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	<title>Arquivos cinema - Maria Cobogó</title>
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	<description>Coletivo Editorial Maria Cobogó</description>
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		<title>Nothing Is Perfect!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[MARIA COBOGÓ]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Aug 2021 00:07:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Elza Zarur * | E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Carlos Drummond de Andrade, em Infância   No meu mundo da infância, o universo parecia ter apenas “dois pontos cardeais”: direita e esquerda. Era tudo tão pequeno, tão de interior mineiro que esse sentido de</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>por <strong>Elza Zarur</strong> * |</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;">E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé.</p>
<p style="text-align: right;">Carlos Drummond de Andrade, em Infância</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>No meu mundo da infância, o universo parecia ter apenas “dois pontos cardeais”: direita e esquerda.</p>
<p>Era tudo tão pequeno, tão de interior mineiro que esse sentido de lateralidade se aprendia antes mesmo da idade da razão e, daí para a frente, mesmo andando sozinhos, estávamos no prumo e tudo dava certo.</p>
<p>Tudo era perfeito!</p>
<p>Os pontos de referência eram poucos, mas da maior importância!</p>
<p>E para segui-los, bastava eu atravessar o portão da minha casa, dar uma virada de corpo para um ou outro lado e caminhar para a frente.  Não tinha mesmo como perder o rumo.</p>
<p>A esquerda, confesso, até que não me agradava tanto, era a saída de Rio Branco.</p>
<p>Mas a direita?!</p>
<p>Engraçado &#8230; pode ser pura coincidência, mas na geografia da minha minúscula cidade, ela sempre teve muito mais poder. A começar que na época esse era o sentido do mais significativo destino de todos: o destino da fé.</p>
<p>A Igreja matriz São João Batista se destacava no topo da Praça 28 de Setembro e todos os programas giravam em torno dela.</p>
<p>Para mim, então, vivendo na quietude da chácara, chegar à matriz nos fins de semana significava chegar ao mundo inteiro!</p>
<p>Enquanto a família assistia à missa das 8 horas, eu encontrava todas as crianças e ficava brincando no balaústre, esperando a hora do programa que eu mais gostava: a matinê no Cine Brasil.</p>
<p>Eu adorava! E nada me faz esquecer o filme <em>Quanto Mais Quente Melhor, o </em>clássico<em> Some Like it Hot da década de 50.</em></p>
<p>Vestida de amarelo de broderi com lacinho de gorgurão na frente; sapato pretinho de verniz; conjunto de ban-lon amarelo herdado da prima Cristina; <em>Grapette</em> e saquinho de pipoca, lá nos sentamos, mamãe e eu, na primeira fila.</p>
<p>Risos nesse filme, lógico, foi o que não faltou!</p>
<p>Quase ainda escuto, aqui e agora, nossas gargalhadas com a confusão do Jack Lemmon que, fantasiado de mulher para conseguir emprego, acaba vítima da paixão de um milionário que tudo faz para se casar com ele.</p>
<p>Promete rios e fundos, faz planos para o casamento &#8230; para a lua de mel &#8230; para os filhos que terão&#8230; e por aí vai, recheando seus pensamentos matrimoniais com a maior naturalidade e alegria.</p>
<p>Mas, aflito, Lemmon tenta explicar de qualquer jeito, que não pode se casar com ele, que não pode aceitar nada disto e mais do que tudo, que não pode messssmo, porque é homem!</p>
<p>Embevecido de paixão, o enamorado não se espanta nem um pouco e responde com a maior naturalidade: <em>nothings is perfect</em> &#8230; e continua com seus planos!!!</p>
<p>Saímos do cinema e seguimos rindo, pelos trilhos da Leopoldina, a caminho de casa.</p>
<p>Até hoje percebo, que o <em>Quanto Mais Quente Melhor</em> não me saiu de cena!</p>
<p>Jamais!</p>
<p>Todas as vezes, enquanto pude, enquanto a tive bem pertinho de mim e que reclamei da vida para a minha mãe ela me fazia voltar ao filme, por menos cômico que fosse meu problema.</p>
<p>Eu dizia: mas como isto foi acontecer, mamãe? &#8230; eu pensei em tudo com detalhes &#8230;, eu programei da melhor forma&#8230; eu segui absolutamente à risca todos os seus conselhos&#8230; eu procurei o melhor <em>script</em> para que fosse completamente um<em> happy end</em>&#8230;, como? Por que deu errado?</p>
<p>Ela, bem sábia e experiente de tantos anos vividos na base dos <em>ups and downs</em> que o destino lhe trouxe, me olhava de forma maternal, fazia um compreensivo balançar de cabeça e me consolava da forma mais divertida e alegre:</p>
<p>Elzinha, lembre-se para sempre: <em>NOTHING IS PERFECT</em>!</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>*Elza Zarur</strong> é jornalista e cronista. Colaboradora do Coletivo Editorial Maria Cobogó, foi a primeira servidora do Itamaraty a ocupar o cargo de <em>Ombudsman</em> dentro do Serviço Público Brasileiro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>**Imagem: </strong>recorte sobre reprodução de cartaz do filme <strong><em>Some Like it Hot</em></strong> (1959), com roteiro e direção de Billy Wilder. No elenco, a deslumbrante Marilyn Monroe contracena com Tony Curtis e Jack Lemmon.</p>
<p>&nbsp;</p>
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