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	<title>Arquivos Mulheres na literatura - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
	<lastBuildDate>Mon, 16 May 2022 02:12:54 +0000</lastBuildDate>
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		<title>TODOS JUNTOS SOMOS FORTES</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 May 2022 00:07:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Christiane Nóbrega *| Uma gata, o que é que tem? - As unhas E a galinha, o que é que tem? - O bico Dito assim, parece até ridículo um bichinho se assanhar E o jumento, o que é que tem? - As patas E o cachorro, o que é que tem? - Os</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/christianenobrega/">Christiane Nóbrega</a> *|</strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;">Uma gata, o que é que tem?<br />
&#8211; As unhas<br />
E a galinha, o que é que tem?<br />
&#8211; O bico<br />
Dito assim, parece até ridículo<br />
um bichinho se assanhar<br />
E o jumento, o que é que tem?<br />
&#8211; As patas<br />
E o cachorro, o que é que tem?<br />
&#8211; Os dentes<br />
Ponha tudo junto e de repente vamos ver o que é que dá</p>
<p style="text-align: right;">Sergio Bardotti/Chico Buarque/Luis Enrique Bacalov em <em>Todos Juntos (2017) </em></p>
<p style="text-align: right;">
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>Das coisas que ouvimos ao longo da caminhada, algumas merecem resposta. Escolhi uma delas. Não uma resposta qualquer, uma resposta afetuosa, quiçá poética. Uma resposta elogio. Uma resposta exaltação.</p>
<p>Ouvi por aí que nos juntamos, as Marias Cobogós, porque não conseguimos nada sozinhas. Sim, somos mulheres que não conseguem sozinhas. Sim, para que nossa literatura fosse/seja possível nos juntamos. Assim, mesmo. Você tem razão.</p>
<p>Começamos tímidas&#8230; um café e muita simpatia. Evoluiu para uma bebidinha e muitas gargalhadas. Por último chegaram as lágrimas, elas selam as parcerias como ninguém. Daí foi ladeira abaixo, outras vezes ladeira acima. Aqui a Santa ajuda a descer e subir.</p>
<p>Logo vieram à mesa projetos de raios de romances, textos nunca lidos, emoções nunca verbalizadas, desenhos nunca coloridos e choros mal chorados. Tudo temperado com pitadas de síndrome de impostora.</p>
<p>Quase que em uma expedição arqueológica dentro uma das outras, nossas gavetas foram sendo abandonadas pelos textos para povoar o blogue do coletivo e as páginas dos livros. Muitas vezes a outra se comportando feito a mãe que lá da plateia incentiva o filho na apresentação da escola, outras vezes arrumando o cabelo desgrenhado da outra, outras pagando mesmo, afinal, <em>eu pago</em>, não eu, alguém que não vou dizer o nome, mas ela sabe quem é&#8230; Outras vezes carregando a caixa ou dando absolutamente o mesmo presente de aniversário para todas.</p>
<p>Assim, um texto escrito que não se tinha certeza se era bom, um livro pronto sem revisar, um lançamento que não queria ser solitário se tornou uma <em>Baleia</em> que nada em meio a um <em>Hiato</em>. Uma <em>Guerra</em> que se encontra em um <em>Atlas</em>, tudo em um <em>Amor</em> pra lá de <em>Concreto</em>.</p>
<p>Para gente! Lógico que não é sempre bom. Mas pior seria sozinha, até porque nem seria nada. Temos mal humores e mal-entendidos. Outras vezes damos um tempo mesmo, só ignoramos o grupo por umas horas ou até dias e o gosto ruim na boca passa. Passa porque temos a certeza de que sozinha não desocuparíamos nossas gavetas, não venderíamos em uma noite quase mil livros, não encheríamos por tantas vezes o Beirute, não seríamos por tantas vezes capa do Correio e até mesmo finalistas do Prêmio Jabuti.</p>
<p>Depois de tudo isso, respondo mais uma vez ao feliz e acertado comentário feito, dizendo que sim, você tem toda razão, nos juntamos porque sozinhas não podemos, não somos e, sobretudo, não queremos.</p>
<blockquote><p>Todos juntos somos fortes</p>
<p>Somos flecha e somos arco</p>
<p>Todos nós no mesmo barco</p>
<p>Não há nada pra temer</p>
<p>&#8211; Ao meu lado há um amigo</p>
<p>Que é preciso proteger</p>
<p>Todos juntos somos fortes</p>
<p>Não há nada pra temer</p></blockquote>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>*<a href="https://www.instagram.com/chrisnobrega/">Christiane Nóbrega</a></strong> é escritora e advogada. Escreve livros infanto-juvenis. Tem vários, inclusive <em>Fios</em>, finalista do Prêmio Jabuti, em 2020. Lançou seu primeiro romance <em>Hiato</em> (2021) – que toda mulher deveria ler, e os homens também.</p>
<p><strong>Imagem: </strong><em>Os Saltimbancos, </em>peça teatral com direção de Hugo Rodas e elenco formado pela <a href="https://www.instagram.com/agrupacaoteatralamacaca/"><strong>Agrupação Teatral Amacaca (ATA)</strong></a>, em 2019 no CCBB, em Brasília-DF (foto Diego Bresani/divulgação)</p>
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		<title>Dois poemas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 May 2022 00:07:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mãe]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Tânia Maria * | MÃE Se vive. Se pensa que se vive. O tempo passa. Não ouvimos pelos olhos, não enxergamos pelos ouvidos. E o tempo passa...   Hoje, eu te escutei, Hoje, eu te vi.   Você não falou e não me enxergou. Porém, eu te vi e te escutei.   Você, cabeça</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Tânia Maria *</strong> |</p>
<blockquote><p><strong>MÃE</strong></p>
<p>Se vive.</p>
<p>Se pensa que se vive.</p>
<p>O tempo passa.</p>
<p>Não ouvimos pelos olhos,</p>
<p>não enxergamos pelos ouvidos.</p>
<p>E o tempo passa&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje, eu te escutei,</p>
<p>Hoje, eu te vi.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Você não falou e</p>
<p>não me enxergou.</p>
<p>Porém, eu te vi e</p>
<p>te escutei.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Você, cabeça branca,</p>
<p>ossos desnudos,</p>
<p>olhos tristes.</p>
<p>Devorada pela vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Me vi em você.</p>
<p>Me enxerguei em você.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Meu coração chorou.</p>
