Divagações, respiros e (uma) viagem com Alberto Bresciani - Maria Cobogó
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Divagações, respiros e (uma) viagem com Alberto Bresciani

Por Claudine M. D. Duarte

“E somos só isto mesmo: animais solitários,

tentando a sorte, insistindo no tempo

Até que alguma palavra caia, por sorte,

azar, castigo ou revelação,

e, enfim, possamos

aceitar.”

Alberto Bresciani

“Fundamentos de Ventilação e Apneia”, da editora Patuá, é o novo livro do querido Alberto Bresciani, “poeta nas horas válidas”, em suas palavras… e enquanto o livro não chega ao nosso planalto, revivo, respiro e inspiro novamente o seu poema CARTA AOS CRENTES.

Começo pelo título: CARTA AOS CRENTES.  Em minha leitura, entendi que o texto é endereçado aos que acreditam, que esperam, mesmo que equivocadamente, em algo que pode ter chances muito pequenas de ocorrer. Ou que acreditam nas pessoas. Simples assim… E, obviamente, essa crença terá consequências, como todas as teorias e hipóteses que nos constroem… Assim, a carta é como um alerta, aviso ou mesmo cumplicidade. A cumplicidade se o poeta não se exime da crença…

A seguir, as estrofes do poema em CAIXA ALTA e negrito, para diferenciar de minhas divagações… viagens, devaneios?

TUDO É SURPRESA:

AS PALAVRAS, NOSSA PRÓPRIA

ARQUEOLOGIA,

REVELAÇÕES METAFÍSICAS.

Nós homens, somos surpreendidos conosco mesmos, nossas palavras e nossos atos, nossas realizações, produções e mesmo os restos disso tudo. Ou seja, ao mergulharmos em nós mesmos e em nossa história, ficaremos surpresos.

E SÃO IMPREVISÍVEIS

AS FÁBULAS E FACAS

QUE NOS ATIRAM.

Além da surpresa com o profundo contato conosco, também contaremos com a imprevisibilidade das narrativas que podem nos enganar, iludir e até mesmo ferir.

SÃO IMPREVISÍVEIS AS TARDES

E AS ÁRVORES PLANTANDO RAÍZES

NOS RINS.

Seremos nesse conhecimento, surpreendidos também com a imprevisibilidade do passar do tempo: tardes e árvores criando raízes dentro de nós mesmos… inexoravelmente.

TRAÇADOS E MAPAS

TAMBÉM SÃO INÚTEIS,

PORQUE AMORES SE ESCONDEM,

APARECEM QUANDO QUEREM

E TANTO OS ACHAMOS

COMO NÃO.

E, por mais que tentemos e caminhemos, não há receita de bolo… não existem placas com indicações seguras… não há segurança em nada. Nem nos amores. Não temos controle sobre quem amamos. Amamos e pronto. Independente de sermos autorizados ou não. Decididos a amar ou não. Ou, pior, não amamos e pronto. E não podemos fazer nada em relação a isso. Perdidos, sem mapa e sem controle remoto.

MAS UM DIA, NO SOFÁ,

ANTES DO NOTICIÁRIO,

VIRÁ O REINO,

O QUE VALE ÀS ARTICULAÇÕES

E À MEDULA,

Como somos crentes – leitores e poeta, mesmo com toda imprevisibilidade, num dia ou uma noite qualquer, numa hora comum, seremos atingidos por uma descoberta importante. Uma descoberta daquelas que fazem valer a vida. Uma descoberta que nos fará agradecidos por estar no aqui e agora. O reino pode ser um carinho, uma palavra, um abraço, um pão caseiro, uma manta sobre pés frios… 

APAGARÁS DE VEZ OS METEOROS.

SABERÁS, COM CERTEZA LUNAR,

COMO AFOGAR A TRISTEZA

NO SUMO DA AMEIXA.

Nesse dia ou nessa noite qualquer, com a chegada do ‘Reino’, teremos um momento de paz e serenidade. Não temeremos meteoros e nem tempestades. Seremos senhores do tempo – como a Lua – comendo uma fruta qualquer.

O poema Carta aos Crentes integra um livro ainda não publicado e tive acesso ao texto pelo Tantas Palavras, em abril de 2017, no jornal Correio Braziliense. Aos que gostaram desse poema, sugiro que escutem a poeta Noélia Ribeiro, que escreveu a orelha do próximo livro de Alberto Bresciani:

Procedamos, então, à leitura da poesia brescianiana, porquanto “às vezes é melhor não dizer nada, ou quase”.

E esse quase, na poesia, é o tudo que nos permite as viagens que nos garantem o ar, a respiração. Vida, enfim.

***