Em Brasília, dezenove horas... - Maria Cobogó
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Em Brasília, dezenove horas…

Claudine M. D. Duarte *

 

“Enquanto isso, por um descuido que José Arcádio Buendía não se perdoou jamais, os animaizinhos de caramelo fabricados na casa continuavam sendo vendidos no povoado.

Crianças e adultos chupavam encantados os deliciosos galinhos verdes da insônia, os esplêndidos peixes rosados da insônia e os macios cavalinhos amarelos da insônia, e assim a alvorada da segunda-feira surpreendeu o povoado inteiro acordado.

No começo ninguém se assustou.”

Gabriel García Márquez, in Cem Anos de Solidão

 

 

De manhã, choveu demais da conta. Pediu ao menino que a ajudasse arrumar a bacia sob o telhado. Se chovesse de novo, teria água para o banho da sexta. Proibiu que o filho saísse de casa por uns dias, brava. Não achava certo que o menino voltasse para casa com coisas que achou pelo caminho. Não é de Deus isso de pegar as coisas dos outros. Uma vez, ele voltou com um livro, ela olhava as letrinhas e achava bonito. Quem sabe um dia aprenderia a ler. O menino hoje apareceu com umas compras de comida. ‘A mulher não precisa mais’, disse ele. Muito feio pegar dinheiro dos outros, mas eles tinham que comer. ‘Ela tava caída na parada, num peguei a bolsa, num peguei os documento’, o menino olhava bem dentro do olho dela. Hoje tinham janta, conferiu os pacotes, janta até domingo. Não comia há três dias, guardava o pão pro menino que ainda tinha que crescer, estudar, virar doutor. Deus ajudava que o menino não bandeasse como o pai. O dia ia de embora, fininho, o menino acendeu uma vela. Sem luz desde… nem lembrava desde quando. Parece que foi no dia que ainda tinha um restinho de gás, mas deixou a vizinha esquentar a sopa do bebê. Como cheirava bem aquela sopa. ‘A mulher do ponto segurava isso’, pegou o terço da mão do menino. Quando voltar as missas ia fazer uma reza bonita. Faria o menino pedir desculpas, mas os mortos não precisavam de comida, verdade. Quem sabe na segunda, o governo libera o dinheiro.

***

Laurinha, vai tomar banho, tem que lavar o cabelo, já são quase cinco horas, falta arrumar a varanda, balões brancos porque foi o que seu pai encontrou, ele nem procurou e eu avisei ‘não precisa ir’, só telefonar ou usar o aplicativo, mas ele tem preguiça do aplicativo, tem preguiça do telefone, parece que quer sair sempre e nem pode… O shampoo azul, não, Laura! Usa o shampoo rosa, dá brilho, dizem que é de lavanda mas veio rosa, não dá pra confiar em ninguém, mas sua festa vai ser linda, a gente na varanda, já mandei seu pai levar os docinhos para os vizinhos, ficou tão lindo o convite!

“Laura do 501 do bloco B faz sete anos hoje!  De nossa varanda queremos comemorar com todos vocês. Parabéns às sete da noite. Cantemos juntos!” 

O sete da noite em destaque, pra ninguém esquecer. Sete. Tem que ser antes do panelaço das oito e meia, que coisa esse negócio de estragar panelas, seu pai queria pegar aquela, a vermelha, nem pensar, tranquei o armário, quer protestar? – já falei, tem o twitter, nem vem, minha panela!, ano que vem vai ser diferente, vai ter o salão de festas, vou secar seus cabelos agora, que emoção vai ser isso tudo, avisei a senhora dos doces, queria pão de mel, mas ela veio com essa história de coronavírus, pandemia, uma nossa senhora no meio, o moço do chocolate sumiu, nunca mais entregou chocolate pra ela, uma ladainha, contei que você faz sete anos e que nossos vizinhos iriam cantar conosco às sete da noite, aceitei os bem-casados, para cada apartamento um saquinho com sete doces… pedi trezentos, ficaram tão bonitinhos os bem-casados, amarradinhos com umas fitinhas coloridas, não entendi o negócio das cores, parece que tem a ver com a roupa de uma santa, não deu pra ouvir, ela espirrou na hora, ou tossiu, nem importa, gostei de tudo, veio em tons de rosa, vermelho e bege, se fosse sua tia ela iria dizer que é ‘nude’, besteira demais, eu sou uma pessoa simples, bege é bege. Os docinhos são bege por dentro, tem um doce de leite assim bem clarinho, você vai adorar, seu pai chegou, amarre seus sapatos, vou mostrar como deve pregar os balões, vai ser lindo, vou checar se ele foi no bloco da frente, é o principal, todo mundo na janela batendo as palmas, com os docinhos vai dar certo, os balões juntinhos de sete em sete, fiz uma faixa para seu pai segurar do lado de fora da varanda: Laura, sete.

