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	<title>Arquivos quarentena - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
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		<title>O PACOTE</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/o-pacote/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Aug 2020 10:01:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[quarentena]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte *  |   “Viver... o senhor já sabe: viver é etcétera...” João Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas)   Por aqui, os endereços misturam consoantes e números. Códigos de guerra carentes de poesia. Nenhuma homenagem. Uma leitura equivocada confere outros destinatários às cartas e encomendas. Na minha rua, um “l” minúsculo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> *  |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>“Viver&#8230; o senhor já sabe: viver é etcétera&#8230;”</em></p>
<p style="text-align: right;">João Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por aqui, os endereços misturam consoantes e números. Códigos de guerra carentes de poesia. Nenhuma homenagem. Uma leitura equivocada confere outros destinatários às cartas e encomendas. Na minha rua, um “l” minúsculo pode ser reconhecido como um “i” maiúsculo. Há alguns anos, uma amiga veio para a reunião do clube de leitura e o táxi a deixou na rua errada, a do “i”, e, naquela tarde, o pessoal da outra casa também recebia amigos. Clara (esse é o seu nome) entrou, sentou-se na roda e até aceitou um café antes de perguntar por mim. Fui resgatá-la.</p>
<p>Nesta pandemia, mesmo com o GPS, alguns entregadores escolheram a outra rua. Ninguém reteve meus lanches e, pelos relatos, o dono da casa demonstra não gostar de pizzas nem das trocas de endereços. Na semana passada, esteve aqui. Manhã de domingo, ele e o filho, bermudas, tênis e máscaras. Trouxeram uma carta registrada contendo um cartão de crédito. Foram educados: que eu tivesse mais atenção, escrevesse o “L” em maiúsculas, usasse letras de forma, uns conselhos assim, solenes, pelo meu bem. Urge que as pessoas se protejam das pessoas.</p>
<p>Hoje, o interfone tocou e escutei o som de algo sendo jogado contra o portão. O pacote não tinha o meu nome, mas o endereço era exatamente o meu. Uns 30 por 40 centímetros, outros dez de altura, embalagem de papel pardo, remetente ilegível e o destinatário, julguei, era o cara da outra rua. Aquele, o dos conselhos para o meu bem, das pessoas e das encomendas. Confesso que esperava ansiosamente por este dia: levar o pacote, sorrindo (atrás da máscara, infelizmente) e entregá-lo com algum parecer inteligente, notório. As pessoas querem superar as pessoas.</p>
<p>Com indiferença pela unha que massacrava o dedo do meu pé esquerdo, subi a ladeira vestida para caminhar, escrevendo na cabeça uns axiomas sobre endereços, entregadores e afins. Quatro da tarde, pacote sob o braço, oitocentos e dezessete metros, campainha, o filho. Não, aquele não era o nome do pai dele. Como assim, depois de tantos anos, eu não sabia o nome do pai dele? O algodão na unha, deslocado. Seria a falta de um mísero 1? A quadra treze ficava a seis quilômetros &#8211; uma hora e dezoito minutos. Escolhi o caminho da rua principal – que se foda a unha &#8211; o sol pelas costas, minha sombra comprida e multiforme.</p>
<p>Ao passar pelo Corpo de Bombeiros, vislumbro movimentos da urgência. A motorista da ambulância proclama o socorro e, antes de ocupar a via principal, é obrigada a frear: um cachorro latiu três vezes olhando para mim. Um dos bombeiros segurava uma faca. Segui em frente, de olho no chão e no lixo que as pessoas largam por aí. Cigarros, seringas, luvas, máscaras, latas, sacolas, embalagens. As pessoas não pensam nas pessoas. O cão me segue do outro lado da rua. Não late mais. Entro na rua do suposto dono do pacote, nenhuma casa de número similar à minha&#8230; a unha e a bateria do celular agonizam.</p>
<p>Voltamos à rua principal e esperamos um ônibus. Balanço o pacote, cheiro o pacote, imagino umas asas no pacote. Náufragos no cerrado, subimos no ônibus e ocupamos dois bancos. O cão nos observa. Um jornal velho repousa sob os meus pés: setenta mil mortos no Brasil. Era de uma outra sexta-feira&#8230; de uns trinta mil mortos antes. Um homem entra no ônibus, sem máscara, discute com o motorista, tira a camisa e a amarra sobre o nariz e a boca. Raivoso, quer saber se cobraram o bilhete do pacote. O motorista acelera até parar em frente à delegacia. Melhor descer ali mesmo, agradeço. Alguém me diz que o pacote foi uma ótima ideia para distanciamento social.</p>
<p>O cão nos seguiu. Cheira o pacote. Deitada na calçada, sem tênis e sem as meias, presencio a Lua surgir ao timbre de outra ambulância.  Retiro a máscara, úmida, suada. As máscaras não aguentam as pessoas. Nem as najas&#8230; nem as emas. Permito que o cão descanse sua cabeça ao lado da minha, sobre o pacote. Acompanhamos a linha de grãos de arroz que brota de uma marmita branca e, como a média móvel de mortes dos últimos dias, desaparece no buraco de um formigueiro. As pessoas aprenderam a morrer.</p>
<p>***</p>
<p><strong>*<a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte </a></strong>é uma das fundadoras do <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/"><strong>Coletivo Editorial Maria Cobogó</strong></a>, que nesta semana completa 2 anos de vida com 13 títulos publicados e muita saudade de encontros, feiras e abraços.</p>
