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	<title>Arquivos memorias - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
	<lastBuildDate>Mon, 07 Mar 2022 00:49:26 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Mulher, voz, guerra e conquistas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Mar 2022 00:07:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Eva Leones * |   Para escrever sobre  a guerra, a invasão, o corpo e a voz das mulheres, preciso falar de minha bisavó materna. De minha bisavó e de um vazio. Não me lembro da voz dela. Não me lembro de nenhuma história contada por ela na minha frente. Não me lembro de uma</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por<a href="https://www.instagram.com/tatu.com.insonia/"><strong> Eva Leones</strong> </a>* |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para escrever sobre  a guerra, a invasão, o corpo e a voz das mulheres, preciso falar de minha bisavó materna. De minha bisavó e de um vazio.</p>
<p>Não me lembro da voz dela. Não me lembro de nenhuma história contada por ela na minha frente. Não me lembro de uma frase sequer dela dirigida a mim, embora tenha passado muitos dias e muitas horas na sua casa e com ela convivido.</p>
<p>Estive com minha bisavó pela última vez em 1980, numa viagem de férias ao interior da Bahia, de onde ela nunca saiu e de onde eu parti ainda criança. As imagens que tenho dela, as lembranças, são o cabelo preto e escorrido, o corpo encurvado e a solidão de mulher a jogar milho para as galinhas. Em nenhuma dessas imagens, porém, ecoa o som de sua voz.</p>
<p>Certamente ela falava &#8211; baixinho? &#8211; com todos, incluindo os bichos, mas da minha posição, de longe e de visita, eu não escutava.</p>
<p>Lembro também de vê-la sempre, desde eu pequenininha, se alimentando perto do fogão, logo depois que todos almoçavam ou jantavam. Ela não se sentava à mesa com os demais; se abrigava, sozinha, agachada num canto, o prato entre as pernas&#8230; comia com as mãos.</p>
<p>Quando converso com minha mãe sobre pessoas da família, ela conta como a avozinha amada lhe ensinou os trabalhos &#8211; todos &#8211; de casa e do &#8220;universo feminino&#8221;; como ensinou a rezar as orações católicas, a moral cristã; como ensinou a ser boa mãe e boa esposa&#8230;</p>
<p>O que sempre me vem, no entanto, quando tento acessar essas histórias, é a memória do que contam sobre a mãe de minha bisavó. Segundo vários parentes e conhecidos, a mãe de minha bisavó tinha sido &#8220;caçada no mato&#8221; para casar.</p>
<p>Demorei a entender que a caça tinha sido provavelmente literal e que a minha própria história estava contida no epíteto de uma mulher caçada no mato, de bicho do mato. Os cabelos escuros, que não herdei, a tez de uma cor tão específica e que encontro em alguns dos meus irmãos e primos &#8211; em um ou outro de nós, os descendentes -, não escondem e não apagam a identidade dela e de seu/nosso povo. Caçados no mato para serem/sermos mortos em guerras de invasão e conquista, escravizados, convertidos e levados para casa, domesticados em nome e pela força do dinheiro, da religião e do casamento.</p>
<p>&#8220;Caçada no mato&#8221;, compreendi depois, poderia significar também um eufemismo para o estupro. E nunca entendi muito bem porque riam da situação alguns homens da família, sempre contando a história com um ar de troça&#8230; Até onde o seu lugar de machos os transformava em caçadores ou os protegia de saber e refletir sobre o que acontecia nas sombras dos corredores, das florestas e dos fundamentos de uma nação? Que vozes estão abafadas ali?</p>
<p>Continuo buscando a voz de minha bisavó. E quando é época de guerra &#8211; sempre é tempo de guerra &#8211; me inquieto. Me inquieto, porque a guerra produz e reproduz a pobreza, a vulnerabilidade, a solidão, o sofrimento&#8230; E porque, em nome de uma defesa ou de uma conquista, os homens caçam mulheres, sendo que algumas são trazidas para casa para casar.</p>
<p>&#8230;..</p>
<p>A invasão russa e a guerra na Ucrânia têm mostrado muitas histórias de homens, mulheres e crianças. Histórias de heroísmo e histórias de covardia. Numa delas, um brasileiro oportunista viaja a um campo de refugiados com a desculpa de apoiar as vítimas e combater o agressor, aproveita para satisfazer a vaidade e comprar, ou querer comprar, um combo de prazer sinistro: turismo de guerra vigente vinculado a turismo sexual.</p>
<p>A invasão russa e a guerra na Ucrânia também servem para colocar novamente em evidência a arte e a literatura dos dois países, seja para aplauso, seja para &#8220;cancelamento&#8221;. O ucraniano Gogol &#8211; com seu herói combativo e valente &#8220;Tarás Bulba&#8221; &#8211; e o russo Dostoiévski &#8211; cuja celebração do bicentenário tem sido questionada em vários lugares &#8211; voltam à cena. Os autores, não os textos: nem sequer é lido o que escreveram, para incensar ou boicotar.</p>
<p>A brutalidade dos personagens de Gogol é contraposta &#8211; em alguns episódios, incluindo os motivos para o desfecho &#8211; a histórias de amor ora violentas ora flertando com a idealização e a romantização. Reler sua obra talvez nos mostre como é, segundo a visão de um mestre da escrita, a situação das mulheres na formação de seu país e a partir de então.</p>
<p>As narrativas de Dostoiévski, em outra perspectiva, já foram lidas, em vários pontos, como exemplos de defesa dos direitos das mulheres. Em &#8220;Uma criatura dócil&#8221;, por exemplo, o autor denuncia, num texto entre trágico e irônico, o modo como os homens, quando covardes, podem se aproveitar da pobreza material das mulheres para tentar comprar o seu corpo e o seu amor, numa máxima sexista próxima do &#8220;são fáceis, porque são pobres&#8221;, atualizada na voz do deputado oportunista e, a seu modo, caçador.</p>
<p>&#8230;&#8230;</p>
<p>Ah, as palavras! Armas para ferir e subjugar.  Ferramentas para o uso do dizer e do nomear.</p>
<p>Não sei se meu bisavô, de ascendência europeia, e minha bisavó materna, indígena, se amavam. A imagem que guardo dos dois juntos me diz que sim. Um e outro se olhavam com afeto em minha memória e as histórias que contam a respeito deles confirmam a impressão. Ou talvez seja minha esperança. Como é também minha a esperança de que alguns traços, ritmos, timbres e vocábulos seus (delas) em mim perdurem.</p>
<p>Entendo que o vazio auditivo da voz e das histórias que minha bisavó e sua mãe pudessem me contar foi, de algum modo, preenchido pelas vozes de minha avó materna, filha daquela, e de minha mãe, contadoras amorosas de histórias.</p>
<p>De meu lado, escrever talvez seja, também, uma tentativa de ressurreição. O trabalho com a palavra &#8211; as mãos operando o silêncio da palavra &#8211; talvez seja uma maneira de alinhavar e de potencializar a imagem/liberdade de comer com as mãos na (selvagem) solidão.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>*Eva Leones </strong>é escritora e doutora em Letras pela USP. Professora,  ministra cursos e oficinas literárias, sempre sobre a reflexão sobre escritores, a poesia, a leitura e a cultura popular. Seu livro de poemas <strong>tempo/pássaro</strong> , editado pelo Coletivo Maria Cobogó, está à disposição no <a href="https://www.instagram.com/domcaixotesebo/">Sebo Dom Caixote</a>.</p>
