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	<title>Arquivos mulheres - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
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		<title>Mulher, voz, guerra e conquistas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Mar 2022 00:07:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Daily Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Eva Leones * |   Para escrever sobre  a guerra, a invasão, o corpo e a voz das mulheres, preciso falar de minha bisavó materna. De minha bisavó e de um vazio. Não me lembro da voz dela. Não me lembro de nenhuma história contada por ela na minha frente. Não me lembro de uma</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por<a href="https://www.instagram.com/tatu.com.insonia/"><strong> Eva Leones</strong> </a>* |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para escrever sobre  a guerra, a invasão, o corpo e a voz das mulheres, preciso falar de minha bisavó materna. De minha bisavó e de um vazio.</p>
<p>Não me lembro da voz dela. Não me lembro de nenhuma história contada por ela na minha frente. Não me lembro de uma frase sequer dela dirigida a mim, embora tenha passado muitos dias e muitas horas na sua casa e com ela convivido.</p>
<p>Estive com minha bisavó pela última vez em 1980, numa viagem de férias ao interior da Bahia, de onde ela nunca saiu e de onde eu parti ainda criança. As imagens que tenho dela, as lembranças, são o cabelo preto e escorrido, o corpo encurvado e a solidão de mulher a jogar milho para as galinhas. Em nenhuma dessas imagens, porém, ecoa o som de sua voz.</p>
<p>Certamente ela falava &#8211; baixinho? &#8211; com todos, incluindo os bichos, mas da minha posição, de longe e de visita, eu não escutava.</p>
<p>Lembro também de vê-la sempre, desde eu pequenininha, se alimentando perto do fogão, logo depois que todos almoçavam ou jantavam. Ela não se sentava à mesa com os demais; se abrigava, sozinha, agachada num canto, o prato entre as pernas&#8230; comia com as mãos.</p>
<p>Quando converso com minha mãe sobre pessoas da família, ela conta como a avozinha amada lhe ensinou os trabalhos &#8211; todos &#8211; de casa e do &#8220;universo feminino&#8221;; como ensinou a rezar as orações católicas, a moral cristã; como ensinou a ser boa mãe e boa esposa&#8230;</p>
<p>O que sempre me vem, no entanto, quando tento acessar essas histórias, é a memória do que contam sobre a mãe de minha bisavó. Segundo vários parentes e conhecidos, a mãe de minha bisavó tinha sido &#8220;caçada no mato&#8221; para casar.</p>
<p>Demorei a entender que a caça tinha sido provavelmente literal e que a minha própria história estava contida no epíteto de uma mulher caçada no mato, de bicho do mato. Os cabelos escuros, que não herdei, a tez de uma cor tão específica e que encontro em alguns dos meus irmãos e primos &#8211; em um ou outro de nós, os descendentes -, não escondem e não apagam a identidade dela e de seu/nosso povo. Caçados no mato para serem/sermos mortos em guerras de invasão e conquista, escravizados, convertidos e levados para casa, domesticados em nome e pela força do dinheiro, da religião e do casamento.</p>
<p>&#8220;Caçada no mato&#8221;, compreendi depois, poderia significar também um eufemismo para o estupro. E nunca entendi muito bem porque riam da situação alguns homens da família, sempre contando a história com um ar de troça&#8230; Até onde o seu lugar de machos os transformava em caçadores ou os protegia de saber e refletir sobre o que acontecia nas sombras dos corredores, das florestas e dos fundamentos de uma nação? Que vozes estão abafadas ali?</p>
<p>Continuo buscando a voz de minha bisavó. E quando é época de guerra &#8211; sempre é tempo de guerra &#8211; me inquieto. Me inquieto, porque a guerra produz e reproduz a pobreza, a vulnerabilidade, a solidão, o sofrimento&#8230; E porque, em nome de uma defesa ou de uma conquista, os homens caçam mulheres, sendo que algumas são trazidas para casa para casar.</p>
<p>&#8230;..</p>