***

Quinta-feira. Dia de São Jorge, “em nome de Deus, estenda-me o seu escudo. Encomenda gigante. Sem chocolate desde a semana santa, teve sorte, muita sorte. A moça ligara ontem, mal tinha bebido o chá de limão com gengibre, a garganta arranhando, “Glorioso São Camilo volvei seu olhar de misericórdia”. Uma mania de sete, a moça ao telefone repetia muitos setes, ficou meio tonta e se apoiou na cadeira perto da televisão, carecia anotar a encomenda. Foi bem perto da hora do almoço, sol alto num céu azul, Dom Bosco escolheu bem esse lugar, “Entre paralelos, terra prometida”.  Nem pode comer por causa das compras. Gostava do mercado que tinha o Santo Antônio. Não entendia o que o santo fazia ali, talvez para proteger os casamentos das pessoas que assim comiam mais, fariam mais filhos, almoços em família. Mas se sentia acolhida por aquele olhar do santo e lembrou da oração: “Foge a peste, o erro, a morte…” Tão bom o santo, conferiu: doce de leite, farinha de trigo e ovos. Os papéis coloridos para embrulhar os doces em cima da mesa da cozinha. Trezentos. Estava um pouco febril e precisou contar mais de uma vez. Muito bom o bom Deus e Santa Terezinha… os doces envolvidos um a um nas cores da roupa da santa. Muita sorte pra menina. Sete anos, muito bem, Nossa Senhora do Rosário protege os dias setes. Só lembrou depois que saiu da portaria. Podia até ter lembrado antes, mas aquela dor que doía desde as três da madrugada atrapalhou um pouco… Nem dormiu. Mas achou indelicada a moça, não desceu pra receber os doces, mandou um empregado. Coitado, ele os contou um a um, foi separando em montinhos de sete e subiu repetindo que faltava um. “O Senhor é abrigo seguro para os oprimidos”, recitou bem baixinho o salmo para o moço que se afastava triste. Ela guardou o dinheiro no bolso de dentro do casaco, como estava frio aquele dia sem sol, “Santa Maria, rogai por nós”. Conseguiu atravessar a avenida e, tropegamente, sentou no banco da parada de ônibus. Viu a tarde ficar cinza escura, eram as vistas?, pensou. Um homem que usava máscara branca se levantou ao vê-la chegar e partiu apressado. “Perdoai-o, Senhor, não sabem o que fazem”. Ela fechou mais o casaco, o frio aumentava e uma grande dor apertou o seu peito, “Assim na terra como no céu”, se deitou. Um banco inteiro somente para ela, “Obrigada, Senhor”. Puxava o ar e o ar não vinha, “Ajudai-me a entender”. Seu último olhar cruzou com os olhos de um cão que vinha ao seu encontro e vertia uma fileira de lágrimas. As lágrimas para o bueiro. Alguém disse que era frio assim, mas ninguém previu esse abismo, nem contou da dor…O cão, ela quase sorriu – veio fazê-la atentar, São Francisco o protegia, “é morrendo que se vive”.

