COCAR, CARNAVAL E CERVEJA - Maria Cobogó
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COCAR, CARNAVAL E CERVEJA

por Luzia Amélia Jakomeit*

 

Estava decidida a não escrever sobre a polêmica da “fantasia de índio”. Sequer tinha visto a foto da atriz. Mas à tarde, vi alguns compartilhamentos de um texto equivocado sugerindo como sair fantasiado de índio. Compartilhamentos postados por pessoas a quem respeito e gosto. Então cá estou.

Fui atrás da foto de Alessandra Negrini.

Sinceramente, de índio não tem nada. Absolutamente nada. Não entendi.

A atriz, de corpo escultural, veste um maiô verde de profundo decote na frente. E um adereço na cabeça que nem de longe, nem com boa vontade, lembra um cocar. Vamos começar pelo maiô.

As mulheres indígenas que ainda guardam as tradiçōes, e de contato recente com a sociedade nacional, andam nuas. E não é uma nudez sensualizada. Alessandra Negrini é de uma sociedade que sensualiza até com cigarro.

É uma nudez quase imperceptível. Uma nudez integrada ao ambiente em que vivem. Suas pinturas corporais são mínimas. Os homens se pintam bem mais, seja na guerra, com pinturas para assustar o inimigo, seja no dia a dia, ou nos rituais e celebrações. E essa diferença de pinturas se dá por razão simples. O macho da nossa espécie, a espécie animal, é bem mais enfeitado. Basta comparar o leão, com aquela juba espetacular e a leoa, com aquele rosto lavado. Porque no nosso reino, o reino animal, cabe ao macho conquistar a fêmea. Os hábitos foram mudados ao longo dos milênios e a sociedade ocidental acabou de vez com essa lei que ainda é natural em alguns povos que mantém um contato mais íntimo com a natureza.

Bom, olhei a roupa e achei bonita, mas tão indígena quanto a roupa que visto nesse momento é uma indumentária das mulheres do Tirol. Passei a ver o tal cocar. Pelo amor de Deus! Se aquilo é um cocar, eu sou polonesa puro sangue.

Então me pergunto, por que diabos toda essa celeuma se a Negrini está vestida como uma corista do Lido ou do Cassino da Urca. Só porque ela disse que era “roupa de índio”? É muita, muita munição desperdiçada.

Bom, e se fosse uma autêntica “fantasia de índio”? E que diabos é uma “fantasia de índio”? Qual o problema? Há algum desrespeito? Com certeza, não.

Pessoalmente, acho bem mais desrespeitoso os índios que conhecem sua cultura, que vivem dentro dessa cultura, vulgarizarem símbolos tais como o cocar, peça que é para rituais festivos e não para momentos de protesto ou de afirmação de indianidade. Ou então, pinturas corporais sem qualquer significado.

Convivo com diferentes povos indígenas, de Roraima ao Rio Grande do Sul desde maio de 1971. Sempre, em todos esses 49 anos passei um dia sequer sem lutar em defesa dos direitos das naçōes indígenas do Brasil. Não porque no meu corpo circule sangue do povo Makuxi. Tenho profundo orgulho da minha indianidade. Mas luto porque aprendi, desde criança, a lutar contra a opressão dos dominadores. De todos os dominadores, seja qual for a fantasia que usem.

E, nesse momento, quando mais precisamos de unidade para lutar contra uma dominação que está oprimindo todas as formas de vida que conhecemos, brigar por causa de uma roupa de Carnaval não é apenas desperdiçar energia com causas menores, mas, principalmente, manifestação de egos superdimensionados e diversionismos da pequena burguesia desorientada.

Há mais a fazer. Há mais a lutar.

***

 

*Luzia Amélia Jakomeit é jornalista e ativista das causas indígenas por uma vida inteira.