<p>Mas, sabemos, não basta ele chorar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É preciso muito mais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E o tempo correu, e, mãe,</p>
<p>ele passa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Você partindo, vai com você</p>
<p>um pedaço de mim.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E eu, tão incompleta,</p>
<p>fico tentando lhe enxergar</p>
<p>e lhe ouvir mais.</p>
<p>Talvez, querendo diminuir</p>
<p>a mutilação que trago</p>
<p>em mim.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>* * *</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>CONTRAMÃO</strong></p>
<p><strong>                                   </strong><em>Para minha mãe</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como poderia</p>
<p>mostrar a você</p>
<p>o sol,</p>
<p>se nem</p>
<p>vislumbrava a luz?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como poderia</p>
<p>servi-la com</p>
<p>bondade,</p>
<p>se nem</p>
<p>discernia o mal?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como poderia</p>
<p>presenteá-la com</p>
<p>amor,</p>
<p>se nem a mim mesma</p>
<p>eu amava?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando vi</p>
<p>a luz</p>
<p>e, em êxtase,</p>
<p>lhe busquei,</p>
<p>você já não estava.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando aprendi</p>
<p>a bondade</p>
<p>e quis oferecê-la,</p>
<p>você já havia partido.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando mergulhei</p>
<p>no mar do</p>
<p>amor,</p>
<p>e me afoguei</p>
<p>em suas delícias,</p>
<p>e lhe busquei</p>
<p>(para brindá-la</p>
<p>com uma poção</p>
<p>dos deuses),</p>
<p>você era apenas</p>
<p>uma ausência</p>
<p>latente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>* * *</strong></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>* <strong>Tânia Maria Diniz Duarte</strong> é goiana de Ipameri, completou oitenta anos em março deste ano e publicou seu primeiro livro, <em>Porta-Retrato</em>, pelo selo editorial Maria Cobogó. Os dois textos deste post integram a obra que contem oitenta poemas de sua autoria. Tânia Maria vive em Anápolis e, além de seu livro, plantou várias árvores, tem duas filhas, dois filhos, três netos, quatro netas, três bisnetos e uma bisneta que completa 18 anos neste maio.</p>
<p><strong>Imagem:</strong> <em>Flor de Maio</em> (<a href="https://portalvidalivre.com/articles/36">Portal Vida Livre</a>)</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>TRISTEZA SUAVE</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/tristeza-suave/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Apr 2022 00:07:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
		<category><![CDATA[tristeza]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Eva Leones * | Na posição em que estava, quase na entrada do salão, eu não conseguia ouvir muito bem o que dizia a cliente com quem a manicure conversava. Ou talvez eu tenha me colocado (de propósito? agora me pergunto) no ângulo exato para ouvir apenas as suposições e o relato, quase uma</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">por <strong>Eva Leones *</strong> |</p>
<p>Na posição em que estava, quase na entrada do salão, eu não conseguia ouvir muito bem o que dizia a cliente com quem a manicure conversava. Ou talvez eu tenha me colocado (de propósito? agora me pergunto) no ângulo exato para ouvir apenas as suposições e o relato, quase uma elegia, que aquela mulher, sentada no banquinho baixo, meio agachada, contava.</p>
<p>Como foi que aquilo ali me capturou? Onde antes, meu Deus?</p>
<p>Eu estava apenas de passagem em mais uma cidade &#8211; como a cor de tinta do meu cabelo que ia, de novo, trocar -, e nunca soube o motivo de não poder desperdiçar nada daquela tarde, daquela luz, daquela delicadeza, entre inocente e absurda, que habitava aquela historinha de passarinho.</p>
<p>&#8230;&#8230;..</p>
<p>&#8211; É assim todas as tardes. Ele fica aí nesse choro triste. Depois a companheira volta e ele canta que é uma beleza! Daqui a pouco, mais uns dez minutos, e a senhora vai ver.</p>
<p>No começo eu ficava curiosa e ia olhar&#8230; Uma tarde vi a fêmea vindo e os dois se encontrando. Uma festa! Faz quase um ano que eu trabalho aqui. Já me acostumei. Nem preciso olhar o relógio pra saber o que está acontecendo. Natureza, né? Passarinho se guia pela luz do sol e pelo calor do ar. Já reparou que no meio do dia a gente quase não vê eles voando? Não devem aguentar a quentura!</p>
<p>Esses dois aí, acho que são um casal mesmo. E ele é velhinho ou tem algum machucado e não consegue voar. Essa hora da tarde, ele sente a companheira retornando&#8230; Deve ter um pouco de ciúme e de medo&#8230; de acontecer alguma coisa com ela&#8230; Ou, vai ver, pensa que vai acabar esquecido. Uma vez eu li que muitos passarinhos têm só um amor pra vida toda. Esse aí deve ser assim. É um bicho bonito, né?</p>
<p>Às vezes fico querendo que alguém faça uma música com a história deles. Tem muita música com passarinho. Aquela caipira antiga do João-de-barro eu não gosto, não! História de traição, de macheza&#8230; Me falaram que tem uma nova bem diferente, de amor&#8230; Mas ainda não ouvi.</p>
<p>Poeta de passarinho? Conheço ainda não! Fala de novo o nome&#8230; E escritora mulher?&#8230; Tem?&#8230; Vou procurar.</p>
<p>Conheço quase todo mundo aqui na comercial, sim! Faz tempo que a senhora se mudou pra Brasília? É a primeira vez que vem no salão, né? Eu já vi a senhora passando na rua&#8230; Semana passada, não foi? Um vestido azul bem comprido, eu acho.</p>
<p>Pronto! A cor ficou boa pra senhora, combinou com a sua pele&#8230; olha o nome que engraçado!&#8230; Se a senhora quiser continuar usando esse tom, eu peço pra Marli comprar mais e deixar aqui&#8230; Nome de esmalte muda muito&#8230;</p>
<p>Obrigada, viu?! Se quiser, pode marcar hora pelo telefone. Não esquece o cartão da gente.</p>
<p>Olha lá! Bem na hora! Ainda bem que deu tempo de a senhora ouvir a felicidade dele! Não lhe disse que era uma festa? Tão bonito o amor dos dois! Me dá uma ternura, sabe?! Às vezes cai uma lágrima. Acho que é porque o canto de alegria dele, dos dois juntos, leva a gente longe&#8230; Que nem a luz da tarde nessa hora.. . Tem uma tristeza também, né? Uma tristeza que não é profunda&#8230; é até suave&#8230; e a gente não sabe explicar.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>*</strong></p>
