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	<title>Arquivos Literatura - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
	<lastBuildDate>Mon, 03 Aug 2020 10:01:14 +0000</lastBuildDate>
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		<title>O PACOTE</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/o-pacote/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Aug 2020 10:01:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[quarentena]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte *  |   “Viver... o senhor já sabe: viver é etcétera...” João Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas)   Por aqui, os endereços misturam consoantes e números. Códigos de guerra carentes de poesia. Nenhuma homenagem. Uma leitura equivocada confere outros destinatários às cartas e encomendas. Na minha rua, um “l” minúsculo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> *  |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>“Viver&#8230; o senhor já sabe: viver é etcétera&#8230;”</em></p>
<p style="text-align: right;">João Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por aqui, os endereços misturam consoantes e números. Códigos de guerra carentes de poesia. Nenhuma homenagem. Uma leitura equivocada confere outros destinatários às cartas e encomendas. Na minha rua, um “l” minúsculo pode ser reconhecido como um “i” maiúsculo. Há alguns anos, uma amiga veio para a reunião do clube de leitura e o táxi a deixou na rua errada, a do “i”, e, naquela tarde, o pessoal da outra casa também recebia amigos. Clara (esse é o seu nome) entrou, sentou-se na roda e até aceitou um café antes de perguntar por mim. Fui resgatá-la.</p>
<p>Nesta pandemia, mesmo com o GPS, alguns entregadores escolheram a outra rua. Ninguém reteve meus lanches e, pelos relatos, o dono da casa demonstra não gostar de pizzas nem das trocas de endereços. Na semana passada, esteve aqui. Manhã de domingo, ele e o filho, bermudas, tênis e máscaras. Trouxeram uma carta registrada contendo um cartão de crédito. Foram educados: que eu tivesse mais atenção, escrevesse o “L” em maiúsculas, usasse letras de forma, uns conselhos assim, solenes, pelo meu bem. Urge que as pessoas se protejam das pessoas.</p>
<p>Hoje, o interfone tocou e escutei o som de algo sendo jogado contra o portão. O pacote não tinha o meu nome, mas o endereço era exatamente o meu. Uns 30 por 40 centímetros, outros dez de altura, embalagem de papel pardo, remetente ilegível e o destinatário, julguei, era o cara da outra rua. Aquele, o dos conselhos para o meu bem, das pessoas e das encomendas. Confesso que esperava ansiosamente por este dia: levar o pacote, sorrindo (atrás da máscara, infelizmente) e entregá-lo com algum parecer inteligente, notório. As pessoas querem superar as pessoas.</p>
<p>Com indiferença pela unha que massacrava o dedo do meu pé esquerdo, subi a ladeira vestida para caminhar, escrevendo na cabeça uns axiomas sobre endereços, entregadores e afins. Quatro da tarde, pacote sob o braço, oitocentos e dezessete metros, campainha, o filho. Não, aquele não era o nome do pai dele. Como assim, depois de tantos anos, eu não sabia o nome do pai dele? O algodão na unha, deslocado. Seria a falta de um mísero 1? A quadra treze ficava a seis quilômetros &#8211; uma hora e dezoito minutos. Escolhi o caminho da rua principal – que se foda a unha &#8211; o sol pelas costas, minha sombra comprida e multiforme.</p>
<p>Ao passar pelo Corpo de Bombeiros, vislumbro movimentos da urgência. A motorista da ambulância proclama o socorro e, antes de ocupar a via principal, é obrigada a frear: um cachorro latiu três vezes olhando para mim. Um dos bombeiros segurava uma faca. Segui em frente, de olho no chão e no lixo que as pessoas largam por aí. Cigarros, seringas, luvas, máscaras, latas, sacolas, embalagens. As pessoas não pensam nas pessoas. O cão me segue do outro lado da rua. Não late mais. Entro na rua do suposto dono do pacote, nenhuma casa de número similar à minha&#8230; a unha e a bateria do celular agonizam.</p>
<p>Voltamos à rua principal e esperamos um ônibus. Balanço o pacote, cheiro o pacote, imagino umas asas no pacote. Náufragos no cerrado, subimos no ônibus e ocupamos dois bancos. O cão nos observa. Um jornal velho repousa sob os meus pés: setenta mil mortos no Brasil. Era de uma outra sexta-feira&#8230; de uns trinta mil mortos antes. Um homem entra no ônibus, sem máscara, discute com o motorista, tira a camisa e a amarra sobre o nariz e a boca. Raivoso, quer saber se cobraram o bilhete do pacote. O motorista acelera até parar em frente à delegacia. Melhor descer ali mesmo, agradeço. Alguém me diz que o pacote foi uma ótima ideia para distanciamento social.</p>
<p>O cão nos seguiu. Cheira o pacote. Deitada na calçada, sem tênis e sem as meias, presencio a Lua surgir ao timbre de outra ambulância.  Retiro a máscara, úmida, suada. As máscaras não aguentam as pessoas. Nem as najas&#8230; nem as emas. Permito que o cão descanse sua cabeça ao lado da minha, sobre o pacote. Acompanhamos a linha de grãos de arroz que brota de uma marmita branca e, como a média móvel de mortes dos últimos dias, desaparece no buraco de um formigueiro. As pessoas aprenderam a morrer.</p>
<p>***</p>
<p><strong>*<a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte </a></strong>é uma das fundadoras do <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/"><strong>Coletivo Editorial Maria Cobogó</strong></a>, que nesta semana completa 2 anos de vida com 13 títulos publicados e muita saudade de encontros, feiras e abraços.</p>
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		<title>Eu não quero mais contar</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/eu-nao-quero-mais-contar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jun 2020 13:56:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[janelas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Ana Maria Lopes*   A primeira passou... mas continuei a fazer meu texto. Ele exigia concentração e pesquisa. Difícil escrever sobre uma época onde você não viveu e precisa usar detalhes do cotidiano. Mergulho na vasta documentação do século dezenove. Passou a segunda... não é fácil manter o foco na escrita. Melhor movimentar a</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por Ana Maria Lopes*</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A primeira passou</strong>&#8230; mas continuei a fazer meu texto. Ele exigia concentração e pesquisa. Difícil escrever sobre uma época onde você não viveu e precisa usar detalhes do cotidiano. Mergulho na vasta documentação do século dezenove. <strong>Passou a segunda</strong>&#8230; não é fácil manter o foco na escrita. Melhor movimentar a vida, arrumar o quarto, fazer o almoço. Quanta coisa se aprende a fazer numa quarentena! O arroz está mais solto, o refogado mais cheiroso e a panela de pressão não é mais um bicho de sete cabeças. A internet virou instrumento de aprendizagem e, mais ainda, contato com amigos e vizinhos.</p>
<p>No escritório faço os deveres escolares com a neta. Falamos de água, aquíferos, mares e oceanos. Eu olhando pelo computador o rostinho e os cadernos dela. <strong>Passou a terceira</strong>&#8230; Depois dos deveres, rimos e fazemos algumas brincadeiras que só a cumplicidade entre avós e netos pode explicar. Desligo e volto ao trabalho. Agora, para desenvolver um texto sobre a Pagu, mulher ícone de uma geração, que viveu intensamente e foi a primeira presa política do país. <strong>Passa a quarta seguida de outras duas</strong>&#8230;</p>
<p>O vento que entra pela janela faz voar alguns papeis. A cabeça inventa histórias, imagina situações. Volta a pensar na água, nos aquíferos e oceanos de Maitê. O mar sempre faz falta e, mesmo remoto, pensar nele nos energiza e fortalece. Ondas. Quanto maiores mais belas. E a vastidão leva o mar até seu encontro com o céu. “Quem ensina o mar a fazer ondas, vovó?”.  No longe, um ponto, um barco procurando porto. Na areia uma mulher enxugando o mar de sua saia.</p>
<p>O pensamento volta para o real, o cerrado, tão devastado, vilipendiado, como nós, como toda a nossa gente. <strong>Passa a sétima</strong>&#8230; o coração já dispensa as ondas, os mares de Maitê, a ilusão do barco. Deixo para trás os pensamentos e volto a olhar as avenidas que correm paralelas à minha janela. Eixinho de cima, Eixão, Eixinho de baixo. Não é essa a nomenclatura, mas assim os chamamos, esses eixos que cortam a cruz do Plano Piloto. Pistas rápidas onde o trânsito flui com suas carências e urgências.</p>
<p>As sirenes rompem o barulho natural da cidade. Invadem os ouvidos e vão gerando espantos. São elas que abrem o caminho nessa cruz que leva ao socorro, para a busca de um leito, para um respirador – eu não posso respirar – para uma UTI perto, mais perto – eu preciso respirar!</p>
<p>Quando <strong>a oitava ambulância</strong> passa eu fecho a janela como quem se recusa a crer. Não quero mais contar. Vontade de ficar para sempre no mar de Maitê.</p>
