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	<title>Arquivos Cartas - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
	<lastBuildDate>Fri, 27 Nov 2020 15:00:39 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
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		<title>Carta para Chris</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/carta-para-chris/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Nov 2020 15:00:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas]]></category>
		<category><![CDATA[Fios]]></category>
		<category><![CDATA[Jabuti 2020]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Chris, Não sabemos se você está acordada, se está de ressaca, se está no eito ou catatônica. Mas abrimos esse espaço aqui, no nosso bate-papo – que sempre é por whatsapp - para lhe agradecer. E lhe agradecer muito. Primeiro, pela agitação que você provocou no Maria Cobogó com a edição de seu Fios e</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Chris,</p>
<p>Não sabemos se você está acordada, se está de ressaca, se está no eito ou catatônica. Mas abrimos esse espaço aqui, no nosso bate-papo – que sempre é por <em>whatsapp</em> &#8211; para lhe agradecer.</p>
<p>E lhe agradecer muito. Primeiro, pela agitação que você provocou no Maria Cobogó com a edição de seu Fios e pelo fato dele estar entre os cinco melhores livros infantis de 2020.</p>
<p>Há muito precisávamos de uma agitação (nós, que nascemos dentro dela!). Obrigada por colocar todas em estado de alegria alerta, de frenesi de torcida, em ante-sala de maternidade. Só não fumamos e bebemos todas porque a pandemia não deixou.</p>
<p>Obrigada por nos dar tantos momentos de fé, de oração, de mandingas e axés. Obrigada por ter nos dado a certeza de que não somos só um grupo. Somos mais que isso. As unhas roídas, as mãos torcidas, os calmantes, maracujinas e canabidiois provam que, humana e irmanamente, torcemos uma pelas outras.</p>
<p>Obrigada, ainda, pelo seu jeito  contagiante de rir, pelas suas figurinhas (todas devidamente favoritadas) pelo seu humor e pelos seus pitacos &#8211; sempre pontuais e certeiros.</p>
<p>Mas, mais do que isso, obrigada pelo encantamento que você nos deu com sua literatura, digna de pedestal. Pelo capricho, pelo texto que atinge com amor nossos corações e mentes.</p>
<p>Obrigada, Chris! Você nos proporcionou, em plena pandemia, motivos de sobra para acreditar que tudo vale a pena, que o amor é o que nos resta e que a literatura pode, deve e vai transformar o mundo.</p>
<p>Obrigada, Christiane Nóbrega!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/anamarialopes/">Ana Maria</a>, <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine</a>, <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/marciazarur/">Marcia</a> e <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/solangecianni/">Solange</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>***</strong></p>
<ul>
<li>As remetentes são escritoras, fundadoras do Coletivo Maria Cobogó, irmãs de alma e agitadoras em tudo o que diz respeito à literatura.</li>
<li><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/christianenobrega/">Christiane Nóbrega</a>, além de ser fundadora e integrante do Coletivo Maria Cobogó, foi finalista do Prêmio de Literatura Jabuti de 2020 com seu livro infantil FIOS. É escritora e possui várias obras premiadas. E muitas outras virão, obras imaginadas “em tardes crepusculares e algumas noites de chuva&#8230;”.</li>
</ul>
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		<title>Carta à minha amiga Ana Maria</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/carta-a-minha-amiga-ana-maria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Nov 2020 00:37:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas]]></category>
		<category><![CDATA[consciência negra]]></category>
		<category><![CDATA[kalunga]]></category>
		<category><![CDATA[quilombolas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Glória Moura* |   Ana Maria, Você me pediu para escrever um texto sobre o Dia da Consciência Negra. Estou tentando colocar no papel tudo de bom que eu consegui na vida quando fui pensar nesse tema. Quero falar das coisas boas que eu sinto hoje, para lhe contar o processo de chegar até</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por Glória Moura* |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ana Maria,</p>
<p>Você me pediu para escrever um texto sobre o Dia da Consciência Negra. Estou tentando colocar no papel tudo de bom que eu consegui na vida quando fui pensar nesse tema.</p>
<p>Quero falar das coisas boas que eu sinto hoje, para lhe contar o processo de chegar até aqui. Ao festejar o 20 de novembro de 2020, me inspiro na cultura e nas tradições africanas reafirmando a identidade brasileira.</p>
