Maria Cobogó | A Dona de Brasília
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A Dona de Brasília

Por Elisa Matos

Sim, confesso, me sinto dona de Brasília.
E tenho crachá de livre acesso por todas as suas esquinas.
Faço parte do grupo de privilegiados que viu a Capital do Futuro tomar forma e tem orgulho das histórias que ajudaram a construir.

Pai, mãe, tio, tia, vizinhos… Os pioneiros! O pessoal da minha geração, e a de depois, todo mundo tem alguém próximo que veio enfrentar a crua terra seca do Cerrado para abrir os caminhos por onde hoje pisamos.

Meu pai foi um desbravador. Ainda no Rio de Janeiro, na Novacap, trabalhou na equipe de Lúcio Costa nos traçados de Brasília. Seu Flávio era desenhista de edificações – debruçado na prancheta, munido de lapiseira de ponta fina, régua T e a inseparável borracha verde – fazia erguer no papel as obras que virariam concreto. 

Trouxe a mulher e os cinco filhos para morarem na Vila Planalto, em 1965. Tinha vindo dois anos antes, morava na pensão da Parapapaco, na W3 Sul. Nunca esquecemos o sonoro nome que meu pai escolheu para a dona da pensão. Talvez porque ela falava feito um papagaio?

Minha mãe, enfermeira, foi trabalhar no Hospital Distrital. Eu e meus irmãos crescemos brincando na rua e estudando em escolas públicas. Programa de domingo: dar voltas de carro pela cidade; rodopiar entre as tesourinhas; olhar as vitrines da Galeria do Hotel Nacional; comprar lanche na padaria mais chique da cidade, a Santa Clara!

Minha juventude foi toda na Asa Sul e, claro, frequentei todos os espaços culturais, boêmios e transgressores do Plano. Com moderação, é claro, porque nunca fui uma garota rebelde, mas amava estar entre os rebeldes.

Primeiro Cine Karim, lanchonete Chaplin, Pamonhão Kalu, Teatro da Escola Parque, Cultura Inglesa. Concerto Cabeças na 311 Sul, Cine Brasília, Beirute, Beirute, Beirute. Bom Demais, Cafofo, festas no Lago Norte, festinhas no CO, na Arquitetura, na Comunicação, nas 400.

Endereços e lembranças que hoje em dia já são quase como um retrato na parede, papo de saudosistas. Mas que guardo como pedras preciosas, são fragmentos da minha vida! 

Ainda moro aqui, tive meus amores aqui, minhas filhas nasceram em Brasília. Estou ficando velha aqui! Motivos não me faltam para brigar com unhas e dentes em nome dessa cidade, que já se mostra tão tacanha. Por vezes, me sinto fraca para continuar na luta. Muitos desistiram, foram embora, voltaram para o mar.

Quando vejo minhas calçadas destruídas, ouço gritos histéricos dos infelizes, esbarro em aventureiros que vieram caçar moedas de ouro, também penso em arrumar minha mochila e pegar a estrada para o litoral. Mas é uma vontade boba, que logo passa. Trago em mim a impossível missão de não deixar o avião perder o rumo. Afinal, o nosso céu não é o nosso mar?

E por que estou contando tudo isso?

Porque hoje vivo rodeada de pessoas que não fazem parte desse roteiro. E jamais farão. Que ouvem minhas memórias como elas fizessem parte de um livro mofado. Que só conhecem uma W3 decadente; que nunca se sentaram sob o pilotis do bloco à noite para ouvir música na vitrola portátil com os amigos; muito menos experimentaram a emoção de plantar bananeira numa pilastra. Intrusos que tratam a Vila Planalto como invasão; duvidam que o Hospital de Base um dia se chamou Distrital e foi o melhor hospital público do Brasil. Beirute é bar de velho, “pastel com caldo de cana na Rodoviária? Feirinha da Torre aos sábados? Jantar no Roma? tá louca?”

Meu Deus, como o meu passado é cafona!

Devo acreditar nisso? Claro que não. Meu passado é especial e o melhor que eu poderia ter.

A falta de interesse pela Brasília profunda me irrita e me entristece. A Brasília deles é outra, ainda está em construção, não posso interferir ou corrigir as frases da história pessoal de ninguém.

Mas posso sim, é NÃO PERMITIR que a minha história seja apagada por eles. Nem a minha, nem as de todos que viveram a construção. Ou entenderam a essência da cidade. A história de Brasília pertence a uma multidão de sonhadores que deu a vida, gerou vidas, trouxe a água, energia, sementes, cores, espaços, cantos, recantos, arte, mistérios. Os muitos mistérios que cercam o quadrado mais iluminado do planeta. 

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