<p>E choro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*Ana Maria Lopes é jornalista, escritora, avó e fundadora do Coletivo Editorial Maria Cobogó. Em tempos de quarentena escreve muito e se tortura com as sirenes que passam sob sua janela.</p>
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		<item>
		<title>Em Brasília, dezenove horas&#8230;</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/em-brasilia-dezenove-horas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Apr 2020 15:22:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[São Jorge]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Claudine M. D. Duarte *   “Enquanto isso, por um descuido que José Arcádio Buendía não se perdoou jamais, os animaizinhos de caramelo fabricados na casa continuavam sendo vendidos no povoado. Crianças e adultos chupavam encantados os deliciosos galinhos verdes da insônia, os esplêndidos peixes rosados da insônia e os macios cavalinhos amarelos da insônia,</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> *</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>“Enquanto isso, por um descuido que José Arcádio Buendía não se perdoou jamais, os animaizinhos de caramelo fabricados na casa continuavam sendo vendidos no povoado. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Crianças e adultos chupavam encantados os deliciosos galinhos verdes da insônia, os esplêndidos peixes rosados da insônia e os macios cavalinhos amarelos da insônia, e assim a alvorada da segunda-feira surpreendeu o povoado inteiro acordado. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>No começo ninguém se assustou.”</em></p>
<p style="text-align: right;">Gabriel García Márquez, <em>in</em> Cem Anos de Solidão</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De manhã, choveu demais da conta. Pediu ao menino que a ajudasse arrumar a bacia sob o telhado. Se chovesse de novo, teria água para o banho da sexta. Proibiu que o filho saísse de casa por uns dias, brava. Não achava certo que o menino voltasse para casa com coisas que achou pelo caminho. Não é de Deus isso de pegar as coisas dos outros. Uma vez, ele voltou com um livro, ela olhava as letrinhas e achava bonito. Quem sabe um dia aprenderia a ler. O menino hoje apareceu com umas compras de comida. ‘A mulher não precisa mais’, disse ele. Muito feio pegar dinheiro dos outros, mas eles tinham que comer. ‘Ela tava caída na parada, num peguei a bolsa, num peguei os documento’, o menino olhava bem dentro do olho dela. Hoje tinham janta, conferiu os pacotes, janta até domingo. Não comia há três dias, guardava o pão pro menino que ainda tinha que crescer, estudar, virar doutor. Deus ajudava que o menino não bandeasse como o pai. O dia ia de embora, fininho, o menino acendeu uma vela. Sem luz desde&#8230; nem lembrava desde quando. Parece que foi no dia que ainda tinha um restinho de gás, mas deixou a vizinha esquentar a sopa do bebê. Como cheirava bem aquela sopa. ‘A mulher do ponto segurava isso’, pegou o terço da mão do menino. Quando voltar as missas ia fazer uma reza bonita. Faria o menino pedir desculpas, mas os mortos não precisavam de comida, verdade. Quem sabe na segunda, o governo libera o dinheiro.</p>
<p>***</p>
<p>Laurinha, vai tomar banho, tem que lavar o cabelo, já são quase cinco horas, falta arrumar a varanda, balões brancos porque foi o que seu pai encontrou, ele nem procurou e eu avisei ‘não precisa ir’, só telefonar ou usar o aplicativo, mas ele tem preguiça do aplicativo, tem preguiça do telefone, parece que quer sair sempre e nem pode&#8230; O shampoo azul, não, Laura! Usa o shampoo rosa, dá brilho, dizem que é de lavanda mas veio rosa, não dá pra confiar em ninguém, mas sua festa vai ser linda, a gente na varanda, já mandei seu pai levar os docinhos para os vizinhos, ficou tão lindo o convite!</p>
<p><em>“Laura do 501 do bloco B faz sete anos hoje!  De nossa varanda queremos comemorar com todos vocês. Parabéns às <strong>sete da noite</strong>. Cantemos juntos!”  </em></p>
<p>O sete da noite em destaque, pra ninguém esquecer. Sete. Tem que ser antes do panelaço das oito e meia, que coisa esse negócio de estragar panelas, seu pai queria pegar aquela, a vermelha, nem pensar, tranquei o armário, quer protestar? – já falei, tem o <em>twitter</em>, nem vem, minha panela!, ano que vem vai ser diferente, vai ter o salão de festas, vou secar seus cabelos agora, que emoção vai ser isso tudo, avisei a senhora dos doces, queria pão de mel, mas ela veio com essa história de coronavírus, pandemia, uma nossa senhora no meio, o moço do chocolate sumiu, nunca mais entregou chocolate pra ela, uma ladainha, contei que você faz sete anos e que nossos vizinhos iriam cantar conosco às sete da noite, aceitei os bem-casados, para cada apartamento um saquinho com sete doces&#8230; pedi trezentos, ficaram tão bonitinhos os bem-casados, amarradinhos com umas fitinhas coloridas, não entendi o negócio das cores, parece que tem a ver com a roupa de uma santa, não deu pra ouvir, ela espirrou na hora, ou tossiu, nem importa, gostei de tudo, veio em tons de rosa, vermelho e bege, se fosse sua tia ela iria dizer que é <em>‘nude’</em>, besteira demais, eu sou uma pessoa simples, bege é bege. Os docinhos são bege por dentro, tem um doce de leite assim bem clarinho, você vai adorar, seu pai chegou, amarre seus sapatos, vou mostrar como deve pregar os balões, vai ser lindo, vou checar se ele foi no bloco da frente, é o principal, todo mundo na janela batendo as palmas, com os docinhos vai dar certo, os balões juntinhos de sete em sete, fiz uma faixa para seu pai segurar do lado de fora da varanda: Laura, sete.</p>
<p>***</p>
<p>Quinta-feira. Dia de São Jorge, “<em>em nome de Deus, estenda-me o seu escudo.</em> Encomenda gigante. Sem chocolate desde a semana santa, teve sorte, muita sorte. A moça ligara ontem, mal tinha bebido o chá de limão com gengibre, a garganta arranhando, “<em>Glorioso São Camilo volvei seu olhar de misericórdia”.</em> Uma mania de sete, a moça ao telefone repetia muitos setes, ficou meio tonta e se apoiou na cadeira perto da televisão, carecia anotar a encomenda. Foi bem perto da hora do almoço, sol alto num céu azul, Dom Bosco escolheu bem esse lugar, “<em>Entre paralelos, terra prometida”.  </em>Nem pode comer por causa das compras. Gostava do mercado que tinha o Santo Antônio. Não entendia o que o santo fazia ali, talvez para proteger os casamentos das pessoas que assim comiam mais, fariam mais filhos, almoços em família. Mas se sentia acolhida por aquele olhar do santo e lembrou da oração: <em>“Foge a peste, o erro, a morte&#8230;”</em> Tão bom o santo, conferiu: doce de leite, farinha de trigo e ovos. Os papéis coloridos para embrulhar os doces em cima da mesa da cozinha. Trezentos. Estava um pouco febril e precisou contar mais de uma vez. Muito bom o bom Deus e Santa Terezinha&#8230; os doces envolvidos um a um nas cores da roupa da santa. Muita sorte pra menina. Sete anos, muito bem, Nossa Senhora do Rosário protege os dias setes. Só lembrou depois que saiu da portaria. Podia até ter lembrado antes, mas aquela dor que doía desde as três da madrugada atrapalhou um pouco&#8230; Nem dormiu. Mas achou indelicada a moça, não desceu pra receber os doces, mandou um empregado. Coitado, ele os contou um a um, foi separando em montinhos de sete e subiu repetindo que faltava um. “<em>O Senhor é abrigo seguro para os oprimidos”,</em> recitou bem baixinho o salmo para o moço que se afastava triste. Ela guardou o dinheiro no bolso de dentro do casaco, como estava frio aquele dia sem sol, <em>“Santa Maria, rogai por nós”</em>. Conseguiu atravessar a avenida e, tropegamente, sentou no banco da parada de ônibus. Viu a tarde ficar cinza escura, eram as vistas?, pensou. Um homem que usava máscara branca se levantou ao vê-la chegar e partiu apressado. “<em>Perdoai-o, Senhor, não sabem o que fazem”.</em> Ela fechou mais o casaco, o frio aumentava e uma grande dor apertou o seu peito, <em>“Assim na terra como no céu”,</em> se deitou<em>.</em> Um banco inteiro somente para ela, <em>“Obrigada, Senhor”</em>. Puxava o ar e o ar não vinha, “<em>Ajudai-me a entender”</em>. Seu último olhar cruzou com os olhos de um cão que vinha ao seu encontro e vertia uma fileira de lágrimas. As lágrimas para o bueiro. Alguém disse que era frio assim, mas ninguém previu esse abismo, nem contou da dor&#8230;O cão, ela quase sorriu – veio fazê-la atentar, São Francisco o protegia, “<em>é morrendo que se vive”.</em></p>
<p>***</p>
