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	<title>Arquivos #2020 - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
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		<title>Terça-feira</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/terca-feira/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Jan 2021 07:07:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[#2020]]></category>
		<category><![CDATA[monólogos]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte* | "And all our yesterdays have lighted fools/ The way to dust death." William Shakespeare, in Macbeth   Chinelas: nem aguentaram o março, abril, maio... aniversário? Setembro ipês amarelos. Não deixam dirigir de chinelas carteira vencida bebida. Grama seca garganta seca - essa merda de máscara molhada; preciso de uma</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a>* |</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;And all our yesterdays have lighted fools/ The way to dust death.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;">William Shakespeare,<em> in Macbeth</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><strong>Chinelas: nem aguentaram o março, abril, maio&#8230; aniversário? Setembro ipês amarelos.</strong></p>
<p><strong>Não deixam dirigir de chinelas carteira vencida bebida. Grama seca garganta seca &#8211; essa merda de máscara molhada; preciso de uma chinela nova. Abraços, ele assinou abraços!</strong></p>
<p><strong><em>Siga até a rotatória e saia na primeira saída. </em>Se tivesse um <em>GPS</em> pra viver&#8230; Abraços?! Enfia os abraços braços dedos. <em>Rotunda. </em>Em Portugal é assim; na minha terra, balão. <em>Em duzentos metros, direita&#8230;</em></strong></p>
<p><strong>Sinal fechado &#8211; que pernas! <em>Canal 100</em>, preto e branco, câmera lenta aí sim aquelas sim lindas pernas. <em>Você chegou ao seu destino! </em></strong><strong>Seria fácil mas não; limites, limites em cores. Quero ver lidar com pregos no chão ao vivo. Pés descalços, abraços nem mesmo, aqui não! </strong></p>
<p><strong><em>Uma garrafa d’água, gelada não.</em> Quanta gente na rua nessa fila; na praia domingo deu no jornal: ignorantes da pandemia que nem os ipês, esses desandados. Brega foto de ipê de lua cheia de sol refletido no mar&#8230; no lago? Brega assinar abraços? Brega é máscara de bolinhas vermelhas <em>emoji </em>de mãozinhas, enviar abraços é crime.</strong></p>
<p><strong>Quem disse que <em>petit pois</em> tá na moda?</strong></p>
<p><strong>Não deu tempo de aprender a ler a mão jogar tarô runas botões pratos copos fotos rasgadas. Quebradas as tiras. Se eu pudesse, chorava. Ou ria. Brega, clichê. <em>Arrebentada, por favor, uma roxa assim.</em></strong></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*<a href="https://www.instagram.com/claudine_m_d_duarte/">Claudine M. D. Duarte</a> é escritora, dramaturga, finalista do Jabuti pelo projeto <a href="https://www.instagram.com/calangosleitores/">Calangos Leitores</a> e fundadora do Coletivo Editorial Maria Cobogó. Partilhou uma terça-feira de setembro, em Brasília, na seca. Hoje, diria que brega é caminhar com máscara no queixo e não saber que dia é o nosso <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_D_(termo_militar)"><em>dia D..</em></a>.</p>
<p>Imagem: ilustração de <a href="https://www.instagram.com/flaminiabonfiglioart/">Flaminia Bonfiglio</a> inspirada em foto de <a href="http://www.thephotophore.com/jean-faucheur/">Jean Faucheur</a>.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<item>
		<title>O ANO DAS METAS RIDÍCULAS</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/o-ano-das-metas-ridiculas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Jan 2021 07:07:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[#2020]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte * | “Não fui para lá atrás disso. Você sabe tão bem quanto eu que a gente não consegue prever as coisas. Sua cabeça não lhe dá nenhum aviso sobre o caminho que você tomou, até que seja tarde demais. Só entendemos nossas escolhas depois que elas já foram feitas.”</p>