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		<title>OLHAR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Feb 2022 00:07:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Lucilia de Almeida Neves Delgado * |   Trago na memória do meu olhar infindáveis olhares que colhi, em uma trajetória que vai alcançando setenta anos de vida plena e múltipla. São tantos e com significados tão distintos que chego a duvidar de sua permanência nas minhas retinas e lembranças. Alguns, surgem de modo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Lucilia de Almeida Neves Delgado * |</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Trago na memória do meu olhar infindáveis olhares que colhi, em uma trajetória que vai alcançando setenta anos de vida plena e múltipla.</p>
<p>São tantos e com significados tão distintos que chego a duvidar de sua permanência nas minhas retinas e lembranças. Alguns, surgem de modo aleatório, quando me ponho a recordar das retas, curvas, esquinas, subidas, descidas e paradas da vida. Trazem pessoas que encontrei na indecifrável aventura do viver. Todas são partes de quem sou.</p>
<p>O olhar de despedida, que brotou no semblante de meu pai, quando parti para construir minha vida de adulta. Olhar que escorreu até suas mãos, que choraram um suor gelado. Meu tato as captou e as registrou, em mim, para sempre.</p>
<p>O olhar, cotidiano, de medo incontido, de uma vizinha da rua onde passei minha infância. Aquele olhar ainda dói em meus olhos, como se com ela tivesse cruzado comigo há poucos minutos. Meus sentidos ainda ficam alertas, pois era sempre agredida pelo marido que chegava devastado pelo álcool. Os vizinhos socorriam, mas a cena se repetia.</p>
<p>O olhar de alegria infantil de minhas amigas que, comigo, trepavam em árvores e muros para colher jabuticabas, ameixas e amoras. Frutas que continuam enchendo meu semblante de felicidade e meus olhos de prazer.</p>
<p>Os olhares que enfeitavam os bailes de carnaval da minha juventude, quando confeccionar, vestir fantasias e dançar noite adentro, eram festas que mobilizavam todos os sentidos, enfeitando-os com o primeiro amor, o primeiro beijo, sambas e marchinhas. Eternas nos meus ouvidos.</p>
<p>O olhar rígido, rigoroso e inflexível da minha professora de português no antigo curso ginasial, que via pecado, desrespeito e desinteresse na alegria, nos sorrisos e risadas. No tempo do hoje, quando ainda o vejo, sinto medo e vontade de contestação.  Era um olhar triste. Jamais o esqueci.</p>
<p>O olhar de ternura e fantasia da mãe preta a me contar histórias de anjos, santos e também de fantasmas, almas do outro mundo, cobras que enterradas vivas, reapareciam enormes e peludas para se vingar de quem as maltratou. Ofertou-me pensamento imaginativo, que enxergo como importante coluna, entre as que me sustentam.</p>
<p>Olhares de euforia, reunidos em um só olhar de festa, quando muitos de nós, adolescentes que crescemos juntos na mesma rua, fomos aprovados no vestibular. Naquele dia, de um janeiro distante, sobraram abraços em um quarteirão de uma cidade do interior de Minas Gerais, lugar onde gestos diários de empatia nos alimentaram por muitos anos.</p>
<p>Olhares de pavor dos amigos, jovens adultos, que começaram a se esconder, pois os tentáculos de um regime autoritário, em dura perseguição, os buscavam, para que sentissem o peso imposto aos que ousassem praticar atos de divergências. Meus olhos de lágrimas, os reencontra. Sempre!</p>
<p>Olhar de surpresa amorosa, quando cruzei pela primeira vez com meu companheiro de vida e senti arder em mim a vontade de poder olhá-lo com paixão e amor. Ganhei de presente uma troca de olhares que se multiplicou e inúmeras vezes mudou de tom. Troca de olhares que nunca perdemos.</p>
<p>Olhares de susto e alegria, que gritavam para o mundo, a festa e o medo da maternidade, quando nasceram minhas filhas. Olhares que se fizeram contradições, culpas, euforias, na longa trajetória que percorremos e continuamos a percorrer. Elas em mim e eu nelas. Elas fora de mim e eu fora delas.</p>
<p>Olhares de observação e interesse, de milhares de rostos juvenis a assistirem minhas aulas, a beberem conhecimento, a me ofertarem desafios e afetos, a me realizarem no dia a dia da vida profissional. Neles transbordaram palavras, sons e imagens, no tempo em que fui me fazendo professora universitária.</p>
<p>Olhares de prazer a brotarem de minhas pupilas enfeitiçadas por livros e seus autores. Por poemas, teorias, romances, processos históricos, contos e crônicas. São olhares que sempre trazem o brilho da leitura para mim.</p>
<p>Olhar de paixão madura e vibrante que pude observar em uma feira de livros. Ela a assistir seu companheiro de vida a discorrer sobre as utopias que brilharam no ano de 1968. Ele a lembrar-nos de como é viver com esperança. E nós a escutamos e olharmos para o amor que se exibia em dança de cumplicidade. Jamais poderíamos imaginar que, um ano depois a utopia seria somente História.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p><strong>*Lucilia de Almeida Neves Delgado</strong> é escritora, poeta, historiadora, professora universitária, ávida leitora e possuidora um olhar poderoso para as coisas importantes da vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>MACULADOS</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/maculados/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Feb 2022 00:41:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Maria Amélia Elói * |   Carl Expatriate era seu nome. Um professor de História de quem nunca me esqueci. Lecionava para a oitava série do primeiro grau (último ano do ensino fundamental) numa escola pública bem perto da minha casa. Antes de vê-lo explicar à classe o significado de nação, eu jamais havia presenciado</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Maria Amélia Elói * |</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Carl Expatriate era seu nome. Um professor de História de quem nunca me esqueci. Lecionava para a oitava série do primeiro grau (último ano do ensino fundamental) numa escola pública bem perto da minha casa. Antes de vê-lo explicar à classe o significado de nação, eu jamais havia presenciado um homem chorar de forma tão sentida. O quadro negro, que guardava muitos hieróglifos brancos, recebeu lágrimas pesadas daquele mestre alto, branco, forte, sisudos e de língua enrolada. O conteúdo de giz foi se apagando pouco a pouco, lavado pelo pranto; mas a imagem do professor se manteve viva nesta aluna que hoje tenta sobreviver como cronista. De acordo com o obituário do jornal, Carl Expatriate faleceu ontem, aos 58 anos, e agora jaz no maior cemitério de nossa cidade.</p>
<p>Eu nunca soube onde nasceu o personagem, nem como veio parar aqui. Ele evitava falar de sua vida pessoal, e a direção da escola nos omitia o currículo dos educadores. No entanto, tenho certeza de que cumpria exílio, após se envolver em algum episódio político grave em sua terra natal. “Uma nação não pode discriminar as diferenças”, dizia.  “Uma nação respeita todos os cidadãos e comunga de uma mesma fé no bem comum. Há um sentimento de afinidade, pertença e comunhão entre os conterrâneos”, soluçava alto, naquele dia. Quando perguntei a ele se o Brasil poderia se considerar efetivamente uma nação, Carl limpou os olhos sofridos e afirmou, com seu mau Português: Mais do que Portugal, mais dos que os Estados Unidos, mais do que países de longa história e civilização; esta, sim, é uma nação que se cumpriu por completo.”</p>