***

“Em Brasília, dezenove horas…” na fonte negra da máquina de escrever, o escrivão imaginava. Chegaria em casa, retiraria a Olivetti da caixa, colocaria o papel reciclado e começaria seu conto. Sempre quis começar um assim, “Em Brasília, dezenove horas…”. Uma homenagem à mãe que tinha a vida paralisada na hora da Voz do Brasil.  Ela escutava o programa do governo num rádio grande, de mesa, com um som metálico e chiado ao fundo. O rádio, de madeira nobre, era um legado do pai dela, como a máquina de escrever. Um dia, ele decidiu que seria escritor e pediu a máquina. “Que máquina?”, perguntou a mãe. O sistema da delegacia que estava fora do ar há quase meia hora retornou interrompendo o instante em que ele se lembrava de colocar a Olivetti no banco do carro, com cuidado… Retomou o relatório e conferiu as anotações. Quinze e quarenta e cinco: homem mascarado e ofegante entrou na delegacia. Importante escrever que estava sozinho no plantão. Anotou as palavras do homem: uma senhora, de casaco marrom, cabelos brancos, suada, desmaiou na minha frente no ponto de ônibus. O ponto ficava perto, mas ele não podia sair. Essencial frisar que estava sozinho naquele momento. O homem não quis se identificar, respondeu que não telefonou para o SAMU porque não tinha créditos no celular. Ou não tinha bateria? Devia ter anotado isso também. A senhora tossia muito, o mascarado pediu que anotasse. Enquanto analisava a precisão do dia, o escrivão ligou o ventilador. É imperativo ficar bem claro o motivo de não ter conseguido falar com o 192. Ocupado. Ocupado. Ocupado.  Os horários estão todos no papel, anotados como devia ser. A vida pode ser resolvida ou perdida nos detalhes. Perfeita a sentença, pode atribui-la à mãe: “A vida, meu filho, a gente ganha ou perde. Nos detalhes!” Decidiu ligar para os bombeiros: 193. Muito incrível as pessoas que escolhem os números dos serviços de emergência. 192 bem perto do 193. Se a pessoa errar na hora do apuro, pode acertar. Enquanto reinicia novamente o sistema, a voz da mãe deliberava no áudio do celular: “Quarentena não devia se chamar assim se dura mais de quarenta dias”. Ouviu de novo, pra ter certeza. Não a encontrava pessoalmente desde o primeiro decreto do Governador. Checou seus apontamentos e, mentalmente, contabilizou o tempo de sua ação: onze minutos. Não era um bom tempo quando se trata de uma vida. “Toda vida conta!”, a mãe repetia o Bill Gates. Ela estava muito feliz com as fábricas que iriam descobrir as vacinas que protegeriam a humanidade do coronavírus. Ficou indignada com a ideia de testarem na África, mas chorar de verdade, com lágrimas e soluços, foi naquela sexta-feira. Ele sabe exatamente o horário em que a mãe telefonou: dezesseis e dezessete do dia dezesseis de abri. A mãe inconsolável porque o presidente demitiu o ministro da saúde. Pensava assim mesmo, tudo e todos em letras minúsculas. Ninguém que magoasse sua mãe mereceria maiúsculas. O sistema voltaria. Em suas notas, o retorno lacônico do corpo de bombeiros: envio de ambulância às dezesseis horas. Confere. Ele escutou as sirenes oito minutos depois. Como fazer o relatório se não souber o nome daquela senhora? Estava apenas desmaiada? Conseguiu ser levada com vida até o hospital? Ela estava mesmo lá? Portava documentos, dinheiro, bolsa? Um celular? Um santinho na mão! Devia ter perguntado qual. Todos os dados importam mesmo que sejam para conduzir aquela senhora aos perversos gráficos e estatísticas nos jornais. Nada do sistema ainda. A mãe ligara mais cedo, voz da mãe, dramática: “Morreu. Não me fale no nome do presidente. Nunca mais. Para mim, ele morreu.” Avisou que ele podia buscar o rádio também já que gosta de herdar “coisas” que pertenceram ao avô. Deliberou que não escutaria mais “notícias de passeios oficiais”. Nada do sistema. O escrivão consultou o relógio e desligou o computador: em breve, sete da noite, desistiu. Já podia imaginar o papel rodando na Olivetti: “Era uma vez em Brasília, dezenove horas…”, ótima abertura.

***

Se você leu até aqui, esse textão é meu mesmo… acho que tem muitos caracteres para esta mídia – outros diriam “muita coisa escrita”, quase peço desculpas. Justo hoje, quando comemoram o #diamundialdolivro! Dizem que no 23 de abril de 1616 faleceu Shakespeare e, no dia anterior, o mundo também perdeu Miguel Cervantes. Comemoremos, então. Salvem os livros! Salvem as coisas escritas! Nos salvemos a todos. Amém.

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Claudine M. D. Duarte é arquiteta, dramaturga e escritora. Fomenta a leitura entre os jovens através do Projeto Calangos Leitores. Foi finalista do prêmio Jabuti na categoria Inovação em 2018.

Imagem: OST “SÃO JORGE, OGUM” (2019) do artista Rinaldo Silva (foto gentilmente cedida por Pé Palito Antiquário & Arte)