<p>O post <a href="https://mariacobogo.com.br/o-ano-das-metas-ridiculas/">O ANO DAS METAS RIDÍCULAS</a> apareceu primeiro em <a href="https://mariacobogo.com.br">Maria Cobogó</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> * |</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>“Não fui para lá atrás disso. Você sabe tão bem quanto eu que a gente não consegue prever as coisas. Sua cabeça não lhe dá nenhum aviso sobre o caminho que você tomou, até que seja tarde demais. Só entendemos nossas escolhas depois que elas já foram feitas.”</em></p>
<p style="text-align: right;">Rudyard Kipling, em <em>A Casa dos Desejos</em> (1924)</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><strong>Há um ano, a gente olhava pra Wuhan e não pensava que as cenas de <em>Blade Runner</em> seriam vividas por aqui. Escrevemos metas, inventamos sonhos, juramos ver mais os amigos, abraçar mais os entes queridos, ler mais livros, experimentar novos caminhos e até programamos, de novo, uma daquelas viagens da listinha (interminável) de lugares para visitar antes de morrer. Ridículas, as metas. Pra nosso desespero e do Pessoa, que se foi antes dessa história e, de ridículas, somente experimentou cartas de amor. Quem dera&#8230;</strong></p>
<p><strong>Não sabíamos que neste janeiro sentiríamos a dor das famílias dos 200 mil mortos por Covid aqui no Brasil; não imaginávamos as festas de final de ano sem abraços e, para muitos, sem festas; não concebíamos a falta de perspectiva do término da pandemia; não atinávamos máscaras e <em>faceshields </em>como itens necessários e ainda não elaboramos sermos nossos próprios inimigos. Talvez porque qualquer uma dessas coisas é, ao mesmo tempo, insólita e dolorosa.</strong></p>
<p><strong>Alguém escreveu que a gente deve esquecer esse ano que passou. Impossível. O Agualusa propõe que a gente cobre os abraços perdidos. Válido. O Nizan fechou o ano com uma pergunta: você aguenta ser feliz? Sem comentários. O Gabeira criou um <em>Diário da Crise</em> e, infelizmente, promete continuar a escrevê-lo neste 2021&#8230; É uma pena. Concordamos que o tema é indesejado, mas oportuno: “O imprevisto e o próprio absurdo nos espreitam.” Mundo desacreditado.</strong></p>
<p><strong>Em fevereiro, tivemos carnaval e muitas cores. Aglomerados por aqui, ignoramos a falta de vagas nos hospitais e cemitérios mundo afora. Muitos ainda acreditam no mundo, na vida e na humanidade. Fizeram bebês. Viramos mães, avós, bisavós. Seguimos. Um primeiro e solitário infectado aportou em São Paulo. Vinha da Itália que, por sua vez, espreitava seu assombro. A foto com os caixões em Bergamo rodou o mundo e choramos juntos a dor dos que não puderam se despedir de seus entes queridos. Ainda não acreditávamos que teríamos aqui os nossos caixões e os registros de nossa tristeza e nosso absurdo em fotos. Mundo assombrado.</strong></p>
<p><strong>Nos meses seguintes, perdemos ministros da Saúde que, aparentemente, entendiam de saúde. Arrumaram alguém que entendia de logística. Estranho. Muito estranho e inusitado (contém ironia) o planejamento para aquisição de vacinas e outros itens necessários para a grande campanha de imunização que esperamos paralisados. “O prefeito de joelhos / O bispo de olhos vermelhos / E o banqueiro com um milhão”<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>. Mundo despedaçado.</strong></p>
<p><strong>Mas se teve gente que morreu, gente que nasceu, também teve gente que se casou e gente que se descasou. Nem tudo obedeceu aos humores do medo desse ‘bichinho’ que nos cerca. Teve gente que leu muito, gente que escreveu muito, gente que deu cursos e gente que fez os cursos. Teve até gente que lançou livros. Teve gente que escreveu seu primeiro romance. Como teve gente que brincou no quintal, de cabra-cega, pique-pega e caça ao tesouro. Mas ninguém achou o tesouro. Não fica no quintal de ninguém. Tem gente que nem tem quintal. Mundo machucado.</strong></p>
<p><strong>Teve o povo das descobertas. Navegadores desses tempos. Descobriram a Rita Lobo, o arroz e o feijão. Usaram a panela de pressão – com o medo do tamanho certo. Descobriram o Mercado Livre, a Estante Virtual, o iFood, Rappi &amp; companhia. Descobriram que ninguém precisa comprar peças novas para o guarda-roupa. Mas pra descobrirem que podem doar todo o armário e ficarem com apenas duas mudas de roupa, precisarão de algo com o tamanho dos mais de oitocentos quilômetros<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a> entre a França e o <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Finisterra">Fim do Mundo</a>. Certas coisas, somente se descobrem caminhando. Outras, retidos em casa. Isso pra quem tem casa, cartão de crédito e geladeira. Mundo desequilibrado.</strong></p>
