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	<title>Arquivos resenha - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
	<lastBuildDate>Thu, 24 Mar 2022 00:48:37 +0000</lastBuildDate>
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		<title>GUERRA E PAZ, UM OLHAR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Mar 2022 00:07:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[guerra&paz]]></category>
		<category><![CDATA[liev tostói]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte *|   A verdade não penetra num entendimento rebelde. Jorge Luis Borges, O Aleph (1949)[1]   Meu neto, Heitor, tem dezesseis anos e se interessa por História, guerras e geopolítica. No final de 2019, mergulhei em livros sobre os Romanovs na tentativa (vã) de entabular uma conversa decente sobre império</p>
<p>O post <a href="https://mariacobogo.com.br/guerra-e-paz-um-olhar/">GUERRA E PAZ, UM OLHAR</a> apareceu primeiro em <a href="https://mariacobogo.com.br">Maria Cobogó</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/"><strong>Claudine M. D. Duarte</strong></a> *|</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>A verdade não penetra num entendimento rebelde.</em></p>
<p style="text-align: right;">Jorge Luis Borges, <em>O Aleph</em> (1949)<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Meu neto, Heitor, tem dezesseis anos e se interessa por História, guerras e geopolítica. No final de 2019, mergulhei em livros sobre os Romanovs na tentativa (vã) de entabular uma conversa decente sobre império russo e as transformações que aquela parte do mundo sofreu ao longo do tempo. A releitura de <em>Guerra e Paz</em>, de Tolstói, foi consequência direta desse estudo e, talvez seja desnecessário acrescentar, a quarentena, exigida pela pandemia, me conferiu solidão e tempo para ler (e reler) alguns “tijolões”.</p>
<p>“Tijolão” é um livro grande em número de páginas; romances longos que nem sempre são grandes romances. A quantidade de páginas não é uma prova de qualidade, mas assusta e impressiona. Uma vez, durante um encontro em Paraty, na FLIP, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro brincou que fez do seu <em>Viva o Povo Brasileiro</em> (1984) um grande romance porque ouviu de seu editor que os brasileiros somente escreviam livros finos para serem lidos durante uma viagem de avião:</p>
<blockquote><p>“Quis fazer um romance bem extenso, caprichado e grosso. Escrevi para esfregar na cara dele. Coisa que efetivamente fiz”<em>.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><strong>[2]</strong></a></em></p></blockquote>
<p>Não sei quanto tempo durou a produção do livro de João Ubaldo, mas Liev Tolstói dedicou cinco anos de sua vida para escrever <em>Guerra e Paz</em>, lançado em 1869, após extensa pesquisa sobre documentos, biografias e relatos históricos. Segundo Vladimir Nabokov,</p>
<blockquote><p>“Tolstói é o maior prosador russo. Deixando de lado seus precursores Púchkin e Liérmontov, podemos relacionar os maiores autores russos em prosa da seguinte forma: primeiro Tolstói; segundo, Gógol; terceiro, Tchekhov; quarto, Turguêniev. Quando alguém lê Turguêniev, sabe que está lendo Turguêniev. Quando lê Tolstói, lê simplesmente porque não pode parar”<em>.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><strong>[3]</strong></a></em></p></blockquote>
<p>É impossível discordar. Fiz a releitura das quase mil e quinhentas páginas em menos de um mês, carregando com cuidado pela casa os dois volumes de <em>Guerra e Paz</em> na caprichada tradução do Rubens Figueiredo. Isso é um presente para nós, leitores brasileiros: o acesso a traduções diretamente do russo.</p>
<p>A memória nos engana, a minha me prega peças, inofensivas às vezes. No caso do livro, eu tinha guardado o sabor da odisseia do general Kutúzov, como representante de todo o povo russo em sua luta contra Napoleão. Sabia que o inverno era um aliado nessa epopeia para, junto com a fome, arruinar os invasores. Sim, eu me lembrava daquele herói épico que, junto a outros dois personagens também acompanhados de perto pelo narrador, compunha uma história que honrava a defesa da soberania pelos russos em seu combate aos avanços imperialistas das tropas francesas.</p>
<p>O próprio Tolstói alerta sobre o meu equívoco. Em 1868,<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a> o escritor afirma que <em>Guerra e Paz</em> “não é um romance, muito menos uma epopeia, muito menos ainda uma crônica histórica. <em>Guerra e Paz</em> é aquilo que o autor quis e conseguiu expressar, na forma em que a obra foi expressa.” A leitura, como a vida, fica melhor se degustada em camadas. Podemos escolher olhar para <em>Guerra e Paz</em> como um libelo contra a estupidez dos donos do poder; podemos seguir a trilha indicada por Tolstói sobre o caráter fatídico dos conflitos sangrentos nas relações humanas e, ainda, podemos ler como um tratado filosófico, profundamente humanista.</p>
<p>No início, o escritor nos conduz pelas festas da nobreza russa em São Petersburgo, com muitos diálogos em francês – o que demonstra que a invasão francesa já havia se instalado pelo uso da linguagem. Naqueles salões, somos apresentados a Pierre, filho bastardo e herdeiro do Conde Bezúkhov e, confirmando um estranhamento cultural, Tolstói lhe confere a versão francesa do nome <em>Piot</em>r. Acompanhamos, deslumbrados, o arco de transformação de Pierre e suas reflexões interiores até o final do romance. Um dos pontos altos da obra é o encontro de Pierre, na prisão, com o soldado Platon Karatáiev, que lhe descortina uma visão de mundo simples e autêntica e abre espaço para que Tolstói defenda sua ideologia de busca da verdade e dos vários desdobramentos e significados para a paz.</p>
<blockquote><p>“Adorava falar e falava bem, enfeitando seu discurso com expressões afetivas e provérbios que, para Pierre, pareciam inventados pelo próprio Platon; mas o principal encanto de seus relatos residia em que, neles, as ações eram as mais simples possíveis, às vezes as mesmas coisas que Pierre via normalmente sem prestar atenção ganhavam o caráter solene de coisas veneráveis. Platon adorava escutar as lendas que um soldado contava à noite (sempre as mesmas), porém acima de tudo gostava de escutar histórias da vida real. Sorria com alegria ao ouvir tais histórias, interrompia e fazia perguntas destinadas a esclarecer para si mesmo o que havia de importante naquilo que lhe contavam. Afeições, amizades, amores, tal como Pierre os entendia, Karatáiev não tinha nada disso; mas amava e vivia amorosamente com tudo aquilo que a vida punha em seu caminho, em especial com as pessoas —não as pessoas já conhecidas, mas aquelas que por acaso estivessem na frente de seus olhos.”</p></blockquote>
<p>Tolstói usa seu talento para nos demonstrar os horrores da guerra, entrelaçando os momentos de batalhas com a dimensão emocional dos personagens, sem medo de denunciar a mesquinhez e a vaidade humanas que fomentam tragédias estúpidas e criminosas. O autor usa com maestria o recurso de um narrador onisciente, seguro, cuidadoso com o tempo de cada personagem e com o ritmo da narrativa. Conseguimos ver o céu pelos olhos do príncipe Andrei:</p>
<blockquote><p>“O que é isso? Estou caindo? Minhas pernas estão fraquejando”, pensou, e caiu de costas. Abriu bem os olhos, na esperança de ver como tinha terminado a luta dos franceses contra o artilheiro e querendo saber se o artilheiro ruivo tinha sido morto ou não e se os canhões foram tomados ou salvos. Porém não viu nada. Acima dele, já não havia nada, senão o céu—um céu alto, não claro, mesmo assim incomensuravelmente alto, com nuvens cinzentas que deslizavam tranquilas. “Como está tranquilo, calmo e solene, muito diferente de quando eu corria”, pensou o príncipe Andrei. “Muito diferente de quando nós corríamos, gritávamos, lutávamos; completamente diferente da maneira como o francês e o artilheiro, com rostos assustados e raivosos, puxavam a vareta de limpeza do canhão um de cada lado… é de um modo completamente diferente que as nuvens deslizam por esse céu alto e infinito. Como é que antes eu não via esse céu alto? E como estou feliz, eu, que afinal descobri esse céu. Sim! Tudo é vazio, tudo é ilusão, exceto o céu infinito. Nada existe, nada, exceto ele. Mas nem isso existe, nada existe, exceto o silêncio, a tranquilidade. Graças a Deus!…”</p></blockquote>
<p>A leitura de <em>Guerra e Paz</em> nos possibilita acessar temas profundos e recorrentes, como a passagem do tempo, a finitude humana e a perplexidade perante a violência da guerra. As reflexões dos personagens não se perdem no campo da abstração, têm concretude nas imagens descritas pelo autor, bem como nos diálogos ou pensamentos. Ao penetrar na mente desses personagens, muitas vezes me vieram à lembrança outros livros cujos personagens compartilham do mesmo horror a batalhas inúteis, tais como <em>O emblema vermelho da coragem</em> (1895), de Stephen Crane, e o imperdível <em>Adeus às armas</em> (1929), de Hemingway. Na obra de Tolstói, o jovem Nikolai Rostóv deixa a universidade para se alistar no Exército e, em determinado ponto, se pergunta sobre a realidade da batalha:</p>
<blockquote><p>“Quem são eles? Por que estão aqui? O que querem? E quando tudo vai terminar?”, pensava Rostóv, enquanto olhava para as sombras que se moviam à sua frente. A dor na mão se tornava cada vez mais torturante. O sono o dominava de forma irresistível, círculos vermelhos palpitavam em seus olhos, e a impressão daquelas vozes e daqueles rostos e o sentimento de solidão fundiam-se com a sensação de dor. Eram eles, aqueles soldados, os feridos e também os sem ferimento, eram eles que oprimiam, pesavam, sugavam as energias, queimavam a carne no seu braço quebrado e no seu ombro. A fim de se livrar deles, fechou os olhos.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>Rostóv abriu os olhos e olhou para cima. A cortina negra da noite pendia um archin acima da luz dos carvões. Nessa luz, voavam grãos da neve que caía. Túchin não voltava, o médico não chegava. Rostóv estava só, agora apenas um soldadinho qualquer estava sentado e despido do outro lado do fogo e aquecia seu corpo magro e amarelo.</p>
