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	<title>Arquivos crônicas - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
	<lastBuildDate>Mon, 16 May 2022 02:12:54 +0000</lastBuildDate>
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		<title>TODOS JUNTOS SOMOS FORTES</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 May 2022 00:07:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Christiane Nóbrega *| Uma gata, o que é que tem? - As unhas E a galinha, o que é que tem? - O bico Dito assim, parece até ridículo um bichinho se assanhar E o jumento, o que é que tem? - As patas E o cachorro, o que é que tem? - Os</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/christianenobrega/">Christiane Nóbrega</a> *|</strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;">Uma gata, o que é que tem?<br />
&#8211; As unhas<br />
E a galinha, o que é que tem?<br />
&#8211; O bico<br />
Dito assim, parece até ridículo<br />
um bichinho se assanhar<br />
E o jumento, o que é que tem?<br />
&#8211; As patas<br />
E o cachorro, o que é que tem?<br />
&#8211; Os dentes<br />
Ponha tudo junto e de repente vamos ver o que é que dá</p>
<p style="text-align: right;">Sergio Bardotti/Chico Buarque/Luis Enrique Bacalov em <em>Todos Juntos (2017) </em></p>
<p style="text-align: right;">
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>Das coisas que ouvimos ao longo da caminhada, algumas merecem resposta. Escolhi uma delas. Não uma resposta qualquer, uma resposta afetuosa, quiçá poética. Uma resposta elogio. Uma resposta exaltação.</p>
<p>Ouvi por aí que nos juntamos, as Marias Cobogós, porque não conseguimos nada sozinhas. Sim, somos mulheres que não conseguem sozinhas. Sim, para que nossa literatura fosse/seja possível nos juntamos. Assim, mesmo. Você tem razão.</p>
<p>Começamos tímidas&#8230; um café e muita simpatia. Evoluiu para uma bebidinha e muitas gargalhadas. Por último chegaram as lágrimas, elas selam as parcerias como ninguém. Daí foi ladeira abaixo, outras vezes ladeira acima. Aqui a Santa ajuda a descer e subir.</p>
<p>Logo vieram à mesa projetos de raios de romances, textos nunca lidos, emoções nunca verbalizadas, desenhos nunca coloridos e choros mal chorados. Tudo temperado com pitadas de síndrome de impostora.</p>
<p>Quase que em uma expedição arqueológica dentro uma das outras, nossas gavetas foram sendo abandonadas pelos textos para povoar o blogue do coletivo e as páginas dos livros. Muitas vezes a outra se comportando feito a mãe que lá da plateia incentiva o filho na apresentação da escola, outras vezes arrumando o cabelo desgrenhado da outra, outras pagando mesmo, afinal, <em>eu pago</em>, não eu, alguém que não vou dizer o nome, mas ela sabe quem é&#8230; Outras vezes carregando a caixa ou dando absolutamente o mesmo presente de aniversário para todas.</p>
<p>Assim, um texto escrito que não se tinha certeza se era bom, um livro pronto sem revisar, um lançamento que não queria ser solitário se tornou uma <em>Baleia</em> que nada em meio a um <em>Hiato</em>. Uma <em>Guerra</em> que se encontra em um <em>Atlas</em>, tudo em um <em>Amor</em> pra lá de <em>Concreto</em>.</p>
<p>Para gente! Lógico que não é sempre bom. Mas pior seria sozinha, até porque nem seria nada. Temos mal humores e mal-entendidos. Outras vezes damos um tempo mesmo, só ignoramos o grupo por umas horas ou até dias e o gosto ruim na boca passa. Passa porque temos a certeza de que sozinha não desocuparíamos nossas gavetas, não venderíamos em uma noite quase mil livros, não encheríamos por tantas vezes o Beirute, não seríamos por tantas vezes capa do Correio e até mesmo finalistas do Prêmio Jabuti.</p>
<p>Depois de tudo isso, respondo mais uma vez ao feliz e acertado comentário feito, dizendo que sim, você tem toda razão, nos juntamos porque sozinhas não podemos, não somos e, sobretudo, não queremos.</p>
<blockquote><p>Todos juntos somos fortes</p>
<p>Somos flecha e somos arco</p>
<p>Todos nós no mesmo barco</p>
<p>Não há nada pra temer</p>
<p>&#8211; Ao meu lado há um amigo</p>
<p>Que é preciso proteger</p>
<p>Todos juntos somos fortes</p>
<p>Não há nada pra temer</p></blockquote>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>*<a href="https://www.instagram.com/chrisnobrega/">Christiane Nóbrega</a></strong> é escritora e advogada. Escreve livros infanto-juvenis. Tem vários, inclusive <em>Fios</em>, finalista do Prêmio Jabuti, em 2020. Lançou seu primeiro romance <em>Hiato</em> (2021) – que toda mulher deveria ler, e os homens também.</p>
<p><strong>Imagem: </strong><em>Os Saltimbancos, </em>peça teatral com direção de Hugo Rodas e elenco formado pela <a href="https://www.instagram.com/agrupacaoteatralamacaca/"><strong>Agrupação Teatral Amacaca (ATA)</strong></a>, em 2019 no CCBB, em Brasília-DF (foto Diego Bresani/divulgação)</p>
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		<title>Xixi na Pirâmide</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/xixi-na-piramide/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Apr 2022 00:07:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[#brasília62anos]]></category>
		<category><![CDATA[#brasíliadeabril]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Carolina Schettini * |   Os astecas construíram pirâmides sem cume porque só Deus pode ser completo. Estava eu sentada embaixo de uma pirâmide irregular, incompleta, sem cume. O Teatro Nacional. Ou melhor, estava eu sentada em uma das poltronas de veludo verde do Teatro Nacional. Do meu lado esquerdo, Marcelo; do meu lado</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Carolina Schettini *</strong> |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os astecas construíram pirâmides sem cume porque só Deus pode ser completo. Estava eu sentada embaixo de uma pirâmide irregular, incompleta, sem cume. O Teatro Nacional. Ou melhor, estava eu sentada em uma das poltronas de veludo verde do Teatro Nacional.</p>
<p>Do meu lado esquerdo, Marcelo; do meu lado direito, Giselle e, ao lado dela, Rodrigo. Era nossa primeira saída noturna de carro. Marcelo foi o primeiro a tirar a carteira de motorista. Nossa estreia não poderia ser mais perfeita: embalada pelo show do Oswaldo que deixou o roteiro de lado e cantou todas as músicas pedidas pela plateia. Um de nós gritou &#8220;Estrelas&#8221;. &#8220;Estrada Nova&#8221; só seria composta anos mais tarde.</p>
<p>Acabado o show, a indecisão. &#8220;E aí? Vamos pra onde?&#8221;; &#8220;Tem aniversário do Severo&#8221;; &#8220;Do Severo?&#8221;; &#8220;Não quero ir.&#8221;; &#8220;Podemos dançar na Scaramouche!&#8221;; &#8220;Lá é caro!&#8221;; &#8220;Giselle coloca o nome na porta&#8221;; &#8220;Vamos pro carro, a gente resolve&#8221;.</p>
