EM BUSCA DE UMA CULTURA DE PAZ - Maria Cobogó
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EM BUSCA DE UMA CULTURA DE PAZ

por Solange Cianni

A violência está batendo às nossas portas  e muitos nem se dão conta. Acredita-se que só através da educação teremos alguma chance de reverter este quadro avassalador e rápido. A educação tem, efetivamente, potencial para tal feito. Entretanto, infelizmente, é desperdiçado. O que se aplica ainda hoje nas escolas privilegia, prioritariamente o intelecto – o que tem contribuído bastante para o aumento da individualidade egoísta e o afastamento do indivíduo de si mesmo – e enfatiza a cultura do “ter” sobre o “ser“.

O foco no ter nos afasta do ser a cada dia. É necessário que se recupere valores como a gratidão, a compaixão, a doação, o respeito e a cooperação, dentre outros igualmente importantes, para proporcionar ao aluno um crescimento como ser humano, incluindo no currículo o desenvolvimento das inteligências interpessoal e intrapessoal, possibilitando ao aprendiz o autoconhecimento, cultivando a consciência e ampliando sua capacidade de se relacionar respeitosamente com o outro.

Educar para a Paz tem que começar pelos educadores, que deverão ter uma personalidade pacífica.  Precisam ser e estar plenos de paz, promovendo uma relação de respeito, a partir da forma respeitosa com que tratam seus alunos e, evidentemente, serem bem-humorados, criando um ambiente alegre e prazeroso na sala de aula. Assim sendo, estarão promovendo a possibilidade do seu aluno também vir a ser um agente multiplicador da paz, aprendendo através de suas atitudes positivas diante das situações de conflito, de dificuldades e de toda ordem no que diz respeito ao contato e convívio com o outro.

Pierre Weil, em sua metodologia “Educar para a Paz” apresenta, principalmente, três importantes ações pedagógicas que deverão compor os currículos das escolas:

  • Viver em paz consigo mesmo – com demonstrações práticas de que a paz começa em si, no corpo e nas emoções.
  • Viver em paz com os outros – onde se aprende que conviver em harmonia depende, antes de tudo, da nossa capacidade de compreender o outro.
  • Viver o conflito – Onde se aprende que o conflito pode ser uma grande oportunidade de crescer, aprender e se transformar. Colocar-se no lugar do outro.

É urgente e necessário se falar do respeito e do amor a si e ao outro. A ciência tem evoluído a passos largos, sem, entretanto, dar atenção devida às questões éticas. Podemos fazer “clones”, viajar pelo espaço, pesquisar possíveis vidas em outros planetas, receber informações do mundo inteiro e instantaneamente, mas a mesma evolução não tem acompanhado o ser humano na sua mais importante e verdadeira viagem: para dentro de si mesmo. Parece que este se esquece de si e de sua relação com o todo a cada dia. E a educação, distraída, tem contribuído para ampliar este quadro nebuloso.

Quando se fala de paz surge a necessidade de se abordar o tema da diversidade, que tem trazido muita discórdia e guerras pela falta de respeito às tradições e à cultura dos diversos povos que habitam o nosso planeta. A cobiça, a luta pelo poder, a ganância e a fome de possuir cada vez mais, violenta a sociedade de países diversos, com uns querendo impor a sua vontade e o seu ponto de vista sobre outros. E assim, fazendo crescer a cultura do ter, alimentando as desavenças, as desigualdades e as injustiças de toda ordem. Falta saber olhar o outro e admirá-lo por ser único, dotado de beleza e particularidade singulares. Reconhecer no outro a maravilhosa possibilidade de aprender e de ensinar. A arte do encontro, onde aprende-se verdadeiramente a conviver melhor consigo e com o outro.

Frei Betto cita que “só o amor é capaz de evitar fazer das diferenças divergências, pois nos ensina a conviver com aquele que não é como nós, nem pensa como pensamos e, no entanto, possui a mesma dignidade humana”.

Ubiratan D’Ambrosio, professor-doutor em Matemática, diz que atingir a Paz, deveria ser o objetivo maior da educação e que um dos maiores equívocos da educação ocidental é separar o corpo da mente, ou seja, separar o que sentimos do que somos. Propõe, ainda, a Ética da Diversidade, que segundo ele, conduzirá à paz interior, social e ambiental, assim fundamentada:

“1- Respeito pelo outro com todas as suas diferenças;

2- Solidariedade com o outro na satisfação das necessidades de sobrevivência e transcendência;

3- Cooperação com o outro na preservação do patrimônio natural e cultural comum”

Poderíamos aqui citar muitos caminhos na busca de educar para a paz, entretanto, destacaremos de fato a questão do respeito às diferenças como fator detonador de grande parte da violência que prevalece no mundo hoje. Aprender a conviver para se alcançar o aprender a ser. Um passo de cada vez, confiando e construindo e, nesse caminho lento e assertivo, acreditar que se pode alterar esse quadro caótico em que nos encontramos, percurso tão urgente quanto necessário, em busca de uma cultura de paz.