<p>Mas foi uma jornada, sem reclamações, sem chororô. Foi uma vida&#8230;</p>
<p>Têm as idas aos quilombos, que são comunidades negras rurais onde homens e mulheres vivem em harmonia, possuem uma história comum e consciência étnica. Conhecer a vida de trabalho e atualização de sua cultura, esse sim, foi o maior presente da minha trajetória. Ir lá conhecer suas raízes africanas e suas lutas de sempre, as comemorações e as suas festas foram o meu alimento. Queria saber tudo&#8230;</p>
<p>Em Guiné Bissau, mostrei um vídeo realizado na comunidade Santa Rosa dos Pretos, no Maranhão, onde há o <em>Banquete dos Cachorros</em> no Dia de São Lázaro: entre outras coisas, era uma mesa armada no chão, composta de sete cachorros e sete meninos, com menos de 5 anos, que recebiam os pratos com a mesma comida. A cerimônia continuava com a dança do candomblé, até altas horas. Para espanto meu, a plateia ficou muito entusiasmada e algumas pessoas disseram que lá existia a mesma cerimônia.</p>
<p>Mas tem uma tradição que me fez tentar entender essa linguagem religiosa. Fui à comunidade de Mato do Tição, em Minas Gerais. Antes, havia feito a promessa de que lá andaria na brasa se minha filha bailarina tivesse um diagnóstico positivo sobre a dor que ela sentia. Ela teve. Na noite de São João, passei sobre as brasas, queimei a sola dos pés e fiquei dois meses sem botar os pés no chão.</p>
<p>Olha minha amiga, teria muitas histórias pra lhe contar sobre a vinda dos africanos escravizados para o Brasil e suas influências no desenvolvimento do país.  Muitas das profissões desenvolvidas aqui, só foram possíveis por causa da mão de obra africana. Os portugueses não conheciam o uso do ferro e de outros materiais.</p>
<p>É com alegria que constato a sociedade brasileira caminhando no sentido do reconhecimento da cultura afro-brasileira e do seu papel na formação da nacionalidade, a exemplo das inúmeras manifestações de pessoas negras, brancas e indígenas nesse mês da Consciência Negra.</p>
<p><em>Glória Moura </em></p>
<p><strong>***</strong></p>
<p><strong>*Glória Moura</strong> é pedagoga e escritora. Mestra em Planejamento Educacional , professora da Universidade de Brasília e Doutora em Educação pela USP. Produziu <strong>Uma História do Povo Kalunga </strong>e <strong>Estórias Quilombolas</strong>. Atua como consultora do MEC na área de Educação Escolar Quilombola.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Imagem: foto de pintura do artista dominicano Jorge Severino</p>
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		<title>De Nélida para Clarice</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/de-nelida-para-clarice/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Nov 2020 01:03:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[#2020]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Nélida Piñon * |   Amiga,   Em dezembro o Brasil e o mundo celebrarão o centenário de seu nascimento. Não exagero ao afirmar que outras terras pagam-lhe tributo. E isso porque sua obra fez de você uma mulher universal. Sua efígie, ora estampada nos jornais e revistas, mostra uma Clarice enigmática, bela, com olhos</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por Nélida Piñon * |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Amiga,</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em dezembro o Brasil e o mundo celebrarão o centenário de seu nascimento. Não exagero ao afirmar que outras terras pagam-lhe tributo. E isso porque sua obra fez de você uma mulher universal. Sua efígie, ora estampada nos jornais e revistas, mostra uma Clarice enigmática, bela, com olhos oblíquos, de traços ligeiramente orientais.</p>
<p>Sei que devo saciar sua curiosidade. E contar-lhe que seus admiradores, querendo dar-nos a ilusão de ainda se encontrar entre nós, inauguraram uma estátua sua, de corpo inteiro, na calçada da Avenida Atlântica, cerca de sua casa. Dizem que alguns a visitam na expectativa de ouvi-la.</p>
<p>Mas não posso poupá-la das desditas nossas. A mais recente refere-se a uma epidemia que se alastra pelo planeta a ameaçar a sobrevivência da espécie. É tal seu efeito letal que nem a ciência, os poderes públicos nos socorrem. E menos ainda a tecnologia que vinha pregando sermos imortais. Ah que ledo engano.</p>
<p>Por comando generalizado, há meses estamos encerrados em nossos tugúrios. Forçados à solidão absoluta, ao convívio familiar nem sempre amistoso, privados da liberdade, do pão que escasseia. Sobretudo aguentando o fardo de nossas almas que nem sabíamos ter. É uma clausura equivalente aos mosteiros medievais, mas talvez sem o consolo de Deus.</p>
