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	<title>Arquivos poetas - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
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		<title>TOSSE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Oct 2020 00:03:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[#2020]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[poetas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>  por  Rogério Bernardes* |   desenvolvi um medo patológico de tossir não só em público, até porque raro mas principalmente sozinho no escuro voluntário dos túneis que cavei entre a cozinha, o quarto e o banheiro por onde passam - um de cada vez - meus temores seguro o fôlego ao olhar a bandeira</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>por  Rogério Bernardes* |</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>desenvolvi um medo patológico de tossir<br />
não só em público, até porque raro<br />
mas principalmente sozinho<br />
no escuro voluntário dos túneis que cavei<br />
entre a cozinha, o quarto e o banheiro<br />
por onde passam &#8211; um de cada vez &#8211; meus temores</p>
<p>seguro o fôlego ao olhar a bandeira<br />
no prédio em frente ao meu<br />
bem na altura do meu andar<br />
e que esfrega toda manhã na minha cara<br />
seu patriotismo colorido e usurpado</p>
<p>(faltou o vermelho-escuro<br />
no lábaro que ostentam estrelado<br />
usado pra cobrir os corpos-que-tossem-sangue<br />
mas este sempre é lavado com alvejante<br />
porque deus os livre de coagular rápido<br />
e manchar de ódio o álibi das varandas gourmet)</p>
<p>também quase me engasgo, mas não tusso<br />
ao ouvir os hinos de outro logradouro<br />
perto do meu esconderijo<br />
falando de um deus dos primeiros livros<br />
que só vocifera aponta condena<br />
(e não tossir é questão de sobrevivência<br />
porque se descobrem pelo tom de meus escarros<br />
onde arranjei as maldições respiratórias<br />
ai de mim! ai de nós!)</p>
<p>a voz dos louvores até parece angelical<br />
se eu ainda acreditasse neles<br />
se suas asas não escondessem uma pistola<br />
e uma mordaça que de longe até parece máscara<br />
mas bem de perto só serve nas fuças<br />
de gente como eu – que ainda cospe</p>
<p>desenvolvi estratégias agorafóbicas de tossir<br />
audácias envergonhadas de respirar<br />
e fórmulas escondidas pra gritar</p>
<p>eles pensam que é silêncio e nada ouvem<br />
enquanto a mensagem chega felina<br />
aos ouvidos tuberculosos dos que ainda escarram<br />
(não mais nas bocas dos que beijam o poeta)<br />
na bandeira usurpada e nos rádios que nos matam<br />
fingindo curar enfisemas inventados<br />
arrancando os pulmões de quem tosse<br />
pedaços coagulados de resistência</p>
<p>confesso ainda ter medo de tossir<br />
mas quando a epidemia for inevitável<br />
e eu tiver de espalhar as gotículas<br />
e elas infectarem outras vias e outros peitos<br />
não sei se terei pena dos rádios celestiais<br />
e do matiz hipócrita no verde-louro dessa flâmula<br />
tremeluzente na frente do meu bunker</p>
<p>quando o fungo começar a se espalhar<br />
sairemos de nossos esconderijos<br />
e escarraremos nas mãos que nos apedrejam</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>***</strong></p>
<p>* <strong>Rogério Bernardes</strong> é poeta, natural de São Gonçalo/RJ e vive em Brasília. É autor de três livros: <em>Olhar de andorinha</em> (Scortecci, 2014), <em>Cantigas de ninar dragões</em> (Penalux, 2017) e <em>Cinzas de fazer fênix</em> (Penalux, 2019).</p>
<p>Tosse (2020) &#8211; Direitos reservados Rogério Bernardes |  Instagram: <a href="https://www.instagram.com/rogeriovbernardes/?hl=pt-br">@rogeriovbernardes</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Imagem: Lungs of the Earth, de Katerina Eremeeva</p>
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