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	<title>Arquivos Arte e Cultura - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
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		<title>BRASÍLIA RESISTE!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Feb 2024 08:47:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Brasília]]></category>
		<category><![CDATA[Lucio Costa]]></category>
		<category><![CDATA[MEMÓRIA]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevista com a arquiteta Maria Elisa Costa, em 2018*   “Vem cá que eu quero te mostrar uma coisa. A coisa era Brasília!”, conta a arquiteta Maria Elisa Costa, filha do homem que ‘inventou’ a nova capital. Ela, que era estudante de arquitetura à época, foi a primeira a ver o projeto. 27 de fevereiro</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Entrevista com a arquiteta Maria Elisa Costa, em 2018*</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Vem cá que eu quero te mostrar uma coisa. A coisa era Brasília!”, conta a arquiteta Maria Elisa Costa, filha do homem que ‘inventou’ a nova capital. Ela, que era estudante de arquitetura à época, foi a primeira a ver o projeto.</p>
<p>27 de fevereiro é aniversário de nascimento do arquiteto Lucio Costa, que criou o plano urbanístico da nossa cidade. Maria Elisa é uma das guardiãs da obra de Lucio e sempre está atenta ao que ocorre na cidade, mesmo morando no Rio de Janeiro.</p>
<p>“Ninguém pode se achar proprietário dos pilotis dos prédios de Brasília!”, diz, com propriedade. Ela chamou de “estupidez” as grades na Praça dos Três Poderes, comentou sobre o “envelhecimento” da cidade e do absurdo do desleixo com a manutenção. Respondeu também sobre o duelo entre preservação e expansão urbana, manifestando alarme com a possível alteração de gabarito da W3. E clama: “Deixem o centro histórico de Brasília em paz!!” Mas ela garante que, apesar de todos os problemas, seu pai, se estivesse vivo, teria muita alegria em ver a cidade resistindo. “Isso estaria acima de qualquer decepção!”</p>
<div id="attachment_19761" style="width: 310px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-19761" class="size-medium wp-image-19761" src="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1392-300x218.jpg" alt="" width="300" height="218" srcset="https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1392-200x145.jpg 200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1392-300x218.jpg 300w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1392-400x290.jpg 400w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1392-600x435.jpg 600w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1392-768x557.jpg 768w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1392-800x580.jpg 800w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1392-1024x742.jpg 1024w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1392-1200x870.jpg 1200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1392.jpg 1284w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /><p id="caption-attachment-19761" class="wp-caption-text">Maria Elisa Costa</p></div>
<p><strong>Marcia Zarur </strong>– O tombamento de Brasília, muito criticado por alguns setores por “engessar” a cidade, tem sido a única proteção para que o projeto original, criado por Lucio Costa, não seja totalmente descaracterizado. Você defende que a área tombada seja ainda maior do que a atual. Como seria isso?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Maria Elisa Costa:</strong> Com o rolar dos anos, a área urbana do DF se desenvolveu ao sabor dos ventos, misturando projetos urbanos setoriais sem nenhum planejamento de conjunto, incorporando e regularizando invasões etc. etc., ou seja, em termos tradicionais brasileiros – a única coisa nova continua sendo o Plano Piloto da criação da cidade. Para assegurar a permanência ao longo do tempo desse testemunho vivo de um momento sem precedentes na nossa História, é importante perceber que no Distrito Federal convivem duas situações urbanas opostas e adjacentes: de um lado, extensa área urbana em expansão; de outro, seu núcleo original a ser preservado. Em termos administrativos, trata-se de duas abordagens necessariamente opostas:1- uma coisa é gerenciar o desenvolvimento urbano de uma cidade em expansão2- e outra, bem diferente, tem o objetivo de assegurar a preservação de seu núcleo original. Cuidar do Centro Histórico é mais simples: uma vez estabelecido institucionalmente que o CENTRO HISTÓRICO DA CAPITAL FEDERAL é a área delimitada pelo divisor de águas da Bacia do Paranoá, basta que toda e qualquer intervenção nessa área, mesmo não sendo localizada dentro do perímetro tombado ou em seu entorno direto, seja necessariamente compatível com o texto original da Portaria 314 do Iphan – cabendo a fiscalização dessa compatibilidade a uma comissão técnica permanente e de alto nível, criada para esse fim e com poder de veto, contando com representantes da sociedade civil organizada, da Presidência da República e do Governo do Distrito Federal.  É da maior importância para a defesa histórica e cultural do Brasil que possamos proteger o Centro Histórico da multiplicidade de pressões que atuam sobre a área urbana.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Marcia</strong> – O que significam para o plano original de Lucio Costa as grades na Praça dos Três Poderes e as cercas nos pilotis?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Maria Elisa:</strong> As grades na Praça dos Três Poderes são de uma estupidez constrangedora! Você acha que elas impediriam alguém que estivesse, MESMO, a fim de invadir um dos Três Poderes? Já os ensaios de cercar os pilotis são tolos, e qualquer pessoa pode, por lei, atravessar os pilotis de qualquer bloco. Os moradores dos apartamentos são “proprietários” a partir do primeiro andar!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Marcia </strong>– Qual você acha que seria a reação de Lucio Costa hoje numa visita ao Plano Piloto? Ele ficaria satisfeito ou decepcionado?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Maria Elisa:</strong> Primeiro, meu pai não foi à inauguração de Brasília, preferiu ser representado pelas suas filhas (Helena e eu). Perguntado pela revista Time por que não foi, respondeu dizendo que preferia dividir a ausência com sua mulher, falecida poucos anos antes. Sobre a impressão que teria vendo Brasília hoje? Com todos os eventuais problemas, o prazer de ver que a cidade que ele inventou está resistindo seria maior do que qualquer decepção!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Marcia </strong>– Qual seria a maior queixa hoje em relação a Brasília?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Maria Elisa: </strong>Sobre a queixa que meu pai teria… Não sei. Já a mim o que incomoda é esta cócega que surge volta e meia de “corrigirem” o Plano Piloto (por exemplo, ontem ouvi uma história de estarem pensando em aumentar o gabarito na W3!). Daí a minha insistência na questão do Centro Histórico: por favor, descubram um lugar no DF para fazer um novo Centro Empresarial padrão DUBAI, onde poderiam fazer o que bem entendessem, e assim deixam o Centro Histórico de Brasília em paz!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Marcia </strong>– Qual sua avaliação da frase do governador Rodrigo Rollemberg de que a cidade “está envelhecendo” para justificar a queda de parte do viaduto no Eixão Sul?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Maria Elisa:</strong> O fato de a cidade “estar envelhecendo” torna exatamente INDISPENSÁVEL manutenção permanente, cuja falta nos últimos governos me parece flagrante na queda do viaduto. Bruno Contarini, engenheiro de consagrada competência e autor do projeto do viaduto, esclareceu muito bem a causa do desabamento: rachaduras abertas há anos, sem que se tomasse nenhuma providência, deixaram que a água, pouco a pouco, chegasse até as ferragens da estrutura protendida, rompendo os cabos! A meu ver, Bruno Contarini deveria ter carta branca na recuperação dessa estrutura.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Marcia</strong> – Qual a sua ligação afetiva com Brasília?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Maria Elisa:</strong> Apenas um comentário para explicar minha ligação com Brasília: acontece que eu fui a primeira pessoa que soube como Brasília seria! Na época do concurso para o Plano Piloto, eu estava no 3° ano da Faculdade de Arquitetura, aqui no Rio. Um dia, meu pai me chamou e disse: “Vem cá que eu quero te mostrar uma coisa”. A “coisa” era Brasília! E o que mais me espanta lembrando isso hoje é que não achei nada de extraordinário, nem a mudança da capital nem o projeto dele… O Brasil de JK era assim, confiante, livre…</p>
