Marcia, a boneca - Maria Cobogó
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Marcia, a boneca

por Marcia Zarur *

 

Uma comunidade que nasceu às margens do maior lixão de Brasília – a Estrutural – sobrevive. Entre ruas mais urbanizadas, há ainda locais muito pobres, com ares de favela, onde nem GPS encontra endereços perdidos e inexistentes para o resto do mundo.

Foi uma dessas ruas que a nossa equipe do Distrito Cultural custou a achar. Seu Chico, motorista experiente, conduziu a van por vielas e buracos até chegar ao local indicado: uma rua estreita, de terra vermelha e poeira, com um filete de esgoto correndo na beirada das paredes improvisadas. A entrevistada já nos esperava ansiosa. Abriu o cadeado que prendia a pesada corrente na portinhola de madeirite sem pintura e eu entrei no seu ateliê.

Foi como se eu passasse por um portal mágico, que deixou a pobreza e a tristeza do lado de fora. Lá dentro, a cor, a vida e a alegria não deixavam espaço para mais nada. Paredes repletas de bonecas de pano, com vestidos coloridos, bichinhos sorridentes, flores e encantamento. A esperança morava ali, escondida, inventada e acolhida pelas mãos da bonequeira.

Dona Roscicleide me recebeu com um sorriso e um abraço nesse cantinho inacreditável, dentro da Estrutural. Conversamos como velhas conhecidas, numa entrevista que mais pareceu uma prosa de comadres. Ora ela me mostrava as bonecas, ora arrematava algum detalhe na máquina de costura, e assim fomos alinhavando mais um pedacinho de uma linda história candanga.

No fim, ela me presenteou com uma de suas belíssimas bonecas de pano e deixou que eu a escolhesse, dentre as dezenas que coloriam as paredes sem reboco.

Meus olhos, desde o início, tinham se apaixonado por esta, que ilustra o texto. Alguma coisa, como um imã, me puxava para ela, numa conexão inexplicável. Não precisei pensar para revelar a minha favorita.

Dona Rosi olhou para o marido e os dois riram, de certa forma, aliviados. Só pude entender quando ela me contou que escolheu o tecido mais bonito de festa e passou a noite costurando, justamente essa boneca, e lhe deu o meu nome: Marcia. Ela criou essa boneca especialmente para mim e disse: mesmo não sendo o seu tom de pele, ela é parecida com você. Eu também acho. Marcia já estava destinada a mim, antes de eu mesma saber.

     ***   

*Marcia Zarur é jornalista, escritora, fundadora do Coletivo Editorial Maria Cobogó e uma boneca. Além disso, faz agrado a dona Rosi, que expõe suas bonecas na Banquinha da Conceição, na 308 Sul e no Mercado Cobogó, na 704/705 Norte.