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	<title>Arquivos franz kafka - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
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		<title>Carta ao pai</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Aug 2021 13:31:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[franz kafka]]></category>
		<category><![CDATA[memorias]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte * | "Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e tenha certeza de que não porei aqui, seja para embelezar ou enfear, mais do que aquilo que vi e me pareceu." Carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel, Rei de Portugal     Franz Kafka nasceu</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong><a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> *</strong> |</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e tenha certeza de que não porei aqui, seja para embelezar ou enfear, mais do que aquilo que vi e me pareceu.&#8221;</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: right;">Carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel, Rei de Portugal</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Franz Kafka nasceu em Praga no ano de 1883, filho do comerciante Hermann Kafka e de Julie Löwy. Formou-se em Direito e trabalhou alguns anos como advogado. Nunca se casou, apesar de ter tido relações marcantes com várias mulheres. Antes de morrer de tuberculose, em 1924, passou algumas temporadas em sanatórios e viveu em Praga a maior parte de sua vida. Ao lado de James Joyce, Marcel Proust e William Faulkner, Kafka é considerado um dos escritores mais relevantes do século XX. A maioria de seus textos, escritos em alemão, foram publicados postumamente e são obras-primas da prosa universal. Entre elas, destacamos: <em>O Castelo</em>, <em>O Processo</em>, <em>A Metamorfose</em>, <em>A Colônia Penal</em> e <em>Um Artista da Fome</em>. Particularmente, gosto e recomendo muito o conto “O Novo Advogado”, integrante do livro <em>O Médico Rural</em>.</p>
<p>Aqui, comento um pouco de seu livro <em>Carta ao Pai</em> e, sobre o texto, alguns biógrafos de Kafka afirmam que o mesmo é resultado dos dramas vivenciados pelo autor, como a tuberculose e os três noivados desfeitos, sendo o último deles a circunstância que provoca a contundente escrita ao seu pai.</p>
<p>Quem nunca? Que atire a primeira pedra.</p>
<p>Cada um de nós, em algum ponto da vida, escreveu – mental ou literalmente – uma carta ao pai. E nesse escrito vieram críticas, lamúrias e acusações. Assim fez o escritor Franz Kafka, ao longo de dez dias do frio novembro de 1919 na sua Praga natal. Sua pena correu sobre o papel ‘cuspindo’ o que naquele tempo lhe pareceu justo afirmar.</p>
<p>A primeira leitura me remeteu a uma sessão de terapia Constelação Familiar, onde o filho acusa o pai dominador e, violentamente, ausente de sua construção como ser humano e escritor. E, para completar a sessão terapêutica imaginada, esperava o final das palavras do filho para que eu pudesse ‘falar’ pelo pai&#8230; qual a minha surpresa ao descobrir que o próprio Kafka já havia se encarregado disso. Afirma que o pai, poderia responder a ele:</p>
<blockquote><p><em>“Portanto, agora você já teria conseguido o bastante com sua insinceridade, pois provou três coisas: primeiro, que você é inocente; segundo, que sou culpado, e terceiro, que por pura grandiosidade você está disposto não só a me perdoar, mas – o que é mais ou menos o mesmo – a demonstrar e crer pessoalmente que eu, seja como for contra a verdade, também sou inocente.</em></p>
<p><em>(&#8230;)</em></p>
<p><em>No fundo, porém, aqui e em toda parte, não me provou nada a não ser que todas as minhas recriminações eram justificadas e que faltou entre elas uma especialmente legítima, ou seja: a recriminação da insinceridade, da bajulação, do parasitismo. Se não me equivoco muito, você ainda parasitando em mim com esta carta.”</em></p></blockquote>
<p>Um aspecto interessante é que, apesar de escrita, a carta nunca foi entregue ao seu destinatário. Medo? Culpa? Difícil afirmar.</p>
<p>No livro de contos <em>O Médico Rural</em>, escrito e publicado por Franz Kafka também no ano de 1919, encontramos a seguinte dedicatória: “a meu pai”.  Como entendê-la? Franz compreendeu a distância de Hermann? Seria a sua <em>Carta ao Pai</em>, junto com essa árida dedicatória, a base para os personagens de obras posteriores, como <em>O Processo</em> (1925) e <em>O Castelo</em> (1926)? Segundo o crítico Walter Benjamin, é possível vermos irmanados, na obra de Kafka, pais e burocratas:</p>
<blockquote><p><em>“O pai é a figura que pune. A culpa o atrai, como atrai os funcionários da justiça. Há muitos indícios de que o mundo dos funcionários e o mundo dos pais são idênticos em Kafka.”</em></p></blockquote>
<p>É triste, mas penso que a literatura mundial deve muito ao senhor Hermann Kafka e ao que seu filho fez com os sentimentos provocados pela relação de ambos. No dicionário Houaiss encontramos o verbete<em> kafkiano</em> como um adjetivo que <em>‘de forma semelhante à obra de Kafka, evoca uma atmosfera de pesadelo, de absurdo; especialmente em um contexto burocrático que escapa a qualquer lógica ou racionalidade’.</em></p>
<p>O pai Samsa, personagem de <em>A Metamorfose</em>, aniquila perversamente a vida do filho Gregor, metaforicamente transformado em um inseto (uma barata, enxergamos nós, os leitores). Isso nos remete aos trechos de seu livro <em>Carta ao Pai</em> em que são citados os insetos daninhos e sua capacidade de <em>‘sugar simultaneamente o sangue para conservar a vida’</em>. Noutros romances, encontramos situações e personagens vivenciando delírios persecutórios, sentimentos de culpa e, densamente, muito medo e impotência.</p>
<p>Em alguns momentos de sua carta, Franz consegue partilhar alguns deslumbres de elogio e gratidão ao pai:</p>
<blockquote><p><em>“Esse seu modo usual de ver as coisas eu só considero justo na medida em que também acredito que você não tem a menor culpa pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho a menor culpa. Se pudesse levá-lo a reconhecer isso, então seria possível, não uma nova vida – para tanto nós dois estamos velhos demais – mas sem dúvida uma espécie de paz; não a cessação, mas certamente um abrandamento das suas intermináveis recriminações.”</em></p></blockquote>
<p>A leitura de Kafka nem sempre é fácil, talvez pelo incômodo persistente, pela presença do não-pertencimento – a falta de um lugar. O não acolhimento provocado pelo medo e pela insegurança do não-entendimento. A cada leitura sinto uma dor diferente, em lugares distintos e, nem sempre, inexplorados. O livro nos deixa a tristeza provocada pelo absurdo de nossa condição e, principal e ‘kafkianamente’, pelos insensatos labirintos de nossas relações humanas.</p>
<p>Neste ano, a editora Todavia publicou, aqui no Brasil, a tradução dos <em>Diários, </em>de Franz Kafka, abrangendo o período entre 1909 e 1923 e, nele, encontramos um texto imediatamente posterior à escrita da <em>Carta ao pai, </em>em 5 de dezembro de 1919, o autor escreveu:</p>
<blockquote><p> <em>“De novo, arrastado por essa fenda terrível, comprida e estreita, que, na verdade, só em sonho é possível vencer. Acordado e por vontade própria, jamais.”</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>*Claudine M. D. Duarte </strong>é arquiteta, escritora, leitora voraz e uma das fundadoras do Coletivo Editorial Maria Cobogó.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>**Imagem</strong> foto por Joanna Kosinska / Unplash</p>
<p>&nbsp;</p>
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