<blockquote><p><strong>um P.S. para Lygia: </strong></p>
<p>Este texto estava pronto há algumas semanas, e sua publicação já estava prevista para agora, quando nos chegou a notícia do falecimento da querida escritora Lygia Fagundes Telles. Ela também era autora de textos com passarinhos.</p>
<p>Lembramos, por exemplo, dos contos &#8220;História de Passarinho&#8221; (do livro &#8220;Invenção e memória&#8221;) e &#8220;Pomba Enamorada ou Uma História de Amor&#8221; (de &#8220;Seminário dos Ratos&#8221;). No primeiro, um homem, sentindo-se sufocado no casamento, se compara a um passarinho preso com quem convive; no outro, uma mulher se enche de vida e de esperança e se permite o encontro com um amor, mesmo que pareça quase milagroso isso acontecer.</p>
<p>Pequenas cenas e questionamentos do cotidiano que intrigam e comovem. De algum modo, os dois textos da escritora dialogam com esta nossa crônica. Esta &#8220;Tristeza suave&#8221; passa a ser a nossa elegia de homenagem para Lygia. É também uma forma de agradecimento e de reverência à escritora paulista e à beleza inquietante e instigante de seus textos.</p></blockquote>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p><a href="https://www.instagram.com/tatu.com.insonia/"><strong>*Eva Leones</strong></a> é escritora e doutora em Letras pela USP. Professora,  ministra cursos e oficinas literárias, sempre sobre a reflexão sobre escritores, a poesia, a leitura e a cultura popular. Tem um livro de poesias editado por nosso Coletivo &#8211; TEMPO/PÁSSARO &#8211; que pode ser adquirido pelo <a href="https://www.instagram.com/domcaixotesebo/">Sebo Dom Caixote.</a> Neste mês, em comemoração ao aniversário de Brasília, apresentará uma série de diálogos e reflexões sobre a cidade e sua relação com a leitura e literatura. Acompanhe em <a href="https://www.instagram.com/travessiasdaliteratura/"><strong>Travessias da Literatura</strong>.</a></p>
<div class="fusion-meta-info"></div>
<div><strong>Imagem: </strong>Gaturamo verdadeiro (Euphoria violacea) | Foto por <a href="https://www.instagram.com/sbzarur/"><strong>Sandra Beatriz Zarur</strong></a>.</div>
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		<title>A PALO SECO</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/a-palo-seco/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Feb 2022 00:07:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Eva Leones * | Estou, estamos, de volta às ruas, de volta às instituições literárias e aos centros culturais, de volta às aulas, de volta às leituras, aos saraus, às conversas "inteligentes" e a esboços de escrita. Mas será mesmo uma volta, um retorno? Noto que algo falta, algo me falta, algo se perdeu,</p>
<p>O post <a href="https://mariacobogo.com.br/a-palo-seco/">A PALO SECO</a> apareceu primeiro em <a href="https://mariacobogo.com.br">Maria Cobogó</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://www.instagram.com/tatu.com.insonia/"><strong>Eva Leones</strong> </a>* |</p>
<p>Estou, estamos, de volta às ruas, de volta às instituições literárias e aos centros culturais, de volta às aulas, de volta às leituras, aos saraus, às conversas &#8220;inteligentes&#8221; e a esboços de escrita.</p>
<p>Mas será mesmo uma volta, um retorno? Noto que algo falta, algo me falta, algo se perdeu, ou está se perdendo, numa estranha mistura de nostalgia e pressa. O que fazer? O que é possível ainda fazer?</p>
<p>Talvez seja um sinal do tempo, este espantalho que distribui e redistribui prêmios e espantos em meio a uma pandemia, a um mundo convulsionado e a uma miséria maior nas ruas, nos campos e nas relações.</p>
<p>Talvez, no meu caso, seja apenas cansaço e o gosto amargo da teimosia de quem segue em frente, com e apesar de&#8230; Com e apesar da vida e da literatura.</p>
<p>Visito Carolina e Clarice, me permito a inclusão entre seus dois rostos na parede maior da lanchonete do Instituto Moreira Salles, o IMS-Paulista. Uma fotografia pra colocar no Instagram. Uma vaidade que disfarça o desconforto de ter de mostrar, de ter de dizer, de ter de &#8211; ah, a máscara! &#8211; aparecer.</p>
<p>Como a espelhar meu estado de espírito, as duas exposições se completam, se excluem e representam dois modos diferentes de fazer uma curadoria, de propor uma mediação e de compreender o papel da literatura nos dias de hoje.</p>
<p>Carolina Maria de Jesus, nascida em 1914 e reconhecida escritora na década de 1960, tem um número bem maior de visitantes. Boca a boca, a divulgação vai ressaltando a beleza e a necessidade de resgatar e fortalecer esse verdadeiro levante que é a sua obra, que é sua vida.</p>
<p>E a galeria se enche de gente.</p>
<p>Carolina, uma mulher com fome, uma mulher brasileira negra com fome e com desejo de festa e de um lugar no Brasil (&#8220;um Brasil para os brasileiros&#8221;), uma mulher com a urgência de ter direito de ter um nome, um nome de escritora. Uma mulher e suas peripécias nos dias e noites de trabalho e atrevimento.</p>
<p>Clarice Lispector, nascida em 1920, uma refugiada de país e de língua. Ela também de uma raça perseguida e senhora de outra fome. Outra fome de nome e de escrita.</p>
<p>A &#8220;Constelação Clarice&#8221;, pelo menos à primeira vista, parece afastar o visitante. A iluminação e as cores propõem uma densidade e uma opacidade maiores, reforçando mistérios e abstrações.</p>
<p>Duas exposições estranhamente díspares. Sim, a festa Carolina chama o visitante; a estrela Clarice está distante, inatingível, como um ovo sobre a mesa? como a imensidão/escuridão das perguntas na noite?</p>
<p>Na outra semana, abro o site do UOL e me deparo &#8211; me firo &#8211; com algumas flechas do escritor Julián Fuks. O texto, &#8220;Procura-se com toda urgência: a literatura está desaparecida&#8221;, não é apenas o relato de uma crise; é também uma espécie de beliscão no torpor em que estamos e uma forma de arranhão na maciez do que ainda nos atrevemos a chamar de literatura. Clarice está na sua lista. É possível colocar Carolina lá também. As duas foram contemporâneas e morreram no mesmo 1977. São de outro tempo.</p>