<p>Entramos os quatro. Marcelo dirige para o Eixo Monumental sem saber ao certo que rumo seguir. &#8220;Preciso fazer xixi&#8221;. &#8220;Para na pizzaria Dom Bosco&#8221;. &#8220;Na Dom Bosco não vou.&#8221;; &#8220;É o mais perto&#8221;; &#8220;Vamos no Skys&#8221;. &#8220;O banheiro do Skys é sujo&#8221;; &#8220;Se a gente tivesse ido ao aniversário do Severo…&#8221;; &#8220;Vamos ao Templo da Boa Vontade&#8221;; &#8220;Onde?&#8221;; &#8220;Eu ainda não conheço a pirâmide&#8221;. &#8220;O banheiro é de mármore!&#8221;.</p>
<p>Marcelo pega então o caminho até o final da Asa Sul. Estaciona na frente do templo. &#8220;Adoro vir aqui&#8221;; &#8220;Só vim uma vez e estava de bermuda. “Me emprestaram uma calça.&#8221;; &#8220;E serviu?&#8221;; &#8220;Eu nunca vim&#8221;.</p>
<p>Ao contrário do Teatro Nacional, o Templo da Boa Vontade é uma pirâmide perfeita. Com sete faces e sete pontas. Tudo baseado no número sete, o número da perfeição. Entramos. O enorme salão com uma espiral desenhada no chão encanta os visitantes. Antes de ir ao banheiro, tiramos o sapato, andamos na parte preta, sete faixas escuras, sentido anti-horário, representando a busca do ser humano pelo seu equilíbrio.</p>
<p>Paramos um a um no centro, em cima da placa de bronze que representa a descoberta da luz, onde erguemos as mãos em direção ao cristal sagrado de vinte e um quilos. Voltamos no outro lado do caracol, nas sete faixas claras, agora no sentido horário, uma trilha iluminada pelos valores morais.</p>
<p>Os meninos se sentam em um dos sete bancos pretos enquanto Giselle e eu vamos à procura do banheiro. O tal banheiro chique de mármore. O banheiro de mármore <em>calacatta oro</em>, com louças e metais de design diferenciado, douradas, luzes embutidas, papel toalha dobrado em cima da pia, portas de madeira maciça.</p>
<p>Na volta para casa foi um tal de &#8220;fez xixi no banheiro de mármore&#8221; que chegamos rindo à festa de aniversário do Severo. Depois desse dia, o banheiro virou<em> point</em> secreto nas noites em que saíamos os quatro ou os três ou com outros.</p>
<p>Tudo isso foi antes. Antes do Oswaldo pintar todo seu apartamento e os móveis e o piano. Antes do Marcelo namorar uma velha, depois uma goiana, depois uma doida, depois sumir. Antes do Rodrigo se mudar para São Paulo. Antes de Giselle e eu virarmos comadres. Aconteceu muito antes do Teatro Nacional fechar as portas para uma reforma eterna.</p>
<p>Só a pirâmide continua aberta vinte e quatro horas. Fiquei mais de trinta anos sem colocar meus pés para girar descalços na espiral de duas cores. Um dia, fui a um médico e estacionei na frente da pirâmide. Bastava atravessar a rua em um sinal com faixa de pedestres. Fui bisbilhotar. Tirei os sapatos, caminhei nas faixas e, ao procurar pelo banheiro, não estava mais onde eu me lembrava. Minha memória me traiu ou mudaram de lugar? Perambulei por várias lojas de venda de cristais e por um corredor de carpete enfeitado, lotado de quadros coloridos com símbolos que pareciam representar os signos. Andei por outro espaço entulhado com mosaicos e um bazar. Passei pela fonte de água energizada e pelo mural de madeira em formato de peixes criado por Athos Bulcão para, enfim, encontrar o banheiro.</p>
<p>Um banheiro comum de repartição pública. Mármore? Pedacinhos de granito indiano, preto, do mais barato, próximo ao chão. Azulejos brancos de necrotério. Louças prateadas, descascadas, de plástico. Portas comuns. Não era esse o nosso banheiro.</p>
<p>Uma pirâmide perfeita com um banheiro incompleto! Alguém precisava ser o culpado pela minha decepção. Certeza de que foi o tempo, um senhor cheio de vontades. Embaralha lembranças. Mistura memórias. Cria nós. Ou os desata. No passado, quatro amigos deram risadas por causa do xixi no mármore. Se hoje nem isso existe mais, sobra a música do Oswaldo: &#8220;velhos amigos vão sempre se encontrar&#8221;.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p>Para <strong>Carolina Schettini</strong>, o céu é mar. Retas são poesia. Brasília é cenário de uma boa história. Nascida em Belo Horizonte, reside no cerrado desde sempre. É casada e tem três filhos brasilienses. Tem dois romances publicados, dois livros infantis e textos em diversas coletâneas. Adora conversar  em seu perfil no Instagram: <a href="https://www.instagram.com/voandovou.com.br/">@voandovou.com.br</a>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Imagem: </strong>Legião da Boa Vontade, em foto gentilmente cedida por <strong>Joelson Maia</strong>, um fotógrafo apaixonado por Brasília. Confiram: <a href="https://www.instagram.com/joelsonmaia_/">@joelsonmaia_</a></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Brasiliense sim, com muito orgulho!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Apr 2022 00:07:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por Marcia Zarur * |   Já perdi a conta das vezes que ao pegar um taxi na saída de algum aeroporto tive o seguinte diálogo: - Bom dia, está vindo de onde? - De Brasília. - Ah, a terra dos corruptos?! As respostas, algumas excessivamente mal-humoradas, vêm à ponta da língua, mas acabo caindo no</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/marciazarur/">Marcia Zarur</a> * |</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Já perdi a conta das vezes que ao pegar um taxi na saída de algum aeroporto tive o seguinte diálogo:</p>
<p>&#8211; Bom dia, está vindo de onde?</p>
<p>&#8211; De Brasília.</p>
<p>&#8211; Ah, a terra dos corruptos?!</p>
<p>As respostas, algumas excessivamente mal-humoradas, vêm à ponta da língua, mas acabo caindo no velho clichê:</p>
<p>&#8211; A maior parte dos ladrões é o resto do país que manda pra lá, sabia?!</p>
<p>Até hoje é essa imagem distorcida que uma parte do Brasil tem de Brasília. O plano de JK, de fato, enfrentou resistências. Muitos viam como “uma ideia mirabolante”, plantada no meio do cerrado. Mas o fato é que a cidade vingou, cresceu e floresceu. Há mais 30 anos é considerada Patrimônio Mundial pela UNESCO e encanta moradores e visitantes pela arquitetura surpreendente e o plano urbanístico revolucionário. É o primeiro bem cultural do século XX a ser incluído na lista de lugares de valor universal excepcional. Não há nada parecido em nenhum lugar do mundo! As pessoas podem gostar ou não, mas nunca podem afirmar que viram algo parecido.</p>
<p>Prédios de seis andares nos possibilitam ter a vista privilegiada do céu pra qualquer lugar que se olhe. Cada por do sol é um espetáculo de tirar o fôlego, com uma paleta de cores inacreditável. Cidade céu!</p>
<p>A liberdade é a alma da cidade. Construções erguidas sobre pilotis deixam o pedestre à vontade para andar por onde quiser, e garantem a noção clara e democrática de que o chão pertence a todos. Cidade livre!</p>