<p>“Ninguém precisa de mim!”, pensou Rostóv. “Ninguém vem me ajudar, ninguém tem pena. Quem dera eu estivesse em casa, como antes, forte, alegre, amado.”</p></blockquote>
<p>O autor usa sua escrita para repisar perguntas incômodas, tais como: o que dá início a “um acontecimento contrário à razão e a toda a natureza humana?<em>” </em>e por que isso acontece<em>.</em></p>
<blockquote><p><em>“</em>Milhões de pessoas praticaram, umas contra as outras, uma quantidade tão inumerável de     crimes, embustes, traições, roubos, fraudes, falsificações de dinheiro, pilhagens, incêndios e assassinatos, como não se encontra nos autos de todos os tribunais do mundo em séculos inteiros, e, naquele período, as pessoas que agiam assim não consideravam que nada disso fosse um crime. O que produziu tal acontecimento extraordinário? Quais foram suas causas?”</p></blockquote>
<p>Conclui que, mesmo que sejam feitas tentativas para explicar racionalmente os fenômenos na história, os fatos e os acontecimentos serão sempre “irracionais e incompreensíveis”, quando não simplesmente risíveis. No livro, o olhar do autor trata com ironia algumas escolhas de Napoleão, o que nos divertiu muito – a mim e a meu neto:</p>
<blockquote><p>“Mesmo que os estrategistas mais doutos tivessem suposto que o objetivo de Napoleão era destruir seu próprio exército, não conseguiriam imaginar outra linha de ação que, com tamanha certeza e com tamanha independência de tudo aquilo que as tropas russas pudessem empreender, destruísse o exército francês tão completamente como aquilo que Napoleão fez. (&#8230;) Tal como antes, e como depois, no ano de 1813, ele empregou toda a sua inteligência e toda a sua energia a fim de fazer o melhor para si e para seu exército. A ação de Napoleão durante aquele tempo não foi menos formidável do que no Egito, na Itália, na Áustria e na Prússia. Não sabemos ao certo qual o grau da genialidade real de Napoleão no Egito, onde <strong>quarenta séculos contemplaram sua grandeza<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a></strong>, porque todas aquelas façanhas grandiosas nos são descritas apenas por franceses.”</p></blockquote>
<p>E se terminamos a leitura de <em>Guerra e Paz</em> do lado dos russos, isto, certamente, se deve à figura do general Kutúzov e à efetividade de suas decisões. O escritor promove a reabilitação de um herói digno, que direcionou suas ações para enfrentar os franceses e expulsá-los da Rússia, com o lema “paciência e tempo”. Sobre Kutúzov, afirma:</p>
<blockquote><p>“Mas de que forma, na época, aquele velho, sozinho, em contradição com a opinião de todos, pôde deduzir, e deduzir de modo tão seguro, o sentido da percepção popular dos acontecimentos e nem uma vez em todas as suas ações o trair?</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>Essa figura simples, humilde e por isso verdadeiramente grande não podia se adaptar à forma mentirosa do herói europeu, que supostamente comanda as pessoas e que a história inventou. Para um criado, não pode existir um grande homem, porque um criado tem sua própria ideia da grandeza.”</p></blockquote>
<p>Um dos grandes feitos do conde Liev Nikolaievitch Tolstói (1828-1910) foi de não ter medo de expor as profundezas e conflitos da vida humana, contrapondo imaginação e fatos. O escritor participou, como tenente da artilharia, da Guerra da Crimeia (1853-1856) e muitos dos episódios das batalhas descritos com maestria em <em>Guerra e Paz</em> vieram de cenas de seus <em>Contos de Sebastopol</em>, escritos entre 1855 e 1856.</p>
<p>Em <em>Guerra e Paz</em> encontramos o retrato de um povo e sua época; Tolstói nos oferece uma profusão de personagens que abrangem toda a sociedade russa, com suas diversas classes sociais: nobres, militares, servos, camponeses, e ainda religiosos, artistas e místicos. Mesmo as histórias de amores, traições, duelos, interesses e decepções estão presentes e nos fazem suspirar pela paixão silenciosa de Pierre por Natacha, relação essa que atravessa todo o livro. Quer saber se ficam juntos?! Encare o livro. Só conto um detalhe extra: dizem que Tolstói escreveu um final alternativo, em que Pierre vai preso novamente. Dessa vez, na Sibéria, para onde foram conduzidos os dezembristas, entre eles, Sergei Volkonski, um primo de Tolstói, inspiração para sua obra literária. Seu <em>Guerra e Paz</em> é memorável: pela trama, pela razão que moveu sua escrita e pelo amor à verdade. No epílogo<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a> (um dos maiores que já li em qualquer tempo) uma pequena ‘grande’ fala de Pierre Bezúkhov:</p>
<blockquote><p>“ – Eu só queria dizer que todas as ideias que têm consequências enormes são sempre simples. Toda a minha ideia se resume em que, se as pessoas sórdidas estão unidas e constituem uma força, as pessoas honradas precisam fazer o mesmo. Veja como é simples.”</p></blockquote>
<p>A história e o romance contam que, apesar de toda a vilania, ainda é possível que a humanidade deixe para trás a sua pior face, como <em>n’A Peste</em>, de Camus, “há nos homens mais coisas a admirar que a desprezar”<a href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a>. E é por essa e outras que tenho paixão pela literatura: a leitura de obras como <em>Guerra e Paz, </em>grande e grandiosa, nos conduz pela maravilha que pode ser a aventura humana, pela nossa liberdade de fazermos as escolhas que merecem ser vividas – e lidas.</p>
<p>Heitor inseriu <em>Guerra e Paz </em>em sua lista de leitura.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<h5><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> BORGES, Jorge Luis. <em>O Aleph</em> (1949). Tradução: Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.</h5>
<h5><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> <a href="http://g1.globo.com/flip/2011/noticia/2011/07/nao-sou-otimista-quanto-humanidade-diz-joao-ubaldo-ribeiro.html">http://g1.globo.com/flip/2011/noticia/2011/07/nao-sou-otimista-quanto-humanidade-diz-joao-ubaldo-ribeiro.html</a></h5>
<h5><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> NABOKOV, Vladimir. <em>Lições de Literatura Russa</em>. Tradução: Jorio Dauster. São Paulo: Três Estrelas, 2014.</h5>
<h5><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> TOLSTÓI, Liev. “Algumas palavras sobre o livro Guerra e Paz”. <em>Russki Arkhiv</em>, 1868.</h5>
<h5><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> Expressão atribuída a Napoleão, em sua campanha no Egito.</h5>
<h5><a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a> TOLSTÓI, Liev. <em>Guerra e Paz</em>. Tradução: Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.</h5>
<h5><a href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a> CAMUS, Albert; tradução de Valerie Rumjanek. – Rio de Janeiro: Record, 2017.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>*<a href="https://www.instagram.com/claudine_m_d_duarte/">Claudine M. D. Duarte</a></strong>, nascida em Anápolis, é arquiteta de formação e hoje, escritora e dramaturga. Adaptou e dirigiu as peças <em>Uma Criatura Dócil</em>, de Fiódor Dostoiévski, e <em>O Legado de Eszter, </em>do húngaro Sándor Márai. Leitora voraz, publicou seus livros de minicontos, D<em>esencontos </em>(2018) e <em>Sete Pequenos Tumultos </em>(2020), pelo Coletivo Editorial <strong>Maria Cobogó</strong>, do qual é uma das fundadoras. Vive em Brasília e coordena o projeto <a href="https://www.instagram.com/calangosleitores/"><strong>Calangos Leitores</strong></a>, um dos finalistas do Prêmio Jabuti (2018).</p>
<p><strong>** O texto</strong> acima foi publicado originalmente pela <strong>SALVO</strong> em 30 de dezembro de 2020 com o título <a href="https://medium.com/p/7bed8b820aa"><strong>&#8220;Tolstói, entre Guerra e Paz&#8221;</strong></a>. Sigam a SALVO, uma curadoria de conteúdo #imperdível : <a href="https://www.instagram.com/salvoconteudo/">https://www.instagram.com/salvoconteudo/</a></p>
<p><strong>*** Imagem:</strong> foto da edição de Guerra e Paz, de Liev Tolstói (editora Cosac Naify) por <a href="https://www.instagram.com/nastachadeavila/">Nastacha de Avila </a></p>
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		<title>DEGUSTAÇÃO DE GENEROSIDADES</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Dec 2021 03:07:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Gabo]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Nazaré Bretas * |     Nesses dias de lusco fusco da pandemia, ganhei um presente que desfrutei devagar. Preciso dividi-lo com você. O presente foi referência a livro de Contos, 12 para ser exata, da lavra de escritor genial e dotado, dentre outras vocações, da capacidade de tratar da morte sem infligir dor</p>
<p>O post <a href="https://mariacobogo.com.br/degustacao-de-generosidades/">DEGUSTAÇÃO DE GENEROSIDADES</a> apareceu primeiro em <a href="https://mariacobogo.com.br">Maria Cobogó</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por<strong> Nazaré Bretas * |</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nesses dias de lusco fusco da pandemia, ganhei um presente que desfrutei devagar. Preciso dividi-lo com você. O presente foi referência a livro de Contos, 12 para ser exata, da lavra de escritor genial e dotado, dentre outras vocações, da capacidade de tratar da morte sem infligir dor a quem lê. No máximo algum susto. No livro/presente, o que mais brota é afeição pelos personagens, sejam eles moribundos, falecidos, assassinos ou enlutados. Além disso, há o encantamento com os cenários – recorte do mundo formado por sítios plotados na Europa e Latino América, lugares diversos que desde sempre habitam nosso próprio imaginário e justificaram atribuição do adjetivo Peregrinos às estórias mágicas.</p>
<p>Sim, falo de <em>Doze Contos Peregrinos</em>, publicado em 1992 pelo Mago Latino e vencedor do Nobel, Gabriel García Márquez, ou simplesmente <em>Gabo</em>.</p>