<p><strong>Teve gente que não encontrou os filhos e outros que chegaram tarde para encontrar os pais. Seguimos. Acreditamos numa solução. Acreditamos em dias melhores. Acreditamos. Ficamos em casa a maior parte do ano, com encontros virtuais, justo quando dizíamos que o mundo digital nos encerrava em bolhas&#8230; ironia. O isolamento virou a coisa certa. Mundo pela janela.</strong></p>
<p><strong>Das janelas, vislumbramos praças vazias e outras janelas. Das janelas, sentimos nosso verde encolher: conseguimos o recorde de queimadas. Das janelas, não vimos os jovens a caminho da escola. Das janelas, ouvimos as sirenes das ambulâncias e dos bombeiros. Das janelas, contemplamos as desoladoras estatísticas. E pouco a pouco o mundo cedeu às restrições e voltou a viajar, a se encontrar, a festejar, ignorando ascendentes curvas de mortes. Mundo magoado.</strong></p>
<p><strong>Tivemos os heróis da pandemia, os ignorantes da pandemia e os artistas da pandemia.  Cada um com o seu público e um pódio distinto. Tristemente, alguns não viram este 2021. Amargamente, alguns são donos de decisões que nos afetam. Pelo e para o pior. Por sorte, alguns possuem consciência e compaixão. E as transformam em arte. “Mundo mundo vasto mundo / Se eu me chamasse Raimundo / Seria uma rima, não seria uma solução”<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a>.</strong></p></blockquote>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> “Geni e o Zepelim” (1978), música composta e cantada por Chico Buarque para a <em>Ópera do Malandro </em></p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> Referência ao Caminho de Francês de Santiago de Compostela: https://www.vagamundos.pt/caminho-frances-de-santiago/</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> “Poema de Sete Faces” (1930) de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*<strong><a href="https://www.instagram.com/claudine_m_d_duarte/">Claudine M. D. Duarte</a> </strong>é arquiteta, escritora, dramaturga e &#8220;extremamente&#8221; leitora. Coordena o projeto <strong>Calangos Leitores</strong>, finalista do Premio Jabuti (2018) na categoria Formação de Novos Leitores. É uma das fundadoras do <strong>Coletivo Editorial Maria Cobogó</strong> pelo qual publicou seus livros, <em>Desencontos</em> (2018) e <em>Sete Pequenos Tumultos</em> (2020). Isso mesmo: ela lançou um livro neste 2020.</p>
<p>Imagem: foto de @ichiroguerra de <strong>homenagem aos que se foram</strong> realizada por artistas de Brasília, direção de <strong>Hugo Rodas</strong>, julho/2020: <strong><a href="https://www.instagram.com/quempartiueamordealguem/">Vigília Silenciosa</a>.</strong> <em>#quempartiueamordealguem</em></p>
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			</item>
		<item>
		<title>PRECE NA PANDEMIA</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/prece-na-pandemia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Dec 2020 02:00:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[#2020]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[prece]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Lucilia de Almeida Neves Delgado * |   Ouço o silêncio das milhões de dores atordoa mais do que amores perdidos É pesado como tristezas minerais   O ar maciço como água represada pede oração   Que teus sonhos se tornem insônia definitiva para os indiferentes Que pintem suas almas com cores enlutadas dos</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por<strong> Lucilia de Almeida Neves Delgado * |</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Ouço o silêncio das milhões de dores</p>
<p>atordoa mais do que amores perdidos</p>
<p>É pesado como tristezas minerais</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O ar maciço como água represada</p>