<p>Estou ao abrigo do lar. Daqui faço considerações que alarguem seus horizontes, simples porções da realidade atual, da civilização brasileira. Confesso-lhe que o Brasil mudou muito desde que nos deixou em 1977, e tanto que mal vislumbro seus escaninhos, a matéria que nos constitui.</p>
<p>Pois como entender as transformações sofridas se os rastros deixados foram sendo apagados, em consonância com nossa volúpia de desrespeitar a identidade nacional. Sob o risco portanto de se forjar uma sociedade à mercê do caos. Talvez me exceda, perco a dimensão do que é cívico, moral, institucional. Mas vítima que sou do curso da história, sucumbo ante a crescente intolerância, a radicalidade ideológica, a corrupção desenfreada, a escassa civilidade. O que dizer da violência urbana e doméstica, da crença de ser mais fácil odiar do que amar.</p>
<p>Como filhas de imigrantes defendemos a justiça social em vários momentos públicos. Acreditávamos que a  educação e a cultura podiam arrancar os brasileiros do degredo da ignorância ao lhes facultar o conhecimento libertário. Pois urge preencher as lacunas oriundas das desigualdades sociais e restaurar a dignidade humana. Neste capítulo, aliás, os escritores seguem resistindo, como você o fez. Fiéis à arte, à linguagem que arrola os sentimentos segundo a carga poética da sensibilidade pátria. Como intérpretes do Brasil, junto com as demais consciências vivas, damos combate à barbárie em curso no mundo.</p>
<p>O que nos mantém alerta, querida Clarice, é a atração pela luxúria do corpo e do espírito, é o repertório dos prazeres regidos pelo dom da vida. Aqueles favores que nos abençoam a despeito até da pobreza.</p>
<p>Eu a evoco com frequência. Há pouco mais de um ano arrematei em um leilão um quadro seu, dos poucos que pintou. Não poderia permitir que você fosse habitar uma casa estranha. Ele está ao lado daquele que fez em homenagem ao meu livro <em>Madeira Feita Cruz</em>, e agora ambos expressam nossa aliança, nossa irmandade.</p>
<p>Também rememoro o dia que fomos à PUC, do Rio, por motivo de um seminário literário, e você, subitamente irritada com o hermetismo dos debates, arrastou-me para o câmpus, e encostada no balcão do quiosque, sorvendo seu cafezinho, pediu-me que regressasse ao auditório e lhes transmitisse o recado: “Se eu tivesse entendido uma só palavra de tudo que os senhores disseram, eu não teria escrito uma única linha dos meus livros”.</p>
<p>Ao deixá-la no táxi, disse-me que ao chegar em casa iria saborear o frango assado que sobrara do almoço. Naquele instante senti tanta ternura, quis protegê-la, que o Brasil afinal reconhecesse sua grandeza.</p>
<p>Quantas aventuras vivemos ao  sabor dos dezoito anos de amizade. Entre risos e lágrimas, íamos às cartomantes, na ânsia de perscrutar o futuro. Mesmo no hospital da Lagoa, dias antes da sua despedida, recriminou Nadir, sua cartomante favorita, por não ter previsto a doença que a conduziu ao leito hospitalar, onde, lembra-se, me mantive ao seu lado até o suspiro final. Olhando-a, então, imaginava sua família chegando  ao Nordeste, fugida dos pogroms, padecendo tantas dificuldades. Sem adivinharem que a criança levada ao colo, minha amiga, aportaria no futuro fulgor à língua portuguesa, de que se tornaria mestra.</p>
<p>Aqui fico, querida Clarice, no seu Rio que segue lindo, mas sofrendo os efeitos da peste que até parece com a de Florença, do século XIV.  Mas cuide-se, onde esteja. O Brasil e eu agradecemos que seja brasileira. Até nosso próximo encontro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">Da sua Nélida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Clarice Lispector</strong> nasceu na Ucrânia. Naturalizada brasileira, deixou uma vasta obra literária, muitos questionamentos e poucos e bons amigos. Um deles, a escritora Nélida Piñon que esteve ao seu lado até o último dia de vida. .</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>*Nélida Piñon</strong> é escritora, integrante da Academia Brasileira de Letras e amiga de Clarice Lispector. Esta carta, inédita, foi publicada em 18 de setembro de 2020 por uma revista semanal do Rio de Janeiro: <a href="https://vejario.abril.com.br/beira-mar/carta-amiga-clarice-lispector-nelida-pinon/"><strong>&#8220;De Nélida Piñon / Para: Clarice Lispector&#8221;</strong></a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Carta para Rita, porque hoje é quinta-feira</title>
		<link>https://mariacobogo.com.br/carta-para-rita-porque-hoje-e-quinta-feira/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 May 2020 13:45:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas]]></category>