<p>De início, duvidei que fosse inédito aos meus olhos já idosos, plenos de calos de ler. Mas bastou consultar o índice para me convencer que, de fato dele nunca havia bebido. Senti certa culpa. Como pude viver tanto tempo desconhecendo uma obra de Gabo, justo de estórias curtas, gênero que ingenuamente tenho ousado produzir?</p>
<p>A culpa durou pouco, foi posta de lado pelo frisson de desembrulhar o presente. Os títulos listados, individualmente e no conjunto, provocaram em mim, tardia aprendiz do ofício de contar contos, mais que curiosidade. <em>Me Alugo para Sonhar</em>, <em>A Luz é Como Água</em>, <em>Só Vim Telefonar</em> foram alguns dos que me enfeitiçaram de saída.</p>
<p>Depois do exame do sumário, desprezei sem dó as 3 ou 4 páginas de prólogo e já viajava com o <em>Senhor Presidente</em>, quando se impôs redução do ritmo, como estratégia para adiamento do fecho das sagas.</p>
<p>Se você nunca se impôs pausas e desacelerações em leitura de conteúdo capaz de encantar, esclareço que trago comigo esta prática desde as mesas de almoço da minha mais tenra infância: frente ao arroz de forno ou fatia de Braga, cheirava, mastigava repetidas vezes. Fingia que a porção já era finda. Demorava, para que os sabores não se perdessem no aparelho digestivo e tivessem tempo de chegar ao mais fundo do cérebro e do coração. Mesmo que irmãos e primos já tivessem limpado seus pratos e saído da mesa para a polícia e ladrão. Não sei de onde tirei isto, mas transpus para a leitura. Não nos primeiros clássicos. Tive que ser exposta ao <em>A Hora da Estrela </em>para migrar a prática. Depois disso incorporei. Talvez por isto viagens literárias compõem boa parte da minha memória afetiva. Lugares próximos aos das fatias de Braga.</p>
<p>Claro que, mesmo me esmerando em sorver devagar, terminei a leitura. Ri, chorei, acho mesmo que numa noite espremida entre as leituras tive sonho com encontro improvável entre personagens. Foi no avião batizado por Gabriel como sendo de Bela Adormecida. Ao contrário da apaixonante estória de Gabo, quando somente a Bela dormiu, meu inconsciente trouxe a bordo uma profusão de gentes que viviam no livro, todas submetidas a estranho e profundo adormecer, tão logo ocuparam seus lugares. Todas menos a menina Santa. E mais não conto.</p>
<p>Terminei a leitura e voltei ao prólogo. Como quem precisa verificar se há alguma rapa em panela de iguaria. Pois havia e era doce. Se dela não houvesse provado, não sentiria necessidade de contar a você. É que era amostra da generosidade do autor, qualidade que antes eu já havia testemunhado no relato das oficinas de roteiro que ele conduziu na Escola de Cinema de Havana (<em>A Bendita Mania de Contar</em>). Ou ainda, o que soube depois, pela sua dedicação para premiar jovens colegas da profissão que dizia preferir, o Jornalismo.</p>
<p>Pois <em>Gabo</em>, o Generoso, usou dessas páginas de abertura para ensinar, sem traço qualquer de arrogância ou superioridade. Didaticamente, revelou o longo processo de produção da dúzia de estórias: 18 anos com várias interrupções. Ao fazê-lo, extrapolou o caso, por mais singular que seja, e ensinou sobre o vício de escrever.</p>
<p>Desde o registro da noite de sonho com o próprio velório até o lançamento da cria, Gabriel produziu aula viva: sobre inspiração – de início detalhou mais de 60 temas; sobre cansaço e dúvidas (qual seria o formato? Romance, crônica, roteiro para áudio visual, ou… contos curtos?). Falou até mesmo dos méritos eventuais de desorganização: perder a lista original foi chave para que se concentrasse num número três vezes menor de contos. Os que estavam de fato no coração.</p>
<p>E ainda assim, tendo chegado ao cerne da construção criativa, Gabriel não levitou em experiência contínua de prazer. A sensação lhe teria chegado entremeada pelo cansaço, pela dúvida e baixo a muito trabalho.</p>
<p>Sem drama, os ensinamentos confluem para encerramento através de reflexão acerca do poder sobre as estórias, depois de saídas da prensa. Mais que ciência sobre ser impotente quanto ao destino final de suas crias, o Mago convida quem lê a exercer, sem dó ou prurido, o julgamento definitivo. E fecha a aula declarando:</p>
<blockquote><p>“Quem os ler saberá o que fazer com eles. Por sorte, para estes doze contos peregrinos terminarem no cesto de papéis deve ser como o alívio de voltar para casa”.</p></blockquote>
<p>Se você não prestar atenção ao que lê, pode dar a tais palavras sentido de desinteresse do criador quanto ao lugar das criaturas. Vi diferente. Vi humildade de um escritor consagrado. E mais que tudo, vi ensinamento precioso para quem escreve, ou se dispõe a escrever. O desapego contido nessa parte final da lição me reporta à importância de aceitar que para lidar com este vício, por vezes ingenuamente referido como bendita mania de contar, é preciso estabelecer limites. Saber até onde ir. Por mais desafiador que seja.</p>
<p>Fecho este breve contar com o registro de que o que experimentei na aula-presente não me foi fácil, nem sei se de fato aprendi. Digo que tenho comigo, procurando lugar no fundo do coração. Digo que não se mostra leve, o aprender de leveza.</p>
<p>Mas, como trago com a aula os generosos olhos e sorriso do Professor, tenho esperança de passar o que foi lido ao fundo do cérebro e do coração. Chego a ver seu rosto refletido em lugar além da vida terrestre, seus olhos doces a me observar, lendo e tentando aprender. Posso vê-lo sorrindo ao saber-me grisalha e ainda assim tão irremediavelmente ingênua quanto à essência do ofício. Ao ponto de sonhar – e no sonho, como o Mestre, me inspirar. Com a diferença de que, apesar de que corram tempos de lusco fusco da pandemia, a inspiração vem através de menina Santa, do alto, em pleno voo.</p>
<p>Em essência, talvez a razão para riso de <em>Gabo</em> na cena, seja que, ingênua, sonho e me inspiro em Ressurreição.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">(A propósito, ganhei o presente da referência ao saboroso volume da Claudine Duarte, escritora, editora e amiga. Sábia e generosa em tudo o que faz)</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="https://www.facebook.com/nazare.bretas"><strong>Nazaré Bretas</strong> </a>é mineira de Piraúba. Sempre se dedicou à matemática e aos computadores até descobrir a escritora que a perseguia desde o berço. Seu livro de contos <em>De Almas e Bois</em> é campeão de vendas do Coletivo Maria Cobogó (se quiser um exemplar, basta entrar em contato com o <a href="https://www.instagram.com/domcaixotesebo/">Sebo Dom Caixote</a>).</p>
<p>Imagem: <strong>Gabriel García Márquez</strong>(Aracataca, Colombia, 1927 &#8211; México D.F., 2014) por Grau Santos em <a href="https://elcultural.com/memoria-de-gabriel-garcia-marquez">ElCultural.com</a></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>LUGAR NENHUM</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Sep 2021 00:55:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[bjorn berge]]></category>
		<category><![CDATA[lugar nenhum]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Ana Maria Lopes * |   Já pensou nascer em um país e três ou quatro anos depois ele desaparecer? Um país, para existir, tem que ter critérios ditados pelo direito internacional. Ter população nacional, independência e governo também. Mas como tudo na vida, países nascem e desaparecem pelas circunstâncias e interesses humanos. Elencar</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/anamarialopes/">Ana Maria Lopes</a> * |</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Já pensou nascer em um país e três ou quatro anos depois ele desaparecer?</p>
<p>Um país, para existir, tem que ter critérios ditados pelo direito internacional. Ter população nacional, independência e governo também. Mas como tudo na vida, países nascem e desaparecem pelas circunstâncias e interesses humanos.</p>
<p>Elencar os países que desapareceram e deixaram apenas selos como rastro de sua passagem no planeta fez parte de uma pesquisa do escritor norueguês Bjorn Berge.</p>
<p><em>Lugar Nenhum – Um Atlas de Países que Deixaram de Existir</em> se tornou livro em 2016. Agora, cinco anos depois, o livro chega ao Brasil pela editora Rua do Sabão. São 240 páginas onde o autor nomeia os países que desapareceram entre 1840 e 1970.</p>
<p>O selo foi o foco da pesquisa e a forma pela qual o autor define e destaca o país. Ele enumerou cinquenta espaços do globo terrestre que um dia desejaram constituir uma nação. Para mostrar que esses países existiram de fato, Berge saiu atrás de selos que, segundo ele, “é uma prova concreta” da existência do Estado.</p>
<p>O mais duradouro dos países foi o <em>Estado Livre de Danzig</em>, na Polônia. Foi um espaço geográfico retirado da Alemanha em 1920. Durou dezenove anos e criou o seu selo – um navio e a inscrição “Correio Polonês”.  Hitler invadiu Danzig, acabou com a soberania do novo país e deu o pontapé para a 2ª Guerra.</p>
<p>Outro país efêmero foi a <em>República do Extremo Oriente</em>. Fundada por socialistas moderados que pretendiam dar, pós-revolução bolchevique, um trato suave e democrático ao sistema vigente. O selo tem estampado uma âncora e uma picareta cruzadas sobre ramos de trigo. Qualquer referência à foice e o martelo não é coincidência.</p>
<p>Na América do Sul, o território de Corrientes, na Argentina, existiu com um selo representado pela figura de Ceres, deusa da agricultura.</p>
<p>Bjorn Berge registrou mais de mil casos e sua pesquisa teve que ser limitada. Os mais recentes, como a República dos Balcãs, a antiga União Soviética e o Estado Islâmico não foram contemplados. “A História precisa maturar”, diz o autor.</p>
<p>Se quisesse ampliar sua pesquisa, exemplos não faltam na geografia mundial. Desde o reino da Lícia, na Ásia (1250 a.C), passando pelo Império Austro-Húngaro (1867-1918) e pelo curioso Reino do Havaí. Antes de se tornar um dos estados americanos, o Havaí era independente e exercia forte influência entre os países do Pacífico. Em 1810, as ilhas havaianas foram unificadas e se transformaram em uma monarquia. Mas um golpe levou o Havaí para os Estados Unidos em 1959. O selo recorria aos aspectos da heráldica havaiana.</p>