<p>pede oração</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que teus sonhos se tornem insônia definitiva para os indiferentes</p>
<p>Que pintem suas almas com cores enlutadas dos sonhos desfeitos</p>
<p>Que o coro de tuas vozes acorde os distraídos</p>
<p>neles esculpindo cicatrizes profundas</p>
<p>Que tuas saudades ressoem nos olhos dos que ditam</p>
<p>tornando-os opacos e sem vida</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que as agonias dos que ficaram</p>
<p>ressoem em agudos gritos nos ouvidos dos poderosos</p>
<p>Que o sofrimento das horas em que tuas vidas se apagaram</p>
<p>se transforme em chagas nas entranhas dos maus</p>
<p>Que a solidão das despedidas</p>
<p>se faça constância na vida dos dominadores</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que a terra que se fez leito frio, definitivo</p>
<p>feche a garganta dos indiferentes poderosos</p>
<p>Que as dores dos que ficaram</p>
<p>atinjam como milhares de setas os corações dos coniventes</p>
<p>Trazendo-lhes sofrimento irremediável, atroz</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que das luzes das estrelas</p>
<p>Façam-se mel nas mãos dos que te socorreram</p>
<p>Que as flores matutinas</p>
<p>suavizem as lágrimas dos que te perderam</p>
<p>Que as teclas dos pianos</p>
<p>consolem as vidas que seguirão no apesar</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que as almas dos que por tuas vidas lutaram</p>
<p>ganhem fluidez de nobre beleza</p>
<p>Que a generosidade dos que te acolheram</p>
<p>faça  canções para alegrar-lhes a vida</p>
<p>Que a força dos que resistiram</p>
<p>torne-se certeza de renovado futuro</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que o céu possa acolher com suavidade os que chegam</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que milhões de estrelas cadentes se desprendam das nuvens</p>
<p>trazendo boa nova ao mundo</p>
<p>Amém!</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>*Lucília Neves de Almeida</strong> <strong>Delgado</strong> é escritora e historiadora. Ama flores, poesia e a vida. Tudo junto e misturado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Imagem: <em>O Tempo (2019-2020)</em>, de Tâmara Habka: <a href="https://www.instagram.com/paprikadatil.art/">@paprikadatil.art</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>De Nélida para Clarice</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/de-nelida-para-clarice/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Nov 2020 01:03:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[#2020]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Nélida Piñon * |   Amiga,   Em dezembro o Brasil e o mundo celebrarão o centenário de seu nascimento. Não exagero ao afirmar que outras terras pagam-lhe tributo. E isso porque sua obra fez de você uma mulher universal. Sua efígie, ora estampada nos jornais e revistas, mostra uma Clarice enigmática, bela, com olhos</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por Nélida Piñon * |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Amiga,</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em dezembro o Brasil e o mundo celebrarão o centenário de seu nascimento. Não exagero ao afirmar que outras terras pagam-lhe tributo. E isso porque sua obra fez de você uma mulher universal. Sua efígie, ora estampada nos jornais e revistas, mostra uma Clarice enigmática, bela, com olhos oblíquos, de traços ligeiramente orientais.</p>
<p>Sei que devo saciar sua curiosidade. E contar-lhe que seus admiradores, querendo dar-nos a ilusão de ainda se encontrar entre nós, inauguraram uma estátua sua, de corpo inteiro, na calçada da Avenida Atlântica, cerca de sua casa. Dizem que alguns a visitam na expectativa de ouvi-la.</p>
<p>Mas não posso poupá-la das desditas nossas. A mais recente refere-se a uma epidemia que se alastra pelo planeta a ameaçar a sobrevivência da espécie. É tal seu efeito letal que nem a ciência, os poderes públicos nos socorrem. E menos ainda a tecnologia que vinha pregando sermos imortais. Ah que ledo engano.</p>
<p>Por comando generalizado, há meses estamos encerrados em nossos tugúrios. Forçados à solidão absoluta, ao convívio familiar nem sempre amistoso, privados da liberdade, do pão que escasseia. Sobretudo aguentando o fardo de nossas almas que nem sabíamos ter. É uma clausura equivalente aos mosteiros medievais, mas talvez sem o consolo de Deus.</p>