<p>Saí da adolescência ansiosa por enxergar, de forma concreta e comprovada, o mesmo Brasil que Carl vislumbrava. Como aprendiz de seu otimismo, queria levar a todos aquela imagem de País maduro, uno, democrático, realizado, de povo satisfeito. Porém, do Amazonas ao Rio Grande, de Brasília a Pernambuco, incluindo Rio e São Paulo, tanto nas grandes cidades quanto nas pequenas propriedades rurais, não há nada verdadeiramente íntegro que salve o Brasil de sua histórica sina de nação mal resolvida.  Mortalidade materna, falta de saneamento básico, analfabetismo, mão de obra desqualificada, subemprego, desnutrição, desaparecimento de crianças, desabamento de casas, mendicância, insegurança, negligência, abandono, medo, desproteção&#8230; O brasileiro é um órfão maltratado, que nunca se sentiu acolhido pela mãe.</p>
<p>Carl Expatriate adorava repetir que o Brasil o recebera assim como o pai abraçou o filho pródigo. Quantos anos viveu enganado o meu prezado mestre!  Triste coincidência. Escrevo hoje de luto porque Carl jamais poderá repetir seu pranto agradecido diante os alunos. Nem poderá narrar outra vez as venturas dos heróis de nossa Independência ou Proclamação da República. Acabou aquele jeito orgulhoso e emocionado que resistia em minha memória.</p>
<p>Foi um aluno que assassinou Carl Expatriate friamente em sala de aula, diante do quadro. Vários hieróglifos brancos borrados de vermelho. O sangue de estranja tão brasileiro nos macula a todos e reforça a tese de que o nosso país ainda não se cumpriu como nação.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>* * *</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Maria Amélia Elói</strong> é escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária pela UnB. Traça um trabalho imprescindível no Centro de Documentação da Câmara dos Deputados e é uma importante colaboradora do Coletivo Maria Cobogó.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*Texto da autora originalmente publicado no livro “Um Milagre para Cada Corcova” e cedido ao blogue das Marias.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>DOIS FUSCAS E UM IRMÃO</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/dois-fuscas-e-um-irmao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Feb 2022 09:00:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M.D.Duarte  * | Um fusca não dura cinquenta anos. Foi a primeira coisa que pensei ao ver o fusca azul parado na porta da minha casa. Fiz as contas. Não. Com certeza não era aquele. A placa? Quem se lembra de placas? O Rain Man. Mas ele não conheceu o fusca azul da</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/"><strong>Claudine M.D.Duarte  * |</strong></a></p>
<p style="text-align: left;">Um fusca não dura cinquenta anos. Foi a primeira coisa que pensei ao ver o fusca azul parado na porta da minha casa. Fiz as contas. Não. Com certeza não era aquele. A placa? Quem se lembra de placas? O <em>Rain Man</em>. Mas ele não conheceu o fusca azul da minha tia.  É propriedade das lembranças que partilho com meus irmãos.</p>
<p>Nós éramos quatro. E ainda tinha um primo. Na frente, pai e mãe. O pai dirigindo. A mãe dizia: <em>Haroldo, você errou a estrada.</em> O pai dirigindo. Lá fora, escuro. Estrada de terra no interior de Goiás. A gente lá atrás. Como cabíamos todos naquele banco? E ainda tínhamos malas? Onde iam as malas? Até hoje, rimos e nos perguntamos: <em>e as malas?</em> O pai dirigindo. A mãe avisando. Parece que é próprio das mães avisarem. Sempre. O pai ignorando. Seria próprio dos pais ignorar sinais e avisos? A gente ria no banco de trás.</p>
<p>Meu irmão imitou minha mãe: <em>a estrada tá errada&#8230;</em> meu pai gritou um <em>Fica quieto, menino.</em> A gente riu. A gente sempre ria. Meu pai dirigindo, minha mãe olhava para fora: <em>Eu já disse que a estrada não é essa.</em> E não era. A estrada acabou num buraco. O fusca azul no buraco. A gente no buraco. Minha mãe chorava. A gente ria. A gente ri até hoje. A estrada não existia. Um pouco de lua, o carro emborcado e a gente em volta do buraco. Meu pai suspirava. Acho que pensava em como devolver um fusca amassado para a irmã dele. Meu primo também chorava. Fez xixi nas calças, <em>quero minha mãe</em>, <em>vi um lobo, não gosto de lobos&#8230;</em> A gente ria.</p>
<p>É um absurdo, mas a cada Natal ou outro encontro de família, o fusca azul comparece. Meu irmão tentou dirigi-lo uma vez. Ele tinha uns dez anos (eu, onze) e me chamou para dar uma volta. Estávamos na chácara de nossos avós. Entramos no carro, ele engatou a primeira e o carro obedeceu, saiu da garagem e seguimos pela trilha da entrada. Tudo ia muito bem. Acho que a gente até ria. A gente ria sempre. Aí apareceu uma curva e, do outro lado da curva, um outro carro. Meu irmão gritou <em>Sujou, segura o volante. Meu pai! </em> Ele abriu a porta e pulou do carro em movimento. Não lembro de ter segurado o volante, nem de ter feito nada até que o carro parou numa depressão do terreno. Tinha um pequeno riacho e cipós. Muitos cipós. Puxei um cipó pra sair do carro. O cipó arrebentou. <em>No Tarzan dá certo</em>, pensei na hora.</p>
<p>Nem era meu pai. Era nosso avô. Bronca. Bronca. Bronca. Uma carroça daquelas com cavalo e tudo foi resgatá-lo. Meu irmão também precisou ser resgatado. Demorou uns vinte dias pra me contar que foi se esconder na igreja da vila. Entrou naquele quadradinho de madeira onde as pessoas vão contar dos pecados e coisas assim. Se julgou a salvo. Negociou perdão direto com quem manda. A gente ainda ri.</p>
<p>Quando nos lembramos do fusca azul, em seguida vem um fusca branco. Com meu irmão, óbvio. No final dos anos setenta morávamos em Brasília, sem pai nem mãe. Eu, na UnB. Ele, estudando para o vestibular. O fusca branco era meu. Mas os amigos eram dele. Roubaram a chave e foram passear&#8230; até encontrarem uma curva. O fusca capotou. Eles se desesperaram e resolveram ‘descapotar’ o fusca. Mas fizeram isso para o lado oposto. O fusca, como um bife sendo mergulhado no ovo e na farinha. Uma milanesa. Gira aqui. Gira lá. Sentido horário e <em>voilá</em>! Colocaram o fusca sobre as quatro rodas novamente e ligaram para o meu namorado&#8230; Sim.</p>
<p>Eles precisavam de alguém maior de idade, com carteira de habilitação e coragem pra assumir o acidente. Os policiais chegaram e não entenderam como alguém conseguiu capotar naquela via vicinal, <em>a sessenta por hora?</em> E a intriga maior: como o carro deu aquele <em>duplo twist carpado</em> parando em pé? Sei. Sabemos. Fusca não tem pé. Tem história. Pra gente rir.</p>
<p>Eu e meu irmão ainda rimos muito disso. Meu pai, enquanto estava vivo, escutava essas histórias e não ria. Rosnava. Assim pra dentro como devem ser os rosnados (não escutados). Meu primo nega que estivesse conosco naquele buraco. O namorado que assumiu a culpa pela inimaginável capotada virou marido, ex-marido e hoje partilhamos filhas, netos e garante que os policiais também riram dele. Os fuscas? Imagino que estão por aí. Outras histórias, outros acidentes, outros medos, outros risos, outras memórias.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>*  *  *</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="https://www.instagram.com/claudine_m_d_duarte/"><strong>Claudine M</strong><strong>. D. Duarte </strong></a>é escritora, e das boas. Além de contos, minicontos, crônicas e romances, escreve sem parar. Adapta a literatura para o teatro, edita livros, dá palestras e sempre faz uma limonada de qualquer limão. Ah! É uma das fundadoras do Coletivo Maria Cobogó!</p>