<p>Como numa sinfonia, temos escalas, os ritmos e as pausas, em imensas áreas verdes que nos conferem saúde e leveza na melodia diária. Cidade parque!</p>
<p>Somos a mistura das ‘gentes brasileiras’, vivendo cada segundo nessa cidade inventada, planejada, mais pulsante do que nunca, que abraça e acolhe quem vem de fora. Cidade gente!</p>
<p>Somos os cobogós, os pilotis, e as superquadras. Somos Ailema Bianchetti, Vladimir Carvalho, Luis Humberto e Valéria Cabral. Somos Chico Simões, Vera Ramos, Hugo Rodas, José Carlos Coutinho e Aldo Paviani. Somos nossos avós, nossos pais, nossos filhos e todos os pioneiros. Somos uma síntese do Brasil, misturando culturas, hábitos, sotaques e crenças.  Somos muitos, nascidos aqui ou abraçados por essa cidade única.</p>
<p>Muito prazer, somos Brasília!</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p><strong>*<a href="https://www.instagram.com/marciazarur/">Marcia Zarur</a></strong> é jornalista, escritora, fundadora do Coletivo Maria Cobogó, apaixonada por Brasília e por tudo que diz respeito à cidade. Tem dois livros publicados: <em>Amor Concreto</em> e <em>Mestres Cobogós/Glenio Bianchetti</em>. Em produção, junto com Ana Maria Lopes, o próximo volume de <em>Mestres Cobogós: Athos Bulcão</em>. No canal do <a href="https://www.youtube.com/channel/UCyarg9ymeIKHlhELf92u0Gw">youtube do SESC DF</a>, Marcia pode ser vista no programa que idealizou &#8211; CULTURA AO QUADRADO &#8211; conversando com expoentes da arte e cultura de nosso amado quadradinho. Confira.</p>
<p><strong>Imagem:</strong> Panteão da Pátria e da Liberdade &#8211; Memorial Tancredo Neves envolvido pelo azul de Brasília | foto de <strong>Joelson Maia</strong> em <a href="https://www.instagram.com/joelsonmaia_/">@joelsonmaia</a> (02.maio.2020)</p>
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		<title>TRISTEZA SUAVE</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/tristeza-suave/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Apr 2022 00:07:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
		<category><![CDATA[tristeza]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Eva Leones * | Na posição em que estava, quase na entrada do salão, eu não conseguia ouvir muito bem o que dizia a cliente com quem a manicure conversava. Ou talvez eu tenha me colocado (de propósito? agora me pergunto) no ângulo exato para ouvir apenas as suposições e o relato, quase uma</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">por <strong>Eva Leones *</strong> |</p>
<p>Na posição em que estava, quase na entrada do salão, eu não conseguia ouvir muito bem o que dizia a cliente com quem a manicure conversava. Ou talvez eu tenha me colocado (de propósito? agora me pergunto) no ângulo exato para ouvir apenas as suposições e o relato, quase uma elegia, que aquela mulher, sentada no banquinho baixo, meio agachada, contava.</p>
<p>Como foi que aquilo ali me capturou? Onde antes, meu Deus?</p>
<p>Eu estava apenas de passagem em mais uma cidade &#8211; como a cor de tinta do meu cabelo que ia, de novo, trocar -, e nunca soube o motivo de não poder desperdiçar nada daquela tarde, daquela luz, daquela delicadeza, entre inocente e absurda, que habitava aquela historinha de passarinho.</p>
<p>&#8230;&#8230;..</p>
<p>&#8211; É assim todas as tardes. Ele fica aí nesse choro triste. Depois a companheira volta e ele canta que é uma beleza! Daqui a pouco, mais uns dez minutos, e a senhora vai ver.</p>
<p>No começo eu ficava curiosa e ia olhar&#8230; Uma tarde vi a fêmea vindo e os dois se encontrando. Uma festa! Faz quase um ano que eu trabalho aqui. Já me acostumei. Nem preciso olhar o relógio pra saber o que está acontecendo. Natureza, né? Passarinho se guia pela luz do sol e pelo calor do ar. Já reparou que no meio do dia a gente quase não vê eles voando? Não devem aguentar a quentura!</p>
<p>Esses dois aí, acho que são um casal mesmo. E ele é velhinho ou tem algum machucado e não consegue voar. Essa hora da tarde, ele sente a companheira retornando&#8230; Deve ter um pouco de ciúme e de medo&#8230; de acontecer alguma coisa com ela&#8230; Ou, vai ver, pensa que vai acabar esquecido. Uma vez eu li que muitos passarinhos têm só um amor pra vida toda. Esse aí deve ser assim. É um bicho bonito, né?</p>
<p>Às vezes fico querendo que alguém faça uma música com a história deles. Tem muita música com passarinho. Aquela caipira antiga do João-de-barro eu não gosto, não! História de traição, de macheza&#8230; Me falaram que tem uma nova bem diferente, de amor&#8230; Mas ainda não ouvi.</p>
<p>Poeta de passarinho? Conheço ainda não! Fala de novo o nome&#8230; E escritora mulher?&#8230; Tem?&#8230; Vou procurar.</p>
<p>Conheço quase todo mundo aqui na comercial, sim! Faz tempo que a senhora se mudou pra Brasília? É a primeira vez que vem no salão, né? Eu já vi a senhora passando na rua&#8230; Semana passada, não foi? Um vestido azul bem comprido, eu acho.</p>
<p>Pronto! A cor ficou boa pra senhora, combinou com a sua pele&#8230; olha o nome que engraçado!&#8230; Se a senhora quiser continuar usando esse tom, eu peço pra Marli comprar mais e deixar aqui&#8230; Nome de esmalte muda muito&#8230;</p>
<p>Obrigada, viu?! Se quiser, pode marcar hora pelo telefone. Não esquece o cartão da gente.</p>
<p>Olha lá! Bem na hora! Ainda bem que deu tempo de a senhora ouvir a felicidade dele! Não lhe disse que era uma festa? Tão bonito o amor dos dois! Me dá uma ternura, sabe?! Às vezes cai uma lágrima. Acho que é porque o canto de alegria dele, dos dois juntos, leva a gente longe&#8230; Que nem a luz da tarde nessa hora.. . Tem uma tristeza também, né? Uma tristeza que não é profunda&#8230; é até suave&#8230; e a gente não sabe explicar.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>*</strong></p>
<blockquote><p><strong>um P.S. para Lygia: </strong></p>
<p>Este texto estava pronto há algumas semanas, e sua publicação já estava prevista para agora, quando nos chegou a notícia do falecimento da querida escritora Lygia Fagundes Telles. Ela também era autora de textos com passarinhos.</p>
<p>Lembramos, por exemplo, dos contos &#8220;História de Passarinho&#8221; (do livro &#8220;Invenção e memória&#8221;) e &#8220;Pomba Enamorada ou Uma História de Amor&#8221; (de &#8220;Seminário dos Ratos&#8221;). No primeiro, um homem, sentindo-se sufocado no casamento, se compara a um passarinho preso com quem convive; no outro, uma mulher se enche de vida e de esperança e se permite o encontro com um amor, mesmo que pareça quase milagroso isso acontecer.</p>
