“EU NÃO ERREI. EU AMEI!” - Maria Cobogó
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“EU NÃO ERREI. EU AMEI!”

Por Ana Maria Lopes

        A escolha de Euclides da Cunha como o autor homenageado da Feira Literária Internacional de Paraty – FLIP – não passou em brancas nuvens. Gerou polêmicas esperadas e inesperadas.

        O lado racista do escritor foi pronunciado com propriedade pela autora Marilene Felinto ao dizer que os ancestrais de sua mãe “são possivelmente sobreviventes da degola e da tortura a que foram submetidos pelo exército de Euclides da Cunha”.

        Mesmo com o mea-culpa feito com seu livro-reportagem Os Sertões, o ranço do racismo euclidiano permaneceu. Mas não falaremos de racismo. Não agora.

        No momento em que o feminicídio e a violência contra a mulher aumentam assustadoramente em nossa sociedade, é, no mínimo, estranho e curioso homenagear um homem que, por não aceitar o término de seu casamento, invade a casa de sua mulher e tenta matar seu desafeto.

        A história é um pouco mais violenta e complexa mas é o  protagonismo masculino que dá o tom da tragédia.

Anna casou-se aos quatorze anos com Euclides da Cunha. O casamento fora realizado em seguida à Proclamação da República, em 10 de janeiro de 1890. Os registros da sua conflitada vida conjugal partem de pequenos relatos e conversas onde ela se queixava de solidão durante as viagens de Euclides. Às vezes, viagens superiores a um ano.

Com três filhos, carente e solitária, Anna se encanta por um oficial mais jovem com quem passa a ter um relacionamento. O casamento fica insustentável e Anna muda-se para a casa de Dilermando, seu grande amor.

Ao tomar conhecimento desse fato, um desvairado Euclides da Cunha percorre a Estrada Real de Santa Cruz, bate à porta da casa de Anna e Dilermando e grita: “vim para matar ou morrer”.

No embate, Dilermando mata Euclides.

Uma tragédia de Ésquilo, segundo Monteiro Lobato.  Os jornais estamparam em suas páginas “o trágico fim do célebre escritor, traído por sua mulher com um rapaz mais novo e assassinado por este amante”.

Anna virou o pivô da tragédia. Os Cunha nunca a perdoaram. Seus três filhos com Euclides foram entregues a tutores. A sociedade da época jamais esqueceu o colossal escândalo que ela provocara. Enquanto viveu, carregou o estigma de adúltera.

Sanninha, como era conhecida, não podia se socorrer em uma Delegacia da Mulher. Não havia defesa. Dela se excluiu tudo, inclusive a análise de sua vida e das dificuldades da época. Terminou seus dias carregando todos os adjetivos que uma mulher casada ostenta ao dar fim a seu relacionamento – e a legislação da época nem contemplava separação judicial ou divórcio. Anna, assim, abriu portas ao se relacionar com um rapaz mais jovem. Os episódios de violência não vieram à tona e ficaram restritos a poucos relatos.

Sabe-se lá por que desígnios, recentemente, o diário de Anna de Assis chegou às mãos de sua neta Anna Sharp. Nas 45 páginas do caderno (cuja autenticidade ainda é questionável), ela escreve que Euclides aceitava o triângulo amoroso, mas que não admitia o divórcio.

A face masculina se revela nessas questões. O herói republicano, o magnífico escritor dotado de inteligência e conhecimento mostrou o lado perverso do ser humano.  

        Nenhuma intenção há nesse artigo em diminuir a importância e a dimensão histórica e literária de Euclides da Cunha. Seu “Os Sertões” é uma epopeia da vida sertaneja e um dos clássicos da literatura brasileira. E isso é inquestionável.

        Mas o papel da mulher no século XIX – “pivô de crime passional”, segundo o Dicionário Mulheres do Brasil (Zahar Editores), “capital simbólico importante”, “guardiã do lar e da família”, “base moral da sociedade… deveria adotar regras castas no encontro sexual com o marido…” (esses três últimos comentários são de Maria Ângela D’Incao no livro História das Mulheres no Brasil) não difere muito da mulher do século XXI. Apesar de algumas conquistas, a fala das mulheres sempre foi preterida pelos historiadores.

        O amor romântico, a expressão da sexualidade, o alimento do corpo, ainda não é bem recebido. Da mesma forma que Anna, a mulher ainda sofre vigilância social, constrangimentos e, em muitos círculos, é moeda de troca.

        Vai levar um bom tempo para que todas possam gritar como Anna: “Eu não errei. Eu amei!”