<p>No livro, não há exemplos brasileiros, mas o autor conhece as Repúblicas do Acre (1899-1903) e Cunani, no Amapá (1886-1891).</p>
<p>Rastrear esses países é uma maneira de recordar a história e constatar que não só os astros estão em movimento. A geopolítica também.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>*Ana Maria Lopes</strong> é jornalista, escritora e fundadora do Coletivo Maria Cobogó.</p>
<p><strong>**Bjorn Berge</strong> é escritor, arquiteto e colecionador noruguês.</p>
<p><strong>Imagem:</strong> capa do livro <strong>Lugar Nenhum: o atlas dos países que deixaram de existir </strong>/ Bjorn Berge; Tradução de Leonardo Pinto Silva &#8211; Santo André &#8211; SP: Rua do Sabão, 2021.</p>
<p>Fonte: Folha de São Paulo, agosto de 2021</p>
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		<title>Carta ao pai</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/carta-ao-pai/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Aug 2021 13:31:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[franz kafka]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte * | "Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e tenha certeza de que não porei aqui, seja para embelezar ou enfear, mais do que aquilo que vi e me pareceu." Carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel, Rei de Portugal     Franz Kafka nasceu</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> *</strong> |</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e tenha certeza de que não porei aqui, seja para embelezar ou enfear, mais do que aquilo que vi e me pareceu.&#8221;</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: right;">Carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel, Rei de Portugal</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Franz Kafka nasceu em Praga no ano de 1883, filho do comerciante Hermann Kafka e de Julie Löwy. Formou-se em Direito e trabalhou alguns anos como advogado. Nunca se casou, apesar de ter tido relações marcantes com várias mulheres. Antes de morrer de tuberculose, em 1924, passou algumas temporadas em sanatórios e viveu em Praga a maior parte de sua vida. Ao lado de James Joyce, Marcel Proust e William Faulkner, Kafka é considerado um dos escritores mais relevantes do século XX. A maioria de seus textos, escritos em alemão, foram publicados postumamente e são obras-primas da prosa universal. Entre elas, destacamos: <em>O Castelo</em>, <em>O Processo</em>, <em>A Metamorfose</em>, <em>A Colônia Penal</em> e <em>Um Artista da Fome</em>. Particularmente, gosto e recomendo muito o conto “O Novo Advogado”, integrante do livro <em>O Médico Rural</em>.</p>
<p>Aqui, comento um pouco de seu livro <em>Carta ao Pai</em> e, sobre o texto, alguns biógrafos de Kafka afirmam que o mesmo é resultado dos dramas vivenciados pelo autor, como a tuberculose e os três noivados desfeitos, sendo o último deles a circunstância que provoca a contundente escrita ao seu pai.</p>
<p>Quem nunca? Que atire a primeira pedra.</p>
<p>Cada um de nós, em algum ponto da vida, escreveu – mental ou literalmente – uma carta ao pai. E nesse escrito vieram críticas, lamúrias e acusações. Assim fez o escritor Franz Kafka, ao longo de dez dias do frio novembro de 1919 na sua Praga natal. Sua pena correu sobre o papel ‘cuspindo’ o que naquele tempo lhe pareceu justo afirmar.</p>
<p>A primeira leitura me remeteu a uma sessão de terapia Constelação Familiar, onde o filho acusa o pai dominador e, violentamente, ausente de sua construção como ser humano e escritor. E, para completar a sessão terapêutica imaginada, esperava o final das palavras do filho para que eu pudesse ‘falar’ pelo pai&#8230; qual a minha surpresa ao descobrir que o próprio Kafka já havia se encarregado disso. Afirma que o pai, poderia responder a ele:</p>
<blockquote><p><em>“Portanto, agora você já teria conseguido o bastante com sua insinceridade, pois provou três coisas: primeiro, que você é inocente; segundo, que sou culpado, e terceiro, que por pura grandiosidade você está disposto não só a me perdoar, mas – o que é mais ou menos o mesmo – a demonstrar e crer pessoalmente que eu, seja como for contra a verdade, também sou inocente.</em></p>
<p><em>(&#8230;)</em></p>
<p><em>No fundo, porém, aqui e em toda parte, não me provou nada a não ser que todas as minhas recriminações eram justificadas e que faltou entre elas uma especialmente legítima, ou seja: a recriminação da insinceridade, da bajulação, do parasitismo. Se não me equivoco muito, você ainda parasitando em mim com esta carta.”</em></p></blockquote>
<p>Um aspecto interessante é que, apesar de escrita, a carta nunca foi entregue ao seu destinatário. Medo? Culpa? Difícil afirmar.</p>
<p>No livro de contos <em>O Médico Rural</em>, escrito e publicado por Franz Kafka também no ano de 1919, encontramos a seguinte dedicatória: “a meu pai”.  Como entendê-la? Franz compreendeu a distância de Hermann? Seria a sua <em>Carta ao Pai</em>, junto com essa árida dedicatória, a base para os personagens de obras posteriores, como <em>O Processo</em> (1925) e <em>O Castelo</em> (1926)? Segundo o crítico Walter Benjamin, é possível vermos irmanados, na obra de Kafka, pais e burocratas:</p>
<blockquote><p><em>“O pai é a figura que pune. A culpa o atrai, como atrai os funcionários da justiça. Há muitos indícios de que o mundo dos funcionários e o mundo dos pais são idênticos em Kafka.”</em></p></blockquote>
<p>É triste, mas penso que a literatura mundial deve muito ao senhor Hermann Kafka e ao que seu filho fez com os sentimentos provocados pela relação de ambos. No dicionário Houaiss encontramos o verbete<em> kafkiano</em> como um adjetivo que <em>‘de forma semelhante à obra de Kafka, evoca uma atmosfera de pesadelo, de absurdo; especialmente em um contexto burocrático que escapa a qualquer lógica ou racionalidade’.</em></p>
<p>O pai Samsa, personagem de <em>A Metamorfose</em>, aniquila perversamente a vida do filho Gregor, metaforicamente transformado em um inseto (uma barata, enxergamos nós, os leitores). Isso nos remete aos trechos de seu livro <em>Carta ao Pai</em> em que são citados os insetos daninhos e sua capacidade de <em>‘sugar simultaneamente o sangue para conservar a vida’</em>. Noutros romances, encontramos situações e personagens vivenciando delírios persecutórios, sentimentos de culpa e, densamente, muito medo e impotência.</p>
<p>Em alguns momentos de sua carta, Franz consegue partilhar alguns deslumbres de elogio e gratidão ao pai:</p>
<blockquote><p><em>“Esse seu modo usual de ver as coisas eu só considero justo na medida em que também acredito que você não tem a menor culpa pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho a menor culpa. Se pudesse levá-lo a reconhecer isso, então seria possível, não uma nova vida – para tanto nós dois estamos velhos demais – mas sem dúvida uma espécie de paz; não a cessação, mas certamente um abrandamento das suas intermináveis recriminações.”</em></p></blockquote>
<p>A leitura de Kafka nem sempre é fácil, talvez pelo incômodo persistente, pela presença do não-pertencimento – a falta de um lugar. O não acolhimento provocado pelo medo e pela insegurança do não-entendimento. A cada leitura sinto uma dor diferente, em lugares distintos e, nem sempre, inexplorados. O livro nos deixa a tristeza provocada pelo absurdo de nossa condição e, principal e ‘kafkianamente’, pelos insensatos labirintos de nossas relações humanas.</p>
<p>Neste ano, a editora Todavia publicou, aqui no Brasil, a tradução dos <em>Diários, </em>de Franz Kafka, abrangendo o período entre 1909 e 1923 e, nele, encontramos um texto imediatamente posterior à escrita da <em>Carta ao pai, </em>em 5 de dezembro de 1919, o autor escreveu:</p>
<blockquote><p> <em>“De novo, arrastado por essa fenda terrível, comprida e estreita, que, na verdade, só em sonho é possível vencer. Acordado e por vontade própria, jamais.”</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>*Claudine M. D. Duarte </strong>é arquiteta, escritora, leitora voraz e uma das fundadoras do Coletivo Editorial Maria Cobogó.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>**Imagem</strong> foto por Joanna Kosinska / Unplash</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/as-intermitencias-da-morte/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Jul 2021 00:33:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[asintermitênciasdamorte]]></category>
		<category><![CDATA[josesaramago]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Mônica Ferreira Dias * | A inverossímil história que lemos este mês, As intermitências da morte, de José Saramago, que dispensa maiores apresentações, por oportuno conhecido dos meios literários e dos apreciadores de literatura, nos remete a uma série de confusões quando a morte resolve fazer greve em determinado país, que a França não</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://www.instagram.com/monicadias2/">Mônica Ferreira Dias</a> * |</p>
<p><strong>A inverossímil história que lemos este mês, <em>As intermitências da morte</em>, de José Saramago, que dispensa maiores apresentações, por oportuno conhecido dos meios literários e dos apreciadores de literatura, nos remete a uma série de confusões quando a morte resolve fazer greve em determinado país, que a França não é, como pudemos verificar no diálogo da morte, com “m” minúsculo como veementemente deseja ser reconhecida, que se apresentou no decorrer desta história e sua gadanha, instrumento inseparável de trabalho.</strong></p>