<p>Pequenas cenas e questionamentos do cotidiano que intrigam e comovem. De algum modo, os dois textos da escritora dialogam com esta nossa crônica. Esta &#8220;Tristeza suave&#8221; passa a ser a nossa elegia de homenagem para Lygia. É também uma forma de agradecimento e de reverência à escritora paulista e à beleza inquietante e instigante de seus textos.</p></blockquote>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p><a href="https://www.instagram.com/tatu.com.insonia/"><strong>*Eva Leones</strong></a> é escritora e doutora em Letras pela USP. Professora,  ministra cursos e oficinas literárias, sempre sobre a reflexão sobre escritores, a poesia, a leitura e a cultura popular. Tem um livro de poesias editado por nosso Coletivo &#8211; TEMPO/PÁSSARO &#8211; que pode ser adquirido pelo <a href="https://www.instagram.com/domcaixotesebo/">Sebo Dom Caixote.</a> Neste mês, em comemoração ao aniversário de Brasília, apresentará uma série de diálogos e reflexões sobre a cidade e sua relação com a leitura e literatura. Acompanhe em <a href="https://www.instagram.com/travessiasdaliteratura/"><strong>Travessias da Literatura</strong>.</a></p>
<div class="fusion-meta-info"></div>
<div><strong>Imagem: </strong>Gaturamo verdadeiro (Euphoria violacea) | Foto por <a href="https://www.instagram.com/sbzarur/"><strong>Sandra Beatriz Zarur</strong></a>.</div>
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		<title>DANÇA DA CHUVA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Mar 2022 00:07:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[chuva]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[dança]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Gabriela Braga * |   Cê tem uma coisa que move a sua atenção quando acontece, invariavelmente? Eu tenho algumas. E talvez a mais poderosa seja a chuva. Não importa onde esteja. No mato, pertinho da natureza é sempre mais poderoso, esse princípio. O silêncio, a fuga dos bichos, o vento, o primeiro cheiro</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Gabriela Braga *</strong> |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Cê tem uma coisa que move a sua atenção quando acontece, invariavelmente?</p>
<p>Eu tenho algumas. E talvez a mais poderosa seja a chuva. Não importa onde esteja. No mato, pertinho da natureza é sempre mais poderoso, esse princípio. O silêncio, a fuga dos bichos, o vento, o primeiro cheiro de terra e planta molhada (às vezes o cheiro dos bichos molhados. Meu cachorro, em especial).</p>
<p>Mas, em plena cidade, ontem, fui pega por um encantamento que me fez dirigir abaixo da velocidade, pegar a faixa direita e vir pra casa quase hipnotizada pelo vapor que subia do asfalto. Ondas e ondas e ondas de uma fumacinha linda resultante do choque entre o calor do asfalto e o frio da água, logo quando a chuva começa.</p>
<p>Eu ali, bem desligada do mundo, lendo os desenhos, a dança. Deslumbrada que chama, né?</p>
<p>Pois. Paro num sinal e um moço que vende música por uns trocados ali larga o instrumento na caixa (um sax) e sai dançando com aqueles mesmos movimentos de fumaça úmida&#8230; Como se fosse um par.</p>
<p>Eu, besta, sem conseguir piscar, ria por trás da máscara, mas meu olho não disfarçou a emoção e logo se encheu de água. Findo o espetáculo, ele chegou na minha janela, pra recolher meu ingresso. Eu estendi a mão com o que tinha em espécie. Ele pegou, simulou um beijo pra mim, no dorso da própria mão, e disse que, se pudesse, nem pegava o dinheiro, porque minha atenção era tudo que ele precisava depois de um dia inteiro de invisibilidade e nenhuma troca. E que valia muito mais pra ele a minha lágrima de emoção.</p>
<p>Não preciso dizer que dali em diante chorei. Desaguei, como a chuva, cada vez mais intensa, forte, lavando tudo. Chorei a dor de um mundo que não ouve música, não vê o moço dançar, não sente a chuva. Não se irmana com nada.</p>
<p>E cheguei em casa, sã, salva. Literalmente. O céu já se mostrava, entre estrelas e nuvens, mais uma vez. Bem a tempo de abrir uma janelinha e deixar passar os últimos tons de um pôr do sol que pintou tudo de um laranja-dourado.</p>
<p>Disseram que, do outro lado da cidade, teve arco-íris duplo!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>*<a href="https://www.instagram.com/belabela72/">Gabriela Braga </a></strong>é produtora de Cultura e Comunicação, gestora de Relacionamento, Projetos e Pessoas, produz conteúdo multimídia, é assessora de imprensa e tem expertise em tudo o que se refere à comunicação. Além disso, é dona de uma sensibilidade ímpar e de textos que emocionam.</p>
<p>Imagem: foto por <strong>Jane Hobson</strong></p>
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		<title>OLHAR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Feb 2022 00:07:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[olhar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Lucilia de Almeida Neves Delgado * |   Trago na memória do meu olhar infindáveis olhares que colhi, em uma trajetória que vai alcançando setenta anos de vida plena e múltipla. São tantos e com significados tão distintos que chego a duvidar de sua permanência nas minhas retinas e lembranças. Alguns, surgem de modo</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Lucilia de Almeida Neves Delgado * |</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Trago na memória do meu olhar infindáveis olhares que colhi, em uma trajetória que vai alcançando setenta anos de vida plena e múltipla.</p>
<p>São tantos e com significados tão distintos que chego a duvidar de sua permanência nas minhas retinas e lembranças. Alguns, surgem de modo aleatório, quando me ponho a recordar das retas, curvas, esquinas, subidas, descidas e paradas da vida. Trazem pessoas que encontrei na indecifrável aventura do viver. Todas são partes de quem sou.</p>
<p>O olhar de despedida, que brotou no semblante de meu pai, quando parti para construir minha vida de adulta. Olhar que escorreu até suas mãos, que choraram um suor gelado. Meu tato as captou e as registrou, em mim, para sempre.</p>
<p>O olhar, cotidiano, de medo incontido, de uma vizinha da rua onde passei minha infância. Aquele olhar ainda dói em meus olhos, como se com ela tivesse cruzado comigo há poucos minutos. Meus sentidos ainda ficam alertas, pois era sempre agredida pelo marido que chegava devastado pelo álcool. Os vizinhos socorriam, mas a cena se repetia.</p>
<p>O olhar de alegria infantil de minhas amigas que, comigo, trepavam em árvores e muros para colher jabuticabas, ameixas e amoras. Frutas que continuam enchendo meu semblante de felicidade e meus olhos de prazer.</p>
<p>Os olhares que enfeitavam os bailes de carnaval da minha juventude, quando confeccionar, vestir fantasias e dançar noite adentro, eram festas que mobilizavam todos os sentidos, enfeitando-os com o primeiro amor, o primeiro beijo, sambas e marchinhas. Eternas nos meus ouvidos.</p>