<p>E o nosso tempo? Onde está a literatura hoje é o que pergunta Julián Fuks. Onde ela vive? Ela está viva? O que é uma literatura viva?</p>
<p>Uma literatura capaz de espicaçar os sentidos, provocar a atenção do mundo e sobre o mundo &#8211; os mundos &#8211; e da linguagem e sobre a própria linguagem? Uma literatura, uma arte, &#8220;a palo seco&#8221;, onde estará?</p>
<p>Encontro em Belchior um trecho de música que me atinge em cheio:</p>
<blockquote><p>&#8220;&#8230; quero que esse canto torto/ feito faca/ corte a carne de vocês&#8221;</p></blockquote>
<p>Ele também já se foi; é de outro tempo. Ou não? A literatura é sempre agora. E agora, literatura?</p>
<p><strong>* * *</strong></p>
<p><strong>*Eva Leones</strong> é escritora, poeta e doutora em Letras pela USP. Baiana de nascimento, mora em São Paulo, onde promove cursos e oficinas de literatura e formação de leitores e escritores. Seu livro <em>Tempo/Pássaro</em> (2018) é uma edição do Coletivo Maria Cobogó. Acompanhem <em><a href="https://www.instagram.com/travessiasdaliteratura/">Travessias da Literatura.</a></em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Imagem: foto de Don Shin via Unplash</p>
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		<item>
		<title>MACULADOS</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/maculados/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Feb 2022 00:41:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Maria Amélia Elói * |   Carl Expatriate era seu nome. Um professor de História de quem nunca me esqueci. Lecionava para a oitava série do primeiro grau (último ano do ensino fundamental) numa escola pública bem perto da minha casa. Antes de vê-lo explicar à classe o significado de nação, eu jamais havia presenciado</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Maria Amélia Elói * |</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Carl Expatriate era seu nome. Um professor de História de quem nunca me esqueci. Lecionava para a oitava série do primeiro grau (último ano do ensino fundamental) numa escola pública bem perto da minha casa. Antes de vê-lo explicar à classe o significado de nação, eu jamais havia presenciado um homem chorar de forma tão sentida. O quadro negro, que guardava muitos hieróglifos brancos, recebeu lágrimas pesadas daquele mestre alto, branco, forte, sisudos e de língua enrolada. O conteúdo de giz foi se apagando pouco a pouco, lavado pelo pranto; mas a imagem do professor se manteve viva nesta aluna que hoje tenta sobreviver como cronista. De acordo com o obituário do jornal, Carl Expatriate faleceu ontem, aos 58 anos, e agora jaz no maior cemitério de nossa cidade.</p>
<p>Eu nunca soube onde nasceu o personagem, nem como veio parar aqui. Ele evitava falar de sua vida pessoal, e a direção da escola nos omitia o currículo dos educadores. No entanto, tenho certeza de que cumpria exílio, após se envolver em algum episódio político grave em sua terra natal. “Uma nação não pode discriminar as diferenças”, dizia.  “Uma nação respeita todos os cidadãos e comunga de uma mesma fé no bem comum. Há um sentimento de afinidade, pertença e comunhão entre os conterrâneos”, soluçava alto, naquele dia. Quando perguntei a ele se o Brasil poderia se considerar efetivamente uma nação, Carl limpou os olhos sofridos e afirmou, com seu mau Português: Mais do que Portugal, mais dos que os Estados Unidos, mais do que países de longa história e civilização; esta, sim, é uma nação que se cumpriu por completo.”</p>
<p>Saí da adolescência ansiosa por enxergar, de forma concreta e comprovada, o mesmo Brasil que Carl vislumbrava. Como aprendiz de seu otimismo, queria levar a todos aquela imagem de País maduro, uno, democrático, realizado, de povo satisfeito. Porém, do Amazonas ao Rio Grande, de Brasília a Pernambuco, incluindo Rio e São Paulo, tanto nas grandes cidades quanto nas pequenas propriedades rurais, não há nada verdadeiramente íntegro que salve o Brasil de sua histórica sina de nação mal resolvida.  Mortalidade materna, falta de saneamento básico, analfabetismo, mão de obra desqualificada, subemprego, desnutrição, desaparecimento de crianças, desabamento de casas, mendicância, insegurança, negligência, abandono, medo, desproteção&#8230; O brasileiro é um órfão maltratado, que nunca se sentiu acolhido pela mãe.</p>
<p>Carl Expatriate adorava repetir que o Brasil o recebera assim como o pai abraçou o filho pródigo. Quantos anos viveu enganado o meu prezado mestre!  Triste coincidência. Escrevo hoje de luto porque Carl jamais poderá repetir seu pranto agradecido diante os alunos. Nem poderá narrar outra vez as venturas dos heróis de nossa Independência ou Proclamação da República. Acabou aquele jeito orgulhoso e emocionado que resistia em minha memória.</p>
<p>Foi um aluno que assassinou Carl Expatriate friamente em sala de aula, diante do quadro. Vários hieróglifos brancos borrados de vermelho. O sangue de estranja tão brasileiro nos macula a todos e reforça a tese de que o nosso país ainda não se cumpriu como nação.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>* * *</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Maria Amélia Elói</strong> é escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária pela UnB. Traça um trabalho imprescindível no Centro de Documentação da Câmara dos Deputados e é uma importante colaboradora do Coletivo Maria Cobogó.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*Texto da autora originalmente publicado no livro “Um Milagre para Cada Corcova” e cedido ao blogue das Marias.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>DOIS FUSCAS E UM IRMÃO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Feb 2022 09:00:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M.D.Duarte  * | Um fusca não dura cinquenta anos. Foi a primeira coisa que pensei ao ver o fusca azul parado na porta da minha casa. Fiz as contas. Não. Com certeza não era aquele. A placa? Quem se lembra de placas? O Rain Man. Mas ele não conheceu o fusca azul da</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/"><strong>Claudine M.D.Duarte  * |</strong></a></p>