<div id="attachment_19762" style="width: 310px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-19762" class="size-medium wp-image-19762" src="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" srcset="https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-66x66.jpg 66w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-150x150.jpg 150w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-200x199.jpg 200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-300x300.jpg 300w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-400x399.jpg 400w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-560x560.jpg 560w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-600x598.jpg 600w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-768x765.jpg 768w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-800x797.jpg 800w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395-1024x1020.jpg 1024w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2024/02/IMG_1395.jpg 1095w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /><p id="caption-attachment-19762" class="wp-caption-text">JK e Lúcio Costa</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*Entrevista concedida por Maria Elisa Costa a Marcia Zarur, publicada originalmente no site Olhar Brasília, em 2018.</p>
<p><strong><a href="https://www.instagram.com/marciazarur/">Marcia Zarur</a>, </strong>jornalista, escritora e cofundadora do Coletivo Editorial Maria Cobogó. Apaixonada por Brasília, é Presidente da Fundação Athos Bulcão, criadora e apresentadora do Podcast Cultura ao Quadrado (SESC-DF) e colunista da Nova Brasil FM, onde apresenta o programa Nossa Cidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fotos: Maria Elisa e Lúcio Costa / Divulgação ; Lúcio Costa e JK / Arquivo Público</p>
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		<title>Palavras com alma sobre uma guerra desalmada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 13 Nov 2022 13:25:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Vera Lúcia de Oliveira * | Quando Mariana e Quitéria abandonaram o Rio de Janeiro e rumaram ao Paraguai não sabiam o que as aguardava. As duas jovens, a senhorinha e a escravizada, iriam se igualar no sofrimento e todo tipo de infortúnio naqueles cinco anos de guerra e privações. Por que partiram? A</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>por <strong>Vera Lúcia de Oliveira * |</strong></em></p>
<p>Quando Mariana e Quitéria abandonaram o Rio de Janeiro e rumaram ao Paraguai não sabiam o que as aguardava. As duas jovens, a senhorinha e a escravizada, iriam se igualar no sofrimento e todo tipo de infortúnio naqueles cinco anos de guerra e privações. Por que partiram? A resposta se encontra na leitura do ótimo romance de Ana Maria Lopes, <em>A Guerra Invisível – um romance histórico </em>(Brasília: Maria Cobogó Coletivo Editorial, 2021).</p>
<p><em>            </em>A guerra invisível é, na verdade, a guerra das mulheres. Elas eram muitas. Muitas. Brancas, indígenas guaranis, pretas como Quitéria, ricas como Mariana mais as paraguaias da alta sociedade. Todas marchando  no rastro dos exércitos, numa procissão indigente. Guerrearam duplamente: <em>com </em>e <em>contra </em>os homens. Muitas foram por eles abusadas e outras, mortas.</p>
<p>Ao fazer um ataque fulminante ao forte Coimbra, no  Mato Grosso, na época uma região esquecida do Império Brasileiro e de Deus, o Paraguai encontrou nos cerca de cem habitantes setenta mulheres valorosas que se recusaram a render-se:</p>
<p>Eram setenta mulheres simples e esposas de militares que, na urgência imperativa, usaram pedaços de buchas e trapos de suas próprias roupas para fazer quatro mil balas de fuzil. À noite, com o forte cercado, Aninha Cangalha, Maria Fuzil e Ludovina Portocarrero se aproveitaram da escuridão. Rastejando feito cobras, desceram até o rio para pegar água para os remanescentes do forte Coimbra.</p>
<p>Os paraguaios intimaram a rendição, mas seu comandante recusou. (p. 33).</p>
<p>Esse foi apenas o tímido começo da maldita Guerra do Paraguai.</p>
<p>Mariana, jovem, bela, rica e bem nascida fez parte desse exército de Brancaleone. Enfrentou o mar, as longas distâncias e foi atrás do seu amor, o jovem Tomaz de olhos azuis. Foi lutar por seu futuro. Já Quitéria foi lutar contra o  passado de mulher abusada e violentada todas as quartas-feiras. Malditas quartas-feiras. Passaram fome, frio, calor, dormiram ao relento, conheceram o medo e viram a extensão da maldade humana. Mas, em meio a tudo isso, tiveram seus rebentos, Maria Rosa e Ramires, filhos do abandono e da dor. Percebemos, no entanto, que um motivo mais profundo, invisível, impelia as duas jovens a correr todos os riscos em meio a essa guerra. Mariana buscava talvez o amor ideal, a sua “baleia branca”, a sua Moby Dick, num processo de autoconhecimento, de individuação, como diria Jung. Já Quitéria, movida talvez por uma força filogenética, descobriu-se grande guerreira  e combateu como seus ancestrais africanos. Virou uma leoa. Duas amigas, duas mulheres justapostas, porém dois universos paralelos, igualados tão somente pela condição feminina. Ana Maria Lopes não faz discurso romântico nem panfletário.</p>
<p>Essa maldita guerra, que teve início em 1865 e durou até 1870, quase exterminou a população masculina do pequeno país deixando-o terra arrasada, repleto de órfãos. A leitura do romance mostra a situação política e social, bem como os costumes do Brasil na segunda metade do século 19, com a rigorosa pesquisa da autora, que revisitou de modo crítico a História e construiu uma narrativa épica com olhar feminino e nos deu uma visão a mais dos bastidores da guerra em que as mulheres tiveram participação fundamental:</p>
<blockquote><p>Longe das frentes de batalhas o acampamento era desorganizado e tumultuado. Muitas mulheres seguiam as tropas e as serviam como lavadeiras, companheiras, cozinheiras, costureiras e prostitutas. As que marchavam junto aos soldados, vendendo bebidas, víveres e solidariedade, eram chamadas de vivandeiras. (&#8230;)</p>
<p>(&#8230;) Todas conviviam com aquele burburinho infernal. Faziam comércio de víveres, de bugigangas, do corpo. A fome era um deus mau. Onipresente. Por vezes, vendia-se o corpo por duas bolachas ou por um copo de aguardente.</p></blockquote>
<p>Brigas, ciúmes, traições e medo agitavam ainda mais aquele local. Muitas mulheres viravam enfermeiras. Não por ofício ou por obrigação, mas por pena. O inverno era um inimigo a mais. Batalhões brasileiros  vindos do Nordeste e do Centro-Oeste sofriam com temperaturas negativas. Gelavam os ossos, perdiam os dedos dos pés. (p. 64).</p>
<p>Ou seja, Ana Maria não diz o que já foi dito: lança luz no que estava oculto, invisível. Excetuando o presidente do Paraguai, Solano López, e poucos generais, os nomes dos comandantes do exército brasileiro não são citados (nem o de Caxias), uma vez que o foco era a guerra das mulheres pela sobrevivência. As mulheres e as crianças que foram um capítulo à parte. Desde os bebês sem alimentos até os meninos paraguaios de nove dez anos que usavam barba e bigode de crina de cavalo para parecem mais velhos.</p>
<p>A narrativa mostra em detalhes o horror dos campos de batalha assemelhando-se, em algumas passagens, às descrições de Flaubert no terrível <em>Salambô</em> ou ainda à carnificina de <em>Guerra e Paz</em>, de Tolstói. Vejamos a passagem em que se deu o cerco à pequena cidade de Avaí:</p>
<blockquote><p>           Avaí era uma pequena cidade interiorana, onde o rio Avaí corria entre duas colinas. No centro, havia um grande vale. Foi o local onde os brasileiros cercaram os paraguaios sem dificuldade.</p>