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		<title>AMIGO OCULTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Jan 2022 00:57:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[humanidade]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M.D.Duarte * |   Sangue oculto nas fezes. Pesquisar. Frase e verbo inconciliáveis. E como dizia meu pai “quem procura, acha”. Consegui atravessar quase seis décadas da minha vida sem ninguém descobrir sangue ou outras coisas ocultas nas minhas fezes. Mas, no processo de coleta, sinto-me humilhada ou “humana, demasiado humana”, diria Nietzsche,</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M.D.Duarte * |</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sangue oculto nas fezes. Pesquisar. Frase e verbo inconciliáveis. E como dizia meu pai “quem procura, acha”. Consegui atravessar quase seis décadas da minha vida sem ninguém descobrir sangue ou outras coisas ocultas nas minhas fezes. Mas, no processo de coleta, sinto-me humilhada ou “humana, demasiado humana”, diria Nietzsche, de quem não se registrou uma caminhada pelas ruas de Bonn ou Leipzig segurando um potinho com o próprio cocô.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O laboratório fornece um pote de plástico transparente com uns 5 cm de altura e uns 2,5 cm de diâmetro. Dentro, uma pazinha branquinha. Potinho, pazinha, branquinha, diminutivos que usam para que, desde crianças, acreditemos que aquilo, pequenininho, não nos fará mal. “Engano, ledo engano” poderia dizer alguém. Até eu mesma. Nenhuma instrução de onde cagar, como cagar, quanto cagar. Ao contrário das instruções da coleta de urina que vem escritas (e ilustradas) num livrinho que acompanha o potinho. Continuemos nos diminutivos porque os potes são realmente pequenos e cabem míseras amostras de nossos dejetos. Sim, nossos. Grite aqui quem nunca adentrou um banheiro munido de algum potinho desses.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Humilhada, aviltada e diminuída, fiz todos os malabarismos possíveis com a voz da atendente do laboratório martelando na minha cabeça. Duas horas. No máximo, em duas horas após a coleta, o cocô e o xixi devem ser entregues&#8230; Na verdade, ela disse coleta do material. É uma pessoa educada, acho que sorriu quando me entregou os potinhos. Uma das coisas da pandemia é que a gente agora adivinha sorrisos e descontentamentos pelo estilo das rugas em volta dos olhos. Escolho uma parte que achei bonita das minhas fezes de hoje. Marrom brilhante sem pintas. A primeira vista, sem sangue também. Minha médica, desgraçada, vai saber que essa degradação é inútil.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Saio correndo para o laboratório com o saquinho e, dentro, os dois potinhos. No carro, percebo que saí com a calça do pijama e havaianas. Esses sim, integram a lista dos pares conciliáveis. Azar. O relógio correndo, <em>duas horas pratrasmente</em>, diria Odorico Paraguassu. Rezo para não encontrar ninguém conhecido, pego a senha do atendimento e aguardo que a atendente educada (a do sorriso no olhar) me chame. Mas não, o meu número é direcionado ao guichê dezessete, no final do balcão. Atravesso a alameda de cadeiras, com pessoas tristes sentadas nelas. Ninguém olha para mim. Estão preocupadas com as próprias tristezas e coletas humilhantes. Está bem, Nietszche, humanas. Mas não deixam de ser tristes. Olho para o relógio, em trinta minutos expiram as duas horas fatais. Minha mão esquerda segura a sacolinha pelas pontas e, com a direita, faço um leve toque e sinto algum calor nos potinhos. Por dentro, quase sorrio. Como uma criança que curte e se orgulha da própria produção.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Chego incólume ao guichê dezessete e veio o desastre. <em>Querida, há quanto tempo! </em>O atendente me chama de querida? A mão quase larga o saquinho com o “material”. Sento-me. Puxo o casaco para baixo. Meta: esconder o pijama. O sujeito é careca, usa óculos e está com uma máscara N-95. Não sei quem é. Mas ele tem um crachá: Marciano. Marciano piscando. Marciano fosforecente. Se fosse o programa do Jota Silvestre, eu cairia morta agora. <em>Com você, Claudine, a pessoa mais chata que já conheceu. </em>Guardei o saquinho na bolsa. Não dá pra entregar assim essas coisas pra alguém que acha que pode te chamar de querida. <em>Não fique assim, estou vendo aqui que você fez coleta de sangue e faltou entregar urina e fezes. </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fui transportada para a sala da primeira série. Marciano era o espanta rodinha. Nos trabalhos em grupo, ele sempre ficava sobrando. Eu conversava muito nas salas de aula e a professora me enviava para a biblioteca, que eu adorava. Adoro. Um dia minha mãe contou a ela que eu amava ler e que as horas na biblioteca eram um prêmio. <em>Perdeu, sujou. </em>Meu castigo? Fazer dupla com o Marciano. Comprei chicletes. Queria falar algo? Chiclete. Ele era inconveniente. Fazia perguntas sobre toda e qualquer coisa. E dava conselhos. Impublicáveis. Inconciliáveis. Eu e Marciano. Qualquer um e Marciano.  <em>Preciso da identidade e do cartão do seguro saúde.</em> Voltei. Abri a bolsa, e entreguei os documentos ao mesmo tempo que deixei a sacolinha numa bandeja vizinha do computador do Marciano.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Sangue oculto nas fezes. Muito importante esse exame&#8230;</em> Acho que nesse momento, eu derretia no balcão enquanto fazia uma reza pra ele parar de falar. Ele sempre falou alto. Estridente. Doído. Inadequado. <em>Que horas fez a coleta? </em>Ele imprimiu duas etiquetas, leu o meu nome completo, data de nascimento e da coleta. Eu me sentia invisível até para mim mesma. Desisti de desmaiar porque estava de pijama. Tentei lembrar se a calcinha combinava com o sutiã. Regra número um para passar mal fora de casa sem passar vergonha. Segurei meu peito. Nem precisava. Já era óbvio que não tinha dado tempo de colocar sutiã naquelas duas malditas horas. Melhor focar no Marciano que, no momento, segura meu potinho com urina contra a luz. <em>Transparente. Muito bom. Vai tirar dez. Lembro que você tirava muitos dez. Ou seriam Dezes? </em>E solta uma gargalhada. Eu não rio. Não choro também. Eu prometi a ele que nossa dupla ia tirar ‘dez’ mas ele não precisava aparecer na minha casa. E assim foi. Tudo pra ficar livre de um chato. Ele cola uma das etiquetas, insere o potinho número um numa grade e parte para o meu potinho com o número dois. Miséria.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar&#8230; </em>Marciano cantarola Geraldo Vandré. Eu o acho parecido com o nazista que tortura alguém com uma broca de dentista num filme antigo. Coisas pequenas que ferem. A música não para porque alguém que decide coisas no laboratório acha que é legal ter um sujeito cantando MPB às oito da manhã&#8230; Como é que contrataram um idoso para o atendimento? Vou perguntar. “Vingança é um prato que se come frio.” Quem disse isso? Ele colou a etiqueta e examina o potinho como um ourives investigaria uma joia antiga. <em>Você ainda gosta de pamonha</em>, decreta. Xeque. Desisto de perguntar qualquer coisa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*<strong>Claudine M. D. Duarte</strong>, arquiteta, escritora, dramaturga, ativista na formação de novos leitores com seu projeto <a href="https://www.instagram.com/calangosleitores/">Calangos Leitores</a> e fundadora do Coletivo Maria Cobogó (do qual é a locomotiva). Adora pequi e não gosta de nada oculto.</p>