<p style="text-align: left;">Um fusca não dura cinquenta anos. Foi a primeira coisa que pensei ao ver o fusca azul parado na porta da minha casa. Fiz as contas. Não. Com certeza não era aquele. A placa? Quem se lembra de placas? O <em>Rain Man</em>. Mas ele não conheceu o fusca azul da minha tia.  É propriedade das lembranças que partilho com meus irmãos.</p>
<p>Nós éramos quatro. E ainda tinha um primo. Na frente, pai e mãe. O pai dirigindo. A mãe dizia: <em>Haroldo, você errou a estrada.</em> O pai dirigindo. Lá fora, escuro. Estrada de terra no interior de Goiás. A gente lá atrás. Como cabíamos todos naquele banco? E ainda tínhamos malas? Onde iam as malas? Até hoje, rimos e nos perguntamos: <em>e as malas?</em> O pai dirigindo. A mãe avisando. Parece que é próprio das mães avisarem. Sempre. O pai ignorando. Seria próprio dos pais ignorar sinais e avisos? A gente ria no banco de trás.</p>
<p>Meu irmão imitou minha mãe: <em>a estrada tá errada&#8230;</em> meu pai gritou um <em>Fica quieto, menino.</em> A gente riu. A gente sempre ria. Meu pai dirigindo, minha mãe olhava para fora: <em>Eu já disse que a estrada não é essa.</em> E não era. A estrada acabou num buraco. O fusca azul no buraco. A gente no buraco. Minha mãe chorava. A gente ria. A gente ri até hoje. A estrada não existia. Um pouco de lua, o carro emborcado e a gente em volta do buraco. Meu pai suspirava. Acho que pensava em como devolver um fusca amassado para a irmã dele. Meu primo também chorava. Fez xixi nas calças, <em>quero minha mãe</em>, <em>vi um lobo, não gosto de lobos&#8230;</em> A gente ria.</p>
<p>É um absurdo, mas a cada Natal ou outro encontro de família, o fusca azul comparece. Meu irmão tentou dirigi-lo uma vez. Ele tinha uns dez anos (eu, onze) e me chamou para dar uma volta. Estávamos na chácara de nossos avós. Entramos no carro, ele engatou a primeira e o carro obedeceu, saiu da garagem e seguimos pela trilha da entrada. Tudo ia muito bem. Acho que a gente até ria. A gente ria sempre. Aí apareceu uma curva e, do outro lado da curva, um outro carro. Meu irmão gritou <em>Sujou, segura o volante. Meu pai! </em> Ele abriu a porta e pulou do carro em movimento. Não lembro de ter segurado o volante, nem de ter feito nada até que o carro parou numa depressão do terreno. Tinha um pequeno riacho e cipós. Muitos cipós. Puxei um cipó pra sair do carro. O cipó arrebentou. <em>No Tarzan dá certo</em>, pensei na hora.</p>
<p>Nem era meu pai. Era nosso avô. Bronca. Bronca. Bronca. Uma carroça daquelas com cavalo e tudo foi resgatá-lo. Meu irmão também precisou ser resgatado. Demorou uns vinte dias pra me contar que foi se esconder na igreja da vila. Entrou naquele quadradinho de madeira onde as pessoas vão contar dos pecados e coisas assim. Se julgou a salvo. Negociou perdão direto com quem manda. A gente ainda ri.</p>
<p>Quando nos lembramos do fusca azul, em seguida vem um fusca branco. Com meu irmão, óbvio. No final dos anos setenta morávamos em Brasília, sem pai nem mãe. Eu, na UnB. Ele, estudando para o vestibular. O fusca branco era meu. Mas os amigos eram dele. Roubaram a chave e foram passear&#8230; até encontrarem uma curva. O fusca capotou. Eles se desesperaram e resolveram ‘descapotar’ o fusca. Mas fizeram isso para o lado oposto. O fusca, como um bife sendo mergulhado no ovo e na farinha. Uma milanesa. Gira aqui. Gira lá. Sentido horário e <em>voilá</em>! Colocaram o fusca sobre as quatro rodas novamente e ligaram para o meu namorado&#8230; Sim.</p>
<p>Eles precisavam de alguém maior de idade, com carteira de habilitação e coragem pra assumir o acidente. Os policiais chegaram e não entenderam como alguém conseguiu capotar naquela via vicinal, <em>a sessenta por hora?</em> E a intriga maior: como o carro deu aquele <em>duplo twist carpado</em> parando em pé? Sei. Sabemos. Fusca não tem pé. Tem história. Pra gente rir.</p>
<p>Eu e meu irmão ainda rimos muito disso. Meu pai, enquanto estava vivo, escutava essas histórias e não ria. Rosnava. Assim pra dentro como devem ser os rosnados (não escutados). Meu primo nega que estivesse conosco naquele buraco. O namorado que assumiu a culpa pela inimaginável capotada virou marido, ex-marido e hoje partilhamos filhas, netos e garante que os policiais também riram dele. Os fuscas? Imagino que estão por aí. Outras histórias, outros acidentes, outros medos, outros risos, outras memórias.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>*  *  *</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="https://www.instagram.com/claudine_m_d_duarte/"><strong>Claudine M</strong><strong>. D. Duarte </strong></a>é escritora, e das boas. Além de contos, minicontos, crônicas e romances, escreve sem parar. Adapta a literatura para o teatro, edita livros, dá palestras e sempre faz uma limonada de qualquer limão. Ah! É uma das fundadoras do Coletivo Maria Cobogó!</p>
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		<title>O BAGAÇO DA FESTA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Jan 2022 00:07:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Solange Cianni *|   Tem hora que o vazio é tanto que nem uma caixa inteira de bombons resolve o problema. E é aí que mora o perigo... Nessa hora se você não se ocupa de algo que realmente lhe preencha, cai na armadilha da carne fraca. Quero dizer que não é necessária nem</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/solange-cianni/">Solange Cianni</a> *|</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tem hora que o vazio é tanto que nem uma caixa inteira de bombons resolve o problema. E é aí que mora o perigo&#8230;</p>
<p>Nessa hora se você não se ocupa de algo que realmente lhe preencha, cai na armadilha da carne fraca. Quero dizer que não é necessária nem uma cantada especial.</p>
<p>Duas taças de vinho tinto, uma conversinha besta e já era&#8230; É triste no dia seguinte, quando acorda com o ronco daquele que é conhecido como o bagaço da festa, o último a sair do boteco, aquele que já está para lá de rodado.</p>
<p>Maria Aparecida era especialista em atrair situações como essa, por pura carência. Foi no dia anterior que assistiu a um filme pornô, resolveu sair sozinha e tirar o atraso. Já tinha tomado umas três caipirinhas e ele, calejado, sentiu que era a hora do ataque. Quando deu por si, já estava no apartamento dele, ouvindo a nova música do Luan Santana, incrível!</p>