<p>Cinco vezes maior, o exército brasileiro se aprontava debaixo de chuva grossa. No meio da manhã, o corneteiro deu o sinal de ataque. A tempestade lutava junto dos brasileiros e paraguaios. A luta era feroz, e na lama. Eram baionetas, lanças, sabres, facões e punhais provocando uma carnificina nunca vista. A ferocidade dos paraguaios só tinha equivalência no desespero que se apossou deles ao se verem reduzidos e acuados.</p>
<p>A cavalaria ainda comprimiu os combatentes guaranis sob as patas dos cavalos. Os gritos de clemência ecoavam pelo vale, as mulheres lutavam gritando e rolavam com soldados brasileiros. Era um exército onde crianças e mulheres eram maioria e se via transformado em uma massa sanguinolenta que se amalgamava com a lama, o sangue e a chuva.</p>
<p>Após uma hora de combate, os mais de três mil mortos formavam uma pilha disforme. Dezenas vagavam desnorteados pelo campo. O soldado Kuarahy suicidou-se. Fernández e Juan também. Mais de dois mil paraguaios foram presos. Onze bandeiras paraguaias foram sequestradas. Armas da artilharia foram capturadas ou destroçadas. O exército brasileiro ganhava a guerra e desonrava o Brasil. (p. 140).</p></blockquote>
<p>Além da força épica de sua narrativa, Ana Maria Lopes imprimiu, como poetisa que é, lirismo, doçura, leveza e feminilidade em sua prosa, assim como a fluência do texto jornalístico, pois é também jornalista e contista. O resultado é uma linguagem elegante, limpa e clara. E, seguindo a tradição literária, utiliza recursos como o uso de registros de outras línguas como o guarani, o espanhol e o italiano, como fez Dostoiévski, por exemplo,  com passagens em francês nos seus romances, e, modernamente, Umberto Eco em <em>O nome da rosa, </em>utilizando o latim. Sem esquecer as epígrafes primorosas de cada capítulo.</p>
<p>Assim, no romance <em>A guerra invisível</em>, o leitor tem o prazer da leitura criativa  &#8211; e combativa -, em que passado e presente dialogam na luta das mulheres, uma branca e outra preta, luta hoje visível com Marianas e Quitérias, lado a lado como as teclas do piano da canção de Paul McCartney; mas, mais que isso, afinadas e unidas no mesmo ideal de libertação feminina.</p>
<p>***</p>
<p>* <strong>Vera Lúcia de Oliveira</strong> é escritora, ensaísta, professora de literatura e membro da Academia de Letras do Brasil. Vive em Brasília e, entre outros livros, escreveu <em>Dostoiévski sem moderação.</em></p>
<p>**<strong> Ana Maria Lopes</strong>, poeta, escritora e amiga de todas as horas, integra o coletivo editorial Maria Cobogó que, orgulhosamente, publicou seu romance <em>A Guerra Invisível. </em>O livro está disponível no Sebo Dom Caixote.</p>
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		<title>SOBRE UM CERTO HIATO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Oct 2022 09:23:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Sandra Daher * Por que foi que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a reconhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem. José Saramago em "Ensaio sobre a Cegueira" O livro começa bem</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div>por <strong>Sandra Daher *</strong></div>
<div></div>
<blockquote>
<div style="text-align: right;">Por que foi que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a reconhecer a razão,</div>
<div style="text-align: right;">Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos,</div>
<div style="text-align: right;">Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.</div>
<div style="text-align: right;">José Saramago em &#8220;Ensaio sobre a Cegueira&#8221;</div>
</blockquote>
<div></div>
<div></div>
<div></div>
<div>
<p>O livro começa bem com a declaração da autora de que ele <em>&#8220;não tem compromisso com a verdade dos fatos, mas tem compromisso com a verdade dos sentimentos&#8221;. </em>No meu entender, a verdade do sentir é o primeiro ingrediente para se realizar uma obra de arte.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ele conta a história de um casamento desfeito. Em linguagem pontual, frases curtas e sem floreios, este romance moderno narra, em palavras certeiras, uma relação que durou 12 anos, e terminou, ao menos no papel, sem cumprir o &#8220;amando-te e respeitando-te todos os dias de minha vida&#8221; (pág.166), proferido no rito matrimonial.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O título expõe essa união como sendo uma quebra na continuidade da vida da personagem, que perde sua autenticidade de antes, e depois recuperada, após a separação. Daí um certo sabor amargo nas palavras de um texto assertivo que caminha para o desenlace &#8211; para a dor dos românticos, mesmo os do século XXI&#8230; Apesar disso, a linguagem do texto é amigável em bons momentos do relacionamento do casal ou naqueles em que as qualidades do cônjuge são relatadas. Uma boa dose de humor também está presente, às vezes ácido (pág. 127). Ressalto esse capítulo e o da pág 115 (Dos Fatos), como de especial escrita.</p>
<blockquote><p>Pois bem, Excelência, a criança de nove anos com a mangueira ligada na mão, repita-se à exaustão, a criança com NOVE ANOS, fez o que é próprio e adequado às crianças: brincou.</p></blockquote>
<p>O texto, com suas palavras sequinhas, é bem construído em pequenos capítulos, que no mais das vezes, são concluídos de forma poética, seja pelo arranjo das frases, seja pela escolha das palavras. Muito interessante, também, os provérbios ou receitas caseiras que orientam e dialogam, com popularidade, o assunto do capítulo seguinte. E são bastante práticas, de acordo com a natureza do relato, as páginas de dicionário e de leis adicionadas que, como regras, calçam as condutas adotadas pela personagem.</p>
<blockquote><p>O que dói mais?</p>
<p>Unha latejando ou sonhos assassinados?</p>
<p>Para unhas inflamadas,</p>
<p>use de hora em hora</p>
<p>uma gota de dipirona no local.</p>
<p>Para sonhos assassinados,</p>
<p>geste outros.</p></blockquote>
<p>A meu ver, o romance cumpre bem o seu propósito de narrar essa fase da vida da personagem, bem elaborada pela autora e caracterizada como um vão, uma descontinuidade no seu percurso. A autora constrói o livro em linguagem de fácil entendimento, até porque é colocada muitas vezes em itens de conduta cotidiana, conhecida e vivida por quem está submetido a esses mesmos padrões culturais.  Expõe, na sequência do livro, seus sonhos, vivências infanto-juvenis e adultas, como elas surgem mesmo – de maneira desordenada nas lembranças – e que levam à compreensão de sua história que, somada à vivida no casamento, fazem chegar à consecução de seu intento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A obra conta ainda com a composição de um lindo projeto gráfico, um belo poema, e desenhos pertinentes, que a integram, e a fazem mais aconchegante, com os nomes manuscritos, e com o traço lânguido e sensível das ilustrações, concebidas em cores deliciosas&#8230;</p>
</div>
<div></div>
<div>***</div>
<div></div>
<div>
<div><strong>*<a href="https://www.instagram.com/daher.sandra/?hl=en">Sandra Daher</a> </strong>é escritora, formada em Humanas. Qual uma Sherazade candanga, conta histórias lindas em seus escritos. “Extratos de Conta-Corrente”, seu primeiro livro de poemas, foi publicado pelo Coletivo Maria Cobogó como também o livro HIATO (2021), de Christiane Nóbrega, citado neste texto.</div>
<div></div>
<div></div>
<div>Os livros do Coletivo Editorial Maria Cobogó estão disponíveis no Sebo Dom Caixote. Basta acessar <a href="https://www.instagram.com/domcaixotesebo/">  @domcaixotesebo</a></div>
</div>
<div></div>
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		<title>&#8220;O Luto da Baleia&#8221;: porque viver também é das águas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Oct 2022 10:43:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Nic Cardeal * Porque viver tem dessas coisas: é preciso esperar que passem as águas  - todas as águas:  rasas ou fundas  revoltas ou inconclusas mal paradas ou moribundas - [ou entender que nunca]   porque viver tem dessa coisa: é preciso voltar a ser a água  do oceano do templo - sem tempo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Nic Cardeal</strong> *</p>
<blockquote>
<div style="text-align: right;"><i>Porque viver</i></div>
<div style="text-align: right;"><i>tem dessas coisas:</i></div>
<div style="text-align: right;"><i>é preciso esperar que passem as águas </i></div>
<div style="text-align: right;"><i>&#8211; todas as águas: </i></div>