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		<title>DE FOMES E MEDOS</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/de-fomes-e-medos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Jun 2020 00:59:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[endurance]]></category>
		<category><![CDATA[quarentena]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte* |                                                            “É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algumas dessas</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a>* |</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>        </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>                                                 “É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura.”</em></p>
<p style="text-align: right;">Antoine de Saint-Exupéry, em Terra dos Homens (1939)</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A música dos Titãs nos representa ao repetir que <em>“a gente não quer só comida, a gente quer a vida como a vida quer”</em> e seguimos entre os ecos da instigante pergunta <em>“</em><em>você tem fome de quê?”.</em>.. Tem gente que tem fome de poder, outros são famintos por paisagens, pores do sol, nascer da lua e seus eclipses, marés, medos e até por amores.</p>
<p>Entre nós, ainda há os que sentem fome por dinheiro e de outras coisas que o dinheiro pode comprar, outros apenas querem ser eternos no olhar de cada filho e, mesmo assim, é preciso dizer que alguns já desistiram há muito tempo de sentir qualquer tipo de fome.</p>
<p>Existem pessoas que, como Sir Ernest Shackleton, tem fome de chegar ao Polo Sul ou a Marte. E ainda há os que se contentam com chegar até a escola, comer umas duas vezes por dia, conseguir um lugar no ônibus, completar a jornada de trabalho e regressar, vivo, à casa. Ter uma casa. Quem sabe alguém esperando&#8230; um banho, nem precisa ser quente, basta ter água e (luxo!) sabonete. Que a noite os encontre vivos e com fome por mais um dia.</p>
<p>Alguns tem fome de leitura, de viagens, algumas físicas, outras emocionais: “a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte”&#8230; Foi assim que, em 1914, Shackleton partiu rumo à Antártida com seu navio Endurance que ficou preso no gelo e se quebrou, afundando, quase 1 ano depois. Eram 28 homens naquela expedição e, após uma espera de 6 meses, suportaram uma semana em 3 pequenos barcos abertos alcançando as areias da inóspita ilha Elephant. Mesmo hostil, era terra firme. Essa era a fome daquele momento, uma fome de quase 500 dias&#8230;  A de Shackleton era de manter a todos vivos e conseguir um resgate. Conseguiu. Adaptou um dos barcos, escolheu outros cinco companheiros e partiram, em pleno inverno, para a ilha da Geórgia do Sul, onde chegaram após vários dias sob terríveis condições. Ao chegar na estação baleeira, descobriu que seu país, a Inglaterra, em plena 1ª Guerra Mundial, não dispunha de navios para o resgate da tripulação. A fome de Shackleton pela vida de seus homens era tamanha que percorreu vários países até que, em 3 meses, o governo chileno cedeu um rebocador. Emocionado, avistou 22 silhuetas humanas na praia da ilha Elephant: estavam todos vivos e ele já podia pensar na próxima fome.</p>
<p>Essa história me fascina pelo que ela tem de poderoso: a sobrevivência em condições extremamente cruéis. Shackleton vem sendo estudado como exemplo de liderança e, nas áreas de recursos humanos, dedicam algum tempo para sua ‘técnica’ de composição de equipe. Ele não alcançou o Polo Sul e, no entender das pessoas focadas em metas e objetivos, a sua expedição foi um fiasco. Um amigo me diz que não vê nada de interessante na história de um fracasso e eu rebato com “mas todos ficaram vivos, todos retornaram para suas casas”. Isso eu considero um feito.</p>
<p>De tempos em tempos, nos deslumbramos com lideranças excepcionais, com fome, com gana e determinação para guiarem pessoas até algum tipo de ‘terra prometida’. Infelizmente, nosso cotidiano não registra nomes entre esses deslumbramentos. A pandemia, como outras grandes crises humanitárias, fez brotar uns ‘ogros’ dignos de fábulas repugnantes (há quem afirme que são personagens de contos de terror). Por cumprirem suas incumbências com sensatez e discernimento, invejamos líderes de países ao lado, acima e alhures, enquanto nosso olhar desalentado acompanha pelas mídias os passos reais dos que voltam para casa. Porque, no fundo, é isso que importa: que retornem, vivos.</p>
<p>Por aqui, queria eu que todos, todos, voltassem para casa. Com máscaras ou não. Com vírus ou não. Com armas ou não. Com suas joias ou não. Com dinheiro ou não. Com escolas ou não. Com livros ou não. Que regressem, vivos. Só isso. Com fome por um céu estrelado, por uma manhã mais justa e por um dia inteiro livre de medo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Imagem: reprodução de fotos de Frank Hurley, fotógrafo da lendária expedição de Shackleton à Antártida: <a href="https://www.coolantarctica.com/Antarctica%20fact%20file/History/shackleton-tweets-page1.php">ENDURANCE</a> (1914-1916).</p>
<p><strong>*</strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> é arquiteta, dramaturga, escritora, formadora de leitores com seu projeto <a href="https://calangosleitores.com.br/">Calangos Leitores</a>, fundadora do Coletivo Maria Cobogó e guru afetiva de sua legião de amigos.</p>
<p>O post <a href="https://mariacobogo.com.br/de-fomes-e-medos/">DE FOMES E MEDOS</a> apareceu primeiro em <a href="https://mariacobogo.com.br">Maria Cobogó</a>.</p>
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