<p>A invasão russa e a guerra na Ucrânia têm mostrado muitas histórias de homens, mulheres e crianças. Histórias de heroísmo e histórias de covardia. Numa delas, um brasileiro oportunista viaja a um campo de refugiados com a desculpa de apoiar as vítimas e combater o agressor, aproveita para satisfazer a vaidade e comprar, ou querer comprar, um combo de prazer sinistro: turismo de guerra vigente vinculado a turismo sexual.</p>
<p>A invasão russa e a guerra na Ucrânia também servem para colocar novamente em evidência a arte e a literatura dos dois países, seja para aplauso, seja para &#8220;cancelamento&#8221;. O ucraniano Gogol &#8211; com seu herói combativo e valente &#8220;Tarás Bulba&#8221; &#8211; e o russo Dostoiévski &#8211; cuja celebração do bicentenário tem sido questionada em vários lugares &#8211; voltam à cena. Os autores, não os textos: nem sequer é lido o que escreveram, para incensar ou boicotar.</p>
<p>A brutalidade dos personagens de Gogol é contraposta &#8211; em alguns episódios, incluindo os motivos para o desfecho &#8211; a histórias de amor ora violentas ora flertando com a idealização e a romantização. Reler sua obra talvez nos mostre como é, segundo a visão de um mestre da escrita, a situação das mulheres na formação de seu país e a partir de então.</p>
<p>As narrativas de Dostoiévski, em outra perspectiva, já foram lidas, em vários pontos, como exemplos de defesa dos direitos das mulheres. Em &#8220;Uma criatura dócil&#8221;, por exemplo, o autor denuncia, num texto entre trágico e irônico, o modo como os homens, quando covardes, podem se aproveitar da pobreza material das mulheres para tentar comprar o seu corpo e o seu amor, numa máxima sexista próxima do &#8220;são fáceis, porque são pobres&#8221;, atualizada na voz do deputado oportunista e, a seu modo, caçador.</p>
<p>&#8230;&#8230;</p>
<p>Ah, as palavras! Armas para ferir e subjugar.  Ferramentas para o uso do dizer e do nomear.</p>
<p>Não sei se meu bisavô, de ascendência europeia, e minha bisavó materna, indígena, se amavam. A imagem que guardo dos dois juntos me diz que sim. Um e outro se olhavam com afeto em minha memória e as histórias que contam a respeito deles confirmam a impressão. Ou talvez seja minha esperança. Como é também minha a esperança de que alguns traços, ritmos, timbres e vocábulos seus (delas) em mim perdurem.</p>
<p>Entendo que o vazio auditivo da voz e das histórias que minha bisavó e sua mãe pudessem me contar foi, de algum modo, preenchido pelas vozes de minha avó materna, filha daquela, e de minha mãe, contadoras amorosas de histórias.</p>
<p>De meu lado, escrever talvez seja, também, uma tentativa de ressurreição. O trabalho com a palavra &#8211; as mãos operando o silêncio da palavra &#8211; talvez seja uma maneira de alinhavar e de potencializar a imagem/liberdade de comer com as mãos na (selvagem) solidão.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>*Eva Leones </strong>é escritora e doutora em Letras pela USP. Professora,  ministra cursos e oficinas literárias, sempre sobre a reflexão sobre escritores, a poesia, a leitura e a cultura popular. Seu livro de poemas <strong>tempo/pássaro</strong> , editado pelo Coletivo Maria Cobogó, está à disposição no <a href="https://www.instagram.com/domcaixotesebo/">Sebo Dom Caixote</a>.</p>
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		<title>OLHAR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Feb 2022 00:07:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Featured]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Lucilia de Almeida Neves Delgado * |   Trago na memória do meu olhar infindáveis olhares que colhi, em uma trajetória que vai alcançando setenta anos de vida plena e múltipla. São tantos e com significados tão distintos que chego a duvidar de sua permanência nas minhas retinas e lembranças. Alguns, surgem de modo</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Lucilia de Almeida Neves Delgado * |</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Trago na memória do meu olhar infindáveis olhares que colhi, em uma trajetória que vai alcançando setenta anos de vida plena e múltipla.</p>
<p>São tantos e com significados tão distintos que chego a duvidar de sua permanência nas minhas retinas e lembranças. Alguns, surgem de modo aleatório, quando me ponho a recordar das retas, curvas, esquinas, subidas, descidas e paradas da vida. Trazem pessoas que encontrei na indecifrável aventura do viver. Todas são partes de quem sou.</p>
