

 

Volto para mim. Nas redes sociais, posts falam de saudade da rotina de antes da pandemia. Quais rotinas? Saudade não é um sentimento que esteja presente em mim nesse confinamento. Saudade eu tenho das alegrias da infância, da família reunida num farto almoço de domingo, da risada do meu pai, das conversas amenas com minha mãe, de namorar até o dia raiar, de ficar estatelada na praia até o sol sumir.

 

Quando a pandemia chegou, a rotina por aqui já não era nenhum mar de rosas. As vítimas da desigualdade já agonizavam nos hospitais públicos. Os profissionais da saúde, educação, das artes, das diversas áreas de produção, já penavam por respeito. A fila dos desempregados e dos desesperados já era infinita. Mães pretas já choravam as mortes de seus filhos alvejados feito passarinhos nas caçadas noturnas dos armados. O racismo assassino não dá trégua há 500 anos e seus adeptos estão sempre a postos,  à espera de uma brecha para dar as caras. Enfrentar essa legião de olhos vermelhos é a rotina dilacerante de grande, enorme parte da população brasileira, não reconhecida como cidadãos.

 

Mentira dizer que a quarentena coloca todos em situação igual, restritos e saudosos dos seus prazeres rotineiros. O isolamento social tem exposto a face sombria da morte, guardada em valas rasas, coletivas, abandonadas. O choro massacrado da saudade que está por vir. A dor por aquilo que não foi vivido, e nunca será. A paz difícil de chegar.

Não é saudade a palavra que ronda meus dias.

É luta. É guerra. É amanhã.

 

 

 

 

 

 

*Elisa Mattos é jornalista, escritora, adora uma praia, fundadora do Coletivo Maria Cobogó e eterna colaboradora desse blog.