<p><strong>“Em Brasília, dezenove horas&#8230;”</strong> na fonte negra da máquina de escrever, o escrivão imaginava. Chegaria em casa, retiraria a Olivetti da caixa, colocaria o papel reciclado e começaria seu conto. Sempre quis começar um assim, <strong>“Em Brasília, dezenove horas&#8230;”</strong>. Uma homenagem à mãe que tinha a vida paralisada na hora da Voz do Brasil.  Ela escutava o programa do governo num rádio grande, de mesa, com um som metálico e chiado ao fundo. O rádio, de madeira nobre, era um legado do pai dela, como a máquina de escrever. Um dia, ele decidiu que seria escritor e pediu a máquina. <em>“Que máquina?”</em>, perguntou a mãe. O sistema da delegacia que estava fora do ar há quase meia hora retornou interrompendo o instante em que ele se lembrava de colocar a Olivetti no banco do carro, com cuidado&#8230; Retomou o relatório e conferiu as anotações. Quinze e quarenta e cinco: homem mascarado e ofegante entrou na delegacia. Importante escrever que estava sozinho no plantão. Anotou as palavras do homem: uma senhora, de casaco marrom, cabelos brancos, suada, desmaiou na minha frente no ponto de ônibus. O ponto ficava perto, mas ele não podia sair. Essencial frisar que estava sozinho naquele momento. O homem não quis se identificar, respondeu que não telefonou para o SAMU porque não tinha créditos no celular. Ou não tinha bateria? Devia ter anotado isso também. A senhora tossia muito, o mascarado pediu que anotasse. Enquanto analisava a precisão do dia, o escrivão ligou o ventilador. É imperativo ficar bem claro o motivo de não ter conseguido falar com o 192. Ocupado. Ocupado. Ocupado.  Os horários estão todos no papel, anotados como devia ser. A vida pode ser resolvida ou perdida nos detalhes. Perfeita a sentença, pode atribui-la à mãe: <em>“A vida, meu filho, a gente ganha ou perde. Nos detalhes!”</em> Decidiu ligar para os bombeiros: 193. Muito incrível as pessoas que escolhem os números dos serviços de emergência. 192 bem perto do 193. Se a pessoa errar na hora do apuro, pode acertar. Enquanto reinicia novamente o sistema, a voz da mãe deliberava no áudio do celular: <em>“Quarentena não devia se chamar assim se dura mais de quarenta dias”.</em> Ouviu de novo, pra ter certeza. Não a encontrava pessoalmente desde o primeiro decreto do Governador. Checou seus apontamentos e, mentalmente, contabilizou o tempo de sua ação: onze minutos. Não era um bom tempo quando se trata de uma vida. <em>“Toda vida conta!”</em>, a mãe repetia o Bill Gates. Ela estava muito feliz com as fábricas que iriam descobrir as vacinas que protegeriam a humanidade do coronavírus. Ficou indignada com a ideia de testarem na África, mas chorar de verdade, com lágrimas e soluços, foi naquela sexta-feira. Ele sabe exatamente o horário em que a mãe telefonou: dezesseis e dezessete do dia dezesseis de abri. A mãe inconsolável porque o presidente demitiu o ministro da saúde. Pensava assim mesmo, tudo e todos em letras minúsculas. Ninguém que magoasse sua mãe mereceria maiúsculas. O sistema voltaria. Em suas notas, o retorno lacônico do corpo de bombeiros: envio de ambulância às dezesseis horas. Confere. Ele escutou as sirenes oito minutos depois. Como fazer o relatório se não souber o nome daquela senhora? Estava apenas desmaiada? Conseguiu ser levada com vida até o hospital? Ela estava mesmo lá? Portava documentos, dinheiro, bolsa? Um celular? Um santinho na mão! Devia ter perguntado qual. Todos os dados importam mesmo que sejam para conduzir aquela senhora aos perversos gráficos e estatísticas nos jornais. Nada do sistema ainda. A mãe ligara mais cedo, voz da mãe, dramática:<em> “Morreu. Não me fale no nome do presidente. Nunca mais. Para mim, ele morreu.”</em> Avisou que ele podia buscar o rádio também já que gosta de herdar “coisas” que pertenceram ao avô. Deliberou que não escutaria mais <em>“notícias de passeios oficiais”</em>. Nada do sistema. O escrivão consultou o relógio e desligou o computador: em breve, sete da noite, desistiu. Já podia imaginar o papel rodando na Olivetti: <strong>“Era uma vez em Brasília, dezenove horas&#8230;”</strong>, ótima abertura.</p>
<p style="text-align: left;">***</p>
<p style="text-align: left;">Se você leu até aqui, esse textão é meu mesmo&#8230; acho que tem muitos caracteres para esta mídia &#8211; outros diriam &#8220;<em>muita coisa escrita&#8221;</em>, quase peço desculpas. Justo hoje, quando comemoram o #diamundialdolivro! Dizem que no 23 de abril de 1616 faleceu Shakespeare e, no dia anterior, o mundo também perdeu Miguel Cervantes. Comemoremos, então. Salvem os livros! Salvem as coisas escritas! Nos salvemos a todos. Amém.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>* <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/"><strong>Claudine M. D. Duarte</strong></a> é arquiteta, dramaturga e escritora. Fomenta a leitura entre os jovens através do Projeto Calangos Leitores. Foi finalista do prêmio Jabuti na categoria Inovação em 2018.</p>
<p>Imagem: OST “SÃO JORGE, OGUM” (2019) do artista Rinaldo Silva (foto gentilmente cedida por Pé Palito Antiquário &amp; Arte)</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Wuhan, Oran ou a peste nossa de cada dia</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/wuhan-oran-ou-a-peste-nossa-de-cada-dia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2020 12:42:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Camus]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>*por Claudine M. D. Duarte    “E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”  O nome das cidades pareceu uma dessas coincidências nefastas que, de tempos em tempos, ocupam o jornal do meio-dia. Wuhan,</p>
<p>O post <a href="https://mariacobogo.com.br/wuhan-oran-ou-a-peste-nossa-de-cada-dia/">Wuhan, Oran ou a peste nossa de cada dia</a> apareceu primeiro em <a href="https://mariacobogo.com.br">Maria Cobogó</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>*por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>   “E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, </em><em>a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”</em></p>
</blockquote>
<p><strong> </strong>O nome das cidades pareceu uma dessas coincidências nefastas que, de tempos em tempos, ocupam o jornal do meio-dia. Wuhan, na China, epicentro da infecção do coronavírus, em 2019. Oran, cidade portuária na Argélia e cenário do livro A Peste, de Albert Camus publicado em 1947.</p>
<p>Na Oran de Camus, o narrador nos conta, no primeiro capítulo: <em>“a vida não é muito emocionante, ao menos desconhece-se a desordem”. </em>As pessoas vivem para o trabalho, acumulando riquezas e, com rotina meticulosa, mal tem tempo para as coisas do coração: <em>“Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo ou de reflexão, somos obrigados a amar sem saber”.</em>  E é nessa cidade que a palavra ‘Peste’ é pronunciada, com muito espanto, depois da morte de alguns cidadãos e de ratos agonizantes. A cidade é construída de costas para o mar, com muros remanescentes de outras guerras &#8211; outros medos.</p>
<p><em>&#8220;Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual número de pestes e de guerras. E contudo as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. (&#8230;) Simplesmente, quando se é médico, faz-se uma ideia da dor e tem-se um pouco mais de imaginação. (&#8230;) Números flutuavam na sua memória e ele dizia a si mesmo que umas três dezenas de pestes que a história conheceu tinham feito perto de cem milhões de mortos. Mas que são cem milhões de mortos? Quando se fez a guerra, já é muito saber o que é um morto. E visto que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados ao longo da história esfumaçam-se na imaginação.&#8221;</em></p>
<p>Camus escreveu uma alegoria: uma epidemia devasta uma cidade da mesma forma que a ocupação nazista assolara a França. E como no final da guerra, a epidemia cessa, a ocupação termina e as pessoas retomam suas vidas apáticas. O escritor lutava contra a indiferença em relação às lições da guerra e da resistência e, talvez por isso, a leitura nos permita interpretações tanto pela ótica política como por um olhar filosófico-existencial em tempos sem abraços, inúteis máscaras brancas e potes de álcool em gel.</p>
<p>A cidade de Wuhan, diferente de Oran, não tem um mar para dar as costas, mas a sua área urbana é atravessada pelo rio Yangtze e seu maior afluente, rio Han, contemplou a primeira morte decorrente da infecção pelo coronavírus, em seu enorme e inimaginável mercado de peixe. E então, uma população de mais de 10 milhões de pessoas assistiu, com incredulidade e impotência, uma sucessão de decisões políticas equivocadas, postergando olhares sobre os fatos e suas incômodas verdades, até o isolamento da cidade.</p>
<p>A Peste promove reflexões sobre nossa finitude, nosso amor à vida e, principalmente, sobre nossa capacidade de transformação. São 300 páginas extremamente bem escritas que nos apresentam pensamentos profundos sobre nossa dor, medo e solidão gerados por uma doença ou por algo que nos ameaça e que não podemos controlar. Na vida real, uma moradora de Wuhan nos conta: “Não é apenas a cidade que está confinada – a voz das pessoas também.” E, apesar de vários especialistas afirmarem que não existem motivos para alarde, outras cidades e regiões noutros países também vivem (e respiram) isolamentos e quarentenas.</p>