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		<title>Meu pé de Sapoti</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Oct 2021 07:07:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[Sapoti]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Elza Zarur * |   A promessa era bem antiga: ao voltarmos para o Brasil vou levar você para conhecer o pé de sapoti! Prometo! Desde os tempos em que, para enfrentar os gelados finais de semana em Washington, a família toda se aconchegava no basement, abarrotado de brinquedos, lareira bem quentinha, eu distraía</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Elza Zarur * |</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>A promessa era bem antiga: <em>ao voltarmos para o Brasil vou levar você para conhecer o pé de sapoti! Prometo!</em><br />
Desde os tempos em que, para enfrentar os gelados finais de semana em Washington, a família toda se aconchegava no <em>basement</em>, abarrotado de brinquedos, lareira bem quentinha, eu distraía Marina, a caçula dos três filhos, contando histórias.<br />
Para ela, nenhum assunto era mais emocionante do que ir ao meu mundo de criança passado na velha Visconde do Rio Branco.</p>
<p>Uma, duas, três vezes, ou muito mais do que isto, eu tinha que ficar repetindo histórias e minha infância não podia jamais ter fim a não ser que o sono chegasse e que o branquinho da neve, pelos vidros, virasse noite escura e ela dormisse feliz.</p>
<p>Era sempre assim!</p>
<p>O pique-pega ao redor da Fonte da Praça; os cabras-cegas no sobrado da querida tia Pequita; as brincadeiras na casa da Enedina ou da Isis, onde o quartinho de costura da D. Olga me fascinava e eu fazia, da minúscula meia hora que mamãe me deixava ir, um dia de imaginação viajando entre sobrinhas de retalhos e moldando botõezinhos de papelão nos vestidos das bonecas. Mas, quando o relógio me alertava eu voltava correndo para casa e ia direto para o pé de sapoti.<br />
Ali, entre galhos com folhagens verdinhas e fechadas, embaixo de umas madeirinhas bem ajeitadas, eu guardava toda a família de “filhinhas” e, lógico, meus segredos infantis.</p>
<p>Era a minha casinha de bonecas!</p>
<p>Tinha até escadinha para subir. O máximo!</p>
<p>Tudo era assunto. E Marina, com seus olhinhos brilhando, tinha certeza absoluta de que minha cidade natal era idêntica à fazenda do Chico Bento.<br />
Até que em 2003, ela com 16 anos, fomos para Rio Branco.<br />
Ao chegar, logo na entrada da cidade, bem perto do Clube dos Cinquenta, eu pedi para meu marido parar o carro.</p>
<p>Queria, a pé, bem devagar, ir exibindo a ela e a uma amiga, as lembranças do passado:  o Grupo Escolar Padre Antônio Corrêa; a rua da D. Júlia que fazia picolé de K-suco de framboesa (a boca ficava vermelhinha e eu achava lindo); a venda onde comprava aqueles suspiros cor de rosa, enormes, cheios de bolinhas coloridas; chicletes Adams; goiabada em triângulo&#8230;e assim fomos.<br />
De repente, numa esquina, vi dentro de uma varanda uma senhora bem idosa.</p>
<p>Parecia esperar o tempo, esquecida de si própria.</p>
<p>Olhei-a fixamente – precisava reconhecê-la de qualquer forma e encontrar um pouquinho, um tiquinho apenas que fosse de intimidade entre nós. Queria trocar saudades, saber da família, dos vizinhos, ir casa adentro, sem cerimônia, perguntando logo pelo café e revendo todos do meu passado. Impossível!</p>
<p>Houve apenas troca de olhares e silêncio.<br />
Fui embora na maior decepção com a realidade. Mas a amiga, percebendo minha tristeza, insistiu para que eu voltasse.</p>
<p>Voltei &#8230; parei de novo &#8230; acomodei as bochechas entre as grades da varanda e ali fiquei. A acompanhante da senhora idosa, estranhando muito, indagou: <em>perdeu algo aqui? Quer alguma informação?</em></p>
<p>Meio sem jeito, eu respondi: &#8220;- não, não perdi nada, mas queria muito, muito mesmo, saber se ela, por acaso, conheceu a minha mãe&#8230;. quem sabe? Seria tão bom para mim!&#8221;</p>
<p>Para meu espanto e absoluta surpresa, ao ver-me de frente, Tina, a acompanhante, inesperadamente, respondeu: &#8220;- a árvore que sua mãe tanto gostava, o pé de sapoti, está lá! “.<br />
Perplexas, nós não tivemos olhos para acolher tantas lágrimas!</p>
<p>Não podíamos acreditar em tamanha coincidência!</p>
<p>Como?</p>
<p>Como ela pode falar exatamente no pé de sapoti, motivo da nossa viagem e famoso que era unicamente para mim?</p>
<p>Como assim?<br />
Completamente sem graça, pediu desculpas pelo desconforto e disse que viu, na minha pessoa, minha mãe, D. Eponina, que ela tanto conheceu.<br />
Continuamos a caminhada e chegamos até minha velha casa.</p>
<p>Hoje, é o famoso Clube dos Bancários e, em meio a todo o piso de cimento, só deixaram ficar apenas uma árvore: o <strong><em>Meu Pé de Sapoti.</em></strong><em><br />
</em><br />
Agora, uma história na minha vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Elza Zarur</strong> escreve crônicas. Relembra a infância com o coração e a doçura de suas lembranças. Colaboradora do Coletivo Maria Cobogó, vai contando suas histórias para o prazer de nossos leitores.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>O sapoti tem o nome científico de <em>Manilkara zapota.</em> É um fruto que veio da América Central e se adapta a climas tropicais. Rico em vitaminas B,C, ferro, fósforo e cálcio, pode ser consumido ao natural ou em compotas e doces. Sua madeira é usada na carpintaria.</p></blockquote>
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		<title>MESTRES COBOGÓS</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/mestres-cobogos-2/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Sep 2021 00:07:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lançamento]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[literatura infantojuvenil]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Ana Maria Lopes e Marcia Zarur*    Ana Maria - A ideia surgiu quando discutíamos projetos para o Coletivo Maria Cobogó. Olhei para Marcia e seus olhos brilharam. Sentimos que ali nascia uma parceria sólida e unida por uma só motivação. Marcia – No momento em que a Ana Maria falou do projeto eu me</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por<a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/anamarialopes/"><strong> Ana Maria Lopes</strong></a> e <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/marciazarur/">Marcia Zarur</a>* </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Ana Maria</strong> &#8211; A ideia surgiu quando discutíamos projetos para o Coletivo Maria Cobogó. Olhei para Marcia e seus olhos brilharam. Sentimos que ali nascia uma parceria sólida e unida por uma só motivação.</p>
<p><strong>Marcia</strong> – No momento em que a Ana Maria falou do projeto eu me encantei. Esse brilho no olho que ela diz é pura paixão por Brasília e estar nesse projeto foi um presente!</p>