<div style="text-align: right;"><i>rasas ou fundas </i></div>
<div style="text-align: right;"><i>revoltas ou inconclusas</i></div>
<div style="text-align: right;"><i>mal paradas ou moribundas &#8211;</i></div>
<div style="text-align: right;"><i>[ou entender que nunca]</i></div>
<div style="text-align: right;"><i> </i></div>
<div style="text-align: right;"><i>porque viver</i></div>
<div style="text-align: right;"><i>tem dessa coisa:</i></div>
<div style="text-align: right;"><i>é preciso voltar a ser a água </i></div>
<div style="text-align: right;"><i>do oceano do templo</i></div>
<div style="text-align: right;"><i>&#8211; sem tempo &#8211;</i></div>
<div style="text-align: right;"><i>                                          </i></div>
<div style="text-align: right;"><i>é preciso morrer por fora </i></div>
<div style="text-align: right;"><i>para sobrar por dentro</i></div>
<div style="text-align: right;"></div>
<div style="text-align: right;"><i>(Nic Cardeal, Viver)</i></div>
</blockquote>
<div>
<div>Um livro [azul] em minhas mãos. Um azul atravessando abismos tão profundos, indo dar [em braçadas exaustivas] em outros azuis &#8211; céus que sonham pássaros em voo.</div>
<div>.</div>
<div>Abro o azul. Encontro mães humanas, mães baleias, mães de todas as naturezas. Encontro vazio de filho &#8211; uma ausência resultante de inesperada [e tão prematura] partida.</div>
<div>.</div>
<div>Leio o azul &#8211; <b>O LUTO DA BALEIA</b> (<b>SOLANGE</b> <b>CIANNI</b>, Brasília/DF: Maria Cobogó Coletivo Editorial, 2022). A apresentação, de João Paulo Oliveira, é um alerta &#8211; que me arranca da quietude e me avisa que o mergulho será muito, muito mais fundo do que eu esperava:</div>
</div>
<div>
<div></div>
<div>
<blockquote>
<div><i>&#8220;O coração de uma baleia azul mede um metro e meio. Dá uma mãe, dessas pequenininhas e ferozes que a gente encontra por aí aos bandos. Cardumes delas. Diante de um coração assim, a anatomia louca maiakovskiana &#8211; aquela que o fazia, por inteiro, um coração  &#8211; já não parece tão absurda.</i></div>
<div><i>Olhando bem de perto (ou mais ainda: de dentro) um coração revolto &#8211; que quer dizer, também, revoltado, revoltoso &#8211; é pura fúria oceânica: fluxos e empuxos, afogamentos e refluxos, ora força titânica, ora lassidão superficial que oculta o crescente das correntes mais recônditas. Uma mãe oceânica carregou seu filhote morto por meia lua, mantendo-o à tona, atravessando quase uma Belém-Brasília inteira d&#8217;água. E você sabe: orcas nem têm braços, dedos, garras. Mas têm muito peito, isso elas têm. E aleitam.</i></div>
<div><i>[&#8230;]&#8221;</i></div>
</blockquote>
<div><i> </i></div>
<div>Sofro no azul. Várias e várias vezes eu choro no azul. Fico sem respirar. Literalmente. Mergulho no profundo sofrimento da mãe pela perda do filho &#8211; sem eu nem saber o que é parir, sem eu nem saber o que é perder [um filho]. É azul o luto da protagonista [sem nome, porque é o nome de uma por uma], que a dilacera em corpo, coração e alma. Sofro no [escuro] azul da jornada de uma mãe em busca da cura [sim, é preciso encontrar a cura de uma dor, são tantas as dores&#8230;] depois do suicídio de um filho. Mas, como curar o impossível?</div>
<div>.</div>
<div>Perco-me em todos os azuis dessas águas &#8211; as lágrimas não cessam tão cedo: uma mãe que, sozinha, parte para uma missão quase absurda, não fosse a fé profunda: num gesto insano [mas perfeitamente compreensível], amarra o corpo do filho às costas e atravessa [a nado] o lago Paranoá noite adentro, para entregá-lo à orixá Nanã Buruquê &#8211; <i>&#8220;a grande senhora da vida e da morte&#8221;</i>:</div>
<div></div>
<blockquote>
<div><i>&#8220;[&#8230;] O canto de todas as baleias das águas de dentro e de fora, doces e salgadas, ecoou terreiro de água e lama. Um ritual doloroso e amoroso com todas as mulheres da sua linhagem que perderam o filho como ela. Estavam todas ali.</i></div>
<div><i>[&#8230;]</i></div>
<div><i>Uma grande bolha de água e luz o envolveu e o sugou pelo canal vaginal do Lago Paranoá. Agora estava livre do fogo do inferno. Podia brincar em paz eternamente. </i></div>
<div><i>Olhou para trás, para um lado e outro, e de novo frente e trás, novamente porque girava tão rápido que não conseguia fixar o olhar no filho que estava partindo. Levada pela correnteza girando e se afastando como que empurrada pelas águas que agora queriam que ela se fosse.</i></div>
<div><i>O filho já não era mais dela.</i></div>
<div><i>Boiando de olhos fechados esperou as águas se acalmarem, seu coração e respiração normalizarem. Tonta, pensou na vida, sobrou nada.</i></div>
<div><i>Foi o coração que começou a batucada do terreiro de dentro. Ela achou que era maluquice de mulher se afogando. As carnes e o couro começaram a sacudir. Depois ouviu do alto de fora. Abriu os olhos para conferir e escutou claramente que era batucada de lama e céu. </i></div>
<div><i>A voz veio sozinha, com vontade própria, e cantou agradecida.</i></div>
<div><i>O medo não era mais dela.</i></div>
<div><i>&#8211; Saluba Nanã Buruku! Salve Sant&#8217;Ana vovó Buruquê!</i></div>
<div><i>[&#8230;]&#8221;</i></div>
<div><i>(pp. 68-69)</i></div>
<div><i> </i></div>
</blockquote>
<div>Navego com a mãe [e o corpo do filho] em todos os possíveis azuis &#8211; eu, que nunca nadei, vislumbro-me afogada &#8211; e me perco em suas lembranças: mosaicos de filho criança, de filho adolescente &#8211; tão necessários à sua própria sobrevivência:</div>
<div></div>
<blockquote>
<div><i>&#8220;Demorou para entender que seu filho já não estava mais ali. Foi impotência mesmo. Ela não sabia o que fazer. Confiou no amor que os unia e, calada, esperou passar. &#8211; Quero conhecer meu pai. &#8211; Ele morreu. &#8211; Mentira! Eu te odeio! &#8211; Eu te amo, meu filho!&#8221; </i>(p. 24).</div>
</blockquote>
<div></div>
<div>Nem mãe nem filho são nominados, quem sabe, propositalmente? Bem certo que sim &#8211; só assim para ser possível abarcar todas as mães [e mesmo as mulheres &#8216;nunca mães&#8217;] e todos os filhos já findos. Sim, há quantos filhos já findos de mães qu&#8217;inda não foram? São incontáveis [e inconclusas] as dores desses azuis&#8230;<i> &#8220;o filho já não era mais dela / já não era mais&#8221;</i>&#8230; Sufocamos em azuis [eu e todas as mães], quando vislumbramos a baleia carregando o filhote morto por mais de mil quilômetros através do Oceano Pacífico &#8211; a jornada de luto das mães baleias, das mães humanas, das mães. A jornada de atravessar o fundo, o abismo, o medo, a dor.</div>
<div><img decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-19707 aligncenter" src="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/wp-content/uploads/2022/10/IMG_0921-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" srcset="https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMG_0921-200x267.jpg 200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMG_0921-225x300.jpg 225w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMG_0921-400x533.jpg 400w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMG_0921.jpg 480w" sizes="(max-width: 225px) 100vw, 225px" /></div>
<div>Um livro [azul] em minhas mãos &#8211; terminado em  vermelhos. Porque são vermelhos os líquidos que jorram dos nossos rios de dentro. Até que a vida se nos estanque e sejamos tão somente, outra vez, uma [nova] quimera.</div>
<div>.</div>
<div>Não. Não deixem de conhecer [e mergulhar] (n)<b>O LUTO DA BALEIA</b>. Porque, para compreender o vazio, é preciso sentir <i>&#8220;a vida escorrer pelas águas de dentro e a escuridão se agigantar pelas de fora. Um complô das profundezas que guardam as almas dos mortos de morte escolhida&#8221; </i>(p. 17).</div>
</div>
</div>
<div>.</div>
<div>***</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div><strong>*<a href="https://www.instagram.com/niccardeal/">Nic Cardeal</a></strong>, bacharel em Direito, assessora jurídica, escritora e poeta, integra o movimento <em>Mulherio das Letras</em> desde a sua criação, em 2016. Seus escritos estão compilados na página no Facebook <a href="https://www.facebook.com/Niccardealpoesias"><em>‘escrevo porque sou rascunho’</em> </a> e faz  ‘resenhas afetivas’ em  <a href="http://www.sermulherarte.com/2022/10/minha-lavra-do-teu-livro-06-o-luto-da.html"><em>‘minha lavra do teu livro’</em> , </a>  onde o texto acima foi publicado. A autora tem vários livros publicados e, entre eles, destacamos <strong><em>Sede de céu – poemas</em></strong> (Guaratinguetá/SP: Penalux, 2019).</div>