<p>Nem conhecia o tal cantor, mas dançou e cantou sedutora e tonta. Tão tonta que nem reparou que ele era muito feio e fedia a bebida e cigarro. Que sua casa era toda desorganizada, abafada e nem se lembra se ele usou camisinha. Mas não se esqueceu do ronco que a acordou no meio da madrugada. E daí para frente não conseguiu mais dormir. Rolava de um lado para o outro da cama desconfortável. Sentia um calor insuportável! E ele lá, de barrigão para cima, roncando&#8230;</p>
<p>De repente se deu conta de que não precisava passar por isso e decidiu ir embora. Mas lembrou-se de que estava sem carro.</p>
<p>&#8211; Posso chamar um Uber! Pensou, animada.</p>
<p>Não achava sua calcinha. Procurou embaixo da cama mas achou o outro par da sandália. A blusa estava no sofá da sala, junto do sutiã.</p>
<p>&#8211; Graças a Deus!</p>
<p>A saia estava jogada na mesinha de cabeceira. Ela tropeçava e xingava, mas ele nem se mexia&#8230;</p>
<p>&#8211; São Longuinho, São Longuinho, me ajude a achar a minha calcinha! – falava dando pulinhos.</p>
<p>Nervosa, cheia de sono, desejava urgente um banho para tirar o cheiro dele que estava impregnado nela. Só pensava na sua caminha macia e cheirosa. Decidiu ir embora sem calcinha mesmo.</p>
<p>Ah, se arrependimento matasse, Maria Aparecida estava <em>mortinha da silva</em> no dia seguinte!</p>
<p>&#8211; Que decadência! Onde está o seu amor próprio, sua dignidade? Falou olhando-se no espelho pela manhã.</p>
<p>E não adiou nem mais um dia o retorno à sua terapia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>* * *</strong></p>
<p><a href="https://www.instagram.com/solangecianni/"><strong>Solange Cianni</strong></a> é escritora, atriz, pedagoga e psicopedagoga. Tem vários livros editados para o público infantojuvenil e escreve contos e poemas em antologias e coletâneas. <strong>Cigarras, Lagartas e outras Marias</strong> foi seu primeiro livro voltado ao público adulto. É dele o conto acima. O livro contém o que ela chama de “eróticos românticos”. Como outros de seus livros, esse também foi editado pelo Coletivo Maria Cobogó, da qual é uma das fundadoras.</p>
<p>O livro <strong>Cigarras, Lagartas e outras Marias</strong> pode ser adquirido no Sebo Dom Caixote <a href="https://www.instagram.com/domcaixotesebo/">@domcaixotesebo</a></p>
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		<title>BEM-TE-VI</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/bem-te-vi/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Jan 2022 00:07:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Eva Leones * |   Hoje pensei em você como quem pensa num poema Um poema que anda por aí Nos odores das frutas, nas calçadas, Cigarros, maçãs, café E flor   Um poema que se espalha nas folhas das árvores Do outono e do inverno no chão da cidade Nos jardins da cidade,</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Eva Leones * |</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Hoje pensei em você como quem pensa num poema</p>
<p>Um poema que anda por aí</p>
<p>Nos odores das frutas, nas calçadas,</p>
<p>Cigarros, maçãs, café</p>
<p>E flor</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um poema que se espalha nas folhas das árvores</p>
<p>Do outono e do inverno no chão da cidade</p>
<p>Nos jardins da cidade, sua grama amarela,</p>
<p>Nos galhos ressecados, crocantes, ariscos</p>
<p>Da cidade</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje pensei em você como quem sente um poema chegando</p>
<p>Nos passos, nas pernas, no modo de falar cadenciado</p>
<p>Segundo uma melodia regional</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um poema que atravessa avenidas e se expõe</p>
<p>Aos automóveis e ao sol do amanhecer e do anoitecer</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ou</p>
<p>Um poema que espreita da janela de um apartamento,</p>
<p>De uma quitinete em uma região central (no entanto),</p>
<p>De um escritório ou uma cozinha de restaurante,</p>
<p>De uma fresta no subterrâneo num lugar qualquer</p>
<p>Que é, na verdade, o lugar de quem vê</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De quem vê a partir de seu eu,</p>
<p>De sua particularidade, de sua nuance</p>
<p>Única, insubstituível</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje pensei em você como quem pensa num longo poema</p>
<p>Um poema sem tempo determinado</p>
<p>Sem rima explícita</p>
<p>As margens fugidias, melodias inexatas,</p>
<p>Ângulos, instantâneos</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje pensei em você e notei que já não era</p>
<p>Pensar</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Meu pensamento</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">Era sentir</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p>*<a href="https://www.instagram.com/tatu.com.insonia/"><strong>Eva Leones</strong></a> é escritora e doutora em Letras pela USP. Promove cursos e oficinas de literatura e formação de leitores e escritores em <a href="https://www.instagram.com/travessiasdaliteratura/">@travessiasdaliteratura</a>. Sabe que a poesia é necessária e produz e divulga textos próprios e de outros autores. O poema acima foi publicado em seu primeiro livro <strong>Tempo/Pássaro</strong> pelo Coletivo Editorial Maria Cobogó.</p>
<p><strong>Imagem: </strong>reprodução de foto de <strong><a href="https://citizenatelier.com/pages/artists-antonio-mora">Antonio Mora</a></strong>.</p>
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		<title>Os Bastidores da Bailarina</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/os-bastidores-da-bailarina/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Aug 2021 01:00:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[lançamento]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Solange Cianni* |    Livro - poesia - coreografia. Uma árvore nativa, uma mulher antiga. O tempo. O tempo. O tempo.   Tudo começou num período de seca como este agora. Encontrei um pedaço de terra maltratado, queimado, abandonado.  Os passarinhos passavam direto para outros quintais. Senti uma vontade de ficar, também estava ressecada,</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Solange Cianni* |</strong></p>