<p><strong>O fato como o narrador diz, <em>que a morte deixou de matar, </em>que houve <em>a falta de colaboração da morte, </em>e que <em>a morte volta agora imerecidamente as costas, </em>atinge apenas os humanos, ditos racionais, deixando o curso correto da vida para as demais espécies que habitam o planeta, o que vale dizer, que todos animais continuavam no ritmo da vida, o que para o narrador significa que <em>o normal ainda não se retirou de todo do mundo</em>, mas <em>as vítimas se recusavam a morrer</em>. A impressionante história relata que ao soar as doze badaladas que precedem o Ano Novo, aquele evento cheio de promessas futuramente <em>incumpridas</em>, determinado país teve o último suspiro de seus habitantes suspenso, termo adotado para significar a morte, <em>aquela que já é nossa de nascença,</em> espanto e euforia registrados, com uma ponta de inveja pelos países vizinhos, inicia o relato de uma série de transtornos, porque com greve de tais proporções não poderiam as coisas permanecerem como sempre foram, os segmentos da sociedade se manifestam para seus direitos requerer, ao fato iniciado com a igreja, atacada de morte porque como o próprio cardeal, de próprio punho falou: </strong></p>
<p><strong><em>                 sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja.</em></strong></p>
<p><strong>Instada a querela com o governo reinante, que exigia retratação de comunicado nacional da investigação dos fatos com a criação de uma <em>nutrida comissão interdisciplinar</em>, que como era de esperar não chegou a lugar algum, e para o futuro empurraram a resolução, mas alertados foram quando um filósofo pessimista informou que <em>O pior é que o futuro já é hoje</em>, chegando inclusive a questionar se deus tem autoridade sobre a morte. <em>Importantes setores profissionais preocupados com a situação</em> iniciam uma romaria aos governantes, o primeiro-ministro que após o desastrado comunicado que lhe valeu uma carraspana do cardeal, resolve mancomunar-se com a máfia instada, que sobre ela falaremos no decorrer deste texto, porque resenha não se trata uma vez que quem aqui escreve, desprovida de competência literária, apenas relata o que leu deste caso fatídico que consternou todo o país que não se sabe onde fica.            </strong></p>
<p><strong>Os setores profissionais, preocupados com seus ganhos, afetados com a desfaçatez com que a morte voltou as costas a um país inteiro, começam a apresentar suas reclamações, que pertinentes podemos confirmar quando primeiro se apresentam as empresas ligadas ao ramo funerário, <em>brutalmente desprovidos de matéria-prima, </em>exigem das autoridades além de recursos para revitalização do setor, atualização das capacidades para prestação dos serviços, que seja decretado pelo governo lei que obrigue <em>o enterramento ou incineração de todos os animais domésticos&#8230; pela indústria funerária. </em>Assim também administradores e diretores de hospitais começam a reclamar do congestionamento de internos, <em>um engarrafamento como os dos automóveis, </em>um curto-circuito na logística de enfermos entrantes e saintes, que mais não cabiam pelos corredores em número superior, isto é, <em>mais do que era costume fazê-lo, </em>prática disseminada que se pode observar em outros países que não se defrontam com a mesma greve do momento da passagem. Os hospitais propõem que seus enfermos que não atam nem desatam sejam encaminhados aos cuidados de suas respectivas famílias, que pela análise da junta médica informa aos familiares, que seus parentes venham recolher, pois indiferente </strong></p>
<p><strong>                    é <em>o lugar em que se encontre, quer no seio carinhoso de sua família ou da congestionada enfermaria de um hospital, uma vez que nem aqui nem ali conseguirá morrer.</em></strong></p>
<p><strong>Para despachar da mesma forma os velhos deste país, <em>os lares de terceira e quarta idades</em> em uma encruzilhada se encontraram <em>de continuar ou não continuar a receber hóspedes, </em>e aqui como na conversa entre o primeiro-ministro e o diretor-geral da televisão, Shakespeare também se apresentou para sua contribuição dar, <em>avisar ou não avisar, eis a questão,</em> que preocupação maior não foi de que não veriam mais sair dos lares <em>para ir morrer a casa ou ao hospital como acontecia nos bons tempos, </em>mas que a má sorte estava ao lado pois não teriam <em>ninguém que nos acolha quando chegar a hora em que tenhamos de baixar os braços, </em>e não mais tendo a preocupação com a morte, que de fato resolveu se ausentar, necessário registrar, apenas para a classe dos habitantes do país, sem extensão às demais classes da criação como podemos observar no colóquio do espírito que habita a superfície do aquário e o aprendiz de filósofo que a lugar nenhum chegaram com as digressões sobre </strong></p>
<p><strong><em>                       se a morte será a mesma para todos os seres vivos</em>. </strong></p>
<p><strong>Toda esta confusão também trouxe perigo para as companhias de seguro que, de súbito inundadas por cancelamentos das apólices uma vez que seus contratantes não mais teriam que passar desta para melhor e deixar suas famílias amparadas, mas como o raciocínio lógico daqueles que do dinheiro vivem é até mais rápido que o último suspiro, à carga voltaram com triunfante ideia de em fundo de investimento transformar, para que a cada oitenta anos o proprietário possa seus recursos resgatar e novamente outro contrato firmar, <em>que para os devidos efeitos, se registraria o segundo óbito. </em>E, no meio dos pedidos das classes profissionais, um fato ocorreu que ao país inteiro foi dado conhecimento, agraciado pela <em>manifestação da inesgotável capacidade inventiva da espécie humana&#8230; uma família de camponeses pobres</em>, resolve, a pedido do pai enfermo, que não atava nem desatava, uma excursão de última morada realizar para no país vizinho o pai enterrar, às escondidas se mandaram, embora observados pelo vizinho que depois veio tomar satisfações, não saberiam, nem no mais delirante sonho, que um frutífero comércio conseguiram implementar, mas claro fique que não foram os beneficiários de tal prática que à máfia coube, com o tráfico de furibundos, que com <em>falsas ambulâncias </em>às fronteiras se dirigiam para ali depositarem os <em>padecentes em situação de morte suspensa </em> que as famílias não mais em suas rotinas diárias conseguia encaixar ou para seus </strong></p>
<p><strong><em>                entes queridos para louvavelmente os poupar a sofrimentos não só inúteis, como eternos</em>. </strong></p>
<p><strong>Conversações com o governo para os detalhes acertar, à parte a confusão que com as forças armadas se instalou, porque às fronteiras enviadas, olhos fechados deveriam manter, num faz de contas para o negócio prosperar, que ao governo também interessava, pois conseguiria equilibrar a questão demográfica, e consequentemente a questão das pensões que muito claro ficou com o texto do economista que ao governo questionou de onde sairiam os recursos para pagamento dos milhões de pensões que <em>iriam continuar por todos os séculos dos séculos</em>. E a ordem de retornar aos quartéis foi dada iniciando um <em>movimento capilar</em>, com desconfiança do acordo da máfia com governo que ao fato a oposição resolveu se juntar para insinuações registrar nos jornais ao que os porta-vozes do governo <em>negaram veementemente que tais miasmas estivessem a envenenar,</em> sem contar com a aliança que os três países limítrofes fizeram para suas fronteiras guardar e não mais deixar passar aquele vai e vem de nauseabundos entrantes e defuntos ficantes.</strong></p>
<p><strong>Caos instalado porque o acordo da máfia com o governo tal situação não resolveria, mas como já é sabido que a máfia ao polvo se parece com seus tentáculos intermináveis, confabulações com patrícios viventes nos países limítrofes, uma reengenharia do negócio tiveram que realizar, resultado de <em>tão brilhantes inteligências como as que dirigem estas organizações criminosas, </em>o conflito bélico resolvido com a questão de <em>passar para o outro lado da fronteira o padecente e, uma vez falecido ele, voltar para trás e enterrá-lo no materno seio da sua terra de origem, </em>assim a culpa familiar devidamente amainada pois não seria mais como um animal enterrado em terra distante, mas no seio da família com a certidão de óbito registrado como suicida, o que <em>para a indústria dos enterros havia despontado finalmente uma nova vida </em>e <em>a torneira tornou a abrir-se.</em></strong></p>
<p><strong>É neste momento que a história entorna o caldo, quando um misterioso bilhete com <em>toque inquietante da cor violeta do papel</em>, que passou a ser a <em>mais execrada de todas as cores</em>, aparece na mesa do diretor-geral da televisão que imediatamente ao primeiro-ministro uma audiência solicita e, mancomunados, um comunicado oficial resolvem realizar em cadeia nacional três horas antes do fatídico acontecimento amplamente explicado no famoso bilhete, gérmen do tratamento indelicado com a secretária que aos prantos <em>pensou enquanto procurava um lenço para enxugar as lágrimas</em>, pois o diretor <em>é uma pessoa no geral bem-educada, não é de seu costume fazer das secretárias gato-sapato</em>. A morte resolveu se pronunciar, avisa em cadeia nacional, que ao trabalho retornará, à ultima badalada da meia-noite do dia em questão, ou seja em três horas, após verificar <em>lamentáveis resultados da experiência </em>que ocorreu com a interrupção de sua atividade, dando uma pequena mostra do que seria viver na eternidade por meio de uma <em>prova de resistência&#8230;do período de alguns meses,</em> toma a <em>decisão irrevogável&#8230; de devolver o supremo medo ao coração dos homens,</em> mas reconhece que tirar a vida das pessoas sem aviso prévio <em>trata-se de uma indecente brutalidade, </em>muito embora deixe claro, que não foi de todo sem aviso, uma vez que </strong></p>
<p><strong><em>                na maior parte dos casos lhes mandava uma doença para abrir caminho</em> ao que os humanos não estava claro o que viria a seguir, pois verificou que <em>os seres humanos  sempre esperavam safar-se dela. </em></strong></p>