<p><strong>Ana Maria</strong> – A partir daí, sentimos que o Mestres Cobogós se tornaria realidade. Seria uma coleção com dez volumes. Cada um deles dedicado a um mestre na sua área.</p>
<p><strong>Marcia</strong> – Nossa vontade era a de levar para as novas gerações esses nomes &#8211; tão importantes na construção e consolidação de Brasília. Fizemos uma lista de personalidades importantes. Foram mais de trinta.</p>
<p><strong>Ana Maria</strong> – Quando definimos que o primeiro seria o Glenio Bianchetti, foi uma festa! Marcia fez logo contato com a família e partimos para a realização. Foram encontros de uma alegria indizível. Cada conversa com as filhas e a Ailema Bianchetti, era um momento de lembranças, risadas e saudades.</p>
<p><strong>Marcia</strong> – Eu sempre digo que a Cuca, a Ângela e a Dona Ailema são a minha família estendida, então a gente compartilha aquelas lembranças mais felizes. Como a Ana disse: cada encontro é sempre uma festa e ainda tivemos a alegria da Dona Ailema criar a carinha do fantoche Giroflê que conta a história do Glenio Bianchetti. Veja só que privilégio!</p>
<p><strong>Ana Maria</strong> – Giroflê fez festa na alma. Ele é parte da vida do Glenio que teve sua biografia cuidadosamente estudada. Mas os casos contados pela Ailema, Angela e Cuca, deram um sabor especial ao texto. Aos poucos fomos montando a narrativa com peculiaridades do cotidiano dos Bianchetti.</p>
<p><strong>Marcia</strong> – Eu sempre admirei a Ana Maria, mas não imaginava que trabalhar com ela seria tão prazeroso. Nossa sintonia é inacreditável. E, além da ajuda inestimável da família Bianchetti, contamos com a parceria de todas as integrantes do Maria Cobogó. E a Solange Cianni, que é psicopedagoga, fez um encarte com sugestões para professores trabalharem o livro em sala de aula. Além disso, tivemos um projeto gráfico primoroso.</p>
<p><strong>Ana Maria</strong> – Decidido o projeto gráfico e criada uma logomarca para a coleção, vieram as cores. Nossa designer, Bia Socha, penou para manter as cores do livro fieis às tintas do artista. Foram seis meses de encontros e trabalho.</p>
<p><strong>Marcia</strong> – Encontros, trabalho e muito carinho. Tem afeto em cada detalhe desse projeto. Contamos ainda com o olhar certeiro e amoroso da nossa revisora, Gabriela Artemis.  Enfim, formamos uma equipe que trabalhou com dedicação e, principalmente, amor às artes de forma geral.</p>
<p><strong>Ana Maria</strong> – A gráfica imprimiu fielmente a nossa proposta. Por fim, recebemos o livro. Não deu outra. Choramos como se crianças fossemos. O trabalho realizado nos deu ciência de termos feito o melhor que pudemos. Aí veio a melhor parte.</p>
<p><strong>Marcia</strong> – Apresentar o livro para Dona Ailema e para a família Bianchetti foi mágico. Nem preciso dizer que choramos de novo&#8230;</p>
<p><strong>Ana Maria</strong> – Sentimos que nosso projeto iria além. Vamos tentar, com muita fé e idealismo, levar para as escolas públicas a vida e a obra de quem tornou Brasília essa cidade espetacular.</p>
<p><strong>Marcia</strong> – Agora, finalmente, vamos tornar público o livro que tanto nos encantou em sua realização. A cabeça e o coração já pensam e sentem o quão lindos serão os volumes de Athos Bulcão, Dulcina de Morais e tantos outros talentos que Brasília nos ofereceu.</p>
<p style="text-align: center;">                                          <strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><strong>Mestres Cobogós/ Glenio Bianchetti</strong> – Editado pelo Coletivo Maria Cobogó será lançado no Beirute da 109 Sul, no dia 22 de setembro, início da primavera, das 17 às 21 horas.</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>*Ana Maria Lopes</strong> e <strong>Marcia Zarur</strong> – são jornalistas, escritoras, parceiras de aventura e apaixonadas por Brasília e sua gente. São integrantes do Coletivo Maria Cobogó e acreditam no poder de transformação e resistência da Literatura.</p>
<p><strong>Imagem: </strong>o clique é do arquiteto e urbanista Geraldo Nogueira Batista que flagrou o momento em que as autoras inserem livro e fantoche (Giroflê) dentro da ecobag Mestres Cobogós. Imperdível!</p>
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		<title>CARMEN MIRANDA</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/carmen-miranda/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Aug 2021 01:58:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[CarmenMiranda]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Christiane Nóbrega * | (num dia qualquer, em 2016)   Nunca fui muito habilidosa com trabalhos manuais. As roupas das minhas bonecas eram amarradas, coladas, nada combinava. Uma tragédia! Admirava quem conseguia costurar as roupas. Até hoje nem botão sei pregar! E a estética? Uau! A combinação perfeita de cores, a ousadia nos adereços,</p>
<p>O post <a href="https://mariacobogo.com.br/carmen-miranda/">CARMEN MIRANDA</a> apareceu primeiro em <a href="https://mariacobogo.com.br">Maria Cobogó</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://christianenobrega.com.br/"><strong>Christiane Nóbrega</strong></a> * |</p>
<p style="text-align: right;">(num dia qualquer, em 2016)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nunca fui muito habilidosa com trabalhos manuais. As roupas das minhas bonecas eram amarradas, coladas, nada combinava. Uma tragédia! Admirava quem conseguia costurar as roupas. Até hoje nem botão sei pregar! E a estética? Uau! A combinação perfeita de cores, a ousadia nos adereços, um estilo próprio, sempre babei em mulheres e meninas com essa capacidade de nunca estar na moda e sempre terem sua identidade fazendo seu próprio estilo, rompendo com o óbvio do senso comum e dando asas à criatividade sem se preocupar com os olhares e opiniões nada proveitosas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Já na idade adulta eu consegui realizar um pouco dessa liberdade. Em 2011 deixei de pintar os cabelos e, por volta de 2013, de escová-los. Não me lembro muito bem quando passei a ignorar as regras de vestuário da advocacia, imagino que tenha sido tão logo me formei, exceto, claro, nos casos que, para entrar no Tribunal, tenha que estar assim ou assada. Sim, ainda tem disso por aí e acabo encarando para evitar a fadiga.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tudo tem um custo. Minha decisão quanto à minha aparência já me fez ouvir vários comentários ruins e outros tantos machistas:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&#8211; Nossa! Pinta o cabelo. Vai ser mais respeitada! (ignorei)</p>
<p>&#8211; Ué? Você é advogada? Achei que era estagiária. (fiquei feliz, sinal que me achou nova)</p>
<p>&#8211; Toma aqui 15,00 para você comprar uma tinta! (recebi e comprei picolé)</p>