<p><strong><u> </u></strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em> Livro &#8211; poesia &#8211; coreografia.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Uma árvore nativa, uma mulher antiga.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O tempo. O tempo. O tempo.</em></p>
<p><em> </em></p></blockquote>
<p>Tudo começou num período de seca como este agora. Encontrei um pedaço de terra maltratado, queimado, abandonado.  Os passarinhos passavam direto para outros quintais. Senti uma vontade de ficar, também estava ressecada, sabia como era.</p>
<p>Então comecei a cuidar.</p>
<p>Adubei, plantei, molhei, conversei. Adubei de novo, molhei todos os dias. O jardim foi ficando colorido e perfumado. Os passarinhos, aos poucos, foram chegando curiosos, meio tímidos, mas logo criaram intimidade e foram convidando outros e outros.  Meu jardim se transformou numa orquestra de melodias histéricas do joão-de-barro e melancólicas das sabiás.  Fofocas e gritarias das maritacas e papagaios. Tambores e percussão dos tucanos e pica-paus. Canto atento e selvagem das corujas. Composição singular da melodia para a coreografia do meu jardim.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-19421 size-fusion-400" src="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/wp-content/uploads/2021/08/Baila-detalhe-400x533.jpg" alt="" width="400" height="533" srcset="https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Baila-detalhe-200x267.jpg 200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Baila-detalhe-225x300.jpg 225w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Baila-detalhe-400x533.jpg 400w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Baila-detalhe-600x800.jpg 600w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Baila-detalhe.jpg 768w" sizes="(max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p>Eu, vaidosa, admirava tudo com tanto orgulho! Até que veio a seca. De novo. Meu jardim perdeu as cores e o perfume. Tudo era marrom.  Lembrei do tempo que investi naquele lugar e, apegada e ignorante,  pensava  que meu jardim se tornaria um deserto. Sofria com elas, as plantas. Sou dessas que anda descalça na terra e abraça árvores para renovar a energia. Mas o cerrado tem seus segredos escondidos nos subterrâneos onde as raízes conversam. Bioma muito antigo e cheio de sabedoria.</p>
<p>Então comecei a aprender.</p>
<p>No centro do palco, local de destaque, estava ela, a maior de todas, a mais antiga, a mais nobre anciã. As outras, eram pano de fundo para a grande estrela do balé. Um pequizeiro de 200 anos, abraçando todas as plantas do lugar, bailando conforme as estações. No inverno,  tragédia, na primavera, ciranda, no verão, samba e pagode e no outono, piruetas. Eu, descrente, pensava que ela estava morrendo. Ela, a protagonista, serena e sábia, declamava com o vento quente que tudo são ciclos. Apenas ciclos.</p>
<p>Então comecei a entender.</p>
<p>Eu fazia a minha parte. A outra não dependia de mim. Era um jardim com vida própria, convivendo em harmonia e respeito ao tempo. O solo seco precisa de proteção para manter um pouco de umidade, por isso as árvores ficam carecas, uma doação de suas folhas à terra. As raízes saem em busca de lençóis freáticos para dar de beber às plantas. Quanto maiores as copas, maiores ainda as raízes, para perfurar o solo pedregoso e colaborar com o pequeno ecossistema do meu jardim. Vegetação forte, poderosa e independente. Confiei no que escutei e enterrei minha culpa.</p>
<p>Então sonhei poesia.</p>
<p>Convidei João Antônio, grande e talentoso amigo, que  fotografa  jardins e suas maravilhas, para sonhar comigo e compor  esta coreografia. Isso foi em julho do ano passado, 2020, em plena pandemia. Um ano inteiro registrando as mudanças da bailarina. Nós de máscara, mantínhamos certa distância e, eventualmente, testávamos para garantir a nossa saúde. Ela, valente, enfrentava o novo, de novo.</p>
<p>Então começaram as vacinas.</p>
<p>Então comecei a dançar.</p>
<p>Eu, João e ela, a 1ª bailarina do meu jardim. Mas o corpo de baile ainda não estava completo.  Precisávamos de um projeto gráfico que bailasse com todo esse universo. Encontramos a bela e sensível arte de Gabriel Guirá, e juntos começamos a bailar e a cirandar no nosso jardim. Gabriel criou um livro que dança, que dobra e desdobra,  assim como as palavras, as fotografias e o jardim. Agora sim, está concluída a coreografia.</p>
<p><strong> <img decoding="async" class="aligncenter wp-image-19423 size-fusion-400" src="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-400x400.jpg" alt="" width="400" height="400" srcset="https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-66x66.jpg 66w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-150x150.jpg 150w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-200x200.jpg 200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-300x300.jpg 300w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-400x400.jpg 400w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-600x600.jpg 600w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-768x768.jpg 768w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-800x800.jpg 800w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-1024x1024.jpg 1024w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento-1200x1200.jpg 1200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Livro-lançamento.jpg 1280w" sizes="(max-width: 400px) 100vw, 400px" /></strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong><strong> </strong></p>
<p><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/solange-cianni/"><strong>Solange Cianni </strong></a>é escritora, psicopedadoga e atriz. Fundadora do Coletivo Maria Cobogó, ela escreve, dança, canta, nada e fala com as plantas de seu jardim. Dessa interação nasceu o livro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Bailarina do meu Jardim</strong> – será lançado no dia 5 de setembro, domingo, no espaço Infinu – W3/ 506 Sul. Das 10 às 14 horas, Solange Cianni, João Antônio e Gabriel Guirá receberão os parceiros de dança com distanciamento e muitos cuidados. Ao ar livre!</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