<p>Em Oran, após a identificação do inimigo &#8211; a peste bubônica &#8211; foi aberto o caminho para uma aliança de solidariedade, resgatando sentimentos anestesiados pela rotina anterior à epidemia. Os habitantes da cidade redescobrem a vida, transformam a forma com que se relacionam, laços entre casais são fortalecidos e a dor da separação, seja pelo ‘cercamento’ ou pela morte, teceu os amadurecimentos possíveis. No final do livro, temos o motivo pelo qual decidiu redigir a crônica sobre Oran e sua peste, reafirmando a crença humanista de Camus:</p>
<p><em>&#8220;O velho tinha razão, os homens eram sempre os mesmos. Mas essa era sua força e a sua inocência, e era aqui que Rieux, acima de toda a dor, sentia que se juntava a eles. (&#8230;) Decidiu, então, redigir esta narrativa, que termina aqui, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor das vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.&#8221;</em></p>
<p>Ao discursar na Academia Sueca, em 1957, quando foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura, Camus sentenciou:</p>
<p><em>&#8220;Cada geração se sente, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje a tudo destruir, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir ao ódio e à opressão, esta geração tem o débito, com ela mesma e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir de suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer. Ante um mundo ameaçado pela desintegração, onde nossos grandes inquisidores tentam estabelecer definitivamente o reinado da morte, ela sabe que devem numa espécie de corrida maluca contra o relógio, restaurar entre as nações uma paz (que não é aquela da servidão), conciliar novamente o trabalho e a cultura, e recriar entre todos os homens uma Arca da Aliança. Não há garantias de que ela possa cumprir essa tarefa imensa, mas é certo de que, em qualquer lugar do mundo, ela já tem o desafio duplo da verdade e da liberdade, e, ocasionalmente, saber morrer por ele sem ódio.&#8221;</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Albert Camus morreu em janeiro de 1960 num acidente de carro, ironicamente com o bilhete do trem no bolso. Num trecho de <em>A Peste</em>, Rieux anota <em>&#8220;Apostavam no acaso, e o acaso não pertence a ninguém&#8221;.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> é arquiteta, dramaturga, escritora e integrante do Coletivo Editorial Maria Cobogó</p>
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			</item>
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		<title>De Riobaldo, Sinhá Vitória e outros seres extraordinários</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/de-riobaldo-sinha-vitoria-e-outros-seres-extraordinarios/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Dec 2019 13:26:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Leitura]]></category>
		<category><![CDATA[Listas]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Claudine M. D. Duarte | Final de ano. Começo de ano. (Re)início de ciclos. Mudança de casa. Nova cidade, talvez velho continente. Lugares a conhecer. Livros a serem lidos... ou escritos. Tudo é motivo para listas. A vida pode ser mais confortável com uma ou várias listas ao lado. Acreditamos. Uma forma de nos</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte |</a></p>
<p>Final de ano. Começo de ano. (Re)início de ciclos. Mudança de casa. Nova cidade, talvez velho continente. Lugares a conhecer. Livros a serem lidos&#8230; ou escritos. Tudo é motivo para listas. A vida pode ser mais confortável com uma ou várias listas ao lado. Acreditamos. Uma forma de nos ajudar a desmontar – ou mascarar – o caos que nos ronda&#8230; e assusta.</p>
<p>Nos jornais, blogs e redes sociais, cada um apresenta a sua. Gosto de ler. Na verdade, amo ler. E mais que isso, amo apresentar livros aos amigos. Por sorte, convivo com outras pessoas que também são amantes dos livros e da literatura e, gentilmente, perdoam – creio &#8211; essa minha obsessão. Assim, amo as listas dos melhores livros do ano, do século, dos premiados, dos indicados pelo Assis Brasil ou da preciosa lista elaborada pelo Hemingway <em>“do que você deve ler”. </em>Não consegui ainda juntar as várias e desencontradas listas dos <em>melhores livros de todos os tempos&#8230; </em>Juro que existem.</p>
<p>Pensei em fazer a minha lista dos melhores livros (já lidos e relidos, óbvio), mas a ansiedade foi tanta que registrei essa vontade de escrever na relação de <em>“coisas que posso fazer um dia”</em>. E decidi contar dos personagens que moram dentro de mim. São inúmeros! Por limite de espaço relacionei alguns que eu <em>‘vejo’</em> ou <em>‘escuto’ </em>todos os dias.</p>
<p>A literatura me concedeu momentos inesquecíveis e fica difícil não considerar <strong>Riobaldo</strong> um amigo, falando baixinho quase em sussurros que <em>“a vida é assim&#8230; o que ela quer da gente é coragem”.</em> E como olhar a lua, redonda, suspensa e desmedida sem lembrar do <strong>Conde Fosca</strong> condenado à eternidade, aterrorizado pelos ciclos que contempla interminavelmente e sonha <em>“que não há mais homens. Todos estão mortos. A terra é branca. Ainda há a lua no céu e ela ilumina uma terra toda branca. Estou só&#8230;” </em></p>
<p>Às vezes, escuto os passos arrastados de <strong>Sinhá Vitória</strong> caminhando pelas ruas e sonhando com uma cama de tiras&#8230; <em>“Por que não haveriam de ser gente&#8230; Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias.”</em></p>
<p>Vale incluir nessa lista um <strong>amor</strong>, personagem da incrível Marguerite Duras, explorando o barulho do mar e gritos de gaivotas famintas como trilha sonora: <em>“Assim, no entanto, você pode viver esse amor do único jeito que era lhe possível, perdendo-o antes que ele acontecesse.”</em></p>
<p>O García Márquez soube criar seres memoráveis e me sinto acompanhada por muitos deles. Sempre que abro a lata de café, constato a presença do <strong>Coronel </strong>que <em>“sobrevivente de tantas outras manhãs”</em>, espera e espera uma carta que nunca vem&#8230;. Sorve seu café. Uma espera de cinquenta e seis anos. De novo, era outubro &#8211; <em>“uma dessas raras coisas que chegavam”</em>.  Outro coronel – o <strong>Aureliano Buendía</strong> – faz sua estreia numa cena emocionante quando, diante do pelotão de fuzilamento, recorda <em>“aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. </em></p>
<p>De memória, solidão, e esperas intermináveis, Gabo ainda nos deu o<strong> Patriarca</strong>, o ditador de uma idade imprecisa &#8211; entre 107 e 232 anos, que todas as noites percorre o corredor que leva a seu quarto mirando<em> “vinte e três vezes”</em> o lugar onde antes ficava o mar: <em>“um tirano de mentira que nunca soube onde estava o avesso e onde estava o direito desta vida que amávamos com uma paixão insaciável que o senhor não se atreveu sequer a imaginar por medo de saber o que nós sabíamos de sobra que era árdua e efêmera&#8230;”</em></p>
<p>Contei: já são sete personagens, sete livros. Gosto de setes. Sinto que trazem sorte. Desejo a todos muitos setes em 2020, 2021, &#8230; dois mil e vinte e setes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por ordem de aparição neste texto:</p>
<ol>
<li>Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa</li>
<li>Todos os Homens são Mortais, de Simone de Beauvoir</li>
<li>Vidas Secas, de Graciliano Ramos</li>
<li>A Doença da Morte, de Marguerite Duras</li>
<li>Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel García Márquez</li>
<li>Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez</li>
<li><span style="vertical-align: inherit;"><span style="vertical-align: inherit;">O outono do patriarca, de Gabriel García Márquez</span></span></li>
</ol>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para os que ficaram curiosos com a lista do Ernest Hemingway:</p>
<p><a href="https://homoliteratus.com/16-obras-que-todo-jovem-escritor-deve-ler-segundo-hemingway/">https://homoliteratus.com/16-obras-que-todo-jovem-escritor-deve-ler-segundo-hemingway/</a></p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Imagem: https://estadodaarte.estadao.com.br/podcast-grande-sertao-veredas/</p>
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		<title>Marias suaves e fortes</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/marias-suaves-e-fortes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Dec 2019 13:50:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Leitura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Cobogó]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Clara Arreguy* É um encanto o livro Cigarras, Lagartas e Outras Marias, de Solange Cianni (Maria Cobogó), que reúne 16 contos protagonizados por mulheres no limite entre o que avisa o subtítulo: eróticos e românticos. São histórias escritas com delicadeza, linguagem limpa, sem excessos de adjetivação, mas com as sutilezas que o tema requer.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>por Clara Arreguy*</p>