<p><strong>Tal comunicado ao final boa notícia iria apresentar a morte declara que a metodologia iria mudar, anunciando que a partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana para por em ordem o que ainda lhe resta de vida, desnecessário dizer que tal comunicado chegaria pelo correio local, naquele papel de cor execrada anteriormente mencionada. Novamente entra em cena o primeiro-ministro que aos membros do governo decide convocar para as necessidades que iriam se apresentar, fato também analisado por vários setores profissionais que novas mudanças teriam que providenciar, as empresas funerárias e as carpintarias foram as primeiras a se mobilizarem uma vez que levantamento feito, apresentou-se uma <em>lista de espera de sessenta e dois mil moribundos, </em>hospitais e as casas de terceira e quarta idade também às famílias convocaram para que os corpos fossem buscar e a máfia, o setor mais prejudicado ao seu negócio milenar retornou, o que significa vender proteção para a comunidade, e a mais satisfeita de todas foi a icar &#8211; igreja católica, apostólica e romana que também ao seu negócio milenar retomou, acalentar o coração dos aflitos e garantir um lugar no paraíso celestial. </strong></p>
<p><strong>O fato é que <em>a rescisão do contrato temporário  a que chamamos vida ou existência</em> agora por comunicado oficial restabelecido, causou comoção nacional porque, por óbvio ninguém conseguia suas pendências finalizar, dos carteiros passaram a fugir e uma caçada à morte resolveram empreender. Como em tal confusão ninguém fica de fora, até a morte seus perrengues teve que enfrentar quando <em>aconteceu que uma carta de cor violeta foi devolvida à procedência, </em>não uma, mas três vezes, o que significa dizer que não foi <em>um simples acidente de percurso, </em>e para pura aflição da morte se defronta com tal situação que <em>em tantos milhares de séculos de contínua atividade nunca havia tido uma falha operacional, </em>resolve tirar satisfações daquele que <em>já deveria estar morto há dois dias, </em>um violoncelista que, aos olhos da morte, nada de excepcional possui que justifique a devolução tripla, mas diga-se de passagem, da morte liquidou a <em>licença para matar zero zero sete</em>. </strong></p>
<p><strong>Por isto, ela, a morte, resolve procedimentos excepcionais adotar, mesmo que se for necessário chegar a tanto, <em>uma ação de legalidade duvidosa </em>executar. Altera registro, resolve em público e, no particular aparecer, para de perto averiguar, ao mesmo tempo em que começa a confabular se toda esta história de greve e aviso prévio à hierarquia superior deveria consultar. Com seu plano ousado, em mulher se transformou, e à gadanha seus afazeres recomendou o envio diário das cartas para os escolhidos se prepararem e foi à cidade, toda vistosa, para o problema com o violoncelista resolver, e ficou trançando de táxi para baixo e para cima, de lugar nenhum para o hotel para o teatro, para o hotel, para casa do violoncelista, para o hotel, para o parque. Parece que esta maratona foi instilando determinado sentimento que viria a comprometer a tarefa milenar de tal senhora. Diálogos dúbios e meios-sorrisos também ao violoncelista trouxeram lembranças de tempos idos </strong></p>
<p><strong><em>                   de haver dormido no regaço de uma mulher e, do entrevero acontecido chegaram até ao  fato em que não tiverem mais nada que dizer ou quando as palavras começarem a ir por um lado e os pensamentos por outro e, como já dissemos, apenas uma única cousa poderia à morte dar rasteira, e foi nos braços daquele violoncelista sem graça que a dona morte veio o amor experimentar. </em></strong><strong>Em um só instante a carta queimou, o amor encontrou, o sono dormiu e </strong></p>
<p><strong>                            <em>no dia seguinte ninguém morreu.</em></strong></p>
<p>Saramago, que executa uma escrita de vai e vem, de abrir novas direções, de escolher um caminho alternativo e depois retomar ao inicial, nos remete ao funcionamento de nosso cérebro que fica macaqueando de um lado para outro. Como exímio conhecedor da palavra desenvolve um texto em que observa, fala com leitor, pergunta, responde, sem parágrafos ou travessões. Isso faz com que a leitura aconteça mais ou menos de fôlego em fôlego. Uma parada no meio do caminho é como perder o fio da meada, exatamente como a impressão que causa àqueles leitores que não estão acostumados com o estilo.</p>
<p>Recomendo a leitura deste que, para mim, é um grande escritor, ressalvando que outras obras de sua autoria me mobilizaram mais do que esta.<br />
&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>*Mônica Ferreira Dias </strong>escreveu e publicou este texto no blogue do <a href="https://grupocontemporaneodeleitura.blogspot.com/2016/09/as-intermitencias-da-morte-de-jose.html">Grupo Contemporâneo de Leitura,</a> em 2016. Era uma leitora apaixonada e nos encantava com a sua companhia, amizade e cuidado. Mônica amava estudar e colecionou várias graduações e um outro tanto de pós-graduações e mestrados. Com carteira da OAB, doutoranda em Ciências Ambientais na UnB, ela também era terapeuta dos <a href="https://portaldegabriel.com.br/">florais de São Gabriel</a> e nos presenteava com seu talento e intuição. Neste ano, numa triste sexta-feira de maio, sem acesso à uma das vacinas contra <em>Covid-19</em>, ela nos deixou. A pandemia e as máfias não deram trégua nem conferiram intermitências à morte.</p>
<p>**<strong>José Saramago</strong> (1922-2010) nasceu em Ribatejo, Portugal. Exerceu diversas profissões – como serralheiro, desenhista, funcionário público, editor e jornalista – antes de se dedicar apenas à literatura. Prêmio Nobel de literatura de 1998, escreveu romances inesquecíveis, como &#8220;O Evangelho segundo Jesus Cristo&#8221; (1991), &#8220;Ensaio sobre a cegueira&#8221; (1995) e &#8220;As intermitências da morte&#8221; (2005).</p>
<p><strong>***Imagem </strong>Reprodução/fellowshipoftheminds.com</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O CORAÇÃO PENSA CONSTANTEMENTE</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/o-coracao-pensa-constantemente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Mar 2021 00:07:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres na literatura]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[romances]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Solange Cianni *|     "Que alívio, essa aposta de olhos vendados, essa crença no caos, o conhecimento de que é da matéria disforme que poderá surgir o ouro alquímico, talvez."             Adoro comer brigadeiro morno na panela, com colherinha de café, sentada no sofá, assistindo a um bom filme, sou dessas: gulosa!</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/solangecianni/">Solange Cianni</a> *|</p>
<blockquote><p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>  &#8220;Que alívio, essa aposta de olhos vendados, essa crença no caos, o conhecimento de que é da matéria disforme que poderá surgir o ouro alquímico, talvez.&#8221;</em></p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>          Adoro comer brigadeiro morno na panela, com colherinha de café, sentada no sofá, assistindo a um bom filme, sou dessas: gulosa! Mas para ler, não, prefiro degustar cada palavra, reler uma parte que me tocou de maneira mais profunda, de olhar para o céu e viajar sentindo as palavras reverberando em mim, trazendo memórias, construindo imagens e relações com a minha vida. Faço questão das pausas!</strong></p>
<p><strong> Enfim, respeitando o meu tempo lento de leitura, fechei o livro <em>O Coração Pensa Constantemente,</em> de <a href="https://www.instagram.com/rosangelavr15/">Rosângela Vieira Rocha</a>**, apegada, como sempre, desejando continuar. Rosângela tem uma maneira peculiar de contar suas histórias, na primeira pessoa, que me pega de jeito.  Jeitinho mineiro, legítimo: </strong></p>
<blockquote><p><strong><em>&#8230; &#8220;para tomar banho, amarrava um saco plástico no braço e fui pelejando com banhos de gato&#8230;.&#8221;.  </em></strong></p></blockquote>
<p><strong>Eu, carioca da gema, não tenho o verbo <em>pelejar</em> no meu vocabulário. Acho uma graça! Ela passeia entre o passado e o presente com fluidez, riqueza de detalhes, olhar delicado e coragem para revelar segredos; uma surpresa a cada capítulo e um convite a passear por diferentes épocas:</strong></p>
<blockquote><p><strong><em>&#8230; &#8220;Não tenho ideia de quando isso vai terminar. É estranho, por parecer irreal e ser real, fora de qualquer padrão conhecido. Quantos dias transcorrerão até o final deste gigantesco pesadelo?&#8230;&#8221; </em>Diz ela sobre o nosso presente pandêmico.</strong></p></blockquote>
<p><strong>Nas últimas páginas, confesso, emocionei-me com o sentimento de injustiça, expressado com tanta verdade e a constatação da impotência frente à morte:</strong></p>
<blockquote><p><strong><em>&#8230;&#8221;vejo que fiz muitas coisas boas para Rubi. O que podia, o que sabia. Foi uma decepção sem tamanho saber de suas reações às minhas visitas&#8230;.&#8221;</em></strong></p></blockquote>
<p><strong>Saboreei cada capítulo, cuidadosamente temperado com amor, zelo, respeito e discrição, características da personalidade singular da autora adquiridos na rica infância nas Minas Gerais.</strong></p>
<p><strong>Já é o terceiro livro de sua autoria que leio e sempre me vejo sentada no sofá da sua sala, tomando um café passado na hora, com pão de queijo saindo do forno, ouvindo-a contar, encantada, como o seu coração pensa.</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;">&#8220;Uma confusão, um caos onde seixos se misturam, joio e trigo andam juntos, lembranças boas e más, pessoas excelentes e péssimas. Não se fecha verdadeiramente nenhuma <em>Gestalt</em>, como pensávamos nos terríveis e maravilhosos anos setenta. Há sempre resquícios do passado, lodos ancestrais, belezas antigas, joias usadas, perfumes que já não sentimos, mas que continuam impressos na memória olfativa, palavras dos que não podem mais falar, mas que ainda gritam dentro de nós, palavras vivas, pois nada morre realmente.&#8221;</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>*<strong><a href="https://www.instagram.com/solangecianni/">Solange Cianni</a></strong> é escritora, psicopedagoga, atriz e fundadora do Coletivo Editorial Maria Cobogó. É carioca, mas adora prosear tomando um cafezinho com pão de queijo.</p>