<p>O olhar rígido, rigoroso e inflexível da minha professora de português no antigo curso ginasial, que via pecado, desrespeito e desinteresse na alegria, nos sorrisos e risadas. No tempo do hoje, quando ainda o vejo, sinto medo e vontade de contestação.  Era um olhar triste. Jamais o esqueci.</p>
<p>O olhar de ternura e fantasia da mãe preta a me contar histórias de anjos, santos e também de fantasmas, almas do outro mundo, cobras que enterradas vivas, reapareciam enormes e peludas para se vingar de quem as maltratou. Ofertou-me pensamento imaginativo, que enxergo como importante coluna, entre as que me sustentam.</p>
<p>Olhares de euforia, reunidos em um só olhar de festa, quando muitos de nós, adolescentes que crescemos juntos na mesma rua, fomos aprovados no vestibular. Naquele dia, de um janeiro distante, sobraram abraços em um quarteirão de uma cidade do interior de Minas Gerais, lugar onde gestos diários de empatia nos alimentaram por muitos anos.</p>
<p>Olhares de pavor dos amigos, jovens adultos, que começaram a se esconder, pois os tentáculos de um regime autoritário, em dura perseguição, os buscavam, para que sentissem o peso imposto aos que ousassem praticar atos de divergências. Meus olhos de lágrimas, os reencontra. Sempre!</p>
<p>Olhar de surpresa amorosa, quando cruzei pela primeira vez com meu companheiro de vida e senti arder em mim a vontade de poder olhá-lo com paixão e amor. Ganhei de presente uma troca de olhares que se multiplicou e inúmeras vezes mudou de tom. Troca de olhares que nunca perdemos.</p>
<p>Olhares de susto e alegria, que gritavam para o mundo, a festa e o medo da maternidade, quando nasceram minhas filhas. Olhares que se fizeram contradições, culpas, euforias, na longa trajetória que percorremos e continuamos a percorrer. Elas em mim e eu nelas. Elas fora de mim e eu fora delas.</p>
<p>Olhares de observação e interesse, de milhares de rostos juvenis a assistirem minhas aulas, a beberem conhecimento, a me ofertarem desafios e afetos, a me realizarem no dia a dia da vida profissional. Neles transbordaram palavras, sons e imagens, no tempo em que fui me fazendo professora universitária.</p>
<p>Olhares de prazer a brotarem de minhas pupilas enfeitiçadas por livros e seus autores. Por poemas, teorias, romances, processos históricos, contos e crônicas. São olhares que sempre trazem o brilho da leitura para mim.</p>
<p>Olhar de paixão madura e vibrante que pude observar em uma feira de livros. Ela a assistir seu companheiro de vida a discorrer sobre as utopias que brilharam no ano de 1968. Ele a lembrar-nos de como é viver com esperança. E nós a escutamos e olharmos para o amor que se exibia em dança de cumplicidade. Jamais poderíamos imaginar que, um ano depois a utopia seria somente História.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p><strong>*Lucilia de Almeida Neves Delgado</strong> é escritora, poeta, historiadora, professora universitária, ávida leitora e possuidora um olhar poderoso para as coisas importantes da vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A PALO SECO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Feb 2022 00:07:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Eva Leones * | Estou, estamos, de volta às ruas, de volta às instituições literárias e aos centros culturais, de volta às aulas, de volta às leituras, aos saraus, às conversas "inteligentes" e a esboços de escrita. Mas será mesmo uma volta, um retorno? Noto que algo falta, algo me falta, algo se perdeu,</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://www.instagram.com/tatu.com.insonia/"><strong>Eva Leones</strong> </a>* |</p>
<p>Estou, estamos, de volta às ruas, de volta às instituições literárias e aos centros culturais, de volta às aulas, de volta às leituras, aos saraus, às conversas &#8220;inteligentes&#8221; e a esboços de escrita.</p>
<p>Mas será mesmo uma volta, um retorno? Noto que algo falta, algo me falta, algo se perdeu, ou está se perdendo, numa estranha mistura de nostalgia e pressa. O que fazer? O que é possível ainda fazer?</p>
<p>Talvez seja um sinal do tempo, este espantalho que distribui e redistribui prêmios e espantos em meio a uma pandemia, a um mundo convulsionado e a uma miséria maior nas ruas, nos campos e nas relações.</p>
<p>Talvez, no meu caso, seja apenas cansaço e o gosto amargo da teimosia de quem segue em frente, com e apesar de&#8230; Com e apesar da vida e da literatura.</p>
<p>Visito Carolina e Clarice, me permito a inclusão entre seus dois rostos na parede maior da lanchonete do Instituto Moreira Salles, o IMS-Paulista. Uma fotografia pra colocar no Instagram. Uma vaidade que disfarça o desconforto de ter de mostrar, de ter de dizer, de ter de &#8211; ah, a máscara! &#8211; aparecer.</p>
<p>Como a espelhar meu estado de espírito, as duas exposições se completam, se excluem e representam dois modos diferentes de fazer uma curadoria, de propor uma mediação e de compreender o papel da literatura nos dias de hoje.</p>
<p>Carolina Maria de Jesus, nascida em 1914 e reconhecida escritora na década de 1960, tem um número bem maior de visitantes. Boca a boca, a divulgação vai ressaltando a beleza e a necessidade de resgatar e fortalecer esse verdadeiro levante que é a sua obra, que é sua vida.</p>
<p>E a galeria se enche de gente.</p>
<p>Carolina, uma mulher com fome, uma mulher brasileira negra com fome e com desejo de festa e de um lugar no Brasil (&#8220;um Brasil para os brasileiros&#8221;), uma mulher com a urgência de ter direito de ter um nome, um nome de escritora. Uma mulher e suas peripécias nos dias e noites de trabalho e atrevimento.</p>
<p>Clarice Lispector, nascida em 1920, uma refugiada de país e de língua. Ela também de uma raça perseguida e senhora de outra fome. Outra fome de nome e de escrita.</p>
<p>A &#8220;Constelação Clarice&#8221;, pelo menos à primeira vista, parece afastar o visitante. A iluminação e as cores propõem uma densidade e uma opacidade maiores, reforçando mistérios e abstrações.</p>
<p>Duas exposições estranhamente díspares. Sim, a festa Carolina chama o visitante; a estrela Clarice está distante, inatingível, como um ovo sobre a mesa? como a imensidão/escuridão das perguntas na noite?</p>
<p>Na outra semana, abro o site do UOL e me deparo &#8211; me firo &#8211; com algumas flechas do escritor Julián Fuks. O texto, &#8220;Procura-se com toda urgência: a literatura está desaparecida&#8221;, não é apenas o relato de uma crise; é também uma espécie de beliscão no torpor em que estamos e uma forma de arranhão na maciez do que ainda nos atrevemos a chamar de literatura. Clarice está na sua lista. É possível colocar Carolina lá também. As duas foram contemporâneas e morreram no mesmo 1977. São de outro tempo.</p>