<div>.</div>
<div>***<a href="https://www.instagram.com/solangecianni/"><strong>Solange Cianni</strong></a> é escritora, atriz, pedagoga e psicopedagoga. Tem vários livros editados para o público infantojuvenil e escreve contos e poemas em antologias e coletâneas. <strong>Cigarras, Lagartas e outras Marias</strong> foi seu primeiro livro voltado ao público adulto. Em seguida, publicou <strong>Bailarina do meu jardim</strong>, em parceria com João Antônio e Gabriel Guirá.  Em maio deste ano, lançou <strong>O Luto da Baleia </strong>também pelo Coletivo Maria Cobogó, do qual é uma das fundadoras. O livro pode ser adquirido no <a href="https://www.instagram.com/domcaixotesebo/?hl=en">Sebo Dom Caixote</a>.</div>
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		<title>UMA BRASILEIRA NO PANAMÁ</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/uma-brasileira-no-panama/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Sep 2022 12:37:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Maria Virgínia de Vasconcellos*   “Si no hay Panama, no hay felicidad”    O ser humano tem tendência a reclamar quando algo incomoda. Se  está confortável e feliz nem percebe a boa saúde, o bom clima, e não ressalta o bem-estar. Diz-se que do bem-bom não se deve comentar para não receber mau-olhado. Será?</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Maria Virgínia de Vasconcellos*</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><strong>“Si no hay Panama, no hay felicidad”</strong></p>
</blockquote>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong>O ser humano tem tendência a reclamar quando algo incomoda. Se  está confortável e feliz nem percebe a boa saúde, o bom clima, e não ressalta o bem-estar. Diz-se que do bem-bom não se deve comentar para não receber mau-olhado. Será?</p>
<p>Bom, hoje, depois de um ano de morar no Panamá, resolvi pensar no ótimo que é viver:</p>
<p>&#8211; onde a água na torneira é saudável e limpa, o filtro não é necessário e o povo é higiênico;</p>
<p>&#8211; onde o medo crônico de ladrão não existe e nem conversa mole sobre violência;</p>
<p>&#8211; onde a moeda é forte, não há sequer um mísero por cento de inflação (incrível felicidade: os salários não se deterioram a cada mês&#8230;);</p>
<p>&#8211; onde o comércio oferece coisas do mundo inteiro, com variedades de vinho francês a sete dólares, cosméticos de qualquer fabricante, tapete persa e todos os badulaques eletrônicos, carros japoneses por nove mil dólares e carro de todo tipo para atender a qualquer gosto;</p>
<p>&#8211; e mais: o mar está perto e a brisa sopra no verão.</p>
<p>Tudo isso está <em>ok</em>. Tudo isso é muito bom. Tudo isso é Panamá.</p>
<p>É claro, falta  teatro. E ainda faltam música erudita, arte e cinema internacional. Assim como faltam amigos antigos e família. E toda a história europeia com castelos e rainhas, ademais do angu com quiabo nosso de cada dia, e feijão tropeiro, e carnaval, e o samba e você.</p>
<p>Já até me acostumei com o trânsito maluco e o calor úmido-opressivo. E sabe de uma? Aqui a politicagem consegue ser mais divertida ainda. O atual presidente – <em>El Gordo</em> Endara – tem 60 anos e uma esposa de 27 – Ana Mae. Veja você. Ela se chama Ana Mae, faz discursos entusiásticos, tem unhas <em>enoooooormes</em>, certamente pintadas de duas cores, <em>topetaço</em> no cabelo e, agora, é candidata à prefeitura da cidade do Panamá. Não é, no mínimo, surpreendente?</p>
<p>Figura fantástica, em certo sentido. Cúmulo do <em>charm </em> grotesco. Já era ousada como primeira dama, agora imagine como candidata a Prefeita. Muda de partido, provoca crises ministeriais e, segundo o povo, ela é a mulher dos cinco CH (<em>ceache):</em></p>
<blockquote><p><em>&#8211; Chola (</em>brega&#8230;)</p>
<p>&#8211; <em>Chomba </em> (nome de preto segundo os americanos&#8230;)</p>
<p><em>&#8211; China </em> (vinda do desprezado oriente&#8230;)</p>
<p>&#8211; <em>Chucetaza </em> (&#8230; sem comentários&#8230;)</p>
<p>&#8211;<em> Ch.. (</em>Já nem sei mais o quê&#8230;)</p></blockquote>
<p>Ana Mae conseguiu arrumar a maior confusão no partido Arnulfista, porque queria ser apoiada por eles. Daí a viúva do Arnulfo, político antigo, ficou brava e tomou conta do pedaço. E Miréia, a viúva, tornou-se candidata a presidente.  Com cartazes para todos os lados.</p>
<p>Estamos em plena campanha para eleição presidencial. São sete candidatos. Puxa vida! Sete. Segundo as pesquisas, deverá ganhar o partido PRD, do General Torrijo, cujo candidato é – <em>EL TORO &#8211;</em> o mais populista que pode haver. Isso para ser como o resto da América Latina. Alguns candidatos parecem que perderam o rumo de casa. Essas mulheres também&#8230;</p>
<p>O candidato profissional liberal, advogado, formado nos Estados Unidos, é o cantor mais popular da República do Panamá – Rubens Blades. Tenho simpatia por essa criatura. Como músico ele tem suas qualidades.</p>
<p>O <em>“torneo político”</em> como se diz por aqui, está a cada dia mais emocionante. E fica muito divertido porque “pimenta no país dos outros não arde”.</p>
<p>Arde menos ainda neste país cujo <em>slogan </em>é <em>“My name is Panama”</em>.  Escrito e divulgado assim em inglês mesmo. Cúmulo da hegemonia americana. Eu me recuso a comprar uma camiseta com esse emblema. Qual é!&#8230;</p>
<p>Apesar de ser voz comum que Panamenho não gosta de americanos, tenho certa ponderação a fazer: quando os de classe baixa dizem “<em>gringo de mierda”</em>, a mim, me parece, expressam pouco ressentimento ou nenhum – é expressão retórica/popular. Do outro lado, quando possui pouquinho de dinheiro que seja, não tem preconceito algum: estuda nos <em>States</em>, casa-se com americano e fala inglês com normalidade. Ou seja, apesar de afirmarem que são <em>anti-gringo</em>, não criticam absolutamente.</p>
<p>Também tenho dificuldades em aderir a outro costume que me soa estranho e argentário. Vejamos.</p>
<p>Recebi um convite de casamento que inclui um cartão com os seguintes dizeres:</p>
<blockquote><p>“<em>Hemos reservado para Ud. dos puestos.</em></p>
<p><em>Agradecemos sus muestras de cariño en Certificados de regalo del Banco Unión”</em></p></blockquote>
<p><em> </em>Não é meio brutal? O presente é um cheque a receber num Banco. É como se você tivesse pagando duas entradas para um <em>show.</em> Ah não! Para mim basta uma notinha carinhosa e <em>bye, bye.</em> Mesmo porque nem conheço os cônjuges, somente os pais&#8230; Até pode ser um <em>big show</em> de casamento, mas&#8230;</p>
<p>Lembro-me de outra: Há famílias da fina elite chamadas de <em>Raviblancos </em>(origem: os bundas brancas espanhóis). Só para lhe dar uma ideia, eles são os únicos sócios do <em>“Club Unión”</em> cuja quota custa vinte e três mil dólares. Não é espantoso alguém pagar essa quantia para frequentar um pequeno clube? Fechadíssimo.</p>
<p>Ai ai ai meu amado Panamá. Ai minha famosa-gostosa cerveja chamada Panamá : <em>“Si no hay Panamá, no hay cerveza”.</em></p>
<p>E aqui a água é limpa, a cidade é higiênica, a moeda é forte, o comércio é chocante, a brisa sopra e o mar alegra a vista e, enfim, há carnaval sim, com desfile e carros alegóricos, e povão safado que só&#8230;, que só mesmo um panamenho pode entender. E para alegria de muitos, fica a uma distância de 2:30 horas de voo de Miami (pronunciado como se fosse em português MIAMI – com <em>i</em> &#8211; É isso aí).</p>
<p>A República do Panamá tem outra peculiaridade. Celebra duas festas de independência. Uma em relação à Espanha e outra em relação à Colômbia. Essa última ocorreu para facilitar a construção do Canal. No que diz respeito a festejar, eu acho ótimo, porque temos mais feriados. E você precisa ver as bandas dos colégios nas paradas comemorativas – verdadeiro concurso – com maravilhosas músicas populares, balizas, danças e, como não poderia deixar de ser, com uns drinques pelas ruas: <em>“Si no hay cerveza, no hay Brasil ni Panamá”.</em></p>