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		<title>DE ALMAS E BOIS</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/de-almas-e-bois/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Mar 2021 11:42:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres inspiradoras]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Elisa Mattos*| Por muitos anos convivi Minas. Vi de perto Minas, senti Minas, cheirei Minas. Sensações difíceis de traduzir em palavras. Minas se vive. Também aprendi a ouvir Minas. A voz mansa do mineiro; o riso cúmplice na troca de olhares; o sorriso sem sequer um porquê; as histórias sem cabimento, expressão mineiramente encantadora. Pode</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">Elisa Mattos*|</p>
<p><strong>Por muitos anos convivi Minas. Vi de perto Minas, senti Minas, cheirei Minas. Sensações difíceis de traduzir em palavras. Minas se vive. </strong></p>
<p><strong>Também aprendi a ouvir Minas. A voz mansa do mineiro; o riso cúmplice na troca de olhares; o sorriso sem sequer um porquê; as histórias sem cabimento, expressão mineiramente encantadora. Pode significar um desprezo, pode ser um elogio, um espanto, uma esperança. Tem cabimento.</strong></p>
<p><strong>O dobrar dos sinos, carregado de mensagens. As luzes amarelas de seus postes, o silêncio dos becos. Me casei em Minas, numa igrejinha linda de Tiradentes. Festa mineira, som de violino, bolo com recheio de doce de leite, buquê de orquídeas catadas na hora no pequeno quintal da dona Carmem. Criei vínculos.</strong></p>
<p><strong>Os contos de Nazaré Bretas, mineira de Piraúba, me levam (ou me trazem) a Minas. Seu primeiro livro, De Almas e Bois, é uma viagem por esse universo tão particular, porém carregado de emoções que patinam entre lembranças e saudades, entre</strong><br />
<strong>amores e esquecimentos, rezas ou murmúrios.</strong></p>
<p><strong>Na curta apresentação, Nazaré revela que as histórias nasceram ou foram inspiradas em conversas nos alpendres da roça e nas rodas de boteco. Quem resiste a esses deliciosos saraus?</strong></p>
<p><strong>O conto que abre o livro já indica uma linguagem um tanto minerês que nos aguarda. A princípio causa estranheza, mas indo, linha após linha, entramos de cabeça no clima. Uai, pensei, que trem mais gostoso de ler. Daí, recomecei do início, para melhor entendimento do sutil jogo de entrecruzar nomes dos animais, mania dos fazendeiros daquelas bandas de Minas. Traduções da alma.</strong></p>
<p><strong>Nininha e o Mar é apaixonante. É mulher, somos nós. É minha mãe, que era chamada de Nininha pelos seus irmãos e, estranhamente, vivia perto do mar, mas não frequentava as águas. A dona da história queria o mar junto dela, com toda a </strong><strong>imensidão que ele pode oferecer. E o quis de presente, foi seu mais ambicioso pedido. Como não se emocionar com tamanha singeleza?</strong></p>
<p><strong>Aqui, Nazaré mostra o quanto a intensidade da espera pode se transformar em decepção, quando o sonho não cabe dentro de uma concha. Só resta recolher os cacos. E assim segue a vida de tantas e tantas mulheres que nos rodeiam.</strong></p>
<p><strong>De Almas e Bois fala também das dores da alma, do sentir-se isolado, de escolhas, de solidão. A dor da saudade. Traços de tristezas, que também fazem parte da vida, infelizmente. No entanto, Nazaré busca equilíbrio nas palavras quanto toca em temas tão áridos, que nos angustiam, incomodam, tocam em feridas. Mas tais sentimentos são apresentados com leveza e doçura, com roupagem de poesia.</strong></p>
<p><strong>Um livro de estreia com jeito de que já estava pronto, só faltava chegar até nós. Nazaré Bretas se junta a tantas outras autoras brasileiras que sabem como e onde buscar a força do escrever. Com lindeza e sabedoria. Seja bem-vinda.</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p style="text-align: left;"><span style="text-align: left;">Trecho:</span></p>
<blockquote><p>“Não era daqui tão longe. Nem faz tanto tempo assim. O lugarejo famoso por harmônica geografia, e por ser dito e sabido, lugar de ordem e abundância. Os morros o protegiam. O rio que lhe cortava ao meio, vinha do berço do sol, seguia exato seu rumo, até que lá no horizonte, junto do poente, sumia. Às margens simétricas do leito, prósperos sítios se alinhavam na mais formosa teia. Cemitério, igreja, estação dispunham-se com singular equilíbrio. E no alto do morro mais alto um cruzeiro de luz contemplava o cenário.</p>
<p>Os viajantes que alongassem a estada, e olhassem a vila de perto, andassem por seus caminhos, percebiam algo estranho. Brilhavam pouco os olhos das gentes. Como que cansados da ordem, enfastiados de equilíbrio. Também pouco se ouvia o riso solto pelas coisas simples. E nunca, nunca mesmo se ouvira contar de que ali se chorara em pranto.</p>
<p>Quem por mais tempo ficasse, aprofundasse na prosa, rezasse a missa com a vila, acabava por aprender que lá cada casal, ao ter as bênçãos do pároco e do cruzeiro de luz, tinha uma estória só.(&#8230;)”</p>
<p><em>Vila do Cruzeiro</em>, do livro De Almas e Bois (2019)</p></blockquote>
<p style="text-align: center;"><strong>*</strong></p>
<p>*<strong>Elisa Mattos</strong> é jornalista e escritora. Seus poemas são publicados em coletâneas nacionais e internacionais, entre elas Mulherio das Letras e a edição internacional Mulherio Pela Paz. Meu Reverso é seu livro de estreia e tem o selo do Coletivo Editorial Maria Cobogó, do qual é uma das fundadoras.</p>
<p>**<strong>Nazaré Bretas</strong>, nascida mineira, na pequena Piraúba, se dedicou por muito tempo às coisas exatas: matemática e computadores. Desde 2018 se dedica à literatura, em escritos e recomendações de leitura pela página <a href="https://www.facebook.com/almaeboi/">https://www.facebook.com/almaeboi</a>/ . <strong>De Almas e Bois</strong> (2019) é seu primeiro livro. Foi publicado pelo Coletivo Maria Cobogó e “gestado entre sertão e veredas”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
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