<p> É um encanto o livro Cigarras, Lagartas e Outras Marias, de Solange Cianni (Maria Cobogó), que reúne 16 contos protagonizados por mulheres no limite entre o que avisa o subtítulo: eróticos e românticos. São histórias escritas com delicadeza, linguagem limpa, sem excessos de adjetivação, mas com as sutilezas que o tema requer. E que trazem várias facetas de mulheres, das mais fortes às mais vulneráveis.<br><br> Solange é mais conhecida por sua obra para crianças. São quatro livros voltados para esse público. Atua na área escolar, como pedagoga e psicopedagoga, e vem também do teatro, no qual trabalhou como atriz. Aqui, em Cigarras, Lagartas e Outras Marias, não se preocupou em disfarçar questões que poderiam, em tese embaraçá-la junto a seu público original. Afinal, professoras, mães e avós também têm desejos e vida sexual.<br><br> As personagens dos contos de Solange são gente como a gente. Como Maria das Dores e dos Amores, que ao tomar um pilequinho sozinha em seu quarto consegue se ver, não gorda e cheia de rugas, mas linda e gostosa, amável e desejável, ainda que o frio da cama lhe desperte saudades de um possível companheiro, o mesmo que, durante o sonho, lhe provocará orgasmos múltiplos.<br><br> Em histórias como essas, Solange tira do armário os desejos e angústias da mulher comum, mostrando que cada lagarta viverá seu período de casulo até que se torne borboleta numa próxima primavera. </p>