<p>Mas, o que vale não são essas tantas independências e sim a grande dependência cultural, a tradicional família, com seus tradicionais costumes de classe média, com tudo acontecendo por trás das cortinas. Bem divertido. “Nos olhos dos outros&#8230; até parece que pimenta não arde”. Só arde mesmo aqui no Brasil.</p>
<p>Em tempo: <em>Panama city </em>tem uma população de aproximadamente 800.000 habitantes, e a República do Panamá contém 2.000.000 pessoas (dados de 1994), muitas delas de <em>color marron-chocolate,</em> meio a sonhar com Miami e Hollywood, mas sempre dançando salsas, cúmbias e merengues – maravilhosas&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p>*<strong>Maria Virgínia de Vasconcellos</strong> é socióloga, informata, com mestrado pelo CDS da UnB, com vida profissional eclética, de professora universitária, passando pelo SERPRO e Ministério da Fazenda até consultora em organismos internacionais &#8211; o que lhe proporcionou viagens como a que inspirou essa crônica, em 1994. A autora é  profundamente mineira, amante e praticante de esportes e de música, contrariando da década de sessenta de que “intelectual não vai à praia”.  Virgínia adorava não somente a &#8220;bola&#8221; como também o cinema, a literatura e a arte, desfazendo o estigma de que esportista não seria um bom artista.</p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Em tempos de ódio precisamos mais ainda da força da palavra poética</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/em-tempos-de-odio-precisamos-mais-ainda-da-forca-da-palavra-poetica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Jul 2022 19:27:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Lucília Garcez]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres inspiradoras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Gina Vieira Ponte * |   Em tempos de ódio precisamos ainda mais da palavra poética, aquela que subverte os sentidos desgastados dos vocábulos, aquela que desafia as representações hegemônicas do mundo, aquela que conversa conosco no mais profundo dos nossos conflitos internos, nas mais escancaradas alegrias que carregamos, aquela que alimenta as dúvidas</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Gina Vieira Ponte *</strong> |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em tempos de ódio precisamos ainda mais da palavra poética, aquela que subverte os sentidos desgastados dos vocábulos, aquela que desafia as representações hegemônicas do mundo, aquela que conversa conosco no mais profundo dos nossos conflitos internos, nas mais escancaradas alegrias que carregamos, aquela que alimenta as dúvidas e perplexidades mais desconcertantes e que fortalece a nossa esperança em dias melhores.</p>
<p>Mas, a palavra poética não está em qualquer lugar, não aceita caminhar com qualquer um. Ela chega e se faz viva onde haja sossego para que ela possa florescer, onde haja beleza, ética, humanidade, capacidade de indignação com as injustiças, vontade de reinventar o mundo e humildade para ouvi-la e acolhê-la.</p>
<p>Lucília carregava a palavra poética e a transbordava para o mundo em cada gesto, em cada enunciado, em cada frase que pronunciava porque ela se nutria permanentemente da palavra poética em um dos pactos mais bonitos e mais importantes que alguém pode fazer consigo mesmo, o pacto em favor de manter acordadas as nossas inquietações e em favor da solidão eloquente e poderosa para onde nos leva a leitura de um bom texto literário.</p>
<p>Foi o que eu vi no meu primeiro encontro com Lucília: a voz terna e poderosa que era a dela, mas eram também as milhares de vozes que ela ouvia nos livros que lia e que passavam a compor o seu imaginário, o seu discurso, a sua vida. Além da voz terna, vi também o olhar firme que não teme o encontro com o olhar do outro, vi a sutileza e a assertividade dos gestos, a forma pausada e generosa de ir pronunciando cada palavra com o cuidado necessário para que ela não fosse palavra vazia, mas palavra transformadora. Lucília era assim, quando falava nos envolvia, nos sequestrava, na melhor acepção que isto possa ter. Sim, porque quando nós a ouvíamos éramos levados irremediavelmente para a causa que ela defendia com tanta paixão- a leitura, a leitura do texto literário, o encontro com a palavra poética.</p>
<p>Palavra poética, poética palavra, literatura, Lucília são tão próximos que para mim é como se habitassem o mesmo campo semântico. Lucília, ler, leitura, leveza, lento leve levar o livro ler a palavra poética com os pés bem aterrados no mundo, porque, como nos lembra o nosso mestre, a leitura do mundo precede a leitura da palavra, e a leitura da palavra poética viva amplia, aguça, aprofunda e sofistica o nosso olhar para o mundo. Lucília evocava a palavra transformadora no mundo porque ela própria era transformação, porque o seu ato não se encerrava no falar e no escrever, ela agia, lutava, movimentava, construía, dava materialidade às ideias que defendia.</p>
<p>O encontro com a Lucília me ajudou a aterrar os meus pés na sala de aula com ainda mais certeza de que um dos papeis mais importantes de uma professora é proporcionar um encontro frutífero com o leitor do texto literário. Para entender o sentido do meu encontro com Lucília, recorri à Daniel Pennac que diz que o verbo ler não aceita o imperativo. Por isso quando a gente ouvia Lucília falando de livros a gente queria ler também, porque ela não nos mandava ler, ela ia além, ela nos seduzia para a leitura, ela nos trazia para perto do seu mundo todo rodeado de livros como quem abraça a um filho, coloca-o no colo e convida-o para ouvir uma boa história.</p>
<p>Este colo que a Lucília ofertou ao querido Vladimir, seu companheiro de jornada, às suas filhas, netos, amigos e amigas, este colo que Lucília ofertou aos seus colegas de trabalho, estudantes, o colo que Lucília ofertou à Brasília tem feito uma falta enorme a todos nós.</p>
<p>Não há um dia em que a gente não se lembre a enorme falta que faz a presença física de Lucília em nossas vidas, e em todos estes dias esta saudade e este luto que vamos elaborando aos poucos nos dá a certeza de que o colo, a voz, a força, a potência, a generosidade de Lucília seguem porque o que ela construiu e deixou segue vivo em cada um de nós, segue nas transformações que fez, no legado grandioso que deixou na palavra poética que vai seguir reverberando em suas obras.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Obrigada, querida professora Lucília, por tudo e por tanto.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p><strong>**<a href="https://www.instagram.com/professoraginavieira/">Gina Vieira Ponte</a> , </strong>filha de seu Moisés e de dona Djanira, é professora da educação básica há 30 anos. O texto acima foi lido pela autora no evento de lançamento do livro <em>Quando vier a primavera &#8211; um tributo a Lucília Garcez </em>(Outubro Edições), Espaço Cultural Liberty Mall, em 18 de julho de 2022, em Brasília-DF.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O post <a href="https://mariacobogo.com.br/em-tempos-de-odio-precisamos-mais-ainda-da-forca-da-palavra-poetica/">Em tempos de ódio precisamos mais ainda da força da palavra poética</a> apareceu primeiro em <a href="https://mariacobogo.com.br">Maria Cobogó</a>.</p>
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		<title>APOIO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jun 2022 00:07:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Ana Maria Lopes *|   Eu me apoio nos ombros de meus amigos. Apoio naquele que identifico como meu igual. Apoio numa entrega sem premeditação. Como se fosse natural. Como é natural. Apoiar-se – seja no descanso, seja no compartilhamento – é ato de integração.  Ato de doação integral e pura. Um braço apoiado</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/anamarialopes/">Ana Maria Lopes</a> *|</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu me apoio nos ombros de meus amigos.</p>
<p>Apoio naquele que identifico como meu igual.</p>
<p>Apoio numa entrega sem premeditação. Como se fosse natural. Como é natural.</p>
<p>Apoiar-se – seja no descanso, seja no compartilhamento – é ato de integração.  Ato de doação integral e pura.</p>
<p>Um braço apoiado no ombro amigo conta histórias.</p>
<p>Conta histórias de vida, de luta, de familiaridade, de conexão.</p>
