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	<title>Arquivos Sapoti - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
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		<title>Meu pé de Sapoti</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Oct 2021 07:07:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[Sapoti]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Elza Zarur * |   A promessa era bem antiga: ao voltarmos para o Brasil vou levar você para conhecer o pé de sapoti! Prometo! Desde os tempos em que, para enfrentar os gelados finais de semana em Washington, a família toda se aconchegava no basement, abarrotado de brinquedos, lareira bem quentinha, eu distraía</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Elza Zarur * |</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>A promessa era bem antiga: <em>ao voltarmos para o Brasil vou levar você para conhecer o pé de sapoti! Prometo!</em><br />
Desde os tempos em que, para enfrentar os gelados finais de semana em Washington, a família toda se aconchegava no <em>basement</em>, abarrotado de brinquedos, lareira bem quentinha, eu distraía Marina, a caçula dos três filhos, contando histórias.<br />
Para ela, nenhum assunto era mais emocionante do que ir ao meu mundo de criança passado na velha Visconde do Rio Branco.</p>
<p>Uma, duas, três vezes, ou muito mais do que isto, eu tinha que ficar repetindo histórias e minha infância não podia jamais ter fim a não ser que o sono chegasse e que o branquinho da neve, pelos vidros, virasse noite escura e ela dormisse feliz.</p>
<p>Era sempre assim!</p>
<p>O pique-pega ao redor da Fonte da Praça; os cabras-cegas no sobrado da querida tia Pequita; as brincadeiras na casa da Enedina ou da Isis, onde o quartinho de costura da D. Olga me fascinava e eu fazia, da minúscula meia hora que mamãe me deixava ir, um dia de imaginação viajando entre sobrinhas de retalhos e moldando botõezinhos de papelão nos vestidos das bonecas. Mas, quando o relógio me alertava eu voltava correndo para casa e ia direto para o pé de sapoti.<br />
Ali, entre galhos com folhagens verdinhas e fechadas, embaixo de umas madeirinhas bem ajeitadas, eu guardava toda a família de “filhinhas” e, lógico, meus segredos infantis.</p>
<p>Era a minha casinha de bonecas!</p>
<p>Tinha até escadinha para subir. O máximo!</p>
<p>Tudo era assunto. E Marina, com seus olhinhos brilhando, tinha certeza absoluta de que minha cidade natal era idêntica à fazenda do Chico Bento.<br />
Até que em 2003, ela com 16 anos, fomos para Rio Branco.<br />
Ao chegar, logo na entrada da cidade, bem perto do Clube dos Cinquenta, eu pedi para meu marido parar o carro.</p>
<p>Queria, a pé, bem devagar, ir exibindo a ela e a uma amiga, as lembranças do passado:  o Grupo Escolar Padre Antônio Corrêa; a rua da D. Júlia que fazia picolé de K-suco de framboesa (a boca ficava vermelhinha e eu achava lindo); a venda onde comprava aqueles suspiros cor de rosa, enormes, cheios de bolinhas coloridas; chicletes Adams; goiabada em triângulo&#8230;e assim fomos.<br />
De repente, numa esquina, vi dentro de uma varanda uma senhora bem idosa.</p>
<p>Parecia esperar o tempo, esquecida de si própria.</p>
<p>Olhei-a fixamente – precisava reconhecê-la de qualquer forma e encontrar um pouquinho, um tiquinho apenas que fosse de intimidade entre nós. Queria trocar saudades, saber da família, dos vizinhos, ir casa adentro, sem cerimônia, perguntando logo pelo café e revendo todos do meu passado. Impossível!</p>
<p>Houve apenas troca de olhares e silêncio.<br />
Fui embora na maior decepção com a realidade. Mas a amiga, percebendo minha tristeza, insistiu para que eu voltasse.</p>
<p>Voltei &#8230; parei de novo &#8230; acomodei as bochechas entre as grades da varanda e ali fiquei. A acompanhante da senhora idosa, estranhando muito, indagou: <em>perdeu algo aqui? Quer alguma informação?</em></p>
<p>Meio sem jeito, eu respondi: &#8220;- não, não perdi nada, mas queria muito, muito mesmo, saber se ela, por acaso, conheceu a minha mãe&#8230;. quem sabe? Seria tão bom para mim!&#8221;</p>
<p>Para meu espanto e absoluta surpresa, ao ver-me de frente, Tina, a acompanhante, inesperadamente, respondeu: &#8220;- a árvore que sua mãe tanto gostava, o pé de sapoti, está lá! “.<br />
Perplexas, nós não tivemos olhos para acolher tantas lágrimas!</p>
<p>Não podíamos acreditar em tamanha coincidência!</p>
<p>Como?</p>
<p>Como ela pode falar exatamente no pé de sapoti, motivo da nossa viagem e famoso que era unicamente para mim?</p>
<p>Como assim?<br />
Completamente sem graça, pediu desculpas pelo desconforto e disse que viu, na minha pessoa, minha mãe, D. Eponina, que ela tanto conheceu.<br />
Continuamos a caminhada e chegamos até minha velha casa.</p>
<p>Hoje, é o famoso Clube dos Bancários e, em meio a todo o piso de cimento, só deixaram ficar apenas uma árvore: o <strong><em>Meu Pé de Sapoti.</em></strong><em><br />
</em><br />
Agora, uma história na minha vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Elza Zarur</strong> escreve crônicas. Relembra a infância com o coração e a doçura de suas lembranças. Colaboradora do Coletivo Maria Cobogó, vai contando suas histórias para o prazer de nossos leitores.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>O sapoti tem o nome científico de <em>Manilkara zapota.</em> É um fruto que veio da América Central e se adapta a climas tropicais. Rico em vitaminas B,C, ferro, fósforo e cálcio, pode ser consumido ao natural ou em compotas e doces. Sua madeira é usada na carpintaria.</p></blockquote>
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