<p>E o nosso tempo? Onde está a literatura hoje é o que pergunta Julián Fuks. Onde ela vive? Ela está viva? O que é uma literatura viva?</p>
<p>Uma literatura capaz de espicaçar os sentidos, provocar a atenção do mundo e sobre o mundo &#8211; os mundos &#8211; e da linguagem e sobre a própria linguagem? Uma literatura, uma arte, &#8220;a palo seco&#8221;, onde estará?</p>
<p>Encontro em Belchior um trecho de música que me atinge em cheio:</p>
<blockquote><p>&#8220;&#8230; quero que esse canto torto/ feito faca/ corte a carne de vocês&#8221;</p></blockquote>
<p>Ele também já se foi; é de outro tempo. Ou não? A literatura é sempre agora. E agora, literatura?</p>
<p><strong>* * *</strong></p>
<p><strong>*Eva Leones</strong> é escritora, poeta e doutora em Letras pela USP. Baiana de nascimento, mora em São Paulo, onde promove cursos e oficinas de literatura e formação de leitores e escritores. Seu livro <em>Tempo/Pássaro</em> (2018) é uma edição do Coletivo Maria Cobogó. Acompanhem <em><a href="https://www.instagram.com/travessiasdaliteratura/">Travessias da Literatura.</a></em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Imagem: foto de Don Shin via Unplash</p>
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		<title>DOIS FUSCAS E UM IRMÃO</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/dois-fuscas-e-um-irmao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Feb 2022 09:00:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M.D.Duarte  * | Um fusca não dura cinquenta anos. Foi a primeira coisa que pensei ao ver o fusca azul parado na porta da minha casa. Fiz as contas. Não. Com certeza não era aquele. A placa? Quem se lembra de placas? O Rain Man. Mas ele não conheceu o fusca azul da</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/"><strong>Claudine M.D.Duarte  * |</strong></a></p>
<p style="text-align: left;">Um fusca não dura cinquenta anos. Foi a primeira coisa que pensei ao ver o fusca azul parado na porta da minha casa. Fiz as contas. Não. Com certeza não era aquele. A placa? Quem se lembra de placas? O <em>Rain Man</em>. Mas ele não conheceu o fusca azul da minha tia.  É propriedade das lembranças que partilho com meus irmãos.</p>
<p>Nós éramos quatro. E ainda tinha um primo. Na frente, pai e mãe. O pai dirigindo. A mãe dizia: <em>Haroldo, você errou a estrada.</em> O pai dirigindo. Lá fora, escuro. Estrada de terra no interior de Goiás. A gente lá atrás. Como cabíamos todos naquele banco? E ainda tínhamos malas? Onde iam as malas? Até hoje, rimos e nos perguntamos: <em>e as malas?</em> O pai dirigindo. A mãe avisando. Parece que é próprio das mães avisarem. Sempre. O pai ignorando. Seria próprio dos pais ignorar sinais e avisos? A gente ria no banco de trás.</p>
<p>Meu irmão imitou minha mãe: <em>a estrada tá errada&#8230;</em> meu pai gritou um <em>Fica quieto, menino.</em> A gente riu. A gente sempre ria. Meu pai dirigindo, minha mãe olhava para fora: <em>Eu já disse que a estrada não é essa.</em> E não era. A estrada acabou num buraco. O fusca azul no buraco. A gente no buraco. Minha mãe chorava. A gente ria. A gente ri até hoje. A estrada não existia. Um pouco de lua, o carro emborcado e a gente em volta do buraco. Meu pai suspirava. Acho que pensava em como devolver um fusca amassado para a irmã dele. Meu primo também chorava. Fez xixi nas calças, <em>quero minha mãe</em>, <em>vi um lobo, não gosto de lobos&#8230;</em> A gente ria.</p>
<p>É um absurdo, mas a cada Natal ou outro encontro de família, o fusca azul comparece. Meu irmão tentou dirigi-lo uma vez. Ele tinha uns dez anos (eu, onze) e me chamou para dar uma volta. Estávamos na chácara de nossos avós. Entramos no carro, ele engatou a primeira e o carro obedeceu, saiu da garagem e seguimos pela trilha da entrada. Tudo ia muito bem. Acho que a gente até ria. A gente ria sempre. Aí apareceu uma curva e, do outro lado da curva, um outro carro. Meu irmão gritou <em>Sujou, segura o volante. Meu pai! </em> Ele abriu a porta e pulou do carro em movimento. Não lembro de ter segurado o volante, nem de ter feito nada até que o carro parou numa depressão do terreno. Tinha um pequeno riacho e cipós. Muitos cipós. Puxei um cipó pra sair do carro. O cipó arrebentou. <em>No Tarzan dá certo</em>, pensei na hora.</p>
<p>Nem era meu pai. Era nosso avô. Bronca. Bronca. Bronca. Uma carroça daquelas com cavalo e tudo foi resgatá-lo. Meu irmão também precisou ser resgatado. Demorou uns vinte dias pra me contar que foi se esconder na igreja da vila. Entrou naquele quadradinho de madeira onde as pessoas vão contar dos pecados e coisas assim. Se julgou a salvo. Negociou perdão direto com quem manda. A gente ainda ri.</p>
<p>Quando nos lembramos do fusca azul, em seguida vem um fusca branco. Com meu irmão, óbvio. No final dos anos setenta morávamos em Brasília, sem pai nem mãe. Eu, na UnB. Ele, estudando para o vestibular. O fusca branco era meu. Mas os amigos eram dele. Roubaram a chave e foram passear&#8230; até encontrarem uma curva. O fusca capotou. Eles se desesperaram e resolveram ‘descapotar’ o fusca. Mas fizeram isso para o lado oposto. O fusca, como um bife sendo mergulhado no ovo e na farinha. Uma milanesa. Gira aqui. Gira lá. Sentido horário e <em>voilá</em>! Colocaram o fusca sobre as quatro rodas novamente e ligaram para o meu namorado&#8230; Sim.</p>
<p>Eles precisavam de alguém maior de idade, com carteira de habilitação e coragem pra assumir o acidente. Os policiais chegaram e não entenderam como alguém conseguiu capotar naquela via vicinal, <em>a sessenta por hora?</em> E a intriga maior: como o carro deu aquele <em>duplo twist carpado</em> parando em pé? Sei. Sabemos. Fusca não tem pé. Tem história. Pra gente rir.</p>
<p>Eu e meu irmão ainda rimos muito disso. Meu pai, enquanto estava vivo, escutava essas histórias e não ria. Rosnava. Assim pra dentro como devem ser os rosnados (não escutados). Meu primo nega que estivesse conosco naquele buraco. O namorado que assumiu a culpa pela inimaginável capotada virou marido, ex-marido e hoje partilhamos filhas, netos e garante que os policiais também riram dele. Os fuscas? Imagino que estão por aí. Outras histórias, outros acidentes, outros medos, outros risos, outras memórias.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>*  *  *</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="https://www.instagram.com/claudine_m_d_duarte/"><strong>Claudine M</strong><strong>. D. Duarte </strong></a>é escritora, e das boas. Além de contos, minicontos, crônicas e romances, escreve sem parar. Adapta a literatura para o teatro, edita livros, dá palestras e sempre faz uma limonada de qualquer limão. Ah! É uma das fundadoras do Coletivo Maria Cobogó!</p>
