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	<title>Arquivos flamengo - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
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		<title>De outro dia&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Feb 2021 09:07:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Claudine M. D. Duarte *| "... e a máquina múltipla que servia ao mesmo tempo para pregar botões e baixar a febre, e o aparelho para esquecer as más lembranças, e o emplastro para enganar o tempo, e um milhar de invenções a mais, tão engenhosas e insólitas que José Arcádio Buendía bem que</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <a href="https://outros-sites-mariacogobo-com-br.myzifz.easypanel.host/escritoras/claudineduarte/">Claudine M. D. Duarte</a> *|</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;&#8230; e a máquina múltipla que servia ao mesmo tempo para pregar botões e baixar a febre, e o aparelho para esquecer as más lembranças, e o emplastro para enganar o tempo, e um milhar de invenções a mais, tão engenhosas e insólitas que José Arcádio Buendía bem que gostaria de inventar a máquina da memória para poder se lembrar de todas elas.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;">Gabriel García Márquez, em <em>Cem Anos de Solidão</em></p>
</blockquote>
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<p><strong>Segurei meu pai. Não queria ele espalhado por aí. O avião pousava:  <em>Santos Dumont</em>. Meu pai, em paz, na caixa azul escuro, com listras vermelhas – ou melhor, seus restos: ou a metade deles.  A outra parte em Goiás, numa área verde, cheia de faveiros &#8211; <em>preservação ambiental,</em> garantiu a prefeitura. A cremação no Brasil ainda é um tabu e, segundo dados do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios, menos de 10% dos mortos no país são cremados. Meu pai adora integrar minorias e deixou tudo escrito e determinado no cartório: metade em Anápolis – na chácara em que viveu; outra metade no campo do Flamengo.</strong></p>
<p><strong>Entrei no táxi e dei o nome do hotel em Copacabana. Grande estilo nos últimos dias com meu pai: uma noite no hotel mais elegante da cidade, outra numa pousada em Santa Teresa e a terceira, na Barra, que é algo assim como uma Brasília com praia. Roubei a ideia do narrador de <em>Noturno Indiano</em>, do Tabucchi.  Em viagem pela Índia, passa uma noite em cada hotel, alterna os luxuosos com os sórdidos e de vizinhanças inóspitas.</strong></p>
<p><strong>No lobby, uma senhora de cabelos brancos usando um longo verde-água me abordou numa língua estranha, respondi um <em>désolé&#8230;</em> automático. Ela apertou os lábios e se dirigiu ao balcão. Agradeci ao Duolingo e à minha disputa pelo primeiro lugar com alguém chamado Sami Patel, que não conheço e já odeio do fundo d’alma. Deixei a maleta no quarto e parti para o Leme: jantar no Shirley. Meia hora de caminhada pelo calçadão, final de dia, céu laranja, troca de turno dos ambulantes&#8230; Um tentou me vender uma canga rosa-verde-mangueira, em inglês. <em>Sou Salgueiro</em>, desarmei o cara. Bacalhau, vinho verde, um crema catalana&#8230;</strong></p>
<p><strong>Um susto no meu retorno: a carteirinha do clube do Flamengo desaparecera. Eu precisava dela pra provar de quem eram aquelas cinzas a serem distribuídas no campo da Gávea&#8230; A paixão dele pelo Flamengo fez com que pagasse a mensalidade do Clube, mesmo que faltasse grana para comida ou aluguel. Gerente, seguranças, chefe dos seguranças, camareiras, camareiros, chefe dos camareiros&#8230; Isso talvez explique o preço da diária. Nada do documento. Passei uma noite mal dormida nos lençóis de não-sei-quantos-mil-fios. Tentei me consolar: o essencial é meu pai, ou seus restos, ou a metade deles na caixa azul, que levei para o café da manhã, incluso na diária, vista para o mar&#8230; Carreguei o <em>Cem Anos de Solidão</em>: eu, meu pai, Arcadios e Aurelianos&#8230;</strong></p>
<p><strong>Antes que eu chegasse na imortalidade do Melquíades, vi o gerente  rebocando um segurança, outro segurança e uma camareira. Soube que a moça era amiga da Maria Amélia, a que arrumou o quarto no meu momento-Shirley. Imagino um sistema de alerta (duendes?!) sempre que os quartos ficam vazios. Para se considerar nos custos das diárias. Resumo: a Maria Amélia estava de folga e a amiga confessou uma mania dela: qualquer documento esquecido no quarto era guardado dentro da Bíblia&#8230; incluía uma oração. Não vou aqui perder linhas e espaços pra contar outras peripécias da Maria Amélia. Devido ao incidente, ganhei uma diária extra e um jantar!  <em>Por nossa conta</em>, repetia o gerente. <em>Chupa, Antonio Tabucchi! Chupa, Sami Patel!</em></strong></p>
<p><strong>Com a carteirinha reintegrada à minha bolsa, fui para o Flamengo e pedi uma volta inteira pela Lagoa antes que o taxi me deixasse na portaria. João, dois metros de altura, nos acompanhou até a sala da presidente, mostrei a carteirinha do meu pai, um recorte de jornal com a foto dele na Copa do Mundo &#8211; Suécia, 58, com a camisa do Flamengo e o papel do Cartório com as instruções. Ganhei uma camisa linda, autografada pelos jogadores e ainda a companhia do João para a cerimônia de espalhar meu pai pelo campo. <em>Mais pra lá, joga pra lá. Pega mais sol. A irrigação funciona. É mais verde.</em> Sorri. Voltei a carteirinha para dentro do livro da Maria Amélia.<em> Semana passada, dois foram espalhados desse lado do campo. </em>Fechei a caixa azul. João pediu o livro que eu segurava, abriu na página em que estavam os documentos de meu pai e leu: “<em>O que foi é o que há de ser e o que se fez se fará novamente: nada há de novo debaixo do sol.” </em>Chorei.</strong></p>
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<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
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<p>*<strong><a href="https://www.instagram.com/claudine_m_d_duarte/">Claudine M. D. Duarte</a> </strong>é uma das fundadoras do <strong>Coletivo Editorial Maria Cobogó</strong> pelo qual publicou seus livros, <em>Desencontos</em> (2018) e <em>Sete Pequenos Tumultos</em> (2020).  Ontem, no Maracanã, o Flamengo venceu o Internacional, virou líder do <a href="https://www.uol.com.br/esporte/futebol/campeonatos/brasileirao/">campeonato</a> e está a uma vitória de ser bicampeão nacional. Seria um domingo feliz para seu pai.</p>
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<p>Imagem: <a href="https://www.instagram.com/ffo_art/">@ffo_art</a> inspirado por Ellen Terry (”Choosing”) (1864) &#8211; George Frederic Watts.</p>
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