<p>* Clara Arreguy é jornalista e editora </p>
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		<title>PAI</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/pai/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Aug 2019 00:48:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Art]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[pai]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte Ele vestia calça azul escuro, camisa social em tom azul mais claro, meticulosamente colocada pra dentro da calça. Um cinto, preto talvez, combinando com os sapatos, provavelmente... não olhei pra baixo. Vi seu rosto, de frente pra mim. Barba e cabelos brancos. Olhos, meio verdes, meio marrons: atônitos. Estava encostado</p>
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<p>por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a></p>



<p><strong>Ele vestia calça azul escuro, camisa social em tom azul mais claro, meticulosamente colocada pra dentro da calça. Um cinto, preto talvez, combinando com os sapatos, provavelmente&#8230; não olhei pra baixo. Vi seu rosto, de frente pra mim. Barba e cabelos brancos. Olhos, meio verdes, meio marrons: atônitos. Estava encostado na parede, desentendido. </strong></p>



<p><em><strong>– Pai?!,</strong></em><strong> eu disse estendendo as mãos e quase tropeçando na surpresa do encontro. </strong><em><strong>– Quero um abraço&#8230;,</strong></em><strong> ousei. </strong></p>



<p><strong>Ele, sem jeito e encabulado, abriu os braços e me aninhou no seu peito.</strong></p>