<p>Estou ao abrigo do lar. Daqui faço considerações que alarguem seus horizontes, simples porções da realidade atual, da civilização brasileira. Confesso-lhe que o Brasil mudou muito desde que nos deixou em 1977, e tanto que mal vislumbro seus escaninhos, a matéria que nos constitui.</p>
<p>Pois como entender as transformações sofridas se os rastros deixados foram sendo apagados, em consonância com nossa volúpia de desrespeitar a identidade nacional. Sob o risco portanto de se forjar uma sociedade à mercê do caos. Talvez me exceda, perco a dimensão do que é cívico, moral, institucional. Mas vítima que sou do curso da história, sucumbo ante a crescente intolerância, a radicalidade ideológica, a corrupção desenfreada, a escassa civilidade. O que dizer da violência urbana e doméstica, da crença de ser mais fácil odiar do que amar.</p>
<p>Como filhas de imigrantes defendemos a justiça social em vários momentos públicos. Acreditávamos que a  educação e a cultura podiam arrancar os brasileiros do degredo da ignorância ao lhes facultar o conhecimento libertário. Pois urge preencher as lacunas oriundas das desigualdades sociais e restaurar a dignidade humana. Neste capítulo, aliás, os escritores seguem resistindo, como você o fez. Fiéis à arte, à linguagem que arrola os sentimentos segundo a carga poética da sensibilidade pátria. Como intérpretes do Brasil, junto com as demais consciências vivas, damos combate à barbárie em curso no mundo.</p>
<p>O que nos mantém alerta, querida Clarice, é a atração pela luxúria do corpo e do espírito, é o repertório dos prazeres regidos pelo dom da vida. Aqueles favores que nos abençoam a despeito até da pobreza.</p>
<p>Eu a evoco com frequência. Há pouco mais de um ano arrematei em um leilão um quadro seu, dos poucos que pintou. Não poderia permitir que você fosse habitar uma casa estranha. Ele está ao lado daquele que fez em homenagem ao meu livro <em>Madeira Feita Cruz</em>, e agora ambos expressam nossa aliança, nossa irmandade.</p>
<p>Também rememoro o dia que fomos à PUC, do Rio, por motivo de um seminário literário, e você, subitamente irritada com o hermetismo dos debates, arrastou-me para o câmpus, e encostada no balcão do quiosque, sorvendo seu cafezinho, pediu-me que regressasse ao auditório e lhes transmitisse o recado: “Se eu tivesse entendido uma só palavra de tudo que os senhores disseram, eu não teria escrito uma única linha dos meus livros”.</p>
<p>Ao deixá-la no táxi, disse-me que ao chegar em casa iria saborear o frango assado que sobrara do almoço. Naquele instante senti tanta ternura, quis protegê-la, que o Brasil afinal reconhecesse sua grandeza.</p>
<p>Quantas aventuras vivemos ao  sabor dos dezoito anos de amizade. Entre risos e lágrimas, íamos às cartomantes, na ânsia de perscrutar o futuro. Mesmo no hospital da Lagoa, dias antes da sua despedida, recriminou Nadir, sua cartomante favorita, por não ter previsto a doença que a conduziu ao leito hospitalar, onde, lembra-se, me mantive ao seu lado até o suspiro final. Olhando-a, então, imaginava sua família chegando  ao Nordeste, fugida dos pogroms, padecendo tantas dificuldades. Sem adivinharem que a criança levada ao colo, minha amiga, aportaria no futuro fulgor à língua portuguesa, de que se tornaria mestra.</p>
<p>Aqui fico, querida Clarice, no seu Rio que segue lindo, mas sofrendo os efeitos da peste que até parece com a de Florença, do século XIV.  Mas cuide-se, onde esteja. O Brasil e eu agradecemos que seja brasileira. Até nosso próximo encontro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">Da sua Nélida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Clarice Lispector</strong> nasceu na Ucrânia. Naturalizada brasileira, deixou uma vasta obra literária, muitos questionamentos e poucos e bons amigos. Um deles, a escritora Nélida Piñon que esteve ao seu lado até o último dia de vida. .</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>*Nélida Piñon</strong> é escritora, integrante da Academia Brasileira de Letras e amiga de Clarice Lispector. Esta carta, inédita, foi publicada em 18 de setembro de 2020 por uma revista semanal do Rio de Janeiro: <a href="https://vejario.abril.com.br/beira-mar/carta-amiga-clarice-lispector-nelida-pinon/"><strong>&#8220;De Nélida Piñon / Para: Clarice Lispector&#8221;</strong></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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<p>&nbsp;</p>