<p>&#8211; Seu marido deixou? (também mereceu silêncio como resposta)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nenhum desses comentários ou de outros não listados, me fez demover da ideia de ser eu mesma, de me olhar no espelho e me reconhecer, de ver a Christiane lá, exatamente como ela é: com acne adulta, com cabelos brancos e seus cachos com vontade própria, qual sua dona, com sua história indelével em seu corpo em forma de rugas, peitos flácidos, estrias e cabelos brancos. Alguns dias me acho linda, outros tenho certeza, outros me acho feia. O fato é que em nenhum deles minha aparência é decisiva para o que sinto, mas sim todo o contexto do meu dia. Quem nunca se achou linda de chinelo e caneta prendendo o cabelo? E feia pronta para um baile de gala?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não sou a primeira mulher a agir assim, tentando ser ela mesma e buscando sua identidade no visual. Várias outras abriram caminho para que eu hoje pudesse, tão tranquilamente, nunca pintar as unhas ou escovar os cabelos. E elas fizeram em épocas muito mais difíceis. Uma delas foi Carmen Miranda, sim, aquela das frutas no chapéu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nunca havia lido nada sobre Carmen Miranda até me deparar com o <em>Carmen, a pequena grande notável</em> de Heloísa Seixas, Júlia Romeu e Graça Lima &#8211; Edições de Janeiro. Engraçado que o comprei naquelas megas promoções de novembro e sequer o tirei do plástico por meses. Parece que tudo tem sua hora e deste livro foi sábado passado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Desde menina Carmen Miranda costurava as suas roupas. Já adulta, pensou seus sapatos (ela inventou os sapatos de plataforma) e seus chapéus. Criou um estilo próprio e único de cantar que se eternizou. Virou lenda, virou mito. Carmen Miranda, hoje, muitos anos após sua morte, faz parte do imaginário popular brasileiro como símbolo de alegria e autenticidade. Isso em um tempo que mulher sequer era autorizada a ter um bem, quanto mais a ser ela mesma.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A leitura desse livro foi uma verdadeira delícia, com direito a cantar os sambas eternizados na voz da Grande Pequena Notável, dançar imitando-a e assistir a seus vídeos na internet. A história de Carmen, por si só, já é incrível &#8211; como se fosse possível &#8211; fica ainda melhor na narrativa desse livro imperdível! Uma leveza, uma poesia&#8230;recomendo muito!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Obrigada, Carmen Miranda! As frutas dos seus chapéus abriram alas pros brancos, crespos, verdes, azuis que hoje vemos por aí!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">                                                           <strong>* * *</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>*<a href="https://www.instagram.com/chrisnobrega/">Christiane Nóbrega</a></strong> é escritora, advogada, fundadora do Coletivo Maria Cobogó e única dona de seu nariz. Ah! E tem uma risada pra lá de gostosa!</p>
<p><strong>Imagem:</strong> Reprodução da ilustração <em><a href="https://www.instagram.com/p/CLmKsDGhsFL/?utm_source=ig_web_copy_link">Chica Chica Boom Boom</a> </em>pela artista Trisha Krauss em <a href="https://www.trishakrauss.com/">www.trishakrauss.com</a></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>3</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Aug 2021 01:27:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[#coletivo]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Maria Cobogó * | não éramos vestais éramos a vida o verbo e a vastidão o verbo a voz e a vastidão Cida Pedrosa, em Solo para Vialejo     A expressão máxima de nós mesmas é a opção pela literatura. Não há abismos. Não há desesperos na nossa jornada. Ela é feita de</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://linktr.ee/mariacobogo"><strong>Maria Cobogó</strong></a> * |</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>não éramos vestais</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>éramos a vida o verbo e a vastidão</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>o verbo a voz e a vastidão</em></p>
<p style="text-align: right;">Cida Pedrosa, em <em>Solo para Vialejo</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A expressão máxima de nós mesmas é a opção pela literatura.</p>
<p>Não há abismos.</p>
<p>Não há desesperos na nossa jornada.</p>
<p>Ela é feita de gestos, de mãos dadas com o verbo. Orientamo-nos pelas estrelas e pelas palavras e o prazer de arquitetar um livro nos traz o vislumbre do sublime: a leitura e o leitor.</p>
<p>Nessa caminhada de sonho angariamos parceiros e muitas outras mãos se entrelaçaram às nossas. Fomos, com dezenas de escritoras, buscar os destinatários de nosso fazer.</p>
<p>A variedade de matizes de nosso Coletivo não provoca caos. Ao contrário, converge para a colheita daquilo que nos move e comove: o amor.</p>
<div id="attachment_19345" style="width: 310px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-19345" class="wp-image-19345 size-medium" src="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/wp-content/uploads/2021/08/IMG_7160-300x295.jpg" alt="" width="300" height="295" srcset="https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/IMG_7160-66x66.jpg 66w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/IMG_7160-200x197.jpg 200w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/IMG_7160-300x295.jpg 300w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/IMG_7160-400x393.jpg 400w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/IMG_7160-600x590.jpg 600w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/IMG_7160-768x755.jpg 768w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/IMG_7160-800x786.jpg 800w, https://mariacobogo.com.br/wp-content/uploads/2021/08/IMG_7160.jpg 806w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /><p id="caption-attachment-19345" class="wp-caption-text">Claudine, Marcia, Solange, Ana Maria e Cris &#8211; Foto por Maria Elisa | 2021</p></div>
<p>Aos três anos de vida uma criança demonstra energia e começa a se tornar independente. É o início da autonomia humana. Assim estamos nós, Maria Cobogós. Sem versão definitiva – talvez nunca tenhamos – como uma criança que procura respostas, renova conceitos e recria o <em>ethos</em> de sua existência.</p>
<p>Daqui em diante teremos várias nuances, algumas certezas e muitas incertezas. Mas nosso testemunho feminino nos afirma que não abriremos mão – nunca – dos princípios que vigoram entre nós desde a gênese do Coletivo Maria Cobogó: respeito ao próximo, justiça social para todos, luta pela democracia, paixão pelo livro e o amor à língua portuguesa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><a href="https://linktr.ee/mariacobogo"><strong>Coletivo Editorial Maria Cobogó</strong></a> – criado por escritoras que querem dar visibilidade à literatura de qualidade feita no Distrito Federal. Nasceu no dia 8 do mês oito do ano de 2018. Três anos de vida, quatorze livros editados, duas vezes finalista do Prêmio Jabuti de Literatura e muita garra para cumprir essa jornada por todo o tempo que virá. #Sigamos</p>
<p><strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/">As Marias</a>: </strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/anamarialopes/">Ana Maria Lopes</a>, <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/christianenobrega/">Christiane Nóbrega</a>, <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M.D. Duarte</a>, <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/marciazarur/">Marcia Zarur</a> e <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/solangecianni/">Solange Cianni</a>.</p></blockquote>