<p><em><strong>– Você está bem?!,</strong></em><strong> perguntei sem sair do meio do abraço. </strong></p>



<p><strong>Ele suspirou profundamente, com uma das mãos alisava meus cabelos, enquanto se desfazia em nuvem&#8230; azul também. Eu me virei para trás&#8230; ninguém viu o nosso encontro. Fiquei com as lágrimas e a lembrança do</strong> <strong>abraço. E foi tudo.&nbsp;</strong></p>



<p><strong>Queria contar que é possível o encontro nos sonhos&#8230; só isso.</strong></p>



<p style="text-align:center"><strong>***</strong></p>



<p>Foto: Steve Shreve/Unplash</p>
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		<item>
		<title>Pedrada</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/pedrada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jul 2019 07:07:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Christiane Nóbrega Era sábado à tardinha. Sentado, do batente da sua casa, viu tudo. O pai cansado subia a ladeira. Trocava os passos, cambaleava. A vida era dura demais e a cachaça barata aliviava. O outro que bebia junto, vinha logo atrás. Falava alto. Gesticulava. Algumas vezes o pai virava para trás e olhava</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/christianenobrega/">Christiane Nóbrega</a></p>



<p><strong>Era sábado à
tardinha. Sentado, do batente da sua casa, viu tudo. O pai cansado subia a
ladeira. Trocava os passos, cambaleava. A vida era dura demais e a cachaça
barata aliviava. O outro que bebia junto, vinha logo atrás. Falava alto.
Gesticulava. Algumas vezes o pai virava para trás e olhava o amigo, vizinho e
compadre. Respirava fundo como um antídoto contra as palavras que ouvia e que
lhe doíam. Como um herói, resistia em pé. Andando. Subindo. Ouvindo. A respiração
funda não bastou. Uma das palavras não caiu bem. Indigesta. Virou-se. Reuniu em
si o resto que lhe faltava de equilíbrio e o fim começou.</strong></p>



<p><strong>Um embolado de gente.
Já não se sabia quem era o pai. Quem era o vizinho. Pés. Mãos. Gritos. Sangue.
Silêncio. Sirene.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Amigos. Eles eram amigos. Decididamente.</strong></p>



<p><strong>Sentia-se cheiro de
suor, de raiva e de sangue. Decididamente. Não havia raiva um do outro. Não.
Havia muita dor. Dor da vida. Dor da fome. Dor do medo. Dor da solidão.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O menino tremia. Chorava. A mãe,
incrédula, via a cena. O pai algemado, sem resistir. Não, a ele não cabiam
resistências. O amigo, companheiro de vida, deitado no chão.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A mãe o colocou na cama. Rezou com ele.
A noite foi longa na cama vazia. O espaço que sobrava não lhe trazia conforto.
Medo, trazia medo. A mãe desistiu de lutar para dormir. Fez seu café ralo. Ia à
delegacia.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ônibus lotado. Passou por baixo da
roleta. Pela janela olhava os prédios e via a briga. Criava teorias. Ficava
bravo com o pai e mais ainda com a polícia. A mãe segurava firme a sua mão.
Prendia o choro. Indignava-se. Lembrou das brincadeiras. Do futebol domingo à
tarde. Riu. Chegou o ponto. Desceu, ajeitou a camiseta surrada por cima da sua
bermuda. Foi. A cada passo uma dor. Um esforço. Um medo.</strong></p>



<p><strong>O lugar escuro fedia.
As paredes eram cobertas de mofo. Cheirava mal e seu estômago embrulhava. Não
pode vê-lo. Ali crianças não podiam entrar. Ficou sozinho enquanto a mãe ia.</strong></p>



<p><strong>O pai monossilábico,
a mãe contou. Voz baixa. Quis saber notícia do amigo que já estava bem. Voltou
até a trabalhar. Que alívio! Queria depor. Queria falar que não era culpa dele.
Achava que podia “tirar queixa”. Não podia. Não era assim. Uma pedrada daquela
na cabeça era para matar. Na cabeça. Na cabeça da justiça. Não dos amigos. Bêbados.
Cansados de uma vida de dor. Sem propósito.</strong></p>



<p><strong>Nada resolveu.
Defensoria. Ministério Público. Juiz. Apelação. As grades seriam o destino de
seu pai e os companheiros a personificação de sua dor. Anos a fio. Visitas
humilhantes. Preferia a solidão. Doía menos.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A vida seguiu lá fora. Não a mesma.
Aquele beco. O amigo. A cicatriz. Muita saudade.</strong></p>



<p><strong>O menino já era um jovem quando o pai saiu. Saiu outro. O desconheceu. Extraíram-lhe a humanidade. Os olhos se tornaram frios. Dentro de si, revolta e fome. Fome de comida. Fome de justiça. Já não humano, sua vida se esvaia. A pedrada o matou.</strong></p>