<p>**<strong>Rosângela Vieira Rocha</strong> nasceu em Inhapim (MG) e mora em Brasília. É escritora, jornalista, Mestre em Comunicação Social e advogada. A autora já recebeu vários prêmios literários, entre os quais o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG (1988) com o seu romance <em>Véspera de Lua. </em>Rosângela é colunista da revista literária digital <a href="https://www.germinaliteratura.com.br/">Germina</a> e integra o movimento cultural <a href="https://www.instagram.com/mulheriodasletras_oficial/">Mulherio das Letras</a>. <em>O coração pensa constantemente </em>(2020, <a href="https://www.instagram.com/arribacaeditora/">Arribaçã Editora</a>) é o seu sexto romance.</p>
<p>Imagem: Foto da escritora Rosângela Vieira Rocha no museu <strong>Casa do Bentoca, Inhapim</strong>. O momento foi captado pela Teresinha Ribeiro Martins, da Secretaria de Cultura do município, em 2019. Aos domingos, após a missa, os moradores da área rural usam o cenário para tirarem fotos. A moldura azul os acolhe e, carinhosamente, a chamam de &#8220;janela da fama&#8221;.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=azogeJ5ed4g"><strong>Booktrailer</strong> de <em>O Coração Pensa Constantemente</em></a></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>TORTO ARADO</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/tortoarado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Feb 2021 00:17:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[leya]]></category>
		<category><![CDATA[oceanos]]></category>
		<category><![CDATA[premio jabuti]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[torto arado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Anna Cristina de Araújo Rodrigues*   Temos que reconhecer que o tempo sobrevive, enquanto nós estamos de passagem. Mas, nessa passagem, construímos uma história, várias histórias, e assim acabamos por sobreviver naqueles que nos sucedem, da mesma forma que mantivemos vivos os que nos antecederam. E essas histórias atravessam gerações, muitas vezes contadas em</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por Anna Cristina de Araújo Rodrigues<strong>*</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Temos que reconhecer que o tempo sobrevive, enquanto nós estamos de passagem. Mas, nessa passagem, construímos uma história, várias histórias, e assim acabamos por sobreviver naqueles que nos sucedem, da mesma forma que mantivemos vivos os que nos antecederam. E essas histórias atravessam gerações, muitas vezes contadas em linguagem literária, fruto do trabalho de autores que, como Itamar Vieira Junior, pesquisam durante 16 anos – ou mais – os espaços, os tempos e os personagens que pedem passagem para que o passado não seja esquecido.</strong></p>
<p><strong>Em <em>Torto arado</em>, vamos conhecer histórias de mulheres e homens que sobreviveram à sua morte. Eles são parte de uma história maior, indissociável da própria ideia de Brasil, este país que, em mais de 500 anos, não só não buscou corrigir as desigualdades entre brancos e pretos, mas insiste em aprofundar esse fosso, fazendo do racismo a chaga mais virulenta da sociedade brasileira.</strong></p>
<p><strong>Não é um romance panfletário. A palavra “racismo” nem sequer aparece nas mais de 250 páginas. É uma obra de arte literária que se assenta sobre um espaço e um tempo em que mulheres muito fortes, mas igualmente sofridas, vivem. O autor não se interessa pela descrição dessas mulheres, assim o leitor só fica sabendo que se trata de mulheres negras quando uma delas, numa das poucas idas à cidade, diz: “Foi o primeiro lugar em que vi mais gente branca que preta”. O leitor vai conhecer a avó Donana e as netas Bibiana e Belonísia, ligadas pelo sangue que corre em suas veias e pelo rio de sangue que corre fora delas. Há muito mais que essas três personagens, mas o romance se desdobra em tantas nuances da existência, que aqui preciso escolher alguns pontos para tentar refletir sobre o impacto que esse livro causa.</strong></p>
<p><strong>Escolho o espaço onde acontece a história. É o Brasil, é a Bahia, é a Chapada Diamantina. Mas é sobretudo a Fazenda Água Negra. O autor também não perde tempo em descrever a geografia. Ele faz uma fotografia poética triste dessa fazenda: árvores derrubadas e retalhadas, outras secas, jacas moles que atraem moscas e abelhas, restos de barro, todo tipo de objetos jogados em volta das moradas – pentes, frascos vazios de perfume, canecas e pratos, bacia amassada. Ali, homens e mulheres chegam para pedir morada e obtêm autorização para ficar e trabalhar sem salário, com a condição de construir sua “casa”, com o barro das várzeas, forquilhas e taboa, coberta com junco. É, na verdade, uma tapera que deveria se desfazer com o tempo, com a chuva e com o sol forte, que pudesse ser desfeita facilmente, se necessário. “Nada de alvenaria, nada que demarcasse o tempo de presença das famílias na terra”. E a tapera sempre se desfaz: “O barro havia cedido, deixando à mostra o trançado de madeira que sustentava a parede da frente. Era como um corpo corroído que nos permitia ver os ossos. Que nos permitia ver a intimidade de uma casa, porque os buracos e frestas já não cobriam o seu interior”. Ali, em minúsculos cômodos, a família dorme amontoada.</strong></p>
<p><strong>O ambiente restrito da morada é onde quase tudo de mais relevante acontece. Também aqui o autor se detém em objetos que constroem a narrativa social, antropológica e cultural que fundamenta os fatos. Brinquedos feitos de pedras e galhos, cavalos de bastões de madeira, móveis de sobras de lenha, bonecas feitas de espigas de milho, vestidas com as palhas. Uma mala velha de couro, roupas surradas e sujas de terra, pedaços de tecido antigo e encardido, frasco de perfume vazio, escova de cabelo velha, caco de espelho, candeeiros e velas, potes de barro quebrados, garrafas de cachaça jogadas pelo chão, pratos com restos de comida, teias de aranha em todos os cantos, fogão de barro quase desmoronando, panelas negras das cinzas da lenha queimada, cadeira com assento de palha desfeito, tudo rescendendo a gordura rançosa, cheiro nauseante de suor, urina e flores mortas, fumaça de velas e incensos, sob nuvens de moscas que produzem um zumbido inquietante. O único animal de estimação ali é Fusco, um cachorro perneta que “andava em pequenos pulos sobre três pernas, sendo que uma das pernas dianteiras tinha algum osso quebrado, o que fazia com que a balançasse no ar enquanto se esforçava de forma comovente para caminhar”.</strong></p>
<p><strong>Nesse espaço amplo da fazenda e restrito da morada, são pretos os trabalhadores cativos, e brancos os senhores da terra. As desigualdades vão se manifestando sem que seja necessário apontá-las ou explicá-las. É uma fotografia: eis uma imagem, é assim.</strong></p>
<p><strong>O que mais chega à porta da morada de Bibiana e Belonísia é gente doente: “moléstias do espírito dividido, gente esquecida de suas histórias e memórias, apartada do próprio eu”. Como ser diferente? Gerações que se sucedem desde o tempo da escravidão nas minas, nas lavouras de cana-de-açúcar; da abolição e da chegada dos pretos livres e miseráveis, abandonados à própria sorte, em busca de encontrar a sorte no garimpo; e, findo o feitiço do diamante, o tempo dos chamados “trabalhadores e moradores” que, de fato, são os mesmos escravizados. Séculos de uma existência que não encontra melhor sorte hoje neste Brasil periférico onde circulam o índio e o preto, ou o quase índio e o quase preto, sempre destituídos dos privilégios da branquitude.</strong></p>
<p><strong>Agora, escolho duas das personagens femininas do romance. Na fazenda Água Negra, nasceram Bibiana e Belonísia, irmãs de idades próximas que protagonizam a cena que abre o romance – responsável por colocar o leitor em alerta até o último ponto final do livro – e o desfecho da história. Então crianças, as duas meninas têm o destino selado pelo único objeto do romance que destoa dos demais: a faca com cabo de marfim. Tanto poderia ser dito sobre elas e sobre a avó Donana, a mãe Salu, as gêmeas Crispina e Crispiniana, Maria Cabocla e Dona Miúda! Mas me permito focar num aspecto que torna Bibiana e Belonísia diferentes de todas as outras mulheres do romance.</strong></p>
<p><strong>Numa noite de brincadeira de jarê em casa de Zeca Chapéu Grande, pai das meninas, Bibiana recebe uma mensagem que vai mudar sua vida: “de seu movimento virá sua força e sua derrota”. A partir desse momento, ela toma consciência da sua realidade como nunca antes. Mas ainda foi preciso assistir à pilhagem da pouca comida que restava para a família: a maior parte das batatas-doces e duas garrafas de azeite de dendê usado para cozinhar os peixes miúdos pescados no rio. A humilhação de ver a comida sendo levada sem que o pai pudesse impedir foi a gota d’água: Bibiana entende que aquela vida tem de ser honrada e que isso exige um esforço que ela deve abraçar. Então assume sua responsabilidade naquela existência miserável, com todos os riscos que isso implicaria.</strong></p>
<p><strong>Belonísia foi a próxima a viver um momento de revelação – não apenas de sua condição de mulher vítima das violências do marido, mas principalmente de sua força silenciosa que a blindou contra esse estado de coisas. Sempre silenciosa, mas cada vez mais forte. Desse silêncio nasceu sua resistência aos sofrimentos, estes que se transformaram na consciência da violência contra a mulher no ambiente privado. Sua transformação a leva a perceber a destruição física e emocional das mulheres da fazenda – todas pretas – e de seu papel social de procriação para servir aos interesses dos senhores da terra e de escravas e sacos de pancada dos próprios maridos. Ela entende então que aquela realidade serviria para mostrar “o inferno que pode ser a vida de uma mulher”, contra o qual ela se insurge irreversivelmente.</strong></p>
