CARTA A JOÃO - Maria Cobogó
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CARTA A JOÃO

Lucília de Almeida Neves Delgado*

 

O céu era de abril. Um azul límpido que sempre me assombrou na chegada do outono. Os dias eram tão claros que só podia ser um mês de oferta. E como foi!

Aquele foi um abril de intenso azul! Pela segunda vez, meu ventre se abriu. Marina chegou decidida. O parto foi rápido, delicado! Eu me sentia novamente pronta para acolher uma vida. De mim brotou uma pessoa a mais entre os bilhões de seres humanos que habitam o planeta denominado terra. Mas para mim era um ser único!  Minha Marina!  Quando o médico anunciou, lá naqueles idos de 1982: – É menina! Eu disse com voz que brota da alma: – Graças a Deus!

Aconteceu o que eu queria!  Sempre me vi como mãe de meninas. Gabriela já desabrochava há quatro anos. Minha convicção se confirmava nas filhas que chegavam! É ótimo ser mulher! Sabia que nem todas as mulheres pensavam ou sentiam o mesmo. Razões inumeráveis as faziam e, ainda fazem, temer com impotência a trajetória de ardentes sofrimentos que a condição feminina lhes impõe. Todos sabem que é comum para milhões de mulheres uma vida de dor ou de muitas dores. Mas comigo não foi assim! Cresci amada e orgulhosa de ser mulher, a ponto de só enxergar meu mundo. Para mim era único. Arrogância juvenil? Autoestima feminina real? Incapacidade de reconhecer outras realidades. Idealização?

Qualquer que fossem as razões, vivi epifanias nos nascimentos das minhas filhas. Naqueles dias minha alegria foi genuína!  Multiplicou-se nos desafios da vida, embora, muitas e muitas vezes, permeada por angústias, medos, atropelos, dúvidas, culpas, divisões, incertezas, desejos não realizados, correrias e muitos apelos incompatíveis com a maternidade. A arrogância juvenil dissipou-se nos inevitáveis tombos do viver, mas o prazer de ser mulher cresceu. Sedimentou-se.

Os labirintos da vida entrecruzaram-se e um novo abril, que trinta e oito anos depois, se anunciou. Chegou sem festa para a humanidade. Um apelo ao recolhimento involuntário, ao se afastar dos outros, a usar máscaras, luvas, óculos se fez maior que todos os seres humanos reunidos. Abraços? Nem pensar! Olhos nos olhos? Só para os enlouquecidos ou irresponsáveis! Flanar nas ruas e beber o ar da vida? Só mesmo os loucos o farão.

Trancamo-nos nas casas, apartamentos, cubículos – esses os reinos do impossível. Do inevitável beijo da morte! E o azul do céu, aqui pras bandas do hemisfério sul, onde “não existe pecado”, escondeu-se! Talvez tenha achado melhor recolher-se e com prudência observar à distância os cenários de devastação que, sem dó nem piedade, fazem morada também no hemisfério norte.

Abril seguia e dele brotavam surpresas inimagináveis, durezas e agressões impensáveis, medos nos semblantes das pessoas. O mundo dizia não ao mundo. Melhor mesmo devia ser se trancar no lado de dentro das paredes. Silenciar, esperar, ter fé e, embora nem todos assim pensem, respeitar os cientistas e as pessoas que cuidam da saúde de outras pessoas, como podem e onde podem!

No meio dessa onda de temor outro ventre se abriu.  Marina, minha menina- mulher trouxe ao mundo, nova vida. Renovação! Esperança! Sentimentos de júbilo mesclados ao medo!  Mas você, João, chegou!  Chegou mesmo!  Chegou pra valer! Chegou destemido, sem nem saber da sua força de viver! Pequenino, mas com um poderoso e vibrante nome. Como se dizia antigamente!  Marina, mãe, “deu a luz”.

E na dor do estar perto de você, mas sem verdadeiramente poder estar, enxerguei no céu gris, deste abril, um azul outonal. Daqueles esplendorosos! Chorei muito!  Um menininho chegou para nós!  Um menino luz!  Só pode ser luz!  Desafiador!  Um menino a afirmar a força da vida e se entregar aos braços acolhedores de seus pais, a dizer: – Por enquanto preciso totalmente de vocês!

Tempo! Tempo! Tempo!

Será você, João, o caçula? Será nossa rapa do tacho? Será um pouquinho nosso, dos seus avós? Bem diga a vida que sim! Na hora dos apertos do cotidiano ou mesmo nas de brincar e comer doces e gostosuras, nós o acolheremos.

Pode ser daqui a um bom tempo! Talvez demore prá valer! Você é luz, mas o azul do céu ainda está inseguro, ora aparece, ora se esconde!  A medida das horas mudou! Elas estão flutuando! Pouco sei desse novo tempo e do que o sucederá! Mas, na sucessão das horas e dias, você chegará ao nosso recôndito.

Acho que nem os deuses sabem dizer-me quando será! Quando poderei viver a epifania de lhe dizer, quase em silêncio: Você é meu amor. O quinto, entre os que brotaram das minhas filhas, mas único, único como cada um deles.

Nessa hora, como em um milagre que alarga o tempo, para caber tantos dizeres em poucos minutos, poderei te contar alguns segredos. Desses que você nem saberá que escutou, mas que entrarão no seu corpo, incluídos mente e cérebro, coração e alma.  Isso eu sei, entrarão para sempre. Ficarão habitando seus dias prá lá do tempo em que eu já tiver viajado para outros rincões, lá pras bandas do infinito, onde moram estrelas, planetas, lua, constelações e muitas luzes.

Mas antes dessa viagem inevitável, espero termos juntos dias de fazer nada e tudo falar. E você que é luz me dirá: – Vovó!  Não quero só alegrias banais! Não quero só caminhos fáceis! Não quero só amores superficiais! Quero fé, generosidade, força, ternura, tolerância, firmeza, inquietação, paz, determinação, flexibilidade, sonhos, incertezas. Quero conhecer o avesso, para não andar somente sobre solos superficiais. Quero ser uma pessoa do meu tempo e contribuir para que esse tempo seja fértil em esperanças e realizações que fazem do bem seu fermento.

Nesses dias também vamos brincar, ler e contar histórias, mergulhar em águas transparentes, colher frutos nas árvores, assistir desenhos e filmes, espalhar legos e carrinhos pelo chão. Tomar sorvete, comer pipoca, chupar um montão de balas, ficar um tempão olhando luzes das diferentes telas. Então você soprará no meu ouvido: – Sou seu menino. Sou João, nasci como luz num tempo de dificuldades, mas não esperem que eu seja necessariamente brilho. O que quero mesmo é ser um bom homem.

 

Vovó Lulu

***

 

 

 

 

* Lucilia de Almeida Neves Delgado é historiadora, professora universitária, colaboradora do blog Maria Cobogó e avó de João e suas primas.