<p>O olhar de despedida, que brotou no semblante de meu pai, quando parti para construir minha vida de adulta. Olhar que escorreu até suas mãos, que choraram um suor gelado. Meu tato as captou e as registrou, em mim, para sempre.</p>
<p>O olhar, cotidiano, de medo incontido, de uma vizinha da rua onde passei minha infância. Aquele olhar ainda dói em meus olhos, como se com ela tivesse cruzado comigo há poucos minutos. Meus sentidos ainda ficam alertas, pois era sempre agredida pelo marido que chegava devastado pelo álcool. Os vizinhos socorriam, mas a cena se repetia.</p>
<p>O olhar de alegria infantil de minhas amigas que, comigo, trepavam em árvores e muros para colher jabuticabas, ameixas e amoras. Frutas que continuam enchendo meu semblante de felicidade e meus olhos de prazer.</p>
<p>Os olhares que enfeitavam os bailes de carnaval da minha juventude, quando confeccionar, vestir fantasias e dançar noite adentro, eram festas que mobilizavam todos os sentidos, enfeitando-os com o primeiro amor, o primeiro beijo, sambas e marchinhas. Eternas nos meus ouvidos.</p>
<p>O olhar rígido, rigoroso e inflexível da minha professora de português no antigo curso ginasial, que via pecado, desrespeito e desinteresse na alegria, nos sorrisos e risadas. No tempo do hoje, quando ainda o vejo, sinto medo e vontade de contestação.  Era um olhar triste. Jamais o esqueci.</p>
<p>O olhar de ternura e fantasia da mãe preta a me contar histórias de anjos, santos e também de fantasmas, almas do outro mundo, cobras que enterradas vivas, reapareciam enormes e peludas para se vingar de quem as maltratou. Ofertou-me pensamento imaginativo, que enxergo como importante coluna, entre as que me sustentam.</p>
<p>Olhares de euforia, reunidos em um só olhar de festa, quando muitos de nós, adolescentes que crescemos juntos na mesma rua, fomos aprovados no vestibular. Naquele dia, de um janeiro distante, sobraram abraços em um quarteirão de uma cidade do interior de Minas Gerais, lugar onde gestos diários de empatia nos alimentaram por muitos anos.</p>
<p>Olhares de pavor dos amigos, jovens adultos, que começaram a se esconder, pois os tentáculos de um regime autoritário, em dura perseguição, os buscavam, para que sentissem o peso imposto aos que ousassem praticar atos de divergências. Meus olhos de lágrimas, os reencontra. Sempre!</p>
<p>Olhar de surpresa amorosa, quando cruzei pela primeira vez com meu companheiro de vida e senti arder em mim a vontade de poder olhá-lo com paixão e amor. Ganhei de presente uma troca de olhares que se multiplicou e inúmeras vezes mudou de tom. Troca de olhares que nunca perdemos.</p>
<p>Olhares de susto e alegria, que gritavam para o mundo, a festa e o medo da maternidade, quando nasceram minhas filhas. Olhares que se fizeram contradições, culpas, euforias, na longa trajetória que percorremos e continuamos a percorrer. Elas em mim e eu nelas. Elas fora de mim e eu fora delas.</p>
<p>Olhares de observação e interesse, de milhares de rostos juvenis a assistirem minhas aulas, a beberem conhecimento, a me ofertarem desafios e afetos, a me realizarem no dia a dia da vida profissional. Neles transbordaram palavras, sons e imagens, no tempo em que fui me fazendo professora universitária.</p>
<p>Olhares de prazer a brotarem de minhas pupilas enfeitiçadas por livros e seus autores. Por poemas, teorias, romances, processos históricos, contos e crônicas. São olhares que sempre trazem o brilho da leitura para mim.</p>
<p>Olhar de paixão madura e vibrante que pude observar em uma feira de livros. Ela a assistir seu companheiro de vida a discorrer sobre as utopias que brilharam no ano de 1968. Ele a lembrar-nos de como é viver com esperança. E nós a escutamos e olharmos para o amor que se exibia em dança de cumplicidade. Jamais poderíamos imaginar que, um ano depois a utopia seria somente História.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p><strong>*Lucilia de Almeida Neves Delgado</strong> é escritora, poeta, historiadora, professora universitária, ávida leitora e possuidora um olhar poderoso para as coisas importantes da vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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