<p><strong>As duas – Bibiana e Belonísia – são as herdeiras do legado de suas antepassadas, especialmente da avó Donana, que com elas compartilha mais do que a força e a coragem da ancestralidade: compartilham segredos jamais revelados.</strong></p>
<p><strong>Tudo isso o leitor vai encontrar nas duas primeiras partes do romance, além de um universo místico de riqueza, beleza e possibilidades contrastantes com a realidade da família de Zeca Chapéu Grande e Salustiana Nicolau, espaço em que se reconhecem como grupo social cuja identidade é respeitada. De novo, o autor busca nas imagens o traçado dessa dimensão que transcende a vida ordinária. Um dos cômodos da morada da família tem uma importância destacada: o quarto dos santos. Ali “rezavam a ladainha, tinha velas acesas e uma profusão de cores das imagens e bonecas. Havia imagens de gesso e madeira de diferentes tamanhos e estados de conservação. São Sebastião, Cristo Crucificado, o Bom Jesus, são Lázaro, são Roque, são Francisco, padre Cícero. Havia pequenos quadros, uns de cores vivas, outros desbotados, de são Cosme e são Damião, Nossa Senhora Aparecida, santo Antônio. Havia fotografias de meus pais, da velha Donana, outras tantas, pequenas, de devotos. Havia flores de papel, algumas mais novas, outras pálidas. Sempre-vivas, que colhíamos na estrada ou nas cercanias, entre as rochas”.</strong></p>
<p><strong>Na terceira parte, a voz que narra pertence a essa dimensão mística, marcadamente do jarê, religião de matriz africana existente somente na Chapada Diamantina, aparentada dos candomblés litorâneos, em que as senhoras africanas, chamadas nagôs, têm papel de destaque por terem ali chegado escravizadas. Essa voz assim se apresenta: “Sou uma velha encantada muito antiga, que acompanhou esse povo desde sua chegada das Minas, do Recôncavo, da África”. Mais uma vez, o autor retoma a história do Brasil. Santa Rita Pescadeira vai contar a história da ocupação da Chapada e se revelar como a força da natureza que desafia os limites da sanidade e da ética no enfrentamento de tão dura existência. Mais que isso, não posso dizer aqui. O leitor vai ter que percorrer as 262 páginas do romance para assimilar a história à sua maneira. Mas não será em vão. O retrato do Brasil que ele encontrará vai explicar muito do nosso infeliz tempo presente.</strong></p>
<p><strong>Tem razão, enfim, a Belonísia: “o passado nunca nos abandona”.</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>* <a href="https://www.instagram.com/annamizzu/">Anna Cristina de Araújo Rodrigues</a></strong> é jornalista e seu currículo mostra o quanto ela é apaixonada por literatura. É doutoranda em Teoria e História da Arte na UnB, Mestre em Comunicação e graduada em letras.</p>
<p>Imagem: foto brasildefatope.com.br com destaque do livro TORTO ARADO, de <a href="https://www.instagram.com/itamarvieirajr/">Itamar Vieira Júnior, </a>Editora Todavia, 2019 &#8211; Livro vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos – 2020.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Wuhan, Oran ou a peste nossa de cada dia</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/wuhan-oran-ou-a-peste-nossa-de-cada-dia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2020 12:42:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Camus]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>*por Claudine M. D. Duarte    “E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”  O nome das cidades pareceu uma dessas coincidências nefastas que, de tempos em tempos, ocupam o jornal do meio-dia. Wuhan,</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>*por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>   “E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, </em><em>a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”</em></p>
</blockquote>
<p><strong> </strong>O nome das cidades pareceu uma dessas coincidências nefastas que, de tempos em tempos, ocupam o jornal do meio-dia. Wuhan, na China, epicentro da infecção do coronavírus, em 2019. Oran, cidade portuária na Argélia e cenário do livro A Peste, de Albert Camus publicado em 1947.</p>
<p>Na Oran de Camus, o narrador nos conta, no primeiro capítulo: <em>“a vida não é muito emocionante, ao menos desconhece-se a desordem”. </em>As pessoas vivem para o trabalho, acumulando riquezas e, com rotina meticulosa, mal tem tempo para as coisas do coração: <em>“Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo ou de reflexão, somos obrigados a amar sem saber”.</em>  E é nessa cidade que a palavra ‘Peste’ é pronunciada, com muito espanto, depois da morte de alguns cidadãos e de ratos agonizantes. A cidade é construída de costas para o mar, com muros remanescentes de outras guerras &#8211; outros medos.</p>
<p><em>&#8220;Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual número de pestes e de guerras. E contudo as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. (&#8230;) Simplesmente, quando se é médico, faz-se uma ideia da dor e tem-se um pouco mais de imaginação. (&#8230;) Números flutuavam na sua memória e ele dizia a si mesmo que umas três dezenas de pestes que a história conheceu tinham feito perto de cem milhões de mortos. Mas que são cem milhões de mortos? Quando se fez a guerra, já é muito saber o que é um morto. E visto que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados ao longo da história esfumaçam-se na imaginação.&#8221;</em></p>
<p>Camus escreveu uma alegoria: uma epidemia devasta uma cidade da mesma forma que a ocupação nazista assolara a França. E como no final da guerra, a epidemia cessa, a ocupação termina e as pessoas retomam suas vidas apáticas. O escritor lutava contra a indiferença em relação às lições da guerra e da resistência e, talvez por isso, a leitura nos permita interpretações tanto pela ótica política como por um olhar filosófico-existencial em tempos sem abraços, inúteis máscaras brancas e potes de álcool em gel.</p>
<p>A cidade de Wuhan, diferente de Oran, não tem um mar para dar as costas, mas a sua área urbana é atravessada pelo rio Yangtze e seu maior afluente, rio Han, contemplou a primeira morte decorrente da infecção pelo coronavírus, em seu enorme e inimaginável mercado de peixe. E então, uma população de mais de 10 milhões de pessoas assistiu, com incredulidade e impotência, uma sucessão de decisões políticas equivocadas, postergando olhares sobre os fatos e suas incômodas verdades, até o isolamento da cidade.</p>
<p>A Peste promove reflexões sobre nossa finitude, nosso amor à vida e, principalmente, sobre nossa capacidade de transformação. São 300 páginas extremamente bem escritas que nos apresentam pensamentos profundos sobre nossa dor, medo e solidão gerados por uma doença ou por algo que nos ameaça e que não podemos controlar. Na vida real, uma moradora de Wuhan nos conta: “Não é apenas a cidade que está confinada – a voz das pessoas também.” E, apesar de vários especialistas afirmarem que não existem motivos para alarde, outras cidades e regiões noutros países também vivem (e respiram) isolamentos e quarentenas.</p>
<p>Em Oran, após a identificação do inimigo &#8211; a peste bubônica &#8211; foi aberto o caminho para uma aliança de solidariedade, resgatando sentimentos anestesiados pela rotina anterior à epidemia. Os habitantes da cidade redescobrem a vida, transformam a forma com que se relacionam, laços entre casais são fortalecidos e a dor da separação, seja pelo ‘cercamento’ ou pela morte, teceu os amadurecimentos possíveis. No final do livro, temos o motivo pelo qual decidiu redigir a crônica sobre Oran e sua peste, reafirmando a crença humanista de Camus:</p>
<p><em>&#8220;O velho tinha razão, os homens eram sempre os mesmos. Mas essa era sua força e a sua inocência, e era aqui que Rieux, acima de toda a dor, sentia que se juntava a eles. (&#8230;) Decidiu, então, redigir esta narrativa, que termina aqui, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor das vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.&#8221;</em></p>
<p>Ao discursar na Academia Sueca, em 1957, quando foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura, Camus sentenciou:</p>
<p><em>&#8220;Cada geração se sente, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje a tudo destruir, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir ao ódio e à opressão, esta geração tem o débito, com ela mesma e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir de suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer. Ante um mundo ameaçado pela desintegração, onde nossos grandes inquisidores tentam estabelecer definitivamente o reinado da morte, ela sabe que devem numa espécie de corrida maluca contra o relógio, restaurar entre as nações uma paz (que não é aquela da servidão), conciliar novamente o trabalho e a cultura, e recriar entre todos os homens uma Arca da Aliança. Não há garantias de que ela possa cumprir essa tarefa imensa, mas é certo de que, em qualquer lugar do mundo, ela já tem o desafio duplo da verdade e da liberdade, e, ocasionalmente, saber morrer por ele sem ódio.&#8221;</em></p>
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<p>Albert Camus morreu em janeiro de 1960 num acidente de carro, ironicamente com o bilhete do trem no bolso. Num trecho de <em>A Peste</em>, Rieux anota <em>&#8220;Apostavam no acaso, e o acaso não pertence a ninguém&#8221;.</em></p>
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<p><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> é arquiteta, dramaturga, escritora e integrante do Coletivo Editorial Maria Cobogó</p>
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