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		<title>AMIGO OCULTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Jan 2022 00:57:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[humanidade]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M.D.Duarte * |   Sangue oculto nas fezes. Pesquisar. Frase e verbo inconciliáveis. E como dizia meu pai “quem procura, acha”. Consegui atravessar quase seis décadas da minha vida sem ninguém descobrir sangue ou outras coisas ocultas nas minhas fezes. Mas, no processo de coleta, sinto-me humilhada ou “humana, demasiado humana”, diria Nietzsche,</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M.D.Duarte * |</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sangue oculto nas fezes. Pesquisar. Frase e verbo inconciliáveis. E como dizia meu pai “quem procura, acha”. Consegui atravessar quase seis décadas da minha vida sem ninguém descobrir sangue ou outras coisas ocultas nas minhas fezes. Mas, no processo de coleta, sinto-me humilhada ou “humana, demasiado humana”, diria Nietzsche, de quem não se registrou uma caminhada pelas ruas de Bonn ou Leipzig segurando um potinho com o próprio cocô.</p>
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<p>O laboratório fornece um pote de plástico transparente com uns 5 cm de altura e uns 2,5 cm de diâmetro. Dentro, uma pazinha branquinha. Potinho, pazinha, branquinha, diminutivos que usam para que, desde crianças, acreditemos que aquilo, pequenininho, não nos fará mal. “Engano, ledo engano” poderia dizer alguém. Até eu mesma. Nenhuma instrução de onde cagar, como cagar, quanto cagar. Ao contrário das instruções da coleta de urina que vem escritas (e ilustradas) num livrinho que acompanha o potinho. Continuemos nos diminutivos porque os potes são realmente pequenos e cabem míseras amostras de nossos dejetos. Sim, nossos. Grite aqui quem nunca adentrou um banheiro munido de algum potinho desses.</p>
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<p>Humilhada, aviltada e diminuída, fiz todos os malabarismos possíveis com a voz da atendente do laboratório martelando na minha cabeça. Duas horas. No máximo, em duas horas após a coleta, o cocô e o xixi devem ser entregues&#8230; Na verdade, ela disse coleta do material. É uma pessoa educada, acho que sorriu quando me entregou os potinhos. Uma das coisas da pandemia é que a gente agora adivinha sorrisos e descontentamentos pelo estilo das rugas em volta dos olhos. Escolho uma parte que achei bonita das minhas fezes de hoje. Marrom brilhante sem pintas. A primeira vista, sem sangue também. Minha médica, desgraçada, vai saber que essa degradação é inútil.</p>
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<p>Saio correndo para o laboratório com o saquinho e, dentro, os dois potinhos. No carro, percebo que saí com a calça do pijama e havaianas. Esses sim, integram a lista dos pares conciliáveis. Azar. O relógio correndo, <em>duas horas pratrasmente</em>, diria Odorico Paraguassu. Rezo para não encontrar ninguém conhecido, pego a senha do atendimento e aguardo que a atendente educada (a do sorriso no olhar) me chame. Mas não, o meu número é direcionado ao guichê dezessete, no final do balcão. Atravesso a alameda de cadeiras, com pessoas tristes sentadas nelas. Ninguém olha para mim. Estão preocupadas com as próprias tristezas e coletas humilhantes. Está bem, Nietszche, humanas. Mas não deixam de ser tristes. Olho para o relógio, em trinta minutos expiram as duas horas fatais. Minha mão esquerda segura a sacolinha pelas pontas e, com a direita, faço um leve toque e sinto algum calor nos potinhos. Por dentro, quase sorrio. Como uma criança que curte e se orgulha da própria produção.</p>
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<p>Chego incólume ao guichê dezessete e veio o desastre. <em>Querida, há quanto tempo! </em>O atendente me chama de querida? A mão quase larga o saquinho com o “material”. Sento-me. Puxo o casaco para baixo. Meta: esconder o pijama. O sujeito é careca, usa óculos e está com uma máscara N-95. Não sei quem é. Mas ele tem um crachá: Marciano. Marciano piscando. Marciano fosforecente. Se fosse o programa do Jota Silvestre, eu cairia morta agora. <em>Com você, Claudine, a pessoa mais chata que já conheceu. </em>Guardei o saquinho na bolsa. Não dá pra entregar assim essas coisas pra alguém que acha que pode te chamar de querida. <em>Não fique assim, estou vendo aqui que você fez coleta de sangue e faltou entregar urina e fezes. </em></p>
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<p>Fui transportada para a sala da primeira série. Marciano era o espanta rodinha. Nos trabalhos em grupo, ele sempre ficava sobrando. Eu conversava muito nas salas de aula e a professora me enviava para a biblioteca, que eu adorava. Adoro. Um dia minha mãe contou a ela que eu amava ler e que as horas na biblioteca eram um prêmio. <em>Perdeu, sujou. </em>Meu castigo? Fazer dupla com o Marciano. Comprei chicletes. Queria falar algo? Chiclete. Ele era inconveniente. Fazia perguntas sobre toda e qualquer coisa. E dava conselhos. Impublicáveis. Inconciliáveis. Eu e Marciano. Qualquer um e Marciano.  <em>Preciso da identidade e do cartão do seguro saúde.</em> Voltei. Abri a bolsa, e entreguei os documentos ao mesmo tempo que deixei a sacolinha numa bandeja vizinha do computador do Marciano.</p>
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<p><em>Sangue oculto nas fezes. Muito importante esse exame&#8230;</em> Acho que nesse momento, eu derretia no balcão enquanto fazia uma reza pra ele parar de falar. Ele sempre falou alto. Estridente. Doído. Inadequado. <em>Que horas fez a coleta? </em>Ele imprimiu duas etiquetas, leu o meu nome completo, data de nascimento e da coleta. Eu me sentia invisível até para mim mesma. Desisti de desmaiar porque estava de pijama. Tentei lembrar se a calcinha combinava com o sutiã. Regra número um para passar mal fora de casa sem passar vergonha. Segurei meu peito. Nem precisava. Já era óbvio que não tinha dado tempo de colocar sutiã naquelas duas malditas horas. Melhor focar no Marciano que, no momento, segura meu potinho com urina contra a luz. <em>Transparente. Muito bom. Vai tirar dez. Lembro que você tirava muitos dez. Ou seriam Dezes? </em>E solta uma gargalhada. Eu não rio. Não choro também. Eu prometi a ele que nossa dupla ia tirar ‘dez’ mas ele não precisava aparecer na minha casa. E assim foi. Tudo pra ficar livre de um chato. Ele cola uma das etiquetas, insere o potinho número um numa grade e parte para o meu potinho com o número dois. Miséria.</p>