<p>Difícil eleger, entre bilhões de pessoas, aqueles que são dignos de receber o braço, ou simplesmente a mão sobre seus ombros.</p>
<p>Ele era. Talvez por saber tanto sobre ancestralidade.</p>
<p>Por conhecer os igarapés, por saber das curvas do Quixito e do Ituí.</p>
<p>Por conhecer os deuses que regem a floresta de solo úmido e repleto de vida.</p>
<p>Apoio o braço naquele que canta comigo as canções de minha terra.</p>
<p>Ao que chamo camarada-irmão.  Pai por eleição. Protetor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por proteger demais, por amparar, lutar e defender os indefesos, os ombros se vão.</p>
<p>Saem da foto, saem da vida, saem do foco. Deixam o oco, o soco no estômago, o vazio.</p>
<p>A mão no vácuo daquilo que foi grande. Imenso. Irmão.</p>
<p>O Vale do Javari , rio afora, floresta a dentro, encolheu.</p>
<p>Por ora, não há mais o ombro onde pousar o braço, descansar a mão.</p>
<p>Por ora.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>*Ana Maria Lopes</strong> é escritora e uma das milhões de pessoas que se sente indignada e horrorizada com a barbárie cometida contra o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista Dom Phillips. É uma das fundadoras do Coletivo Maria Cobogó e deseja que os deuses dos rios e das matas façam a justiça que, dificilmente, a dos homens fará.</p>
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		<title>de Sandra para Tânia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jun 2022 17:28:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tânia, Seu livro ficou lindo e elegante como você, como a via passar com sua irmã Laís, em frente à minha casa. Andavam na calçada de lá, subindo a rua, no horário da missa, provavelmente se dirigindo à Igreja. Lembranças da juventude, como já falei antes com você e Claudine, da nossa Ipameri. E como</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div>Tânia,</div>
<div></div>
<div></div>
<div>Seu livro ficou lindo e elegante como você, como a via passar com sua irmã Laís, em frente à minha casa. Andavam na calçada de lá, subindo a rua, no horário da missa, provavelmente se dirigindo à Igreja. Lembranças da juventude, como já falei antes com você e Claudine, da nossa Ipameri. E como ficou pitoresco o postal do Coreto! Uma alegre ilustração de<a href="https://www.instagram.com/carmensanthiago/"> Carmen San Thiago </a>e bonita homenagem que você faz à cidade!</div>
<div></div>
<div><img decoding="async" class="size-medium wp-image-19679 alignright" src="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-300x274.jpg" alt="" width="300" height="274" srcset="https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-200x183.jpg 200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-300x274.jpg 300w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-400x366.jpg 400w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-600x549.jpg 600w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-768x702.jpg 768w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-800x732.jpg 800w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-1024x936.jpg 1024w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-1200x1097.jpg 1200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-1536x1405.jpg 1536w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/IMG_9198-scaled.jpg 1611w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></div>
<div></div>
<div>Achei que em todo o trabalho há uma unidade de fala, o que o torna muito real e verdadeiro, e isso me lembra o poema NADA MAIS (pág.125) , onde você diz que &#8220;verdade é aquela que você vive&#8221;. Pareceu-me estar emoldurada num porta-retratos sua experiência de vida, atenta aos sentimentos e registrada cuidadosamente em versos: saudade, solidão, falta, alegria&#8230;enfim, as vivências cotidianas.</div>
<div></div>
<div></div>
<div>Os poemas são sonoros  e bem ritmados, mas ressaltei PAR OU ÍMPAR (pág.113), DESPEDIDA (pág.157) bem precisos; RECADO, para meu pai (pág. 118), muito emocionado.</div>
<div></div>
<blockquote>
<div>
<p><strong>PAR OU ÍMPAR?</strong></p>
<p>Se eu vou</p>
<p>você vem.</p>
<p>Se você vai</p>
<p>eu fico.</p>
<p>Nesse desencontro,</p>
<p>nos encontramos.</p>
<p>Formamos</p>
<p>um par.</p>
<p>Ou ímpar?</p>
</div>
</blockquote>
<div></div>
<div>Em PERDAS ( pág.121) e APRENDIZADO (pág. 122), a atenção às vivências, emoções, para chegar a conclusões. Enfim, o livro mostra, em suma, sua sabedoria amealhada em anos vividos, mediante poemas esmerados, como em EU VI (pág.135) e PALAVRA (pág.65) e tantos outros.</div>
<div></div>
<blockquote>
<div>
<p><strong>PERDAS</strong></p>
<p>A dor da perda</p>
<p>é infinita.</p>
<p>Vai-se ao fundo do poço e</p>
<p>ainda não basta.</p>
<p>Procura-se o infinito e</p>
<p>ainda não basta.</p>
<p>A dor persiste.</p>
<p>Sente-se que,</p>
<p>nesse desce e sobe,</p>
<p>desintegra-se.</p>
<p>Quando se ganha,</p>
<p>descobre-se</p>
<p>que foi uma</p>
<p>perda.</p>
<p>Quando se perde,</p>
<p>descobre-se</p>
<p>que se ganhou.</p>
<p>Nesse jogo,</p>
<p>a lucidez</p>
<p>nos ensina,</p>
<p>que, na roleta</p>
<p>da vida,</p>
<p>mais perdemos</p>
<p>que ganhamos.</p>
<p>Bem-aventurado</p>
<p>o que aprende</p>
<p>a transformar</p>
<p>essa alquimia</p>
<p>em riqueza,</p>
<p>dádiva dos deuses.</p>
</div>
</blockquote>
<div></div>
<div>Foi, sem dúvida,  uma justa homenagem que seus filhos, neto e bisneta lhe fizeram, ao reunir o conteúdo da pasta amarela para um livro. Que venha outro! Claudine teve a quem puxar&#8230; E as receitas estão aqui guardadas.</div>
<div></div>
<div><img decoding="async" class="alignnone wp-image-19678 aligncenter" src="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/wp-content/uploads/2022/06/DSC_3134-300x200.jpeg" alt="" width="302" height="201" srcset="https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/DSC_3134-200x133.jpeg 200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/DSC_3134-300x200.jpeg 300w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/DSC_3134-400x267.jpeg 400w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/DSC_3134-600x400.jpeg 600w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2022/06/DSC_3134.jpeg 640w" sizes="(max-width: 302px) 100vw, 302px" /></div>
<div>Parabéns a você e a todos os craques do Maria Cobogó, sobretudo à Claudine, Coordenadora Editorial, que fez uma bela edição com um projeto gráfico de muitíssimo bom gosto!</div>
<div></div>
<div>Um abraço ipamerino,</div>
<div>Sandra Daher</div>
<div></div>
<div>***</div>
<div><strong>*<a href="https://www.instagram.com/daher.sandra/?hl=en">Sandra Daher</a> </strong>é escritora, formada em Humanas. Qual uma Sherazade candanga, conta histórias lindas em seu livro e seus escritos. “Extratos de Conta-Corrente”, seu primeiro livro foi publicado pelo Coletivo Maria Cobogó como também o livro de poemas PORTA-RETRATO, de Tânia Maria, citado neste texto.</div>
<div></div>
<div>** A arquiteta <a href="https://www.instagram.com/claudiaestrelaporto/?hl=en"><strong>Claudia Estrela Porto</strong></a> nos cedeu as fotos de <em>Flores e Frutos do Urucum</em>, em Ipameri, Goiás, sua cidade natal e também de Sandra Daher e Tânia Maria.</div>
<div></div>
<div>Os livros do Coletivo Editorial Maria Cobogó estão disponíveis no Sebo Dom Caixote. Basta acessar <a href="https://www.instagram.com/domcaixotesebo/">  @domcaixotesebo</a></div>
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		<title>O casamento para as mulheres negras</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/o-casamento-para-as-mulheres-negras/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 May 2022 00:07:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Néia Costa * |   "O que você tem que compreender é que homens negros sofrem suas violências. E que as mulheres negras sofrem outras. Algumas são parecidas. Mas, veja, somos diferentes. Nem sempre as causas são iguais." Jeferson Tenório em O Avesso da Pele (2020)   O que se destaca em relação à mulher negra é</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://www.instagram.com/neiazitta/">Néia Costa</a> * |</strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;">  &#8220;O que você tem que compreender é que homens negros sofrem suas violências. E que as mulheres negras sofrem outras. Algumas são parecidas. Mas, veja, somos diferentes. Nem sempre as causas são iguais.&#8221;</p>