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		<title>Carta ao pai</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Aug 2021 13:31:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[franz kafka]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte * | "Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e tenha certeza de que não porei aqui, seja para embelezar ou enfear, mais do que aquilo que vi e me pareceu." Carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel, Rei de Portugal     Franz Kafka nasceu</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> *</strong> |</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e tenha certeza de que não porei aqui, seja para embelezar ou enfear, mais do que aquilo que vi e me pareceu.&#8221;</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: right;">Carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel, Rei de Portugal</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Franz Kafka nasceu em Praga no ano de 1883, filho do comerciante Hermann Kafka e de Julie Löwy. Formou-se em Direito e trabalhou alguns anos como advogado. Nunca se casou, apesar de ter tido relações marcantes com várias mulheres. Antes de morrer de tuberculose, em 1924, passou algumas temporadas em sanatórios e viveu em Praga a maior parte de sua vida. Ao lado de James Joyce, Marcel Proust e William Faulkner, Kafka é considerado um dos escritores mais relevantes do século XX. A maioria de seus textos, escritos em alemão, foram publicados postumamente e são obras-primas da prosa universal. Entre elas, destacamos: <em>O Castelo</em>, <em>O Processo</em>, <em>A Metamorfose</em>, <em>A Colônia Penal</em> e <em>Um Artista da Fome</em>. Particularmente, gosto e recomendo muito o conto “O Novo Advogado”, integrante do livro <em>O Médico Rural</em>.</p>
<p>Aqui, comento um pouco de seu livro <em>Carta ao Pai</em> e, sobre o texto, alguns biógrafos de Kafka afirmam que o mesmo é resultado dos dramas vivenciados pelo autor, como a tuberculose e os três noivados desfeitos, sendo o último deles a circunstância que provoca a contundente escrita ao seu pai.</p>
<p>Quem nunca? Que atire a primeira pedra.</p>
<p>Cada um de nós, em algum ponto da vida, escreveu – mental ou literalmente – uma carta ao pai. E nesse escrito vieram críticas, lamúrias e acusações. Assim fez o escritor Franz Kafka, ao longo de dez dias do frio novembro de 1919 na sua Praga natal. Sua pena correu sobre o papel ‘cuspindo’ o que naquele tempo lhe pareceu justo afirmar.</p>
<p>A primeira leitura me remeteu a uma sessão de terapia Constelação Familiar, onde o filho acusa o pai dominador e, violentamente, ausente de sua construção como ser humano e escritor. E, para completar a sessão terapêutica imaginada, esperava o final das palavras do filho para que eu pudesse ‘falar’ pelo pai&#8230; qual a minha surpresa ao descobrir que o próprio Kafka já havia se encarregado disso. Afirma que o pai, poderia responder a ele:</p>
<blockquote><p><em>“Portanto, agora você já teria conseguido o bastante com sua insinceridade, pois provou três coisas: primeiro, que você é inocente; segundo, que sou culpado, e terceiro, que por pura grandiosidade você está disposto não só a me perdoar, mas – o que é mais ou menos o mesmo – a demonstrar e crer pessoalmente que eu, seja como for contra a verdade, também sou inocente.</em></p>
<p><em>(&#8230;)</em></p>
<p><em>No fundo, porém, aqui e em toda parte, não me provou nada a não ser que todas as minhas recriminações eram justificadas e que faltou entre elas uma especialmente legítima, ou seja: a recriminação da insinceridade, da bajulação, do parasitismo. Se não me equivoco muito, você ainda parasitando em mim com esta carta.”</em></p></blockquote>
<p>Um aspecto interessante é que, apesar de escrita, a carta nunca foi entregue ao seu destinatário. Medo? Culpa? Difícil afirmar.</p>
<p>No livro de contos <em>O Médico Rural</em>, escrito e publicado por Franz Kafka também no ano de 1919, encontramos a seguinte dedicatória: “a meu pai”.  Como entendê-la? Franz compreendeu a distância de Hermann? Seria a sua <em>Carta ao Pai</em>, junto com essa árida dedicatória, a base para os personagens de obras posteriores, como <em>O Processo</em> (1925) e <em>O Castelo</em> (1926)? Segundo o crítico Walter Benjamin, é possível vermos irmanados, na obra de Kafka, pais e burocratas:</p>
<blockquote><p><em>“O pai é a figura que pune. A culpa o atrai, como atrai os funcionários da justiça. Há muitos indícios de que o mundo dos funcionários e o mundo dos pais são idênticos em Kafka.”</em></p></blockquote>
<p>É triste, mas penso que a literatura mundial deve muito ao senhor Hermann Kafka e ao que seu filho fez com os sentimentos provocados pela relação de ambos. No dicionário Houaiss encontramos o verbete<em> kafkiano</em> como um adjetivo que <em>‘de forma semelhante à obra de Kafka, evoca uma atmosfera de pesadelo, de absurdo; especialmente em um contexto burocrático que escapa a qualquer lógica ou racionalidade’.</em></p>
<p>O pai Samsa, personagem de <em>A Metamorfose</em>, aniquila perversamente a vida do filho Gregor, metaforicamente transformado em um inseto (uma barata, enxergamos nós, os leitores). Isso nos remete aos trechos de seu livro <em>Carta ao Pai</em> em que são citados os insetos daninhos e sua capacidade de <em>‘sugar simultaneamente o sangue para conservar a vida’</em>. Noutros romances, encontramos situações e personagens vivenciando delírios persecutórios, sentimentos de culpa e, densamente, muito medo e impotência.</p>
<p>Em alguns momentos de sua carta, Franz consegue partilhar alguns deslumbres de elogio e gratidão ao pai:</p>
<blockquote><p><em>“Esse seu modo usual de ver as coisas eu só considero justo na medida em que também acredito que você não tem a menor culpa pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho a menor culpa. Se pudesse levá-lo a reconhecer isso, então seria possível, não uma nova vida – para tanto nós dois estamos velhos demais – mas sem dúvida uma espécie de paz; não a cessação, mas certamente um abrandamento das suas intermináveis recriminações.”</em></p></blockquote>
<p>A leitura de Kafka nem sempre é fácil, talvez pelo incômodo persistente, pela presença do não-pertencimento – a falta de um lugar. O não acolhimento provocado pelo medo e pela insegurança do não-entendimento. A cada leitura sinto uma dor diferente, em lugares distintos e, nem sempre, inexplorados. O livro nos deixa a tristeza provocada pelo absurdo de nossa condição e, principal e ‘kafkianamente’, pelos insensatos labirintos de nossas relações humanas.</p>
<p>Neste ano, a editora Todavia publicou, aqui no Brasil, a tradução dos <em>Diários, </em>de Franz Kafka, abrangendo o período entre 1909 e 1923 e, nele, encontramos um texto imediatamente posterior à escrita da <em>Carta ao pai, </em>em 5 de dezembro de 1919, o autor escreveu:</p>
<blockquote><p> <em>“De novo, arrastado por essa fenda terrível, comprida e estreita, que, na verdade, só em sonho é possível vencer. Acordado e por vontade própria, jamais.”</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>*Claudine M. D. Duarte </strong>é arquiteta, escritora, leitora voraz e uma das fundadoras do Coletivo Editorial Maria Cobogó.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>**Imagem</strong> foto por Joanna Kosinska / Unplash</p>
<p>&nbsp;</p>
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