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<p>&nbsp;</p>
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<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>TOSSE</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/tosse/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Oct 2020 00:03:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[#2020]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[poetas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>  por  Rogério Bernardes* |   desenvolvi um medo patológico de tossir não só em público, até porque raro mas principalmente sozinho no escuro voluntário dos túneis que cavei entre a cozinha, o quarto e o banheiro por onde passam - um de cada vez - meus temores seguro o fôlego ao olhar a bandeira</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>por  Rogério Bernardes* |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>desenvolvi um medo patológico de tossir<br />
não só em público, até porque raro<br />
mas principalmente sozinho<br />
no escuro voluntário dos túneis que cavei<br />
entre a cozinha, o quarto e o banheiro<br />
por onde passam &#8211; um de cada vez &#8211; meus temores</p>
<p>seguro o fôlego ao olhar a bandeira<br />
no prédio em frente ao meu<br />
bem na altura do meu andar<br />
e que esfrega toda manhã na minha cara<br />
seu patriotismo colorido e usurpado</p>
<p>(faltou o vermelho-escuro<br />
no lábaro que ostentam estrelado<br />
usado pra cobrir os corpos-que-tossem-sangue<br />
mas este sempre é lavado com alvejante<br />
porque deus os livre de coagular rápido<br />
e manchar de ódio o álibi das varandas gourmet)</p>
<p>também quase me engasgo, mas não tusso<br />
ao ouvir os hinos de outro logradouro<br />
perto do meu esconderijo<br />
falando de um deus dos primeiros livros<br />
que só vocifera aponta condena<br />
(e não tossir é questão de sobrevivência<br />
porque se descobrem pelo tom de meus escarros<br />
onde arranjei as maldições respiratórias<br />
ai de mim! ai de nós!)</p>
<p>a voz dos louvores até parece angelical<br />
se eu ainda acreditasse neles<br />
se suas asas não escondessem uma pistola<br />
e uma mordaça que de longe até parece máscara<br />
mas bem de perto só serve nas fuças<br />
de gente como eu – que ainda cospe</p>
<p>desenvolvi estratégias agorafóbicas de tossir<br />
audácias envergonhadas de respirar<br />
e fórmulas escondidas pra gritar</p>
<p>eles pensam que é silêncio e nada ouvem<br />
enquanto a mensagem chega felina<br />
aos ouvidos tuberculosos dos que ainda escarram<br />
(não mais nas bocas dos que beijam o poeta)<br />
na bandeira usurpada e nos rádios que nos matam<br />
fingindo curar enfisemas inventados<br />
arrancando os pulmões de quem tosse<br />
pedaços coagulados de resistência</p>
<p>confesso ainda ter medo de tossir<br />
mas quando a epidemia for inevitável<br />
e eu tiver de espalhar as gotículas<br />
e elas infectarem outras vias e outros peitos<br />
não sei se terei pena dos rádios celestiais<br />
e do matiz hipócrita no verde-louro dessa flâmula<br />
tremeluzente na frente do meu bunker</p>
<p>quando o fungo começar a se espalhar<br />
sairemos de nossos esconderijos<br />
e escarraremos nas mãos que nos apedrejam</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>***</strong></p>
<p>* <strong>Rogério Bernardes</strong> é poeta, natural de São Gonçalo/RJ e vive em Brasília. É autor de três livros: <em>Olhar de andorinha</em> (Scortecci, 2014), <em>Cantigas de ninar dragões</em> (Penalux, 2017) e <em>Cinzas de fazer fênix</em> (Penalux, 2019).</p>
<p>Tosse (2020) &#8211; Direitos reservados Rogério Bernardes |  Instagram: <a href="https://www.instagram.com/rogeriovbernardes/?hl=pt-br">@rogeriovbernardes</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Imagem: Lungs of the Earth, de Katerina Eremeeva</p>
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