De outro dia... - Maria Cobogó
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De outro dia…

por Claudine M. D. Duarte *|

“… e a máquina múltipla que servia ao mesmo tempo para pregar botões e baixar a febre, e o aparelho para esquecer as más lembranças, e o emplastro para enganar o tempo, e um milhar de invenções a mais, tão engenhosas e insólitas que José Arcádio Buendía bem que gostaria de inventar a máquina da memória para poder se lembrar de todas elas.”

Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão

 

Segurei meu pai. Não queria ele espalhado por aí. O avião pousava:  Santos Dumont. Meu pai, em paz, na caixa azul escuro, com listras vermelhas – ou melhor, seus restos: ou a metade deles.  A outra parte em Goiás, numa área verde, cheia de faveiros – preservação ambiental, garantiu a prefeitura. A cremação no Brasil ainda é um tabu e, segundo dados do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios, menos de 10% dos mortos no país são cremados. Meu pai adora integrar minorias e deixou tudo escrito e determinado no cartório: metade em Anápolis – na chácara em que viveu; outra metade no campo do Flamengo.

Entrei no táxi e dei o nome do hotel em Copacabana. Grande estilo nos últimos dias com meu pai: uma noite no hotel mais elegante da cidade, outra numa pousada em Santa Teresa e a terceira, na Barra, que é algo assim como uma Brasília com praia. Roubei a ideia do narrador de Noturno Indiano, do Tabucchi.  Em viagem pela Índia, passa uma noite em cada hotel, alterna os luxuosos com os sórdidos e de vizinhanças inóspitas.

No lobby, uma senhora de cabelos brancos usando um longo verde-água me abordou numa língua estranha, respondi um désolé… automático. Ela apertou os lábios e se dirigiu ao balcão. Agradeci ao Duolingo e à minha disputa pelo primeiro lugar com alguém chamado Sami Patel, que não conheço e já odeio do fundo d’alma. Deixei a maleta no quarto e parti para o Leme: jantar no Shirley. Meia hora de caminhada pelo calçadão, final de dia, céu laranja, troca de turno dos ambulantes… Um tentou me vender uma canga rosa-verde-mangueira, em inglês. Sou Salgueiro, desarmei o cara. Bacalhau, vinho verde, um crema catalana…

Um susto no meu retorno: a carteirinha do clube do Flamengo desaparecera. Eu precisava dela pra provar de quem eram aquelas cinzas a serem distribuídas no campo da Gávea… A paixão dele pelo Flamengo fez com que pagasse a mensalidade do Clube, mesmo que faltasse grana para comida ou aluguel. Gerente, seguranças, chefe dos seguranças, camareiras, camareiros, chefe dos camareiros… Isso talvez explique o preço da diária. Nada do documento. Passei uma noite mal dormida nos lençóis de não-sei-quantos-mil-fios. Tentei me consolar: o essencial é meu pai, ou seus restos, ou a metade deles na caixa azul, que levei para o café da manhã, incluso na diária, vista para o mar… Carreguei o Cem Anos de Solidão: eu, meu pai, Arcadios e Aurelianos…

Antes que eu chegasse na imortalidade do Melquíades, vi o gerente  rebocando um segurança, outro segurança e uma camareira. Soube que a moça era amiga da Maria Amélia, a que arrumou o quarto no meu momento-Shirley. Imagino um sistema de alerta (duendes?!) sempre que os quartos ficam vazios. Para se considerar nos custos das diárias. Resumo: a Maria Amélia estava de folga e a amiga confessou uma mania dela: qualquer documento esquecido no quarto era guardado dentro da Bíblia… incluía uma oração. Não vou aqui perder linhas e espaços pra contar outras peripécias da Maria Amélia. Devido ao incidente, ganhei uma diária extra e um jantar!  Por nossa conta, repetia o gerente. Chupa, Antonio Tabucchi! Chupa, Sami Patel!

Com a carteirinha reintegrada à minha bolsa, fui para o Flamengo e pedi uma volta inteira pela Lagoa antes que o taxi me deixasse na portaria. João, dois metros de altura, nos acompanhou até a sala da presidente, mostrei a carteirinha do meu pai, um recorte de jornal com a foto dele na Copa do Mundo – Suécia, 58, com a camisa do Flamengo e o papel do Cartório com as instruções. Ganhei uma camisa linda, autografada pelos jogadores e ainda a companhia do João para a cerimônia de espalhar meu pai pelo campo. Mais pra lá, joga pra lá. Pega mais sol. A irrigação funciona. É mais verde. Sorri. Voltei a carteirinha para dentro do livro da Maria Amélia. Semana passada, dois foram espalhados desse lado do campo. Fechei a caixa azul. João pediu o livro que eu segurava, abriu na página em que estavam os documentos de meu pai e leu: “O que foi é o que há de ser e o que se fez se fará novamente: nada há de novo debaixo do sol.” Chorei.

 

***

 

*Claudine M. D. Duarte é uma das fundadoras do Coletivo Editorial Maria Cobogó pelo qual publicou seus livros, Desencontos (2018) e Sete Pequenos Tumultos (2020).  Ontem, no Maracanã, o Flamengo venceu o Internacional, virou líder do campeonato e está a uma vitória de ser bicampeão nacional. Seria um domingo feliz para seu pai.

 

Imagem: @ffo_art inspirado por Ellen Terry (”Choosing”) (1864) – George Frederic Watts.