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<p><em>Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar&#8230; </em>Marciano cantarola Geraldo Vandré. Eu o acho parecido com o nazista que tortura alguém com uma broca de dentista num filme antigo. Coisas pequenas que ferem. A música não para porque alguém que decide coisas no laboratório acha que é legal ter um sujeito cantando MPB às oito da manhã&#8230; Como é que contrataram um idoso para o atendimento? Vou perguntar. “Vingança é um prato que se come frio.” Quem disse isso? Ele colou a etiqueta e examina o potinho como um ourives investigaria uma joia antiga. <em>Você ainda gosta de pamonha</em>, decreta. Xeque. Desisto de perguntar qualquer coisa.</p>
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<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
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<p>*<strong>Claudine M. D. Duarte</strong>, arquiteta, escritora, dramaturga, ativista na formação de novos leitores com seu projeto <a href="https://www.instagram.com/calangosleitores/">Calangos Leitores</a> e fundadora do Coletivo Maria Cobogó (do qual é a locomotiva). Adora pequi e não gosta de nada oculto.</p>
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		<title>Meu pé de Sapoti</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Oct 2021 07:07:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[Sapoti]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Elza Zarur * |   A promessa era bem antiga: ao voltarmos para o Brasil vou levar você para conhecer o pé de sapoti! Prometo! Desde os tempos em que, para enfrentar os gelados finais de semana em Washington, a família toda se aconchegava no basement, abarrotado de brinquedos, lareira bem quentinha, eu distraía</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Elza Zarur * |</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>A promessa era bem antiga: <em>ao voltarmos para o Brasil vou levar você para conhecer o pé de sapoti! Prometo!</em><br />
Desde os tempos em que, para enfrentar os gelados finais de semana em Washington, a família toda se aconchegava no <em>basement</em>, abarrotado de brinquedos, lareira bem quentinha, eu distraía Marina, a caçula dos três filhos, contando histórias.<br />
Para ela, nenhum assunto era mais emocionante do que ir ao meu mundo de criança passado na velha Visconde do Rio Branco.</p>
<p>Uma, duas, três vezes, ou muito mais do que isto, eu tinha que ficar repetindo histórias e minha infância não podia jamais ter fim a não ser que o sono chegasse e que o branquinho da neve, pelos vidros, virasse noite escura e ela dormisse feliz.</p>
<p>Era sempre assim!</p>
<p>O pique-pega ao redor da Fonte da Praça; os cabras-cegas no sobrado da querida tia Pequita; as brincadeiras na casa da Enedina ou da Isis, onde o quartinho de costura da D. Olga me fascinava e eu fazia, da minúscula meia hora que mamãe me deixava ir, um dia de imaginação viajando entre sobrinhas de retalhos e moldando botõezinhos de papelão nos vestidos das bonecas. Mas, quando o relógio me alertava eu voltava correndo para casa e ia direto para o pé de sapoti.<br />
Ali, entre galhos com folhagens verdinhas e fechadas, embaixo de umas madeirinhas bem ajeitadas, eu guardava toda a família de “filhinhas” e, lógico, meus segredos infantis.</p>
<p>Era a minha casinha de bonecas!</p>
<p>Tinha até escadinha para subir. O máximo!</p>
<p>Tudo era assunto. E Marina, com seus olhinhos brilhando, tinha certeza absoluta de que minha cidade natal era idêntica à fazenda do Chico Bento.<br />
Até que em 2003, ela com 16 anos, fomos para Rio Branco.<br />
Ao chegar, logo na entrada da cidade, bem perto do Clube dos Cinquenta, eu pedi para meu marido parar o carro.</p>
<p>Queria, a pé, bem devagar, ir exibindo a ela e a uma amiga, as lembranças do passado:  o Grupo Escolar Padre Antônio Corrêa; a rua da D. Júlia que fazia picolé de K-suco de framboesa (a boca ficava vermelhinha e eu achava lindo); a venda onde comprava aqueles suspiros cor de rosa, enormes, cheios de bolinhas coloridas; chicletes Adams; goiabada em triângulo&#8230;e assim fomos.<br />
De repente, numa esquina, vi dentro de uma varanda uma senhora bem idosa.</p>
<p>Parecia esperar o tempo, esquecida de si própria.</p>
<p>Olhei-a fixamente – precisava reconhecê-la de qualquer forma e encontrar um pouquinho, um tiquinho apenas que fosse de intimidade entre nós. Queria trocar saudades, saber da família, dos vizinhos, ir casa adentro, sem cerimônia, perguntando logo pelo café e revendo todos do meu passado. Impossível!</p>
<p>Houve apenas troca de olhares e silêncio.<br />
Fui embora na maior decepção com a realidade. Mas a amiga, percebendo minha tristeza, insistiu para que eu voltasse.</p>
<p>Voltei &#8230; parei de novo &#8230; acomodei as bochechas entre as grades da varanda e ali fiquei. A acompanhante da senhora idosa, estranhando muito, indagou: <em>perdeu algo aqui? Quer alguma informação?</em></p>
<p>Meio sem jeito, eu respondi: &#8220;- não, não perdi nada, mas queria muito, muito mesmo, saber se ela, por acaso, conheceu a minha mãe&#8230;. quem sabe? Seria tão bom para mim!&#8221;</p>
<p>Para meu espanto e absoluta surpresa, ao ver-me de frente, Tina, a acompanhante, inesperadamente, respondeu: &#8220;- a árvore que sua mãe tanto gostava, o pé de sapoti, está lá! “.<br />
Perplexas, nós não tivemos olhos para acolher tantas lágrimas!</p>
<p>Não podíamos acreditar em tamanha coincidência!</p>
<p>Como?</p>
<p>Como ela pode falar exatamente no pé de sapoti, motivo da nossa viagem e famoso que era unicamente para mim?</p>
<p>Como assim?<br />
Completamente sem graça, pediu desculpas pelo desconforto e disse que viu, na minha pessoa, minha mãe, D. Eponina, que ela tanto conheceu.<br />
Continuamos a caminhada e chegamos até minha velha casa.</p>
<p>Hoje, é o famoso Clube dos Bancários e, em meio a todo o piso de cimento, só deixaram ficar apenas uma árvore: o <strong><em>Meu Pé de Sapoti.</em></strong><em><br />
</em><br />
Agora, uma história na minha vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Elza Zarur</strong> escreve crônicas. Relembra a infância com o coração e a doçura de suas lembranças. Colaboradora do Coletivo Maria Cobogó, vai contando suas histórias para o prazer de nossos leitores.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>O sapoti tem o nome científico de <em>Manilkara zapota.</em> É um fruto que veio da América Central e se adapta a climas tropicais. Rico em vitaminas B,C, ferro, fósforo e cálcio, pode ser consumido ao natural ou em compotas e doces. Sua madeira é usada na carpintaria.</p></blockquote>
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