		<category><![CDATA[Saudades]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte*   Ainda não sei quem inventou essa coisa de revelarmos uma memória, com fotos ou não, às quintas... tem até uma ‘hashtag’: #tbt, que traduzindo toscamente seria algo como “throwback Thursday” ou o retrocesso da quinta-feira. Como se fosse possível deixarmos de viver ‘retrocessos’ ou memórias ou saudades em todos</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a>*</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ainda não sei quem inventou essa coisa de revelarmos uma memória, com fotos ou não, às quintas&#8230; tem até uma <em>‘hashtag’</em>: #tbt, que traduzindo toscamente seria algo como <em>“throwback Thursday”</em> ou o retrocesso da quinta-feira. Como se fosse possível deixarmos de viver ‘retrocessos’ ou memórias ou saudades em todos os dias da semana&#8230; Eu queria ter escrito há muito tempo, mas como diria o Drummond, <em>ficaram velhas todas as notícias, eu mesma envelheci.</em> E, nesses dias, penso em você mais frequentemente&#8230; a história do cadastro das pessoas menos favorecidas me toca a alma. Sei que toca o começo de nossa amizade&#8230; era Collor, marajás na previdência e um monte de gente que acreditava que a tecnologia da informação iria (até podia!) transformar o mundo. O mundo em nosso país, pelo menos.</p>
<p>Éramos um monte de amigos, jovens e um pouco loucos (na dose permitida à juventude), queridos entusiastas em busca de um número único para garantir os direitos de existência (e cidadania) a todos os brasileiros. Você nos deixou cedo demais. Queria que tivesse visto como as sementes que ajudou a plantar já deram alguns frutos. Insuficientes, mas deram. Queria contar que o padrão de serviços que você imaginou para os postos de atendimento da previdência ainda não estão atendidos e que ainda pedem CPF para pessoas em situação de rua. Queria contar que por aqui vivemos uma pandemia e para atender pessoas famintas, basta regularizarem o título de eleitor. A evolução dos serviços eletrônicos do governo é tamanha que fizeram até um aplicativo para isso. Você nem iria acreditar, basta ter um celular, acesso à internet, o ‘bendito’ CPF em dia e <em>“voilá”.</em>.. Muita coisa mudou, agora ninguém precisa das bases de dados distribuídas&#8230; as coisas ficam nas nuvens e as transações podem ser feitas em segundos.</p>
<p>Nessa noite, eu sonhei com você: andávamos por uma estrada larga, devia ser ao lado de uma praia, pois tinha um barulho de mar. Eu contava das últimas notícias, mostrava a você um celular e como a gente podia saber de tudo com poucos cliques e tal. Você estava maravilhada! Ainda podíamos assistir vídeos e a filmes inteiros&#8230; Sentávamos e, por mágica – porque é assim que acontece nos sonhos, estávamos na casa da D. Maria, sua mãe, e tomávamos whisky enquanto não vinha a canjiquinha&#8230; na TV, o noticiário do dia mostrava os números atualizados do dia: zero mortos! E a gente comemorava. Zero pessoas mortas por fome. Zero crianças mortas com diarreia. Zero feminicídios. &#8216;Bora comemorar, Rita!</p>
<p>Mas sinto dizer, isso foi apenas um sonho. Nos jornais de hoje, os números são outros. Contam os mortos pelo coronavírus. Um horror, você diria acrescentando que os médicos não sabem nada. Não sabiam quando você fazia o seu tratamento de câncer, continuam não sabendo hoje. Ainda resumem tudo a tentativas e erros. Tem ciência no meio, as tentativas, cada uma a seu tempo, o próprio método e os erros&#8230; bem deixemos os erros de lado que essa carta tem limite.</p>
<p>Quero terminar, dizendo que sinto sua falta, que queria que a gente tivesse virado avós juntas. Já tenho três netos. Alice, a que veio antes, completa dezesseis daqui uns dias&#8230; Não se espante. Avisei que envelheci. Envio junto um desenho que a Tâmara fez –  <strong>“Quando eu te encontrar”</strong>  – como um alento para os tempos estranhos de nosso isolamento social. Ainda é 2020 e não sabemos de nada. Queria abraçá-la, mas nem isso seria possível mesmo que você estivesse por aqui. Então digo um até breve e juro que escreverei novamente depois que isso tudo passar. Pode ser que seja uma quinta-feira e, com sorte, tenhamos – de novo, uma Superlua. E quem sabe, eu tenha algo de novo pra contar.</p>
<p>//</p>
<p>P.S.: toda carta que se preze tem um <strong>PS </strong>(e não é pronto-socorro). Se você gostou da ilustração, visite https://www.instagram.com/paprikadatil.art/</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>* <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/"><strong>Claudine M. D. Duarte</strong></a> é arquiteta, dramaturga e escritora. Fomenta a leitura entre os jovens através do Projeto Calangos Leitores. Foi finalista do prêmio Jabuti na categoria Inovação em 2018.</p>
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