<p style="text-align:center">***</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Divagações, respiros e (uma) viagem com Alberto Bresciani</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/divagacoes-respiros-e-uma-viagem-com-alberto-bresciani/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Apr 2019 21:00:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[tempo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/?p=18180</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por Claudine M. D. Duarte “E somos só isto mesmo: animais solitários, tentando a sorte, insistindo no tempo Até que alguma palavra caia, por sorte, azar, castigo ou revelação, e, enfim, possamos aceitar.” Alberto Bresciani “Fundamentos de Ventilação e Apneia”, da editora Patuá, é o novo livro do querido Alberto Bresciani, “poeta nas horas válidas”,</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte">Claudine M. D. Duarte</a></p>



<p style="text-align: right;"><em>“E somos só isto mesmo: animais solitários, </em></p>



<p style="text-align: right;"><em>tentando a sorte, insistindo no tempo</em></p>



<p style="text-align: right;"><em>Até que alguma palavra caia, por sorte,</em></p>



<p style="text-align: right;"><em>azar, castigo ou revelação,</em></p>



<p style="text-align: right;"><em>e, enfim, possamos</em></p>



<p style="text-align: right;"><em>aceitar.”</em></p>



<p style="text-align: right;"><em>Alberto Bresciani</em></p>



<p><strong><em>“Fundamentos de Ventilação e Apneia”</em></strong><strong>,</strong> da editora Patuá, é o novo livro do querido Alberto Bresciani, “poeta nas horas válidas”, em suas palavras&#8230; e enquanto o livro não chega ao nosso planalto, revivo, respiro e inspiro novamente o seu poema CARTA AOS CRENTES.</p>



<p>Começo pelo título: <strong>CARTA AOS CRENTES. </strong> Em minha leitura, entendi que o texto é endereçado aos que acreditam, que esperam, mesmo que equivocadamente, em algo que pode ter chances muito pequenas de ocorrer. Ou que acreditam nas pessoas. Simples assim&#8230; E, obviamente, essa crença terá consequências, como todas as teorias e hipóteses que nos constroem&#8230; Assim, a carta é como um alerta, aviso ou mesmo cumplicidade. A cumplicidade se o poeta não se exime da crença&#8230;</p>



<p>A seguir, as estrofes do poema em CAIXA ALTA e <strong>negrito</strong>, para diferenciar de minhas divagações&#8230; viagens, devaneios?</p>



<p style="text-align: left;"><strong>TUDO É SURPRESA:</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>AS PALAVRAS, NOSSA PRÓPRIA </strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>ARQUEOLOGIA,</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>REVELAÇÕES METAFÍSICAS.</strong></p>



<p>Nós homens, somos surpreendidos conosco mesmos, nossas palavras e nossos atos, nossas realizações, produções e mesmo os restos disso tudo. Ou seja, ao mergulharmos em nós mesmos e em nossa história, ficaremos surpresos.</p>



<p style="text-align: left;"><strong>E SÃO IMPREVISÍVEIS</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>AS FÁBULAS E FACAS</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>QUE NOS ATIRAM.</strong></p>



<p>Além da surpresa com o profundo contato conosco, também contaremos com a imprevisibilidade das narrativas que podem nos enganar, iludir e até mesmo ferir.</p>



<p style="text-align: left;"><strong>SÃO IMPREVISÍVEIS AS TARDES</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>E AS ÁRVORES PLANTANDO RAÍZES</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>NOS RINS.</strong></p>



<p>Seremos nesse conhecimento, surpreendidos também com a imprevisibilidade do passar do tempo: tardes e árvores criando raízes dentro de nós mesmos&#8230; inexoravelmente.<strong><br /></strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>TRAÇADOS E MAPAS</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>TAMBÉM SÃO INÚTEIS,</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>PORQUE AMORES SE ESCONDEM,</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>APARECEM QUANDO QUEREM</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>E TANTO OS ACHAMOS</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>COMO NÃO.</strong></p>



<p>E, por mais que tentemos e caminhemos, não há receita de bolo&#8230; não existem placas com indicações seguras&#8230; não há segurança em nada. Nem nos amores. Não temos controle sobre quem amamos. Amamos e pronto. Independente de sermos autorizados ou não. Decididos a amar ou não. Ou, pior, não amamos e pronto. E não podemos fazer nada em relação a isso. Perdidos, sem mapa e sem controle remoto.</p>



<p style="text-align: left;"><strong>MAS UM DIA, NO SOFÁ,</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>ANTES DO NOTICIÁRIO,</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>VIRÁ O REINO, </strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>O QUE VALE ÀS ARTICULAÇÕES</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>E À MEDULA,</strong></p>



<p>Como somos crentes &#8211; leitores e poeta, mesmo com toda imprevisibilidade, num dia ou uma noite qualquer, numa hora comum, seremos atingidos por uma descoberta importante. Uma descoberta daquelas que fazem valer a vida. Uma descoberta que nos fará agradecidos por estar no aqui e agora. O reino pode ser um carinho, uma palavra, um abraço, um pão caseiro, uma manta sobre pés frios&#8230; </p>



<p style="text-align: left;"><strong>APAGARÁS DE VEZ OS METEOROS.</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>SABERÁS, COM CERTEZA LUNAR,</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>COMO AFOGAR A TRISTEZA</strong></p>



<p style="text-align: left;"><strong>NO SUMO DA AMEIXA.</strong></p>



<p>Nesse dia ou nessa noite qualquer, com a chegada do &#8216;Reino&#8217;, teremos um momento de paz e serenidade. Não temeremos meteoros e nem tempestades. Seremos senhores do tempo &#8211; como a Lua &#8211; comendo uma fruta qualquer.</p>



<p>O poema <em>Carta aos Crentes</em> integra um livro ainda não publicado e tive acesso ao texto pelo <em>Tantas Palavras</em>, em abril de 2017, no jornal Correio Braziliense. Aos que gostaram desse poema, sugiro que escutem a poeta Noélia Ribeiro, que escreveu a orelha do próximo livro de Alberto Bresciani:</p>



<p><strong><em>Procedamos, então, à leitura da poesia brescianiana, porquanto “às vezes é melhor não dizer nada, ou quase”. </em></strong></p>



<p>E esse quase, na poesia, é o tudo que nos permite as viagens que nos garantem o ar, a respiração. Vida, enfim.</p>



<p style="text-align: center;">***</p>



<p><strong> </strong></p>
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