<p style="text-align: right;">Jeferson Tenório em <em>O Avesso da Pele </em>(2020)</p>
</blockquote>
<p><strong> </strong></p>
<p>O que se destaca <em>em relação à mulher negra </em>é uma imagem sexualizada. Embora isso pareça arcaico, não é.</p>
<p>O Brasil possui o maior número de mulheres negras solteiras e sozinhas<strong>**</strong>. A maioria delas ocupa postos relativos a serviços domésticos.</p>
<p>Assim como no tempo da escravidão, a mulher negra ainda é rotulada como objeto de trabalho e diversão. Mesmo sendo independente ou bem sucedida, nada muda este cenário envolto de interferência social e histórica.</p>
<p>Não estamos falando apenas de racismo, da visão escravocrata e do imaginário social, estamos falando, sobretudo, de machismo.</p>
<p>Enquanto o racismo inferioriza e desqualifica a mulher negra que não se enquadra nos padrões estéticos da sociedade: ser branca, magra e ter cabelo liso – uma realidade que passa por um lento processo de mudança –, o machismo vincula a mulher branca ao tradicional, “a mulher para casar”.</p>
<p>A histórica marginalização do negro, em muitos casos, leva, inclusive, o próprio homem negro a construir um padrão marital. Muitos preterem a mulher negra, num desejo de não querer perpetuar sua raça, optando pelo “clareamento” de seus descendentes.</p>
<p>Por fim, que a mulher negra seja solteira por livre escolha, não por dificuldades sociais ou por preterimento. Acima de tudo, que ela seja livre para escolher o que quer e como quer. Que a sociedade desconstrua o racismo não só no belo discurso e no “textão” na <em>internet</em>, mas principalmente na prática. Que o casamento seja uma opção livre de adjetivos e que a mulher negra deixe de ser objeto de fetiches.</p>
<p>Que o amor entre pessoas não se deixe contaminar por padrões de corpo, beleza, cabelos, pele, ideologia, religião, etc. Que o amor seja apenas isso: amor .</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>*Lineia Costa</strong> é quilombola, nascida em Berilo-MG.  filha de dona de casa e lavrador e irmã de três. Em 2010 mudou-de para Brasília e iniciou as atividades laborais na cozinha de uma casa, onde além do gosto por temperos, também deu início ao gosto pela redação e pela leitura.<br />
É formada em comunicação social, habilitada em publicidade e propaganda, especialista em comunicação institucional e redação oficial. É colaboradora do Coletivo Maria Cobogó desde sua fundação.</p>
<p><strong>** </strong>No estudo <a href="https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf"><strong>Desigualdades sociais por cor ou raça no</strong> </a><strong>Brasil, </strong>levantado pelo IBGE, de acordo com os dados, nosso país tem mais de 11,4 milhões de famílias formadas por mães solteiras, sendo que a grande maioria delas é negra (7,4 milhões).</p>
<p>Imagem: <strong>Marie-Guillemine Benoist</strong> &#8211; Retrato de uma mulher negra (1800), Museu do Louvre (Paris, França)</p>
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		<item>
		<title>Carnaval de Noé</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/carnaval-de-noe/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 May 2022 00:07:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Solange Cianni * |   Saiu no 2º dia de carnaval, domingo de manhã, dizendo que ia comprar pão e já voltava. Voltou não. Foi atrás da mulher, mas ficou difícil de achar, porque ela não tem nome e as vestimentas esquisitas da época do dilúvio faziam a vez da fantasia. Era carnaval, ninguém</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/solange-cianni/">Solange Cianni</a> * |</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Saiu no 2º dia de carnaval, domingo de manhã, dizendo que ia comprar pão e já voltava. Voltou não. Foi atrás da mulher, mas ficou difícil de achar, porque ela não tem nome e as vestimentas esquisitas da época do dilúvio faziam a vez da fantasia. Era carnaval, ninguém estranhou.</p>
<p>Noé caminhou entre blocos e batucadas, com aquele jeitão bíblico de ser. Cada mulher enrolada numa canga ou toalha que ele via, corria empurrando os foliões e puxava os panos delas, o que provocou uma confusão danada porque as mulheres empoderadas começaram a gritar: tarado, machista, não é não ! E por aí vai&#8230;</p>
<p>Ele pedia desculpas, mas como falava em Hebraico ninguém entendia. Até que um Sem Nome o chamou para tomar uma catcha, dizendo que entendia tudo que ele falava. Noé se sentiu acolhido e virou a primeira. Ardeu tudo até os cabelos. Virou a segunda, não controlou o gritinho de prazer “yhuuuuu“ e daí pra frente, começaram a se entender; “ ah  muleke!”</p>
<p>Noé falou das conversas que teve com Deus sobre o dilúvio, que tudo ia se acabar, que ele juntou casal de todos os animais da terra &#8211; e vira mais uma -, que levou seus filhos e noras e que sua mulher, a que estava procurando, como se chama&#8230; Não tem nome, pode chamar de Noema, versão feminina do meu próprio nome, eu me chamo Noé, prazer. Virou mais duas. Eita porra!</p>
<p>Contou que construiu uma arca para se salvar do dilúvio e preservar a raça humana do bem, porque segundo Deus, a que estava ali era muito corrupta. Rapazzzz! Não tem dessa bebida lá de onde eu venho não! Outra!  Que a arca era tão grande que levou cinquenta anos pra ficar pronta, muita conversa com Deus, recebendo instruções e obedecendo. Sua mulher, a sem nome, o acompanhou, está na Bíblia, Genesis 6, ela não tinha nome mas era idônea, confiante, corajosa e compreensiva. Mais uma pinga amigão!</p>
<p>Começou a chorar abraçado no cangote do Sem Nome. Não entendia como a mulher tinha sumido, depois de 50 anos acompanhando a construção de um barco de 171 m de comprimento, 28 m de largura e 17 m de altura, longe do mar, passando por maluco. Viveram 364 dias dentro desta arca. Noema, submissa, limpou as sujeiras dos animais, alimentou os filhos e noras, que ele não lembrava agora os nomes delas, acha que nem tinha, mas eram umas folgadas e não ajudavam em nada, sobrava tudo para ela mesmo, a sem nome, que aceitou com naturalidade os delírios do marido até a obra do Senhor ser concluída.</p>
<p>Mais uma pinga, traz a garrafa inteira, falou em português mesmo. Passou mais um bloco e no meio da bateria, bem na frente, estava ela, a rainha Noema, enrolada nos panos da cintura pra baixo, mostrando os seios fartos, cheia de purpurina nos cabelos grisalhos, rindo, sambando do jeito que gringa samba, feliz, abraçada com Dora, vizinha do Sem Nome.</p>
<p>Eu vi tudo com esses olhos que a terra há de comer. Noé tentou, coitado, mas com 950 anos e duas garrafas de pinga pra dentro&#8230;  Tentou falar o nome dela mas não tinha costume e a língua enrolou e só saiu pxsiu! Pxsiu! Tropeçou na cadeira. Sua manta enroscou no pé da mesa e caiu, ficou pelado, falando hebraico cuspindo catcha. O povo empurrou cantando “ êoêo!” O bloco passou por cima.</p>
<p>Noa (apelido que Dora deu para ela porque não entendia hebraico e nem tinha lido a Bíblia) não viu Noé. Passou arrasando atrás do trio elétrico, porque nesse, só não vai quem já morreu.</p>
<p>Foi o caso de Noé. Não foi. Só na quarta-feira de cinzas foi que os filhos o encontraram caído no chão, sem roupa, sem mulher, sem arca, sem vida e sem pão.</p>
<p>Tá bom, viveu 950 anos. Noa vai bem, vive com Dora no barraco vizinho ao de Sem Nome.  Essa parte da história a Bíblia não contou. Aleluia!</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>*<a href="https://www.instagram.com/solangecianni/"><strong>Solange Cianni</strong></a> é escritora, atriz, pedagoga e psicopedagoga. Tem vários livros editados para o público infantojuvenil e escreve contos e poemas em antologias e coletâneas. <strong>Cigarras, Lagartas e outras Marias</strong> foi seu primeiro livro voltado ao público adulto. Em seguida, publicou <strong>Bailarina do meu jardim</strong>, em parceria com João Antônio e Gabriel Guirá.  No início de maio, lançou <strong>O Luto da Baleia </strong>também pelo Coletivo Maria Cobogó, do qual é uma das fundadoras.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Imagem:</strong> <em>Embriaguez de Noé</em> (detalhe) por Giovanni Bellini (1515) &#8211; Museu de Belas Artes e de Arqueologia, Besançon, França.</p>
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